sábado, 10 de dezembro de 2016

Coisas que gostaríamos de ver e, quem sabe, veremos, ou não

Esta é uma lista das coisas que gostaríamos de ver na vida, mas que, ou por serem fantasiosas demais, ou por não se mostrarem possíveis durante o período de existência da nossa geração, talvez não vejamos. O mesmo não digo das gerações dos nossos netos e bisnetos, que podem muito bem testemunhar:

 - O encontro de humanos com ETs.

- O teletransporte de pessoas como um dos principais meios de locomoção, principalmente nas viagens internacionais.

- O surgimento natural de novas e agradáveis espécies de animais.

- A máquina do tempo, que nos possibilitará visitar o passado como observadores, mas jamais modificá-lo.

- O refrigerante saboroso e que não faça mal à saúde.

- O filme Gladiador 2

- A levitação

- A institucionalização da quarta-feira como dia de folga em todas as semanas, para todas as categorias profissionais. 
   

Poema da fada

Eu sou uma fada
de hábitos sutis
vícios, nenhum
exíguos quadris


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um ocorrido aparentemente fora do roteiro

Um fenômeno crucial na história do planeta parece ter fugido do controle da natureza, que até aquela altura, conscientemente ou não, regia com equilíbrio tudo que se relacionava com a vida e o próprio funcionamento da Terra. O conjunto se harmonizava e pendia para o equilíbrio, mesmo com a ocorrência de eventuais fatores desestabilizadores, como vulcões ou dilúvios. Mas nada disso ameaçava a constância do todo, que atingia uma nova harmonia logo em seguida. Até que surgiu o elemento capaz de desarranjar para sempre a minuciosa trama tecida pela natureza: o ser humano.

Imagino o cenário há  2 milhões de anos. Começam a andar pela savana os primeiros hominídeos, nossos ancestrais. Talvez fossem muito mais parecidos com macacos do que com homens de fato. Os outros bichos devem ter pensado: "chegou mais um para a festa". No caso dos animais carnívoros, certamente devem ter se felicitado por mais aquela opção na dieta. Herbívoros, que são blasé na maior parte do tempo, podem ter lamentado a concorrência nos pomares, mas não muito.

Assim foi a convivência naqueles primórdios. Até que um dia um leão deve ter atentado para o fato de que aqueles primos dos macacos estavam ficando muito estranhos. "Ops! Ou eu muito me engano ou estão andando sobre os dois pés?"

Um intervalo de tempo pequeno, se comparado com os anos que levam para haver modificações profundas na natureza, separa os primeiros hominídeos do surgimento do homo sapiens. As espécies que nos antecederam, como o homem de neanderthal (que até conviveu com os primeiros sapiens), já agiam de forma até então inédita no ambiente ao redor. Desenvolveram as primeiras ferramentas e estratégias de grupo que desafiaram a lógica do jogo da natureza, mas foi com o homo sapiens, surgido há 200 mil anos, que uma espécie passou a controlar, de modo inapelável, o destino dela mesma e das demais.

Não será exagero dizer que o homem tem nas mãos até mesmo o futuro do planeta. Basta verificar que as ações dos humanos sobre o meio ambiente correm o risco de comprometer toda a natureza da forma que a conhecemos. Nunca nenhuma espécie, a não ser a nossa, teve o poder, muito próximo ao divino, de moldar o mundo à sua vontade.

O fato de sermos tão radicalmente inéditos e exclusivos na história dos seres, fugindo de todos os padrões e pervertendo a lógica absoluta da vida natural, me faz pensar que o surgimento do homem é um fato que escapou do controle da natureza. Ela teria, em sua autorregulação, permitido o surgimento de um ser que pudesse destruí-la? Parece muito heterodoxo para um sistema que se apoia em pesos e contrapesos minuciosamente definidos.

Que fique claro: não estou (ainda) atribuindo uma vontade consciente à natureza, ou sugerindo um deus por trás de tudo. Quero apenas dizer que, seja fruto do acaso ou da ação de alguém, o fato é que o mundo natural possui uma lógica própria, que sempre regulou o sistema com leis imutáveis, até que o homem surgisse para virar tudo do avesso.

O homem é o único ser que desenvolveu a razão e a consciência. É o único capaz de superar os instintos, criar uma civilização, expandir conhecimentos e aprimorar filosofias. Também só o homem pode, por exemplo, romper os limites da atmosfera e explorar o espaço.

Fico bastante estupefato diante de tantas excepcionalidades. Quanto mais penso no quão exótico é o homem dentro do sistema, mais sinto comichões em saber se há algum propósito na nossa existência.

