quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Lapônia que não me sai do pensamento

A noite de natal.

Você vai estar encurralado, em qualquer canto da casa. O melhor, nessas horas, é assumir seu melhor ar de distraído, quase apaspalhado, e, o mais importante, não encarar ninguém diretamente nos olhos. Mesmo assim, as chances de escapatória são praticamente nulas.

Uma tia velha vai te achar, ainda que você tenha se camuflado no canto escuro e insalubre do jardim. Ela vai te achar e vai te fazer perguntas que você não gostaria de responder nem numa confissão ao papa. Inexoravelmente, ela vai te perguntar onde está sua namorada que ainda não chegou para a ceia. E você será obrigado a responder que não, não tem namorada nenhuma. Ou então esta clássica: "seu emprego tem pagado bem? É que lá em Campo Grande quem trabalha na sua área reclama bastante dos salários". E então você, mais uma vez, se não quiser ser desmascarado pela sua mãe mais tarde, vai ter que responder a dura verdade: não tenho emprego algum, quanto mais salário.

Isso sem falar nos primos bem-sucedidos. Até ontem eles jogavam futebol na rua com você. Mas agora o carro importado e a loiraça que eles exibem o tempo todo durante a ceia os tornam importantes demais para perder tempo falando com os parentes derrotados. Se você quiser, entre na fila para admirar os bancos de couro e a marcha automática.

Tem ainda o tio sabido que vai passar o tempo inteiro dissertando sobre a crise financeira e as terríveis consequências para o Brasil, essa potência do mundo emergente.

É por isso que o Papai Noel deixa os presentes, mas nunca fica para a festa. Ele sabe o que teria que aguentar. Terminado o serviço, o velho sábio volta correndo para a Lapônia. A Lapônia das imensidões brancas e solitárias. Onde um indivíduo pode passar semanas, meses até, sem encontrar uma pessoa sequer. Onde os pensamentos têm eco. Onde as dores são remoídas até a última lágrima e as alegrias se misturam ao infinito. Onde chega uma hora em que, graças à neve que cai, não se sabe onde termina o céu e começa o chão.

E principalmente: onde todo dia é noite.

Na Lapônia qualquer um vira poeta. Qualquer decepção é motivo suficiente para descrer eternamente da vida e qualquer tristeza vem acompanhada de lágrimas que, tão logo brotam, já viram gelo. Gelo escorrendo pelas maçãs do rosto. Não consigo pensar em beleza maior.

Hoje, enquanto estiver destrinchando minha coxa de peru, quem olhar para mim verá alguém presente apenas de corpo. A alma estará longe, voando pelas estepes gélidas da Escandinávia. E quando a tia velha perguntar, pela décima vez, por onde anda minha namorada que não chega para a ceia, não hesitarei em responder:

- Na Lapônia.

Não será uma total mentira. A não ser pelo fato de que estarei me referindo não a uma moça de carne e osso, mas a um ideal feito de neve e vazio. Papai Noel, bota a rena no espeto: o senhor pode ter visita em breve.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Um vôo para a história

Enquanto cortava o ar, num vôo rasante a centímetros da orelha de George Bush, o sapato do jornalista iraquiano deixava um pé anônimo para tomar seu lugar de honra na história da humanidade. A saga dos homens na Terra se divide em antes do sapato e depois dele. A.S. , D.S.

A maioria ainda não assimilou a real importância da sapatada. Natural, grandes acontecimentos turvam a visão, justamente pelo seu tamanho descomunal. Mas quando a poeira das primeiras emoções baixar e as análises migrarem do terreno da piada para o da razão, perceberemos que o gesto do tal jornalista inaugurou uma nova era política e social. A Era da Impotência Esclarecida.

Esse novo momento (ou momentum) pelo qual passa a humanidade se caracteriza pela absoluta falta de instrumentos de protesto à disposição do cidadão comum. Vivemos num regime onde as vozes são muito mais sufocadas do que nas sanguinolentas ditaduras do passado.Hoje a repressão é sutil e, por isso, mais eficiente. Desde pequenos somos envolvidos numa intrincada teia de valores sociais, medos e preconceitos que vão nos reger a vida inteira. Em poucas palavras, somos domesticados. Diante dos desmandos e excessos dos poderosos, não somos capazes de erguer um só dedo, tomados que estamos pela inércia dos costumes.

Os meios pelos quais o povo se fazia ouvir foram se atrofiando, porque ninguém mais quis usá-los. Hoje, pensar em trincheiras é praticamente impossível. Assim como pensar em grandes passeatas, greves estrondosas, piquetes, tomadas de prédios públicos, derrubadas de prédios públicos, prisões de governantes, prisões dos parentes dos governantes. Tudo isso morreu. O que nos resta? O que sobra para um cidadão indignado? Confiar na mídia, que não o representa? Apostar suas esperanças em eleições de fachada? Não. O que lhe resta é atirar o seu sapato. Ele sabe que não vai adiantar nada. Mas pelo menos tentou reavivar a velha chama. Tal é um Impotente Esclarecido.

O mundo toma tons cada vez mais sombrios. A imagem do sapato, em pleno vôo, é o extertor de uma humanidade que padece dos próprios vícios. Seu último e desesperado suspiro. Mas talvez fosse dessa rajada de ar que o corpo quase entregue precisasse para se reerguer. A sapatada pode ter errado a cabeça de Bush, no entanto, se tiver acertado o coração das pessoas - como atingiu o meu-, terá cumprido seu objetivo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O caminhoneiro dentro de nós

As pessoas continuam não sabendo o que fazer da própria vida. Tomam suas decisões baseadas mais em imposições sociais do que na vontade individual. Se dessem maior atenção ao que realmente sentem necessidade de fazer, importando-se menos com o que vão pensar familiares, amigos e demais indivíduos ao redor, grande parte de suas frustrações estariam resolvidas. E os livros de auto-ajuda iriam, ao lado dos divãs, para o purgatório dos utensílios obsoletos.

O casamento é um bom exemplo de atitudes que as pessoas tomam levadas pela inércia dos costumes. Chega uma idade em que é estranho a moça ou rapaz permanecerem solteiros. A família faz pressão, os amigos também, mesmo que em tom de brincadeira. O próprio solteirão sente-se em débito consigo, como se estivesse quebrando alguma regra sagrada. Procura o casamento como alguém que deseja quitar uma dívida.

Semana passada o IBGE mostrou que um em cada três e meio casamentos no Brasil acaba em divórcio. É porque se trata de uma instiutição falida, incompatível com século XXI? Não, é porque as pessoas erram ao escolher o par. E, tarde demais, descobrem que se juntaram a alguém muito diferente daquilo que tinham imaginado. Fazem a escolha de forma precipitada, levadas pelo o que elas acham que é amor, mas que no fundo pode ser imposição do meio social, conveniência, necessidade de "endireitar-se na vida". Daí resultam as uniões cada vez mais frágeis e efêmeras, tão comuns aos nossos dias.

No fundo, qual é o problema em demorar um pouco para casar, ou não casar nunca? Qual é o problema de não querer fazer uma faculdade, de não querer ter emprego fixo, de não querer ter filhos?

As pessoas procuram ter uma vida normal, igual a de todo o mundo, ninguém quer parecer uma aberração social. Estudar, arranjar emprego, ter filhos, criá-los, para que então eles possam repetir esses mesmos passos e também os filhos deles, e os netos. A busca é por uma rotina pacata e devidamente controlada, sem espaço para contratempos ou imprevistos.

O problema é que isso vai contra uma das necessidades mais elementares do espírito humano, que é viver aventuras. Na história da humanidade essa necessidade está sempre presente, seja na conquista dos oceanos, nas guerras ou nas descobertas científicas . Não há como negá-la. Na alma do burocrata encarcerado duplamente, no escritório e no paletó, grita um caminhoneiro que diz: "deixe tudo para trás, entre numa boléia e percorra o país de norte a sul. Tenha uma amante em cada posto de estrada, brigue a faca com ladrões na divisa do Mato Grosso com Rondônia, e, caso sobreviva, atole na Belém-Brasília. Em suma, seja feliz."

É essa voz que a gente se esforça para sufocar, dia após dia, em nossas rotinas cinzentas e programadas. Mas eu não vou deixar morrer o caminhoneiro dentro de mim e convido o leitor a fazer o mesmo. Afinal, " a vida é curta. Curta." (este último pensamento, do qual se desconhece o autor, foi extraído da traseira de um scania - já estou entrando no clima).

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O rapsodo feliz

Hoje ninguém mais lembra de uma velha construção que ficava no extremo norte da cidade. Há 30 anos ela deixou de existir. No seu lugar construíram primeiro um cinema, depois nada e finalmente uma igreja. Do cinema ainda restaram uns poucos que se recordam, do terreno baldio também. Mas o antigo edifício, podemos afirmar com toda certeza, foi completamente esquecido.

Era um prédio ao estilo barroco. Ficava no final de uma rua que, de tão mal-iluminada, obrigava o passante a, de noite, caminhar tateando os muros se não quisesse tropeçar e cair. Talvez por isso fosse uma rua bem pouco freqüentada. A verdade é que se contavam histórias muito terríveis daquelas vizinhanças e seria surpreendente alguém resolver passear por ali.

Quem se aventurasse, no entanto, encontraria o velho prédio. Os andares superiores, que eram três, ficavam sempre vazios. No térreo funcionava uma taverna. Pendurada à porta havia uma tabuleta dos tempos do Império na qual estava escrito: "o rapsodo feliz".

