Políticos corruptos são, no fundo, pessoas normais, como eu e você. Têm as mesmas preocupações na vida, os mesmos prazeres, as mesmas limitações. Enfim, são homens de carne e osso. Mas as autoridades insistem em divulgar apenas as partes das gravações que fazem esses senhores parecerem monstros. Se fossem divulgados os diálogos inteiros, veríamos que se trata de gente absolutamente comum:
- Boa tarde, pessoal!
- Opa!
- Boa tarde, chefe. Melhorou da dor na coluna?
- Nem me fale, rapaz. Acabei de chegar da farmácia. Gastei uma grana com analgésico.
- Aproveitou pra comprar o xampu da calvície?
- Não. Esqueci. Ah! Esqueci também de pegar o gato na Pet Shop . As crianças vão me matar.
- Viu o Flamengo ontem, chefe?
- Não. Minha filha ficou vendo um filme adoelscente de vampiros. Como é que foi?
- Perdemos. Mas o juiz roubou.
- P...! Odeio gente desonesta!
- É fogo mesmo!
- O que é aquilo encostado ali no canto da parede?
- O que chefe? Não estou vendo nada.
- Ali ó. Aquele negócio preto, do lado da sua pasta.
- Ah, aquilo! É uma escultura do Rodin que a minha esposa trouxe da Europa.
- Engraçado. Parece uma filmadora.
- Não parece? O cara era um visionário.
- Vamos resolver logo, gente? Os maços estão prontos.
- Vamos. Porque tempo é dinheiro.
- Com a diferença de que o tempo não dá trabalho para colocar nos bolsos do paletó.
- Ha, ha, ha.
- Ha, ha, ha. Boa, chefe. Vamos dividir então.
- Vamos. Mas antes, vem cá pessoal. Vamos nos abraçar aqui e fechar os olhos.
- Pai nosso que estais no céu...
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Os trechos que a justiça não divulga
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Vítor Noronha Matos
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11:46
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domingo, 29 de novembro de 2009
Gerúndio vai à forra
Até hoje me lembro do dia em que o Arruda demitiu o gerúndio. Foi um ato arrojado aquele. Ali ficou claro que o governador não permitiria que nada atrapalhasse seus planos para o DF, nem mesmo a gramática. Eis agora o troco. No dia do impeachment, haverá, certamente, muita gente que "vai estar se divertindo".
Em toda essa lamentável tragédia que se abateu sobre a cúpula do governo distrital, há uma questão quase cômica com a qual devemos começar a nos preocupar: a dificuldade que será estabelecer, pelas vias costumeiras, um substituto para o Arruda. O vice-governador, primeiro na linha sucessória, também está envolvido no escândalo. O mesmo acontece com o presidente da Câmara, a segunda opção. Acho que a terceira alternativa é o presidente do Tribunal de Justiça, mas bonito mesmo seria se os juízes cravassem uma espada em uma pedra na frente do Buriti e dessem o governo para o primeiro bravo que conseguisse retirá-la. Já deu certo em imbróglios parecidos.
Ou então o Arruda pode tentar levar adiante a história de que o dinheiro era para comprar panetone para os pobres, que nem é tão inverossímil assim. Eu mesmo estou inclinado a acreditar nessa versão. Se ele tivesse dito que compraria pão e leite, aí ficaria na cara que estava mentindo. Pão e leite é muito óbvio, qualquer macaco velho pensaria nisso. Mas panetone não. Se for uma desculpa esfarrapada, pelo menos que se reconheça que tem certo refinamento.
Lastimável mesmo é que agora não vai sobrar ninguém para negociar o show do McCartney no aniversário da cidade. Pena, porque seria um acontecimento histórico. Fica para os 60 anos. Imagino que em algum lugar de Nova York um telefone esteja tocando neste momento.
- Hello?
- Sir Mccartney ! É sobre o show que o senhor faria aqui em Brasília...
- Yes?
- Estaremos adiando o evento.