O que parece, de uns séculos para cá, é que nossa espécie está empenhada em buscar respostas para esse mistério. As investigações da ciência são, em última análise, uma tentativa de desnudar o código da natureza e descobrir a origem e o mecanismo dos fenômenos da vida. Talvez os elementos decisivos para formarmos uma conclusão estejam lá fora, no Universo, o que torna ainda mais emocionantes as explorações espaciais.

Uma hipótese que às vezes me vem à mente: será que o destino do ser humano é desvendar o enigma da vida? Se assim for, tudo ao nosso redor é uma pista, e não um acaso. As estrelas estariam no céu não apenas para iluminar a noite, mas também para que soubéssemos ler nelas a sintaxe do Universo. O mesmo ocorreria com as chuvas, os insetos, os mares. Tudo apontaria para a essência, a matriz inicial.

Ou será que não há nada para desvendar? Nessa hipótese, o homem saiu como um ponto fora da curva da natureza por mero acidente. Desenvolveu a razão e a consciência mais ou menos como o tubarão aprimorou a barbatana.

Não haveria nada, nenhuma resposta, lá fora. Quando muito, algumas outras espécies parecidas com a nossa, subordinadas à mesma perplexidade diante do fato de terem surgido sem propósito algum, visitantes ocasionais de um Universo que não nos dá a mínima.

Já vi muitas pessoas dizerem: "pensar nisso tudo me deprime. Feliz é o meu cachorro, que vive a vida dele sem nenhuma inquietação existencial". Para essas pessoas, a falta de um propósito ou, havendo um propósito, a falta de saber qual seja ele, aperta o coração e causa desespero. Mas, eu pergunto, preciso saber qual é a fórmula da coca-cola e como age cada substância ali para sorver uma bem gelada numa tarde quente de novembro e me regozijar por isso?

Eu não acho que o cachorro seja mais feliz. Até porque, suspeito, a felicidade é um conceito, como o amor, e é preciso racionalizá-la para senti-la. Nada disso está disponível para o cachorro. Divertido mesmo, na minha opinião, é ter a consciência do absurdo que é estar vivo. É saber, dentro de nós, o quão inesperado é termos surgido aqui no planeta, da maneira como surgimos. É jogar um futebol de domingo dependurados no espaço e seguros oportunamente por uma atmosfera ocasional, sabendo que a natureza jamais previra o futebol.

Sobretudo, não tem como não ficarmos estupefatos diante da constatação de que somos, no mínimo, fruto do mais meticuloso dos acasos. No máximo, parte de um roteiro maior. As duas hipóteses fazem únicos cada dia que passamos aqui.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Conversa sobre elevador

Há alguns anos me intriga o espaço humano compreendido pelo elevador. No início, apesar de já ser uma curiosidade consciente, eu não sabia bem o que a motivava. Havia apenas a vontade louca de imergir cada vez mais e mais naquele tema. Suspeitava, de modo intuitivamente primitivo, que o elevador teria muito a dizer sobre nossa espécie.

Cheguei a propor, sem sucesso, na época da faculdade, um trabalho acadêmico meio sério sobre isso, para vocês verem até que ponto me inquietava. Além disso, um ou outro texto de ficção aqui no blog, como alguém já deve ter percebido, é ambientado no trajeto entre os andares de um prédio.

Hoje eu talvez já saiba de onde vem essa minha atração. Começa, provavelmente, pelo nome. O elevador nos leva para cima e para baixo, mas o substantivo designa apenas algo que sobe. Assim como a palavra ascensorista remete apenas a ascensão.

Imediatamente já se percebe que a sociedade não ignora que o elevador desce, mas prefere tomá-lo pela ótica do outro movimento, o de subida. Em nossa cultura, a tecnologia tem o papel de dobrar a natureza, e é exaltada por isso. Louvar o elevador pela descida seria banal, já que todo corpo, com mais ou menos dificuldade, desce. Fazer subir é o que dá a ele a aura digna de uma máquina, triunfante sobre o mundo natural.

No entanto, não se subverte a lógica da natureza impunemente, como talvez não suspeitassem os primeiros entusiastas da máquina, mas que agora já é óbvio para todos. Mesmo porque, nós também somos natureza, e qualquer alteração nela, mesmo as pequenas, não deixam de ser sentidas em nós mesmos e exigem um movimento de adaptação.