Lá dentro ficava o pequeno salão, com umas poucas mesas e um balcão no fundo. Os clientes eram sempre os mesmos, eu estava entre eles. Bebíamos solitários e em silêncio. Um desavisado poderia achar que estávamos rezando e não estaria de todo enganado, porque, de certa forma, era um ambiente de contemplação.

Todas as noites, num canto do salão, uma figura corcunda e completamente envolta em seu manto tocava piano. Dela não se podia ver nenhuma parte do corpo além das mãos que percorriam o teclado. Tocava a noite inteira sem parar e nem mesmo os primeiros a chegar na taverna ou os últimos a deixá-la conseguiam ver aquela criatura em outra posição que não debruçada sobre o instrumento. Era sempre uma música vagarosa e sombria.

Imaginávamos que o corcunda era o rapsodo que dava nome ao lugar. A parte do 'feliz' ninguém entendia.

Quando uma noite um sujeito corpulento de bigode, que apesar de ser um dos freqüentadores mais antigos nunca tinha proferido palavra até então, disse o seguinte:

- Eu quero ver o rosto daquele pianista.

Falou alto o suficiente para que o salão inteiro ouvisse. De repente todos acordaram de seu transe solitário para prestar atenção ao homem de bigode. Apenas o corcunda parecia estar alheio ao que se passava. A música seguia.

- Boa idéia - respondeu um outro sujeito, o da mesa dois.

Uma agitação incomum percorreu o salão. Estavam todos sobressaltados. O homem de bigode e o da mesa dois levantaram-se e caminharam em direção ao corcunda. Os outros acompanhavam a cena paralisados. Da minha cadeira eu gritei 'não!', mas acho que ninguém ouviu. O corcunda continuava tocando com se nada estivesse acontencendo.

Os dois homens se aproximaram e agarraram o pianista, cada um segurando um dos braços. A vítima não oferecia a menor resistência. O sujeito corpulento levou a mão ao capuz que cobria o rosto da criatura.

Nesse instante eu fechei os olhos e abaixei a cabeça. Só percebi que o rosto tinha sido revelado porque dois ou três caras gritaram perto de mim. Segundos depois, quando tive coragem de reabrir os olhos, o corcunda já estava coberto novamente, sentado em frente ao piano, preparando-se para retomar a música. O sujeito de bigode continuava em pé, imóvel, muito pálido e parecia sem forças para se mexer.

Na noite seguinte, quando voltei à taverna, não encontrei nenhum dos outros clientes. Apenas o corcunda estava lá. Assim que sentei, ele deixou o piano e veio em minha direção. Tive a impressão de já ter ouvido sua voz em algum desenho bíblico:

- Todos os dias o homem come o fruto proibido, é assim desde os tempos de Eva. Mesmo aqui em nossa pequena comunidade, nossa taverna, tão pacata e harmoniosa, chegaria a hora fatal. Eu já sabia disso. Mas você me surpeendeu. Você não quis olhar. Seu exemplo é o que venho procurando há milênios. Aceite isto como prova de reconhecimento.

E me estendeu um pedaço de papel marrom, muito semelhante a um bilhete ou passaporte. Em filigrana estava escrito: 'céu'.

Antes que eu pudesse agradecer, o corcunda continuou:

- Entendo também que é seu direito, por ter tentado me defender, contemplar aquilo que seus companheiros desnudaram à força. Deseja, bravo amigo, que eu lhe mostre meu rosto?

Recusei e até hoje, trinta anos depois, me arrependo. Mas na época eu não passava de um jovem inseguro e assustado. Depois tentei diversas vezes reencontrar o corcunda, em vão. 'O Rapsodo Feliz' fechou na manhã seguinte à noite em que se passaram esses últimos acontecimentos. Como lembrança, restou o bilhete que ganhei. Até hoje não sei direito para que ele serve. No fundo, algo me diz que não quero descobrir tão cedo.

domingo, 9 de novembro de 2008

O cavaleiro da esperança

Uma das grandes carências do Brasil é não ter um herói de verdade, alguém para se pintar no verso da nota de cem (nosso dinheiro talvez seja o único que vem estampado com animais. Será a onça-pintada o que de melhor a nação já produziu?). Que falta não faz um sujeito montado num cavalo, a espada na mão, colocando a própria vida em risco pela honra da pátria. Um William Wallace, que servisse de referência para as crianças e motivo de orgulho para os velhos. O Brasil infelizmente não tem isso.

É claro que a história oficial tenta nos empurrar heróis nacionais goela abaixo. Sorte que a população está ficando precavida contra essas artimanhas. O embuste Tiradentes, por exemplo, não engana mais ninguém, nem o mais crédulo aluno de primário. O que foi a inconfidência mineira? Burgueses, dissociados da massa, movidos exclusivamente por interesses econômicos. Nenhuma faisquinha de amor à pátria ou de solidariedade com os oprimidos. Por favor, é muita mesquinharia. Não tem semelhança física com Jesus Cristo que resista à limpidez dos fatos. Tiradentes já era.

A rigor, candidato a grande homem neste país só tivemos um por enquanto, curiosamente relegado por historiadores e governantes : Antônio Conselheiro.

No entanto, tudo indica que os dias de penúria chegaram ao fim. É engraçado, mas parece que justamente o século XXI, tão pobre nas artes, na política e em todo o resto, vai dar o primeiro herói de fato ao Brasil. Ou já deu. Aí está o delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal, pai da já eternizada operação Satiagraha.

Você ri, leitor? Normal. Criou-se no país o hábito de fazer piadas e de ridicularizar esse homem. "Um maluco que tentou fazer justiça sozinho e acabou metendo os pés pelas mãos". É o que eles querem que nós acreditemos. ( Pelo pronome 'eles' utilizado na frase anterior, entenda-se os abomináveis inimigos da nação, cujos tentáculos abrangem todos os setores da sociedade, desde a televisão até o bar da esquina).

Se o Protógenes fosse apenas mais um maluco, não estaria sendo, nesse exato momento, limado da própria corporação da qual faz parte, a Polícia Federal. Não teria três de seus apartamentos, um em Brasília, outro em São Paulo, um terceiro no Rio, invadidos na calada da madrugada por agentes da polícia. Ele, como os elefantes da música infantil, incomoda muita gente.

O que fez este homem para, de repente, tornar-se um pária? Ousou enfrentar o temido Daniel Dantas, uma espécie de Al Capone brasileiro, indivíduo que, sou forçado a inferir, tem amigos poderosos. Protógenes fez Dantas dormir duas noites na cadeia. Isso custou ao delegado todo o seu prestígio. "Um maluco que tentou fazer justiça sozinho e acabou metendo os pés pelas mãos"

É uma luta desigual. De um lado Protógenes, a favor do Brasil. Do outro o Brasil, contra o Protógenes.

Na época em que estourou a Satiagraha, saiu nos jornais uma transcrição de conversa telefônica entre o Al Capone e um de seus asseclas, na qual eles falavam da possibilidade de subornar Protógenes. Reproduzo-a aqui, não textualmente, mas com o sentido preservado:

Al: Já tentou falar com o tal delegado?

Assecla: Já. Ele não aceita.

Al: Como não aceita? Já tentou falar diretamente?

Assecla: Não adianta. Com esse delegado não adianta.

Eu quis chorar quando li esse trecho. Olhei ao redor para ver se estava no Brasil mesmo, ou se aquilo era um sonho. Até então nunca tinha ouvido falar de agente público em transcrição de conversa telefônica que recusasse suborno. O sujeito para ter a honestidade reconhecida até pelos bandidos é porque é alguém diferenciado de fato.

O Protógenes é um idealista, um romântico. Haja vista o nome Satiagraha, importado diretamente da revolução pacífica do Gandhi. A truculência e a impavidez do delegado aliadas à sensibilidade do poeta. Eu não consigo imaginar perfil mais inspirador.

Aos poucos o Brasil aprende a dar valor ao herói que vai nascendo. Hoje de manhã, caminhando por Brasília, vi uma moça vestindo uma camisa estampada com os seguintes dizeres: 'Protógenes Queiroz contra a corrupção'. Isso quer dizer o seguinte: há uma luz no fim do túnel.

E para aqueles que acham o nome Protógenes simplesmente mais uma excentricidade de um sujeito já repleto de bizarrices, aqui vai um pouco de etimologia. Proto: início, o primeiro, pioneiro. Genes: do grego genós, significa nascer, origem. Juntando os dois temos: o precursor do futuro, daquilo que vai nascer. E com um pouco de licença poética: o cavaleiro da esperança.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Cuidado com as portas

Imagino que a formatura na faculdade seja uma época marcante para a maioria das pessoas. Do contrário não veríamos tantos colegas, no último semestre do curso, sempre sorridentes nos corredores, conversando sobre planos futuros, ocupados até a tampa com tarefas que lhes enchem de prazer, como escolher o vestido mais adequado para o dia da festa. Ao observá-los, envoltos nesse turbilhão de alegria e expectativas, não consigo deixar de pensar comigo: lá vai gente feliz.

Eu que, correndo tudo como se espera, formo dentro de um mês, lamentavelmete não estou vendo graça nisso. Na verdade, é um drama deixar a faculdade para trás. Fico pensando em todas as coisas que restaram por fazer: os livros que não li, a inteligência que não adquiri, o festival de música que não ganhei - e que não participei, uma vez que não toco instrumento algum - e os professores e colegas malas que não xinguei. Agora, faltando um mês para o fim, é pouco provável que essas frustações sejam resolvidas. Carregarei o vácuo para sempre.

É claro que a situação pode ser amenizada. Ainda não descartei sair no braço com uns desafetos no dia da formatura. E também tomar o microfone da mão do orador para expor algumas verdades sobre o "futuro da nação" que estará ali de beca. Vovós, preparem-se para uma colação como nunca viram em todas essas muitas décadas que as senhoras carregam nas costas.