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Vítor Noronha Matos
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18:57
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Cada uma que me acontece
Eu nunca consigo escutar as mensagens de voz no meu celular. Não que eu me atrapalhe com a tecnologia, não sou tão arcaico assim. Mas meu telefone vive sem créditos, por isso não dá para acessar a caixa de mensagem. Na verdade só coloquei crédito uma vez, na semana em que comprei o celular, em 2004. De lá pra cá, nem um centavo. Me orgulho muito disso. Enquanto tem um monte de gente que gasta os tubos com telefone, eu não gasto nada. Vou dar dinheiro para as empresas de telefonia? Até parece! Essas corporações não têm o menor pudor de explorar o cliente, prestam um serviço terrível e ainda enchem nossas paciências com milhares de torpedos de propaganda. E já ouvi dizer que os funcionários delas trabalham em regime quase escravo. Bem, posso bater no peito e dizer que com esse capitalismo eu não contribuo.
O chato da história, como já falei, é que não consigo escutar minhas mensagens de voz. Vai que uma de minhas musas resolve se declarar e me deixa um recado? Eu nunca saberei. E no dia seguinte posso encontrá-la, mas como não falarei nada ela vai pensar que eu "já estou em outra", como dizem os jovens. Confesso que de vez em quando fico meio desesperado pensando nisso. Do jeito que as coisas estão, as pessoas se comunicando apenas virtualmente, não duvido nada de que um desencontro assim já tenha acontecido com alguém no planeta.
Só que outro dia, faz um mês mais ou menos, eu consegui ouvir uma mensagem de voz. Achei até estranho, porque não tinha crédito nenhum. A mensagem apareceu na tela do telefone e só por fanfarronice eu cliquei "ouvir". E deu certo. Na época achei que tinha sido uma falha da operadora. Agora, esquisita mesmo foi a mensagem que escutei. Uma voz muito sedutora de mulher, com certo sotaque, dizia as seguintes palavras:
"Beirute, WCF, número 02."
Imediatamente fui ao Google. WCF era um feira, simpósio ou coisa parecida, que aconteceria na capital do Líbano durante todo o mês. A World Crisis Fundaments estava em sua segunda edição, a primeira foi em maio, em Edimburgo. Várias palestras e debates para entender a crise financeira e o impacto dela no mundo, dessa vez com enfoque nas economias do Oriente Médio. O que eu tinha a ver com isso? Não fazia a menor ideia. E é claro que não dava para cruzar meio planeta só para satisafazer a curiosidade. Mas por sorte eu tenho um tio que é assessor do Ministério do Comércio e estava de viagem marcada para Dubai, com escala em Beirute. Conseguiu uma vaga para mim na comitiva oficial. Cinco dias depois de receber a mensagem eu desembarcava no Líbano.
Assim que saí do aeroporto dei um jeito de me informar onde era o Centro de Convenções -tinham instalado a Feira lá. À medida que ia me aproximando, estranhava o pouco movimento de pessoas. Imaginava que encontraria o lugar apinhado de estudiosos e gestores do mundo inteiro, mas na verdade ali estava muito mais parado do que em outras ruas da cidade, havia até um certo clima de luto. Na entrada do Centro, encontrei um segurança. Perguntei para ele se era lá mesmo que estava a WCF. Ele me disse que o evento tinha sido cancelado na semana anterior, depois de um atentado terrorista. Por sorte ninguém tinha morrido, os danos foram só materiais. Perguntei se tinha sido um homem-bomba.
- Não - ele me respondeu - foi mulher-bomba. Bela mulher, por sinal. E tinha uma voz sedutora.
Tive que me apoiar no ombro do segurança para não cair, de tanto que minhas pernas tremiam. Assim que recobrei um pouco do equilíbrio, quis saber que dia mais ou menos o ataque tinha acontecido. Eu já imaginava a resposta: foi no mesmo dia em que recebi a mensagem.