Se, para o pássaro, a ida do térreo para o segundo andar demanda um leve bater de asas, isso lhe sai naturalmente, como respirar. Para a gente, o natural seria caminhar morro acima. Entrar em um pequeno cubículo móvel, fechado, que nos transporta direto para as alturas sem que façamos esforço não foi previsto na constituição da nossa espécie.

Disso resulta que entrar no elevador é triunfo do homem sobre a natureza, mas também desperta um grau de estranheza em todos nós, ainda que inconscientemente. A nossa segunda pele, que é a da técnica, também é a pele artificial.

Daí o medo de alguns em entrar no elevador. Daí o mistério, o fetiche, a repulsa. É um mundo dentro do mundo, um microcosmo que acessamos toda vez que deixamos a nossa realidade para entrar na realidade construída.             

Se, de um lado, o elevador nos confronta com os limites de nossa natureza, de outro, impõe um desafio nada menor na esfera social: uma súbita e não facultativa convivência com um outro, seja ele familiar ou desconhecido.
 
O silêncio nas relações interpessoais é mal e penosamente suportado pela maioria. A falta de assunto ou de uma frase sabida para ser sacada quando dela se precisa causam uma aflição quase física. O elevador nos expõe a esse teste como nenhuma outra situação na vida social.

Mesmo os mais experimentados em distensionar o ambiente, piadistas e conversadores de amenidades em geral, enfrentam sérias dificuldades em um elevador. É o outro que nos assusta tanto? Ou é o nosso próprio eu, que se sente desnudado e vulnerável e se fecha em mil pétalas?

Nas questões do pensamento, existem os pontos de vista que dão perspectivas mais positivas que outros. Gosto deles. Ainda mais porque se tratam de escolhas, e não de determinismos. A pessoa pode optar por encarar um problema com mais leveza, dentro do possível. É na mente, em nenhum outro lugar, que o ser humano pode fazer face às inúmeras circunstâncias da vida que não estão em seu controle.

Deixei a parte que mais me emociona para o final. Não poderia concluir essas ideias sobre o elevador sem citar aqueles que dele fazem o melhor uso: os de coração aberto. Os incontáveis em todo o mundo que sabem que um dia vão encontrar no elevador o amor de suas vidas, um convite para o emprego dos sonhos ou o ídolo rock star. Enquanto isso não acontece, se satisfazem bastante com as músicas ambientais, os informes da última hora e aquele constrangimento tão inspirador quando vários desconhecidos juntos não sabem o que dizer um para o outro.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Uma opinião e uma homenagem

Uma das crenças mais caras às pessoas atualmente é a de que qualquer um pode "fazer a diferença" no mundo. Como se todo indivíduo, seja por sua obstinação, talento ou sorte, fosse um fator potencial de desestabilização da História.

Filmes, jornais e programas de TV adoram explorar a narrativa do ser humano que, pretensamente, mudou a vida de todos os outros. O público também adora acreditar que a possibilidade de inaugurar uma era aguarda cada um de nós em cada esquina.

A crença do fazer a diferença acalenta o sonho de muita gente. É alimentada pelos pais, pelas universidades, pela propaganda. Não sei quando isso começou, mas especialmente para as gerações nascidas de 30 anos para cá, parece que nada abaixo de ser presidente da galáxia é o bastante.

As pessoas deveriam cotejar melhor suas aspirações com a realidade. Em um mundo de 7 bilhões de indivíduos, qual é a real chance de um de nós realmente influenciar parcelas significativas da população?

Sei que, neste momento em que no Brasil e no mundo tanta gente vai às ruas com legítima empolgação se manifestar por direitos e convicções, soa antipático dizer que nós, indivíduos, não temos tanto poder assim.

Claro que grandes manifestações influenciam no curso da sociedade. Mas é o caso de se questionar, sobretudo, o quanto esses atos não são, por sua vez, influenciados por um espírito de mudança que já pairava na sociedade e que eles vêm apenas ratificar.

A participação em momentos históricos fascina ao convencer o indivíduo de que a luta dele ajudou a mudar a realidade. É uma eficiente maneira de diluir, na causa coletiva, as angústias pessoais típicas da nossa condição humana, e de adiar o enfrentamento das questões internas.

O ato de fazer a diferença para o mundo traz embutida uma premissa de ação voltada para o ambiente externo ao indivíduo. Fica em segundo plano a ação do ser comprometida com a evolução pessoal, essa sim a verdadeira postura revolucionária.