Para não dizer que minha passagem na universidade não teve seus momentos de fantasia, gostaria de rememorar aqui um episódio pertecente ao já distante primeiro semestre de 2005. Desculpem-me se o tom da narrativa parecer saudosista demais. É que, só hoje o percebo, 2005 ainda não acabou.

Eu estava sentado numa dessas beiradas de jardim em que a Universidade de Brasília é pródiga. Conversava com alguns amigos, o Bigode, o Coquinho, o Toupeira e o Sapão, se não me engano. Na nossa frente ficava um banheiro velho, instituição também muito comum na UnB. Logo chegou uma dupla de servidores, vassouras e esfregões na mão, com jeito de que estavam prestes a empreender uma faxina. Eram um homem e uma mulher.

Ele lembrava o Seu Madruga; ela, Mercedes Sosa. Ambos transpareciam pouco ânimo. Colocaram o carrinho de detergentes na frente da porta do banheiro, para barrar a passagem de um desavisado qualquer que pudesse atrapalhar a limpeza. E entraram no cômodo, ligaram as torneiras, puseram-se a esfregar. Esfregaram por cinco minutos. Lá de fora eu ouvia o ruído das vassouras roçando o piso, a água jorrando pelas paredes, os ralos engolindo a sujeira.

De repente Mercedes Sosa saiu do banheiro com um balde para encher, fechando a porta atrás de si. Pachorramente, ela foi até uma torneira ali próxima. Apoiou as mãos nas cadeiras e soltou um grito, aparentemente dirigido ao seu parceiro, lá dentro do banheiro: "não abre a porta não!"

As paredes da universidade reverberaram: "não abre a porta não!"

A mulher desligou a torneira e rumou de volta para o banheiro. Levava o balde cheio na mão.

Eu e meus amigos observávamos aqueles movimentos com a certeza de que algo de grandioso estava prestes a acontecer.

Mercedes chegou perto do banheiro.

Eu já nem respirava.

Ela inclinou o corpo para trás, ergueu o balde com as duas mãos , uma na alça, outra na base, e, com um golpe rápido, lançou a água em direção à porta.

Isso no exato instante em que a maçaneta girou, a porta abriu e a cabeça infeliz de Madruga surgiu perguntando:

- O que você disse?

Mas já era tarde. Mercedes não pôde deter o movimento que já havia iniciado. A água do balde, destinada a limpar a madeira da porta, encontrou seu fim nas roupas do faxineiro.

- Eu falei para não abrir a porta!

Tudo aconteceu exatamente como nas comédias baratas. Fiquei feliz de ter presenciado aquela cena. Por dois motivos: primeiramente, percebi que a vida pode ser tão prazerosa como a ficção, não precisamos aceitar a realidade como uma pasmaceira inevitável. E, principalmente, o caso dos dois faxineiros me ensinou uma lição. Nesses derradeiros momentos de faculdade, todos falam das "portas que serão abertas" daqui para frente, mas poucos pararam para pensar o que vão encontrar além delas. Contra esse tipo de equívoco eu já estou prevenido.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Palavra de homem

Ontem, por obra e acaso de uma aula da faculdade, assisti a um documentário que vai me inspirar para o resto da vida. Chama-se "Nanook do Norte" e mostra a rotina de um esquimó nos confins do Canadá, em plena década de 20 do século passado. Nanook, o protagonista, é um orgulho para o gênero masculino. Inicialmente, ele não se diferencia muito da maioria dos chefes de família mundo afora, porque sua maior preocupação é dar conforto à prole, comportamento muito natural. O que faz de Nanook um exemplo para os machos-alfa da espécie humana está na maneira como ele sustenta os seus. Os filhinhos estão com fome? Papai Nanook caça um leão-marinho para eles. Ou então entra num buraco na neve e sai de lá minutos depois com uma raposa debaixo do braço. Tudo sem o auxílio de arma alguma, claro, exceto um arpão feito com marfim de morsa, confeccionado pelo próprio Nanook. E, no final do dia, depois de passar meia tundra na faca, Nanook constrói um iglu para a família. Isso é que é ser homem.

Perto do Nanook eu me senti menos macho. Resolvi mudar de postura daqui para frente. Na impossibilidade de caçar minha própria comida - não dá para bater no atendente depois de pagar pelo pão - organizei uma lista de princípios básicos que ajudarão todo homem, mesmo cerceado pelo ambiente urbano frufru do século XXI, a ser um macho-alfa digno de um Nanook. Ei-la:

- homem arranja briga em casa para assistir a jogo da segunda divisão. Aliás, ele assina o pay-per-view da série B na TV do quarto e chama os amigos para ver junto, sentados na cama. A esposa, naturalmente, deve ser expulsa para a sala. O macho-alfa nunca vê novela, e se por acidente contrariar essa regra, passa o capítulo inteiro fazendo barulhos com a boca toda vez que aparece uma atriz de shortinho.

- homem só faz tatuagem se for na prisão.

- a dieta do homem é composta primordialmente por carne de mamífero, de preferência mal passada. Isso exclui frango, peixe e principalmente esse cúmulo da frescura que é a comida japonesa. Uma única exceção é aberta ao peixe frito, quando, na beira do rio, depois de um dia inteiro de intensa pescaria com os amigos, o macho-alfa se alimenta do merecido fruto de seu trabalho. Jamais toma sucos.

- homem não paga mais de dez reais para cortar o cabelo. E nunca, mas nunca mesmo, deve pronunciar expressões como "repique minha franja", "condicionador" ou "ponta dupla". A barba deve andar invariavelmente mal feita e suja de farofa.

- homem não entende nada de vinhos. Mas sabe distingüir uma maminha de um contra-filé só de bater os olhos.

- homem só escuta música com violino e piano em dia de casamento ou enterro.

- todo homem deve ter um fila chamado Rex, uma Brasília que não funciona encostada na garagem e um chinelo Rider da Copa de 94.

- todo homem deve ter um boneco do Shiryu enfeitando a estante do quarto. (Só um homem de verdade sabe do que eu estou falando)

- um legítimo homem pode até ser delicado com as mulheres, mas nunca delicado como as mulheres.

- e principalmente: homem não chora. Mas tem todo direito de derramar umas lágrimas quando a torcida canta o hino do seu time na arquibancada e o Van Dame ganha o torneio no final de 'O Grande Dragão Branco.'

domingo, 5 de outubro de 2008

Farsa

Domingos como hoje são a apoteose do embuste que é a democracia no Brasil. As eleições não servem para o povo escolher seus governantes, ao contrário do que nos é ensinado acreditar. Os mandatários da nação a ela são impostos por um conjunto de forças anterior e maior que o pleito eleitoral. Não somos livres para escolhermos quem bem entendermos. Candidatos que contrariem o gosto da ordem estabelecida dificilmente chegam a concorrer e, caso entrem na disputa, jamais disporão dos meios necessários para se eleger. Se um político participa de uma eleição em condições de ganhar, é porque ele já tem o aval de quem realmente faz as escolhas no país. A eleição serve apenas para o povo legitimar uma opção, não para ser ouvido. Não à toa o comparecimento diante das urnas é obrigatório. Além de se criar um ambiente de saudável atividade democrática, confere-se ao eleito a incontestável corroboração de milhões de votos.

No Brasil não há alternância de poder, mas de nomes. É tolice achar que as eleições de quatro em quatro anos geram equilíbrio de forças entre os variados setores da sociedade. Entra governante, sai governante, a classe beneficiada é sempre a mesma. Sei que a frase está gasta e pode soar como ladainha revolucionária, mas os donos do poder no Brasil são os mesmos há 500 anos. O próprio Lula, costumeiro usuário da frase, para finalmente conseguir ganhar uma eleição, precisou se adequar, teve que se tornar "um deles". Não tivesse mudado o tom do discurso, ele estava até hoje tentando se eleger para alguma coisa. O Lula não foi eleito pelo povo, mas por um establishment. Por isso essa história de que "só num país com uma democracia de verdade um torneiro mecânico poderia virar presidente" não é tão bonita assim como parece.

Eu não sou daqueles que têm raiva da elite política brasileira porque ela é feita de gente rica. Não tenho esse tipo de preconceito e nem acho que um rico é necessariamente um mau governante. O problema da elite que sempre dirigiu o Brasil é que ela, principalmente nos dias de hoje, não tem homens com vocação pública. Governa-se apenas para o interesse próprio e sem nenhum projeto para desenvolver o país. Essa gente preocupa-se exclusivamente em perpetuar-se no poder, zelando pela conservação do modelo de sociedade e pouco se importando com quem vem abaixo de si na pirâmide social. Assim é nossa democracia. A eleição é o ato que coroa todo o embuste.

E sabem o que é o pior nisso tudo? O povão sabe que só serve de massa de manobra, mas, por ignorância, leniência ou preguiça prefere não se indignar. Participa comportadamente da farsa. Ele tem perfeita ciência de que os políticos querem votos apenas para se fartar no poder e que, depois de eleitos, viram as costas para a sociedade. Mas o povo não se dispõe a mudar a situação. É a Lei Vampeta aplicada à sociedade. Na época em que jogava no Flamengo o Vampeta, criticado pelas más atuações, deu a seguinte e histórica declaração: " eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo". No Brasil acontece coisa parecida. Eles fingem que há uma democracia e a gente finge que acredita.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Uma alma em html

"O Furor" completa um ano por esses dias. Que a data coincida com o centenário da morte de Machado de Assis é só mais um desses interessantes acasos que a posteridade estudará mais tarde na escola.