Voltei no primeiro voo para o Brasil, disposto a tentar esquecer os últimos acontecimentos. Mas, não sei se já disse isso aqui, sou um pouco neurótico e infelizmente a história toda não saía da minha cabeça. Tive dificuldade para dormir e para comer naqueles dias, e quando dormia sonhava com a mulher-bomba. Ora ela aparecia loira, ora morena e, nas piores noites, vinha ruiva. Tenho um pé atrás com ruivas.
Por mais que eu quebrasse a cabeça, não conseguia entender o que eu tinha a ver com a terrorista e nem por que ela resolveu me mandar uma mensagem exatamente no dia em que explodiria meio quarteirão. Estava a ponto de perder toda a paz de espírito quando uma tarde, refletindo no meu quarto, tive uma grande sacada, tão reveladora que na hora me pareceu ter sido inspiração divina.
Lembrei que Beirute era o nome também de um bar aqui em Brasília. E que de repente WCF poderia significar WC feminino. O número 2, por extensão, só poderia ser o segundo box do banheiro. Fazia sentido ou eu estava ficando louco de vez? Como eu tinha até viajado o mundo para tentar decifrar o mistério, não custava nada dar um pulo logo ali, na quadra ao lado.
Saí na mesma hora para o Beirute. Não sabia o que ia encontrar, mas receava que fosse coisa desagradável, para não dizer perigosa mesmo. Cheguei lá o bar estava abrindo, era quase fim de tarde. Pedi autorização para ir até o banheiro feminino. Nunca imaginei que minha primeira incursão nesse ambiente sagrado para as mulheres seria em circunstâncias tão pouco românticas.
O banheiro estava aparentemente vazio, com um cheiro de detergente de limão ainda fresco no ar. Havia duas cabines, entrei na segunda. Precisei reunir toda a coragem que eu nem sabia que tinha para seguir em frente. Achei um envelope escondido embaixo da privada. Estava enderaçado a mim. Dentro havia um bilhete que dizia:
"Não perca sua linha. Recarregue seus créditos até dia 30/08 e ganhe R$ 80 em torpedos para falar com quem você quiser."
Dá pra acreditar?
Esse episódio não mudou minha opinião sobre as operadoras de celular. Mas uma coisa eu tive que reconhecer: os sujeitos não brincam em serviço.
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Vítor Noronha Matos
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11:57
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Canto de resistência
As recentes chuvas aqui em Brasília têm me deixado meio angustiado. Não é certo chover em setembro. Alguma coisa muito estranha - provavelmente mais terrível do que estranha - está em curso.
As pessoas parecem não perceber a gravidade da situação e, longe de estarem preocupadas, comemoram os temporais dos últimos dias, porque "amenizaram a seca". Mas se chove no período naturalmente destinado à estiagem, é lógico acreditar que, na época das chuvas, elas não virão. Percebam o tamanho da tragédia.
O relógio do clima claramente está mudando. Se nós, humanos, conseguimos nos adaptar a essa inversão das estações, a natureza infelizmente não tem a mesma capacidade. Imaginem um pé de manga, acostumado a florir durante a seca de setembro e a dar frutos nas chuvas de novembro. Como ele vai agir quando perceber que o clima agora está ao contrário? Vai dar primeiro a manga e só depois as flores? Prefiro nem pensar nisso por enquanto.
Uma amiga me alertou para uma possibilidade ainda pior. Talvez as cigarras não apareçam este ano. Aí sim seria um duro golpe. E tudo indica que seja isso mesmo que vai acontecer. As cigarras, como todos sabem, saem da terra logo nas primeiras chuvas depois de muitas semanas de seca intensa. Com essa bagunça que está o clima, elas devem perder o momento certo de vir à superfície. Ou suas larvas podem ter sido afogadas pela chuva fora de hora, botando a perder toda uma geração do inseto, hipótese que eu lastimo.
Uma das características de Brasília que eu mais gostava era o barulho das cigarras em todo canto da cidade sempre que chegava o fim do ano. Bons tempos, já saudosos.