É hora de entendermos que a grande contribuição que cada um tem a dar é investir no próprio crescimento. Uma sociedade saudável é formada por indivíduos que pensam bem, cuidam bem dos seus próximos e disseminam valores de justiça e tolerância. Para tudo isso funcionar efetivamente, vale muito mais a atuação no microcosmos da nossa rotina do que na ampla arena das ruas.     

A nossa família está na nossa esfera, a do nosso vizinho também. A melhor maneira de influenciarmos é pelo exemplo. Se queremos aumentar a bondade no mundo, temos que ser realmente bons às vistas dos nossos próximos. Isso vale mais que qualquer grito de guerra em praça pública.

A mudança efetiva é lenta e gradual. Investir no avanço da sociedade é plantar uma semente, regar todos os dias, zelar pela muda, e correr o risco de não ver, em vida, a árvore na plenitude. A alternativa, que é tentar acelerar o processo, frequentemente, torna as conquistas insustentáveis no tempo.

Este texto é uma ode à revolução na esfera pessoal. À contribuição singela e anônima que cada um pode dar para uma sociedade melhor. Talvez, a alguns, pareça pouco, mas essa é a contribuição possível para a esmagadora maioria de nós que nunca vai presidir sequer uma ilha.  É preciso abdicar do sonho de ser reconhecido como alguém que marcou o mundo.

Nada contra a praça pública. Contra erguer cartazes, entoar cânticos, cerrar os punhos. Mas muita coisa se perde no meio do grito da massa. Principalmente, se perde o essencial.

Tudo a favor da labuta diária do indivíduo consigo, da interminável e silenciosa busca pelo aperfeiçoamento das virtudes que nos fazem humanos.

Meu amigo Malaquias de Alarcão* ofereceu um exemplo vivo, que não posso deixar de citar aqui. Ainda que ele tenha acertado muito na forma, mas não se pode dizer o mesmo do conteúdo.

Esse admirável ser humano, por convicção e escolha própria, usou uma calça jeans pela primeira vez na vida há poucos anos, quando tinha não muito mais que seus 20. Todo o período de "resistência", como ele próprio se referia ao gesto, foi uma maneira de extravasar um sentimento não muito definido, mas muito presente, de crítica a algo na nossa sociedade que, para ele, tem na calça jeans um dos seus expoentes.

*Nome fictício

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Documentário

Transeunte 1: "Tem muita coisa pra filmar aqui na cidade. Ixi, muita mesmo! Tem muita história aqui, coisa antiga, muito bonito [corte] Não... Naquele castelo eu não sei o que tem, não. Acho que não tem nada. Ninguém vai lá, acho que não vai, né?"

Transeunte 2: "Rapaz, não sei! Acredita? E tem alguma coisa lá? Alguém mora lá? Aqui a gente diz que é um castelo abandonado, desde criança [corte] Não, que eu saiba, não. Ninguém vai lá. É longe, né, no alto. Não deve nem ter estrada direito."

Imagem distante do castelo no alto da montanha, visto do meio do movimento na praça da matriz. Sobe trilha sonora [sanfona incidental]. Imagens das ruas, fachada da prefeitura.

Prefeito: "É uma cidade muito ordeira, próspera, digamos assim, como de resto todo o país. Você pode ver. Povo trabalhador. Guerreiro! A gente tem esse orgulho de trabalhar, fazer tudo como deve ser [close no bigode]. E assim a gente vai levando, na nossa tranquilidade aqui, nesse nosso cantinho do mundo [corte].     

Pergunta do diretor: "E o castelo?"

Prefeito: "Olha, aí eu não sei. Aí complicou. Não, não sei, eu... Pode cortar? Corta essa parte."

Sobe trilha sonora [pífaros misteriosos]. Noite fechada. Câmera em primeira pessoa, percorrendo caminho no meio da mata, folhas batendo na lente. Placa de "não entre, propriedade privada" [close na coruja em cima da placa].

Latido. Dedo na campainha. Voz do diretor: "O patrão está?". Voz do outro lado: "Quem é?". Fade out. Corta a música.

Interior do castelo. O grande salão da lareira. Barulho de passos descendo a escada. A porta range e abre. Surge uma figura não identificada, de robe.

Figura: "Olá. É pra me sentar aqui? Já começou a filmar?"

[Corta]

Cena seguinte. Senhor de robe sentado na cadeira de frente para o diretor. Breve silêncio.

Diretor: "Por que você mora nesse castelo?"

Senhor de robe: "Aqui é minha casa e a minha prisão. Eu vivo feliz aqui, só não posso sair. Tenho que ficar, mas tá bom assim."