O importante é que este espaço virtual me divertiu bastante ao longo dos últimos meses. Ainda que o mesmo não possa garantir com relação aos leitores. Sim, inimigos globo afora, eu tenho leitores. Por volta de oito diariamente, segundo o Google Analytics. Se levarmos em conta que um desses leitores sou eu próprio acessando o site do estágio e o outro sou eu acessando de casa, o número que era até satisfatório cai para módicos seis internautas. Considerando ainda que, se um amigo meu qualquer também acessar de casa e do trabalho, então somos apenas quatro heróicos freqüentadores. As possibilidades são infinitas.

Hoje escrever no blog é uma das minhas atividades de lazer prediletas. Tanto que quando estou sozinho, principalmente dirigindo, tomando banho e naquela hora mágica que por falta de nome melhor vou chamar de ante-sala do sono, fico pensando em possíveis textos para colocar aqui. Minha intenção é fazer as pessoas rirem com o que eu escrevo. Aqueles quatro leitores, no caso. Muita gente pode achar é perda de tempo, bobagem, alienação, e eles talvez estejam certos. Mas eu prefiro achar que essa é a minha maneira de ajudar a salvar a humanidade. Pelo menos é a que dá menos trabalho.

E já que entrei na seara das confissões, aqui vai outra: estou cansado de não fazer sucesso na blogosfera. Por muito tempo achei que poderia ser bem recebido pelo público escrevendo sobre pensamentos e histórias que eventualmente me viessem à cabeça. Mas a realidade se mostrou cruel. Os internautas querem ver sentimento num blog, eles têm sede de confissões açucaradas. Demorei um ano, mas finalmente entendi o recado, eu me rendo. Estou pensando em abrir um novo blog, uma espécie de filial sensível de 'O Furor'. Nele eu colocaria textos delicadinhos e poesias róseas, invocando amores partidos e convidando o leitor a mergulhar nesse oceano profundo de tristeza que é a vida. Vocês verão se assim eu não consigo audiência. O novo blog se chamaria ' A Lágrima do Anjo', em conformidade com o turbilhão de emoções que ele deve causar.

Brincadeiras à parte, recomendo que todo mundo monte seu próprio blog. É uma maneira eficiente de organizarmos nossos próprios pensamentos e até de nos conhecermos melhor. E, anos mais tarde, temos a possibilidade de reler as postagens antigas e morrer vergonha. Não sei o que pode ser mais construtivo. E se você acha que não tem assunto sobre o qual escrever num blog, faça como eu. Um conhecido tem uma frase assim: "não tem o que dizer, não coloque isso em palavras". Ele deve se contorcer ao ler 'O Furor'. Paciência. Torçamos para que estejamos melhores no segundo aniversário.

domingo, 21 de setembro de 2008

O mato e eu

Imagem captada pelas lentes do fotógrafo e lenhador Marcelo Camargo

Vêem a foto acima? Sou eu bebendo água de córrego. Ela é um cala-boca a todos aqueles que duvidavam do meu apego à natureza. Tomem isto, críticos! Tinha muita gente achando que meu discurso pró vida selvagem era da boca para fora. Quero ver como vão reagir agora.

"Como saberemos se é você mesmo na foto se não dá nem pra ver o rosto?" Ah, por favor! Olhem a cor da camisa! Só três pessoas encaram uma trilha sob o sol da Chapada dos Veadeiros de preto: Batman, Drácula e eu. Três morcegos.

Enquanto saciava minha sede debruçado sobre o colo da Mãe Natureza, escutei alguns comentários de turistas ao redor:

- Meu Deus, ele vai pegar um verme.

Quer dizer: a luta continua, mais urgente do que nunca. Urbanização geográfica, tudo bem. Da alma, jamais!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Queria poder te abraçar - mas não dá

Outro dia li no jornal um dado curioso. Falava do ideal de beleza num desses países africanos, eu acho que é a Namíbia. Lá, completamente diferente daqui e do resto do mundo ocidental, a mulher bonita é a obesa. E quanto mais dobras tiver, melhor. Tanto que um dos costumes dos pais e mães locais é empanturrar as filhas de comida desde cedo na infância - num sistema de engorda muito semelhante ao aplicado em gansos destinados a virar foie gras, sempre segundo o jornal. A gravidade da coisa chega ao ponto de as autoridades nacionais precisarem espalhar cartazes e outdoors nas ruas explicando que gordura não faz bem à saúde e que bom mesmo, por mais absurdo que possa parecer, é ser magra.

Uma das imagens líricas mais evocadas pelos poetas daquele país, principalmente entre os de maior verve, é a da mulher obesa lutando para tentar subir num camelo. O belo supremo.

Inspirado pelos bardos da Namíbia, aqui vou eu:

Queria poder te abraçar - mas não dá (é o título do poema)

Meu amor,
quando te vi rotunda e vacilante
a custo alçando-se às corcovas
Doravante
meu corpo como nunca ardeu
perto do redondo teu
a cada instante

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A galinha saiu do galinheiro

Vivemos tempos difíceis no Brasil, em que já não é mais possível conversar ao telefone sem tomar o máximo de cautela. Felizmente somos um povo criativo:

- Alô?

- Está chovendo em Sarajevo.

- Sei. É chuva forte?

- Chovendo granizo.

- Tá. Vou levar o guarda-chuva, então.

- Não, não. Guarda-chuva, não. Vem de capote.

- Beleza. Capote.

- Só tem um problema: a galinha saiu do galinheiro.

- Droga!

- Pois é.

- Saiu com o ovo?

- Foi.

- Droga!

- Então é isso, cara. Feliz Natal pra você e pra toda a sua família.

- Pra família também?

- Também, também.

- Tá bom. Até mais, Januário.

- Até ma... Peraí. Você falou meu nome, pô!

- Falei não.

- Falou sim. Você disse: "até mais, Januário".

- Agora foi você quem falou.

- M...!

- Sossega, cara. Devem ter muitos Januários no mundo.

- Mas em Brasília provavelmente são poucos... Aliás, Brasília não. Sarajevo. Estou em Sarajevo. Ouviram bem? Sa-ra-je-vo. Sa-ra-je-vo.

Tum. Tum. Tum...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ética no trabalho

Você está no banheiro da repartição. De repente, o chefe aparece no mictório ao lado. Você:

a) cumprimenta com a mão direita e com a esquerda dá continuidade ao que está fazendo.

b) cumprimenta com a mão esquerda e com a direita dá continuidade ao que está fazendo.

c) aproveita o momento de vulnerabilidade e pede um aumento.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Na calada da noite

Era madrugada. No alto de uma torre antiga, trancafiado na cela mais escura de todo o edifício, um homem por volta dos cinqüenta anos comia frango assado. Estava apreensivo? Tinha motivos para tal? Uma janela gradeada deixava entrar não mais que uma réstia de luz no cômodo. A lua, que dali podia ser entrevista apenas através das barras de ferro, parecia brilhar quadrada.

Esse homem vestia terno - não queremos com isso inferir absolutamente nada, apenas nos preocupamos em pintar o quadro da forma mais fidedigna possível - e tomava seu jantar muito lentamente. De vez em quando, pegava com a mão um pedaço do frango, a coxa ou a asa, e fazia menção de levar até a boca, mas interrompia o movimento no meio do caminho para de repente soltar uma risada. Por vezes era uma risada bem baixinha, quase consigo mesmo, noutros momentos, no entanto, era uma estrondosa gargalhada. Diríamos que se tratava de alguém com vários motivos para ser feliz, se não soubéssemos que o homem em questão estava preso.

Ele não se incomodava nem com os ratos que de vez em quando atravessavam o quarto, nem com os filetes d´água que escorriam das paredes.

De repente o homem ouviu um barulho de passos subindo a escada, cada vez mais próximos. Vinha alguém. Os passos foram chegando perto até que o preso pôde reconhecer o recém-chegado:

- Delegado! Não esperava o senhor aqui, a esta hora. Escuta: aceita um pedaço?

- Não, obrigado. Posso entrar?

- Claro.

O delegado abriu o cadeado, entrou na cela e sentou-se ao lado do preso.

- Tem certeza de que não quer comer?

- Tenho, tenho.

- Meus advogados já chegaram?

- Já. Estão lá embaixo com os papéis.

- Ótimo. Olha, delegado, parabéns, viu? Atuação de primeira. Nunca imaginei que um dia eu seria preso. Xilindró mesmo, sabe, com algema e tudo. Tem até rato aqui, olha. Quem diria, rapaz? Homens como o senhor enobrecem o Bra...

- Eu vim aqui te pedir um favor - o delegado a essa altura tinha um ar muito melancólico.

- Favor?

- É. Eu queria que você fugisse daqui. Fugisse da prisão.

- Fugir? - o homem soltou um riso debochado. Por que eu iria querer fugir, delegado? Daqui a pouco, no mais tardar de manhã cedo, meus advogados vão conseguir a liberação, dentro dos conformes da lei, tudo direitinho. Então pra quê fugir? Pra quê? Não estou te entendendo, delegado. O senhor quer suborno agora? Justo o senhor, tão incorruptível esses anos todos!

O delegado suspirou profundamente:

- Não é isso. É pelo bem do país. Se você sair daqui de manhã, pela porta da frente, amparado pela Justiça e pelos mais altos magistrados da nação, sorridente e impecável, inocente como um anjo, vai desferir um golpe muito duro na pouca confiança que as pessoas ainda depositam nas instituições democráticas, entende?. O Brasil já está praticamente desacreditado pela população, as coisas andam por um fio. De repente tudo pode ruir, virar uma terra de ninguém. A gente não pode deixar isso acontecer. Se não... Fiquei a noite inteira pensando nisso.