Mas talvez nem tudo esteja perdido. Hoje, em pleno ápice da desesperança, tive um alento. Eu ainda dormia, a manhã estava nas primeiras horas, quando comecei a perceber um certo barulho no jardim. Inicialmente pensei que fosse um sonho. O barulho foi ficando mais nítido, até que levantei e fui até a janela. Era bom demais para ser verdade. Uma cigarra solitária cantava numa árvore ali próxima. Cantava a plenos pulmões, como se disso dependesse a própria vida.
Pobre menina, pensei. As cigarras cantam para acasalar, mas não há nenhuma outra por perto. A não ser que ela consiga atrair um besouro ou um zangão, o que acho difícil, está destinada a cantar em vão. Foi só aí que eu atinei: esta solitária cigarra não está cantando para atrair um parceiro, não! Seu canto é um ato de resistência. É o "caminhando e cantando" dela. É um hino de protesto contra as cruéis mudanças da natureza que estão separando-a de suas irmãs de espécie.
Confesso que me comovi. Amanhã, se a cigarra solitária ainda estiver lá fora, acho que vou engrossar o movimento e cantar também. Só espero que ela não confunda minhas intenções. Meu canto, como o dela, será apenas de protesto.
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Vítor Noronha Matos
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16:02
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Permitam-me uma poesia
Permitam-me uma poesia:
Ontem me doía a garganta
e hoje o nariz
é uma corredeira
que espanta
Será que dor tanta
não há chá que extirpe
e padece meu eu
da suína gripe?
***
Agora, outra. Esta é de amor. Desculpem:
Houve um tempo
em que eu era feliz
Ganhava o Flamengo
sem precisar do juiz
O céu era azul
cheio de bem-te-vis
Te olhar pela fechadura
não consegui
mas quis.
* A primeira poesia se chama "Gripe a, a gripe."
** A segunda não tem nome ainda.
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Vítor Noronha Matos
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11:47
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terça-feira, 28 de julho de 2009
Crise de representatividade?
O país chega cada vez mais perto do fundo do poço e as pessoas não se dão conta. Aliás, a maioria age como se as coisas nunca tivessem corrido tão dentro da normalidade como agora. Mas eu acho (e tenho alguns poucos companheiros que partilham da mesma opinião) que o Brasil e seu projeto de sociedade estão à beira da ruína. Como nunca antes.
Os escândalos na política, geralmente apontados como o maior mal que nos assola, por si sós seriam suficientes para que descrêssemos do futuro. Os motivos para pessimismo, no entanto, vão além. Mais grave é observar que os maus-hábitos dos políticos revelam, na verdade, o esfacelamento de toda a sociedade.
A corrupção e o delito são condutas que, entre nós, ganharam status de "coisa normal". A neta do Sarney, quando usa seu ilustre parentesco para arranjar emprego para o namorado no Congresso, até deve desconfiar de que toma uma atitude no mínimo pouco republicana. Mas tem a plena consciência de que seu gesto é absolutamente natural e de que todos (ou quase) no país fariam o mesmo no lugar dela. Nesse ponto, a neta não está longe de ter razão.
Aproveitar-se do dinheiro público; burlar a legislação para obter vantagens; pleitear favores com amigos e parentes ocupantes de cargos na máquina administrativa. Consideramos tudo isso normal. Mas não pode ser.
Caráter e dignidade andam em baixa. Perderam espaço para o poderio financeiro. É ele que, antes de mais nada, garante prestígio e reconhecimento entre os cidadãos. Pouco importa a que preço tal poderio foi alcançado. Procuramos o dinheiro com uma sanha quase doentia para depois esbanjá-lo com as necessidades mais primitivas e imediatas. Isso, alguém vai me chamar de romântico, é muito vulgar.