Diretor: "E você fica isolado aqui..."

Senhor de robe: "... porque sou o último corrupto do Brasil."

[Entra trilha sonora poderosa. Violinos e trompetes. Relâmpagos]

Letras garrafais: O Último Corrupto do Brasil

Letras não tão garrafais: Breve nos cinemas


     

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O autor

Eu estava em um dos corredores da universidade, no horário de muito movimento do intervalo entre as aulas. No meio da massa de alunos indo e voltando, muitos com pressa e se apertando para passar, um rapaz de repente ficou bastante surpreso e gritou: "Ei! Lorde Franzino! Lorde Franzino!" Um outro aluno, que parecia ser aquele a quem o rapaz chamava, fez uma cara de genuíno pavor, cobriu o rosto desesperadamente com  uma pasta que tinha na mão e saiu correndo por uma escada lateral, até sumir do nosso campo de visão. Acompanhei com muita atenção a cena toda, que não durou mais que alguns segundos, e segui para minha aula intrigado.

Dias depois, durante uma pausa na leitura, fui ao banheiro da seção de literatura estrangeira da biblioteca. Eu estava sozinho ali e entregue a bons devaneios, até que me detive em uma inscrição na parede da cabine. Eram palavras breves, quase desorganizadas, a princípio rabiscadas sem intenção alguma, mas que aos poucos foram ganhando força na minha cabeça. Não era poesia, mas possuía uma música intrínseca. Também não era filosofia, apesar de abrir sucessivos horizontes. Ainda meio estupefato, sinceramente golpeado por aquelas frases, vi que ao final havia uma assinatura: "Lorde Franzino".

Saí do banheiro e caminhei direto para o jardim do lado de fora da biblioteca. O texto da parede ecoava em mim. Senti a presença do céu, do sol e dos pássaros como nunca antes. Eu estava tomado por um irresistível otimismo e por uma fé na vida. Aquele texto, para mim, era tudo que a palavra escrita deveria ser: um indutor de estados de espírito cada vez mais elevados.

Passei a procurar novas inscrições. Notei que por todo o campus havia espalhadas pequenas obras assinados por Lorde Franzino. Em diversas paredes de banheiro, em carteiras nas salas de aula, nos bambus das áreas verdes, nas lixeiras do subsolo. Cada novo texto que eu lia me levava para inéditas alturas da existência e aumentava minha inclinação para aquele autor misterioso.

Quem era o homem por trás do pseudônimo? Quem era Lorde Franzino e o que ele queria? Será que aquele rapaz que um dia gritou por Lorde Franzino no corredor apinhado de alunos era um fã como eu? Agora essa me parecia a hipótese mais provável. Me parecia óbvio que alguém que tivesse contato com aquela obra se tornasse naturalmente um devoto.

Por mais que eu tentasse, não conseguia me lembrar do rosto daquele dia no corredor. Será que Lorde Franzino era mesmo o jovem que se cobriu com a pasta e saiu correndo? E por que ele quis fugir, quase desesperado?

Se as frases que ele distribuía pelo campus não estivessem, àquela altura, gerando um deslumbramento cada vez maior em mim, talvez eu desistisse de tentar encontrá-lo. O problema é que meu íntimo ansiava em saber quem era Franzino, olhá-lo no olhos e dizer o quanto eu era grato.

Tomei a resolução de deixar a seguinte mensagem abaixo de cada texto dele pelo campus: "Caro Lorde, me encontre para um papo. Para mim é fundamental. Estarei todos os dias ao meio-dia na banca de revistas. Ass.: Leitor Fiel."

Como prometi, todos os dias, terminada a aula da manhã, eu saía correndo e me postava em frente à banca. Observava as turma de alunos e especulava se Franzino estava entre eles. Às vezes eu tinha a impressão de que alguém me olhava disfarçadamente, e então eu achava que podia ser o meu esperado autor, mas não era. Naqueles dias, ninguém parou para falar comigo.

Intensifiquei os recados pelo campus. Descobri textos de Franzino em novos lugares, como em bases de cupinzeiros e caixas eletrônicos, e também abaixo desses deixei minha mensagem. Além disso, comecei a imprimir panfletos com o convite para encontrá-lo, que espalhava pelos corredores.

Quanto mais demorava, mais crescia em mim aquilo que já era quase uma obsessão. Eu não tencionava desistir da minha busca, mas confesso que começava a perder as esperanças.   