- Delegado, o senhor é mesmo um homem exemplar. Me orgulho muito de ter sido preso por alguém assim. Mas não chegou a me comover. Ainda prefiro esperar meus advogados agirem. Aliás, o senhor mesmo disse que eles já estão aí embaixo, então é só questão de tempo e tudo estará terminado. Além do mais, uma fuga só serviria para me complicar com a Justiça. Eu me tornaria um foragido à toa. Mas foi um prazer conhecê-lo, delegado. Seja feliz.

- Por favor, eu apelo para os seus sentimentos patrióticos. Pense nas criancinhas, o que elas vão achar? "Papai, quando crescer eu quero ser que nem aquele homem ali na TV." "Mas, meu filho, ele é um bandido."

- Ora, delegado, não me venha com...

- Olha só: ali na parede em frente à janela tem um tijolo falso. É o décimo de baixo para cima e o quinto da direita para a esquerda. Pressione-o até ouvir um ruído. Uma passagem secreta vai aparecer, ela dá para um túnel de cerca de cinco quilômetros que leva até uma rua perto do centro da cidade. Ninguém vai incomodá-lo lá, eu garanto. Pense nas criancinhas, companheiro. Adeus.

O delegado saiu da cela, voltou a trancar o cadeado e desceu as escadas taciturno.

Na manhã seguinte, quando o carcereiro e os advogados foram levar o habeas corpus do preso, tomaram um grande susto ao descobrirem a cela completamente vazia. Completamente, não. Porque encontraram num canto da parede, na altura do décimo tijolo de baixo para cima e do quinto da esquerda para a direita, os restos espicaçados de um frango assado.

sábado, 16 de agosto de 2008

Dúvidas olímpicas

Texto extraído da nossa sucursal de esportes.

De quatro em quatro anos sou acossado pela mesma espécie de enigmas, esta semana tão instigantes que não têm me deixado dormir em paz. Ó gregos, só vocês devem ter as respostas!

- Por que os jogadores de vôlei a cada ponto vão se abraçar no meio da quadra? E por que alguns aproveitam esse momento para aplicar tapinhas em locais pouco convencionais do companheiro?

- Por que quem nunca assiste a esporte de repente aparece como um profundo conhecedor do assunto, versando de nado sincronizado a badmington?

- Por que as mães e as tias gostam tanto de Ginástica Olímpica?

- Por que sempre tem uma brasileira que cai da trave? E por que as chinesas nunca caem?

- Quem está dopado? Quem não está?

- Deveriam criar uma categoria só para a Ednanci?

- Quão melhor seria o mundo sem o futebol feminino?

- Cadê o Baloubet du Rue?

- O nome da goleira da seleção brasileira de handebol é aquele mesmo?

- Por que não te calas, Galvão?

- Por que todo brasileiro que ganha medalha teve uma vida sofrida e o que não ganha amarelou ou foi prejudicado pela arbitragem?

- Como é que nenhum jogador nunca desceu a mão no Bernardinho?

- Onde é que os russos do volêi de praia treinam? Na Sibéria?

- Que diabos significa carpado?

- Quantas vezes os repórteres vão usar a expressão ´espírito olímpico`?

E, finalmente:

- Alguém ainda cai nessa de que o importante é competir?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Uma tarde entre os ipês



A figura aí é uma foto que eu tirei ontem à tarde, na UnB. Faz parte de um exercício que estou impondo a mim mesmo, para adquirir olhar fotográfico, se é que esse tipo de coisa já não nasce com a gente. Sempre que sobra um tempo livre, pego a câmera e abordo um objeto sob vários ângulos, insistentemente, tentando produzir algo que valha a pena. Ontem foi o primeiro dia de "aula". A julgar pelo resultado, exposto acima, vocês devem imaginar o quanto ainda tenho pela frente. De qualquer forma, acho que o mundo se divide em dois grupos de pessoas: os raros que têm olhar fotográfico e a multidão que não tem. Eu queria muito fazer parte do time dos escolhidos, principalmente porque tenho uma veia de artista frustrado que não vai parar de espezinhar enquanto eu não achar um ramo da arte em que me saia mais ou menos bem. Além disso, desconfio que o cara do olhar fotográfico enxerga a vida com enquadramento de cinema. No lugar do olho é como se o sujeito carregasse uma lente. Eu queria ser assim.

Vou contar um pouco do meu processo criativo, porque isso também faz parte do aprendizado, segundo atestam alguns mestres que tive o prazer de ouvir ao longo da vida. Tudo começou ontem, depois da aula da manhã, quando eu voltava pra casa e de repente topei com esse ipê -a árvore da foto é um ipê amarelo, Tabebuia serratifolia -, todo florido e dourado. A primeira imagem que me veio à cabeça foi daquelas cerejeiras de filme japonês feudal, com suas pétalas caindo mansamente ao toque do vento. Todo mundo sabe que eu tenho um fraco pelo Japão feudal. Mas aí, olhando melhor, percebi que o referido ipê tinha ainda mais graça que uma cerejeira japonesa, porque ele guardava um contraste muito grosseiro com a seca que castiga Brasília nesta época do ano: achatado entre duas aridezas, o céu sem nuvens e a terra sem grama, o ipê florido parecia uma afronta do cerrado à impiedade de São Pedro. Pensei: "está aí algo que merece uma foto".

Uma grande parcela da população acha que tirar foto de temas da natureza é demonstração de pieguice. Bobagem. A priori, nenhum objeto é "infotografável". Basta que saibam trabalhá-lo com inteligência. E, aliás, o que pode render melhores fotos do que a natureza? Como pode alguém pensar que uma árvore é coisa tão simples e banal a ponto de beirar o brega? Mas isso não me surpreende porque as pessoas há muito tempo já perderam a dádiva do bom gosto.

Voltei para o local do ipê. Não sei se já tive a felicidade de lhes contar, mas ontem à tarde estive de folga. Cheguei por volta das quatro horas e esperei, porque, como todo detentor de olhar fotográfico sabe, o final da tarde é o momento ideal para se bater uma foto, graças à inclinação dos raios solares que, nessa hora do dia, criam um jogo de luz e sombra riquíssimo nos objetos. O que me levou a pensar o seguinte: fotografar é como caçar uma baleia. É preciso aguardar o exato instante em que o monstro for buscar oxigênio na superfície, deixando seu lombo cachalótico exposto, para então apertarmos o gatilho e torcermos para o arpão encontrar o alvo. O instante em que a baleia sai do seu esconderijo das águas profundas para respirar acontece muito raramente ao longo de um dia. E dura poucos segundos. Daí a importância dos caçadores serem extremamente precisos e pontuais. É o que chamo de momentum baleium, que equivale àquilo que nas belas-artes batizou-se de momentum fotográfico.

Sabem o que é triste nisso tudo? A câmera digital matou o momentum fotográfico. Sem a limitação física do filme e com a facilidade tecnológica, possibilitou ao fotógrafo bater ínúmeros quadros por minuto, sem preocupar-se tanto com o instante crucial. É como se as baleias subissem para respirar e ficassem pairando no ar, minutos a fio, a mercê dos arpões. Lógico que isso criaria uma certa leniência nos caçadores. E cada vez menos um exímio atirador seria necessário, porque afinal as baleias estariam ali dando sopa mesmo que mais cedo ou mais tarde alguém vai acertá-las. Decorre daí uma mediocrização do mercado de caçadores de baleia. É claro que estender essa linha de raciocínio integralmente para o mundo dos fotógrafos pós-câmera digital seria forçar um pouco a barra. Mas não deixa de ser uma metáfora pertinente.

Digo mais: a câmera digital está para a fotografia como a metralhadora para a guerra. Nos princípios da pólvora os soldados dispunham de apenas um parco tiro por vez, dada a necessidade de parar e recarregar as armas após cada saraivada. Depois a carnificina era na base da baioneta. Quer dizer, ou o mosqueteiro caprichava bastante no seu tiro, ou então poderia não ter tempo sequer para se arrepender. Com a metralhadora é diferente. Não há esmero, não há magia. É uma torrente de balas, grosseira e exacerbada.

Se eu pudesse eleger o maior problema da sociedade de hoje, seria exatemente este: a obsessão pela eficiência. As pessoas gastam todo seu tempo a uma busca desvairada pela excelência, nas diversas áreas da vida. A ciência mesmo evolui com o objetivo de potencializar a capacidade humana, rumo ao máximo da eficácia. Chegamos ao ponto, por exemplo, em que se produzem super-indivíduos, como os atletas biônicos, que batem recordes a cada cinco minutos e as mulheres de laboratório, suas medidas perfeitas, seus contornos irretocáveis.

Essa turma da máxima eficiência se esquece do fundamental, isto é, que o divertido são as imperfeições. Que o tempero das coisas está no fato de que elas também tenham defeitos, não sejam sempre eficientes, sofram de vez em quando alguma recaída. E se inventassem uma máquina de pescar, que retirasse dezenas de peixes da água por minuto ao simples apertar de um botão? Matariam o prazer da pescaria, que é passar horas esperando um puxão do anzol para depois descobrir que era um pneu furado. A precisão matemática, o rigor da perfeição, fica muito bem em sitemas virtuais, robôs e aberrações do gênero. Na vida real, prefiro as coisas com suas arestas - e graça.