Tanta pobreza de espírito tem nos levado aos cúmulos da mediocriodade em todas as áreas, da vida pessoal às artes, passando pela política, por exemplo. O brasileiro é um sujeito tacanho, desinteressado e de mau gosto. O fato de nunca o país ter sido agraciado com um prêmio Nobel - ao contrário de alguns vizinhos sul-americanos - pode significar algo mais do que mero acaso.
Mas o julgamento geral é de que tudo corre bem e de que somos uma sociedade saudável, apesar de uns problemas aqui e acolá, considerados naturais. E, claro, tem a questão dos políticos, mas eles - raciocina a cabeça do povo - formam um grupo de desvirtuados totalmente dissociado do resto da população. Triste equívoco. Nossos políticos sintetizam com rara perfeição o conjunto do povo que os elege. Por isso, não acredito em crise de representatividade, como tem sido repetido desde que o Congresso começou a afundar na própria lama. A crise é do país.
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Vítor Noronha Matos
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16:09
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quinta-feira, 16 de julho de 2009
Seria engraçado se
Seria muito engraçado se descobrissem um manuscrito inédito do Maquiavel, intitulado A Princesa. E, na esteira desse achado, revelações surpreendentes. A Princesa teria sido, na verdade, a obra de estreia do escritor, na época em que ele ainda lutava para ser reconhecido no mundo das letras. Um romance lascivo e cheio de segundas intenções. Em mais de mil páginas – com ilustrações – narra as peripécias de uma jovem herdeira do trono que, graças ao seu fraco por aventuras com a criadagem, é banida da família real; uma vez entre a plebe, adota a vida desregrada com a qual sempre sonhou. O sucesso do livro foi tão estrondoso que deu ao Maquiavel o prestígio e o dinheiro que ele precisava para publicar seu tão sonhado tratado sobre ciência política. Apesar de ser esta última a obra que o eternizou, fontes relatam que, no leito de morte e já sentindo a vida se esvair, Maquiavel repetia entre sussurros para os amigos: “O outro livro é que é o bom. Dele eu não me envergonho. Já essa chatice, peço-vos que queimem todos os exemplares”. Mas os amigos, certamente traídos pela falta de lirismo, interpretaram equivocadamente a frase do moribundo e acabaram queimando a obra errada.
Agora, seria engraçado também se o bigode do Sarney fosse postiço e caísse em frente às câmeras bem no dia da renúncia. Imaginem. O senador convoca coletiva no gabinete para anunciar sua saída da presidência da Congresso. Discorda das denúncias, acha tudo descabido, mas pelo bem do Legislativo decidiu se afastar. Faz tudo com muita dignidade e pompa. Mas no ápice do discurso, lhe cai o bigode. Ouve-se de uma repórter que transmitia a coletiva ao vivo: “Atenção, atenção. Alguma coisa acaba de pular do rosto do senador, provavelmente uma taturana.” Duplamente desmascarado, na política e na estética, Sarney simplesmente abaixa a cabeça e começa a chorar. Seus guinchos cortam o coração de todos os presentes. Ele viria chorar muito mais no dia seguinte, ao descobrir que a Fundação Sarney seria fechada por irregularidades na administração e suas atividades passariam para a tutela da Fundação J. Lago.
E, finalmente, seria muito engraçado, muito mesmo, mas também seria trágico, se eu fosse ao casamento de todas as mulheres bonitas que conheço, porém sempre na condição de convidado. Aliás, é o que se desenha. Uma a uma, num terrível efeito cascata, elas vêm arranjando namorado. Sempre que aparece uma nova compromissada, tenho um amigo que sentencia: “é outra que vamos ver entrar na igreja da perspectiva de quem está sentado”. E olha que esse meu amigo dificilmente erra uma previsão. Se o destino vai ser tão bem-humorado comigo - e tudo indica que vai -, bem que poderia ser também nos dois casos hipotéticos acima. Não custaria nada, e ainda daria motivo para todo mundo rir junto, uns dos outros, o que, afinal, ainda é o melhor remédio.
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Vítor Noronha Matos
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18:08
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