Franzino veio a mim em um dia chuvoso, em que não havia quase ninguém nos corredores e poças se formavam abaixo das goteiras nos corredores. Eu soube que era ele pelo cutucão que me deu no meio das costelas, de alguma forma a maneira de cutucar de um escritor, ou assim me pareceu. Meu ser gelou. Olhei para o lado. Ele tinha sobre a cabeça o capuz do casaco, que não chegava a tampar o rosto.

"Você está louco?", sussurrou furioso Franzino, tomando cuidado para não chamar atenção.

"Eu? Não! O que houve?", perguntei, pego de surpresa.

"Não percebe que eu sou um autor anônimo e assim devo permanecer? As pessoas não podem saber quem sou! Eu não tenho rosto, não tenho nome! Sou Lorde Franzino, e isso basta! O resto, cabe ao público apenas imaginar!"

Confuso, demorei para responder. Olhei pela primeira vez para ele com mais atenção. Era jovem, como eu, e carregava mochila, como um aluno qualquer. Tinha um rosto onde se viam a bondade do marujo e a picardia do bardo.

"Já sei. Você é daqueles artistas que são contra o culto ao autor. Nada mais natural. Você quer que sua obra fale mais alto, não importando quem a escreveu, e sim o que ela própria significa. A mensagem é o que vale, e não o mensageiro. Entendo bem. Eu não esperava outra coisa de você. Fico ainda mais..."

"Cara, não é nada disso!", gritou Franzino, e depois soltou um palavrão. Ele tirou o casaco bruscamente, respingando um pouco da água da chuva em mim. Por baixo, vestia uma camiseta regata.

"Olha pra mim", continuou. "Olha esse bronzeado, esses músculos...", ele apontava para o próprio corpo. "Você acha que eu tenho cara de escritor?"
  
Devo ter feito uma expressão de quem começava a compreender, porque ele baixou um pouco o tom de voz. "Olha esse cabelo, parece que se autopenteia! Só eu sei quantas vezes por dia tento bagunçá-lo, mas ele simplesmente volta para o lugar!"

"Cara", Franzino agora falava comigo quase como alguém que se confessa para o melhor amigo, "eu já tentei de tudo para ter menos essa pinta de não-escritor, mas não adianta. É a minha natureza. Parece que meu bíceps se exercita sozinho, sei lá eu. Já me conformei. A maneira que encontrei para preservar a credibilidade dos meus textos foi o anonimato, e está dando certo. Aí vem você com essa insistência em me conhecer, fica espalhando mensagens pelo campus, me expondo!"

"Franzino, então tudo é uma questão de aparência e estereótipos?", questionei, traindo um quê de decepção na minha voz. "Nunca imaginei que o autor de textos como os seus fosse se deixar afetar por algo tão pequeno. Além disso, você está equivocado, porque hoje as pessoas são evoluídas o suficiente para não julgar um trabalho pela aparência do artista."

"Você queria me conhecer, não é? Este sou eu. Sinto muito se não estou à altura das expectativas. Talvez nosso encontro de hoje seja uma prova de que o leitor não deva mesmo saber muita coisa sobre o escritor. E aí a minha tese estará correta. Só te peço uma coisa. Por favor, não destrua a lenda de Lorde Franzino! Não conte nada a ninguém!"
 
Ele vestiu de volta o casaco, baixou o máximo que pôde o capuz sobre o rosto e se despediu com um "falô". Fiquei ainda alguns minutos na minha posição, vendo a chuva e pensando sobre o que havia acabado de acontecer.

Nos dias seguintes, experimentei uma libertação dos textos de Franzino. Já não pensava neles como antes e não sentia mais a necessidade de procurá-los no campus. Voltei a minha atenção para outros temas, que me despertavam fanatismo nenhum, o que foi um verdadeiro alívio. Quando me lembrava do período em que cada frase escrita por Franzino me soava como uma revelação, achava graça e sentia uma saudade carinhosa. A mesma saudade quando, por acaso, voltamos a ouvir uma banda da adolescência.

No final do semestre, estava almoçando com a turma no restaurante universitário quando um colega de um amigo, com quem eu conversava de vez em quando, me perguntou:

"E aí? No que deu aqueles recados que você espalhava pela universidade? Conseguiu encontrar o tal Lorde Franzino?"

Pensei um pouco antes de responder, o tempo em que engoli um pedaço de comida.

"Encontrei, sim. Foi difícil, porque o cara mal sai de casa. Tem anemia crônica, parece. Um fiapo. Chega a assustar. Cabelo e barba selvagens, voz frágil, pálido como um conde da Transilvânia. Nunca vi igual."