Terminava de bater as 24 poses do filme, todas elas em torno do referido ipê, quando passou um conhecido. Decerto se trata de um sujeito muito sério e ocupado. Depois de uma breve conversa, em que tomou par da minha tarefa naquela tarde, me disse o seguinte:

- Você não tem o que fazer. Passar a tarde tirando foto de um ipê...

- Tabebuia serratifolia - corrigi.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O quintal do mundo

Os países, como as pessoas, possuem vocações específicas.

O Brasil, por natureza, é o quintal do mundo. Foi um ato deliberado que nos levou a esse ponto? Não. Em nenhum momento da história reuniu-se um conselho de notáveis para decidir a vocação da pátria. Tão pouco foi algo imposto pela tirania de governantes. Um dom não se adquire de maneira artificial, ele aflora. O Brasil simplesmente nasceu para isso: ser o quintal do planeta, o latifúndio, o bosque primaveril.

Esse é um traço tão genuíno e poético que não posso deixar de me orgulhar. Por isso lamento muito a urbanização pela qual o país vem passando. Não a urbanização geográfica, porque ela é um movimento natural da sociedade e, vá lá, traz seus benefícios. O grande mal é a urbanização da alma. Os brasileiros estão cada vez mais longe de sua vocação campestre. Parece que, por medo de parecerem ultrapassadas, as pessoas decidiram se divorciar da natureza.

Ninguém mais sabe diferenciar um pirarucu de um pirara; ou uma matrinxã de um jaú; ou um pintarroxo de um pintassilgo. Eu também não sei, o que me deixa muito envergonhado. Aliás, é preciso adicionar urgentemente no currículo das escolas matérias que ensinem o nome e as principais características dos diferentes peixes, passáros, plantas e estrelas. Não quero meu filho sofrendo da mesma ignorância que o pai. Além disso, o brasileiro deve dominar, desde criança, habilidades básicas como ordenhar uma vaca, cavalgar sem arreio, acender uma fogueira e montar uma jangada de taboca em menos de sete minutos.

Por isso é tão bem-vinda a reprise da novela Pantanal. Aquilo lá é o Brasil strictu sensu. Não o Leblon das novelas atuais, cheio de gente vestida, carros luxuosos e shoppings.

Quando a gente está num front de batalha, à beira da morte, defendendo o país com a vida, procura no coração lembranças da pátria pelas quais vale a pena lutar. O que motiva mais o soldado: brigar pelos prados verdejantes ou por um complexo de arranha-céus? Na hora decisiva em que meu pelotão estiver defronte às linhas inimigas, naquele momento terrível em que os homens, baionetas em riste, começarem a correr uns ao encontro dos outros, eu gritarei: "Pelas margens do São Francisco!" "Pela asa da graúna!"

O dia em que o Brasil esquecer o sertão, esquece também de si mesmo.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A espada era a lei

Olaf costumava montar em seu cavalo e sair mundo afora reparando as injustiças e as maldades que encontrava pelo caminho.

Numa dessas tardes, às vésperas do inverno, quando cruzava a região erma do alto Reno, Olaf topou com um senhor que açoitava impiedosamente seu vassalo. Aquilo fez ferver o sangue do cavaleiro.

- Opa-lá-lá!

- Pois não, senhor?

- Ordeno-lhe que pare agora mesmo de surrar esse pobre homem, sob pena de ter que se haver com a fúria de Satiagraha!

- Saúde.

- O quê?! Então desdenhas Satiagraha, a espada mitológica dos reis do norte?

- Ah, sim. Uma espada. Eu já devia ter imaginado que o senhor era um cavaleiro andante. Eles abundam nesses tempos. Devo chamá-lo...

- Olaf Elmo de Rena.

- Aristeu de Rotemburgo, às ordens. E este é meu vassalo, Arenque.

- Salve.

- Onde estávamos mesmo, senhor Olaf?

- Eu intimava o senhor a parar de bater nesse homem indefeso.

- Claro. Afinal é isso que vocês, cavaleiros andantes, fazem: promovem a justiça. Mas será que em algum momento já pararam para pensar que nem em todos os lugares as pessoas querem a justiça? Que em alguns momentos o injusto e o opressor são realmente desejáveis? Por que antes de agir, com seu heroísmo habitual, os senhores não perguntam: "Olá, como vão? Sou um cavaleiro andante. Meus serviços são bem-vindos nesta freguesia?"

- Atchim!

- De novo a espada?

- Não, não, desculpe. É esse vento. Mas continue que o discurso do senhor está bastante bonito.

- O cavaleiro chega galopando no seu cavalo e me avista açoitando um homem neste campo abandonado. É natural pensar: olha, um desumano, um monstro. Na sua condição de cavaleiro andante, profissão muito honrada, aliás, o senhor sente-se impelido em deter minha violência. Mas olhe lá, vamos conversar antes de tomar decisões precipitadas. Será que este homem, este senhor Arenque, este pobre vagabundo, não consente em tomar a surra que lhe aplico? Será que não aceita ser enxovalhado dessa maneira em paga de um favor ou concessão que lhe fiz? Ou ainda para fugir de castigo maior? A verdade, cavaleiro Olaf Elmo de Rena, é que o próprio Arenque me pediu para tratá-lo nesses termos em que o senhor nos flagrou.

- Mas como pode?

- Acontece que este homem, vassalo de minha família já há alguns anos, fiel cumpridor de seus deveres servis, tem o hábito de freqüentar as tavernas à noite. Todos cultivamos nossos vícios, que fazer? A esposa já lhe deu um ultimato, mas Arenque continua escapando e volta para casa sempre com uma desculpa diferente. Só que na última madrugada ele se excedeu de tal maneira que já é meio-dia e ainda está na rua. Então teve uma idéia. Vai dizer à esposa que foi atacado por um bando de assaltantes. E me chamou para ajudá-lo a tornar a farsa um pouco mais verossímil. Entende agora o que se passava antes de nos interromper, mestre Olaf? Por pouco o senhor e seu ímpeto de herói não estragam o casamento de um homem honesto.

- Oh!

- Vê como é sutil o mundo?

- De fato.

- Espero que não tenha estremecido demais as suas convicções.

- Não, de modo algum. Vai haver sempre um lugar em que meus braços e minha espada poderão servir a algum injustiçado. Tomarei somente o cuidado de analisar bem a situação e pensar duas vezes antes de desembainhar Satiagraha.

- Saúde.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O morcego dentro de nós

Um sujeito que só traja preto, como se vivesse em luto eterno; inspira-se no morcego - mesmo quando há cisnes no mundo - e se faz conhecer por Cavaleiro das Trevas.

Não é ao Batman que vou assistir hoje à noite. É a mim mesmo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Estrelas

O pessoal da firma foi passar o fim de semana numa fazenda. Todo mundo muito animado, festejando até alta madrugada. De repente o Marcondes puxa a Teresa pelo braço:

- Tá vendo aquilo ali? É o céu. Olha o tanto de estrela. Teresa, fala sério, você nunca viu um céu tão estrelado assim, já? Aposto que não. Na cidade não tem isso. Na cidade o céu tem uma estrela ou duas. Culpa da iluminação, dos neons, dos faróis. Quem mora na cidade não faz a menor idéia de como o ceú é estrelado. Isso é vida, Teresa? Não saber como são inúmeras as estrelas que existem acima de nós? Milhares de pontinhos luminosos, que na verdade são explosões cósmicas, que na verdade são a pulsação do todo universal, e nós aqui embaixo, ignorantes de toda essa grandeza. Isso é vida? Não é. Não é!

- Marcondes, você bebeu.

- Não, Teresa. Pelo contrário, eu nunca estive tão sóbrio em toda minha vida. É esse céu que me faz enxergar a verdade. A luz lá em cima penetra e clareia minha mente aqui embaixo. Vejo e compreendo tudo. Estrelas, me invadam! Ursa-maior, me invada, eu a conclamo! Os poetas diriam "milhares de estrelas salpicam o firmamento"; eu digo simplesmente... ou melhor, não digo nada, porque estou estupefato. É isso. Estou sem palavras. Quase não me sinto capaz de articular uma sílaba sequer. Eu cantaria uma ária de Verdi exatamente agora, se conhecesse alguma. Ou dançaria. Mas ainda assim não conseguiria exprimir a milésima parte do meu deslumbramento. Vou lembrar deste instante sublime pro resto da minha vida. Obrigado por compartilhá-lo comigo, Teresa.

- Marcondes, você tá dando em cima de mim? Tá achando que eu vou cair nesse papo pseudo-poético?

- Não, Teresa, não, você está enganada. Não nego que você seja uma mulher deslumbrante, talvez a mais deslumbrante que eu já tenha visto. Talvez não, você de fato é a mulher mais fascinante que eu já conheci. Nem na TV vi uma igual. Inclusive a única coisa que me motiva a continuar indo para aquele trabalho insuportável é saber que vou te encontrar lá, sentada na sua mesa, metida num terninho preto e de pernas cruzadas. Aliás, Teresa, nunca perca seu jeito de cruzar as pernas, a direita apenas levemente apoiada sobre a esquerda, fazendo força mais na ponta do pé do que nas coxas propriamente ditas.

- Marcondes!

- Mas Teresa, hoje você não significa nada para mim. Só consigo me concentrar nas estrelas, minhas musas nesta madrugada, desculpe. Você é atraente, mas elas são radiantes. O que posso fazer? Não é demérito ser ofuscada pelo Universo. Oh, como eu queria saber o nome de cada uma das constelações, para poder fazer poesias em homenagem a elas e cantá-las antes de dormir. Oh, como dói não saber como lhes chamar! Vê aquela ali, a grande, formada por umas dez ou doze estrelas? Para mim é Andrômeda, mas pode ser Aquário ou então Órion. Ou então qualquer outra! Houve uma época, remota na história do homem, em que nossos antepassados conheciam a posição exata de cada estrela no céu, bem como seus nomes e suas utilidades para a orientação na savana. Eles se orientavam pelas estrelas, dá pra acreditar? Hoje nós perdemos tudo isso. E o que mais perdemos junto? O que mais? Perdemos a capacidade de contemplar o céu. Hoje, em homenagem aos meus antepassados, eu contemplo o céu. Contemplo e me ajoelho diante de tanta beleza. Venha, Teresa, ajoelhe-se também. Olha, uma estrela cadente! Feche os olhos e faça um pedido!

Uma hora depois estavam os dois deitados na cama, fumando:

- Admite, Marcondes. Você planejou isso. Foi tudo uma estratégia.

- Não foi, juro.

sábado, 12 de julho de 2008

Sabedoria que emana de um tonel - meio vazio

O ébrio tem razões que a própria razão desconhece.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Uma correção e, ao mesmo tempo, uma contribuição

No início do ano postei um texto dizendo que era uma vergonha o dinheiro aqui no Brasil ser estampado com animais. E cheguei até a listar algumas personalidades nacionais que poderiam substituir nossa fauna nas cédulas. Perdoem-me, hoje vejo que estava completamente enganado. Se existe um país que tem o direito de pintar animais no dinheiro, esse país é o Brasil.

No entanto, a escolha de quais animais devem ser homenageados foi errônea. Vai aqui uma sugestão para o Banco Central:

1 real: anta

2 reais: capivara

10 reais: fica a arara mesmo

20 reais: fica o mico mesmo

50 reais: fica a onça mesmo

100 reais: jumento

A mulher do protocolo

A mulher do protocolo se chamava Candice. Talvez fosse bonita na época em que ainda era a moça do protocolo. E mais risonha. Daquele tempo, mantinha sua dedicação ao trabalho, que permanecia irretocável.

Candice trabalhava na presidência da república desde que a capital foi para Brasília. Serviu sob o regime militar e nos vinte anos que se seguiram à redemocratização, sempre com o mesmo afinco, jamais manifestando qualquer preferênca política ou partidária. Por ser discreta, era apreciada.

No Alvorada diziam que ela era quase tão antiga no palácio quanto as emas do jardim. Um dia, um daqueles bichos, o mais velho, morreu. Ouviram Candice murmurar para as paredes:

- Eu a conheci quando ainda era um ovo.

Candice desempenhava uma função delicada. Cabia a ela puxar os aplausos do auditório quando uma autoridade terminava seu discurso. Um segundo de atraso poderia deixar um chefe de estado, quem sabe, constrangido, humilhado, com a idéia de que não teria agradado à platéia. Para que fatos lamentáveis assim não ocorressem, existia Candice.

Ela havia se tornado uma mestre em sua arte. Tinha desenvolvido um tal ouvido que conseguia distinguir o fim de qualquer discurso com vinte e duas palavras de antecedência. Mal o palestrante terminava, o auditório já se desfazia em palmas.

Não raro ela topava com um desafio. Houve uma vez em que o FHC foi falar sobre o impacto do câmbio flutuante na vida do brasileiro comum para uma platéia composta por alunos da sexta à oitava série. Candice teve que se desdobrar, mas no final o presidente foi aplaudido de pé. Ele mal pôde conter uma lágrima no canto do olho. Candice, então, sentia-se, recompensada.

Há pouco tempo correu a notícia de que o primeiro-ministro da Buldávia viria ao Brasil fechar acordos importantes sobre etanol. Estava previsto um discurso em Brasília. Candice exasperou-se. Ela não falava buldavo. Tinha feito várias línguas exóticas - romeno, grego, russo, suomi -, mas não o buldavo. Como foi cometer esse erro? Agora estava perdida, porque não conseguiria identificar o exato momento em que terminaria o discurso do primeiro-ministro. E não haveria palmas. E sem palmas, corria-se também o risco de não haver acordos sobre etanol.

Candice não perdeu tempo. Como tinha ainda duas semanas antes da visita oficial, mergulhou nos livros. Estudava dia e noite. Contratou um professor da embaixada. Respirava, comia e bebia em buldavo. Ao cabo de dez dias, já tinha um domínio razoável do idioma.

No dia do pronunciamento do primeiro-ministro, Candice estava em perfeita tranqüilidade. Tanta confiança provinha de extrema dedicação, marca registrada de sua conduta ao longo de todos esses anos. Observou que o auditório estava cheio. "Tanto melhor. Mais palmas".

O primeiro-ministro não se alongou por mais de dez minutos. Antes mesmo de pronunciar a última sílaba da última palavra - que era Zvratska, "obrigado" em buldavo - os apluasos já ribombavam pela sala. Candice corou de orgulho. Mas notou que, curiosamente, o primeiro-ministro não ficou satisfeito como ela imaginava. Diria até que ele estava em certa medida contrariado.

À noite um assessor da presidência da república bateu à porta do quarto de Candice. Foi dizer que o presidente brasileiro e o primeiro-ministro buldavo estavam muito chateados com a reação do auditório após o discurso. Na Buldávia, bater palma era um gesto ofensivo, porque, nos mais de trezentos anos em que os buldavos foram escravos dos otomanos, era assim que os amos chamavam os subordinados. O presidente esperava que a senhora do protocolo - o assessor escandiu bem essas últimas palavras - soubesse desse particular.

Por fim o assessor estendeu um papel a Candice. Era a exoneração. Candice estava destituída do seu cargo no protocolo. No entanto, em reconhecimento aos serviços prestados ao longo dos últimos anos, o presidente lhe concedia uma nova função no palácio.

Daquele dia em diante Candice passou a trabalhar no estábulo das emas. Ela não sabia explicar, mas desconfiava que estava mais contente ali.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A mar

Foi só no domingo, vendo um filme no cinema, que me dei conta de um fato aterrador, mas para o qual nunca dirigimos a devida atenção. Uma questão que, se não tem grandes implicações materiais, descortina um olhar surpreendentemente cristalino sobre a vida. É como se repentinamente passássemos a enxergar luzes onde antes só havia trevas e fumaça.

A constatação não poderia ser mais simples: atinei, pela primeira vez, que, em francês, o substantivo "mar" vem na forma feminina, e não na masculina, como em português, por exemplo. La mer. Justo e óbvio. O mar é uma mulher, é preciso ser um ogro para não percebê-lo.

Nunca a afirmação de que se conhece um povo pela língua falada se mostrou tão procedente como agora. Os franceses historicamente estão na vanguarda do pensamento universal. Ter partido deles a idéia de tratar o mar como uma mulher não surpreende. Decepcionante é notar que os portugueses, cujo passado glorioso é praticamente indissociável das ondas, da espuma e da água salgada - a ponto de terem escrito a respeito as seguintes palavras "Ó mar salgado/ Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?" - tenham esse tempo todo se dirigido a ele como a um homem, um sujeito.

Os portugueses desvendaram a superfície dos sete mares. Os franceses, a alma.

Nós, brasileiros, não precisamos ficar reféns do legado de nossos patrícios. Doravante, os leitores só me verão escrever A Mar.

Em tempo: a mar é uma mulher, mas nem todas as mulheres são como a mar.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Enólogos

Uma das principais marcas dos nossos dias é a crítica de vinhos altamente especializada. Ela está no rádio, na televisão e nas festas de família, graças a algum cunhado.

Como chegamos a isso? Por que tanta degeneração? Onde foi que a civilização errou?

O momento decisivo foi, claro, a Revolução Francesa. Os insurgentes combateram a monarquia, o direito divino, os privilégios do primeiro estado, mas se esqueceram do fundamental: dissociar, na cabeça das pessoas, a idéia de nobreza da de prestígio social. Assim, a burguesia tomou o poder, mas a maneira nobre de se portar continuou regendo a elite mundo afora.

A nobreza foi vencida. Seu poder de fascinação, não. E como tudo aquilo que sobrevive a uma reviravolta social, se fortaleceu.

Por isso hoje, quando alguém procura afetar importância, saca de algum gesto grã-fino. Como discorrer sobre um vinho para a namorada:

- Este tinto não te parece meio social-democrata, amor?

- Com leves notas de totalistarismo.

É claro que vivemos numa época de exageros, onde tudo é elevado à última potência. E não há limites. Desconfio de já ter ouvido o seguinte diálogo na fila da padaria:

- Tenho um Cabaret du Croissant que me lembra Machado na fase romântica.

- Oh!

Já perdi a esperança de que algum dia voltemos a encarar os vinhos como apenas uma bebida. Ou as músicas pelo o que elas são, e não pelo que nos forçamos a enxergar nas entrelinhas. Tenho um amigo que percebe uma clara alusão à revolução russa de 17 em toda obra de arte, mesmo que tenha sido produzida antes do século XX.

Encaremos uma pedra no meio do caminho como nada mais que uma pedra no meio do caminho. Sob pena de, num futuro não muito distante, as pessoas começarem a não se entender em mais nada. E os diálogos tornarem-se completamente inviáveis:

- Bonita camisa, Nadja.

- O que você quer dizer com isso? Que meu decote é tão chamativo que você não consegue parar de olhar? Ou que a camisa é feia, mas não tem problema porque você quer mesmo é me ver sem ela? Ou o engraçadinho está sugerindo que ganhei a camisa de presente do chefe, o que deixaria bem claro que, como afinal dizem por aí, eu tenho um caso com ele?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Ana Alieksandronova

A vida inteira nunca estive realmente sozinho, mesmo nos momentos em que parecia não haver mais ninguém. Meu medo estava sempre ali, à espreita, aguardando a hora de roubar a cena.

Desconfio que ele me acompanhe desde o dia em que nasci, numa já distante e chuvosa madrugada de dezembro. Quando chorei ao deixar o útero, foi o pavor de ver todo aquele instrumental cirúrgico ao redor que me fez chorar, e não o tapa do médico.

Lembro como se fosse ontem dos suores que me acossavam à noite, na época de criança. Morria de medo que gárgulas viessem assombrar o quarto. Cheguei a ver um, em certa ocasião, mas ele se desculpou, entrou no armário e disse que era engano. A partir daí insisti com minha mãe para transferir o fox paulistinha para dentro de casa. Então eram três que passavam a madrugada em claro: eu, Rex e meu medo.

Para muitos a transição da infância para a adolescência significa deixar o mundo da fantasia para trás. Comigo foi mais ou menos assim. Meus medos migraram dos seres míticos para os de carne e osso. Passei a tremer só de pensar em assaltantes, professores, palhaços de semáforo, chefes de gangues da escola e tudo o mais que pudesse me bater, humilhar ou causar vergonha.

Mais recentemente na linha da vida, houve ainda uma outra transformação na natureza de meus medos, sutil, mas determinante. Agora temo as pessoas em geral. Todas elas. Não precisam mais exercer um ofício amedrontador ou representar uma classe em especial. Nem serem absurdamente feias ou portarem um revólver. Basta serem pessoas.

De tão íntimo que somos, e ciente de que vamos passar o resto da vida juntos, decidi batizar meu medo de Ana Alieksandronova, para facilitar a relação. Escolhi um nome russo, porque tem mais a ver com nós dois.

É preciso reconhecer que Ana Alieksandronova já me salvou algumas vezes. Como na época em que me impediu de acompanhar o primo Douglas no vôo de asa delta. Não aconteceu nada com o Douglas. Mas comigo, quem pode garantir que não seria diferente?

Todavia Ana começa a se tornar um incômodo insuportável demais. Não nego que de vez em quando me flagro pensando em expulsá-la. Mas quando olho para aquela carinha, aquele sorriso cativante, simplesmente toda coragem se esvai. Vou ter que pedir uma ajuda para a minha força de vontade, o Nestor. Só que ele é meio indolente e, ao contrário de Ana, não me visita quase nunca. Da última vez que o vi, Nestor estava de malas prontas para a Bahia e passou lá em casa só para dizer que não ia levar o celular. Isso já faz oito anos.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Peçanha dá novas mostras de sua argúcia

Assistindo aos jogos da Eurocopa, inquietou-me uma questão, que ora não tem me deixado dormir.

Percebi que, na festa das arquibancadas, torcedores da maioria dos países usam um adorno típico de sua nação para enfeitar a cabeça. Adorno que, a um só tempo, diz muito sobre a história, a cultura e o espírito do país. Por exemplo: torcedores gregos que se fantasiam com elmos espartanos. Ou os espanhóis e seus chapéus de toureiro. Italianos com os louros de César. Nórdicos e o capacete viking, de chifres. Alemães com os chapeuzinhos de tirolês.

Acionei a mente para achar qual seria o enfeite de cabeça típico do Brasil. Vasculhei. Muito assustado, cheguei a isto: "acho que o torcedor brasileiro é um dos poucos que não têm nada próprio de seu país que sirva como capacete, elmo, chapéu ou coisa do gênero". O que é uma tristeza.

Tem o chapéu de cangaceiro, mas ele não abrange todo o país, apenas uma região, o nordeste. Pensei ainda na estrutura de frutas que encimava a Carmem Miranda. Também isso não capta a essência do Brasil. O que sobra? O que sobra?

Levei essa questão para o amigo Peçanha, filósofo e cabelereiro, certo de que ele, sábio como uma coruja, encontraria uma solução para o caso. Eis suas palavras:

- Meu caro, antes de se exasperar com o quê colocar em cima da cabeça, o brasileiro precisa primeiro preocupar-se em botar algo dentro dela.

A diferença que não faz ter um gênio por perto.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Totó Evski, o cãozinho suicida

Às vezes a vida parece um fardo pesado demais. Até mesmo para um animal de estimação.

Era o que sentia o frágil Totó Evski, o cãozinho suicida. E epiléptico.

Ele tinha um sonho: enforcar-se na última árvore da Amazônia.

Bonita imagem. Duas existências diametralmente opostas convergindo para o fim ao mesmo tempo. O titã verde e a insignificância cinzenta (era essa a cor do cãozinho). O universo e o átomo caindo juntos no abismo. O pulmão do mundo, pelo qual todos chorariam, e a vergonha da criação, de quem nem as pulgas sentiriam falta.

De imaginar coisas belas assim seus olhinhos de canino marejavam.

Totó Evski tinha arroubos de escritor de vez em quando.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Lágrimas de sangue

Prelúdio:

Sempre quis postar um texto com esse título. E eis que depois de nove meses de blog surge uma oportunidade. Não é a melhor das oportunidades, reconheço. Mas vai saber quando (e se) surgirá outra.

Agora, o texto:

Acontece que faz mais ou menos umas três semanas que meu olho esquerdo, na metade compreendida entre o canto interno e a íris, ali onde deveria predominar a coloração branca como as nuvens, está terrivelmente vermelho.

E sempre que me olho no espelho, esperançoso de que tudo tenha voltado ao normal, surpreendo-me ao constatar que continuo na mesma.

O que seria isso, meu Deus?

É claro que não vou ao médico para descobrir. Uma vez li num livro que só existem três tipos de pacientes: aqueles que não estão doentes, mas vão ao médico porque acham que têm alguma coisa; aqueles que até têm algum problema, mas se curariam de qualquer jeito, mesmo que não procurassem o especialista e, finalmente, aqueles que estão tão doentes que não fará diferença alguma se forem ou não ao médico. Eu, que já era bastante contrário a freqüentar consultórios, achei o respaldo teórico que me faltava.

Vasculho por minha conta as causas que estariam por trás de tão misterioso sintoma. Submeto-as a vocês. Se houver alguém que tenha chegado a diagnóstico diferente, por favor não deixe de me alertar.

Olho esquerdo vermelho. Causas:

a) A crise dos 22. Nesse período da vida, para aqueles que insistem em não fugir para o campo, somos acossados por uma série de chateações. O corpo reage de diversas formas: em uns cai o cabelo, noutros falha a sanidade, numa minoria excêntrica enrubescem os olhos. (Numa minoria mais excêntrica ainda ocorrem os três sintomas juntos e ainda outros mais)

b) A baixa umidade relativa do ar. Por que não? Só porque nasci em Brasília não significa que estou imune à seca. É verdade que a vida inteira escarneci de quem apresentava reações à poeira e outras frescuras, mas e daí? Sou humilde o suficiente pra admitir que também me tornei sensível a essas intempéries.

c) E agora a melhor e a mais provável hipótese. Na realidade, nem sei por que ainda sustento as outras, de tanto que estou convencido de que é esta a verdadeira. Meu olho está vermelho senão graças ao fato de que finalmente estou me tornando um vampiro. Já era tempo. Espero ser um morto-vivo simpático e elegante. Obrigado a todos que me incentivaram e me deram o apoio necessário para chegar até aqui. Eu não teria conseguido sem vocês.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Índios

Muita gente acha que os índios brasileiros são uns selvagens. Discordo. Acontece é que estão muito mal assessorados. Precisam urgentemente de um personal civilizator, o profissional perfeito para tirar alguém da barbárie sem que a pessoa perca a originalidade.

Falta, por exemplo, alguém para lhes dizer que aquela indumentária do neolítico tardio está totalmente ul-tra-pas-sa-da. Salvos os seios de fora, nada do que os índios usam combina com a nossa urbano-modernidade. Fica muito difícil de aceitá-los assim.

Outra coisa: aqueles cabelinhos. Por Tupã! Não é porque o sujeito mora numa tribo que obrigatoriamente ele vai ter que aparar as madeixas debaixo de uma cuia. Sem contar que esse papo de corte à la Papa-Capim pode até funcionar para crianças dos zero aos três anos de idade, mas não num índio de verdade, porque aí já vira pleonasmo capilar.

Agora, se os índios realmente querem ter voz ativa na sociedade - causa muito justa, uma vez que são tão brasileiros como todos nós, diria até mais, porque estavam aqui antes mesmo do Brasil chegar - estão muito enganados pensando que vão conseguir isso retalhando o pessoal a golpes de facão. Não discuto o método, que é até bem eficiente e econômico. O problema é que vai ter sempre alguém da imprensa dita séria
classificando o gesto como "coisa de bárbaros". E nós sabemos que contra essa classe de profissionais não adianta lutar.

Os índios têm é que mudar o tom do diálogo. Num país de lordes, a sofisticação do discurso faz muita diferença. Em vez de perderem tempo brigando por questões arcaicas como terras, preservação de rios e outras bobagens silvícolas, deveriam concentrar esforços em adaptar a pauta de reivindicações ao Brasil pós-Investment Grade. Peçam ações na Bolsa. Peçam uma alíquota de 0,8 por cento sobre operações financeiras que seja revertida integralmente para a reforma de ocas. Quero ver se não vão angariar o apoio de setores significativos da sociedade.

Os índios são ao mesmo tempo uma minoria oprimida, exótica e representativa das raízes do Brasil. É muito fácil gostar deles. Mas eles precisam colaborar.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Idiossincrasias do ano 2028

- Pai?

- Sim?

- Que coisa estranha é esta aqui na foto?

- É um jacaré, filho. Um animal que habitava o planeta antes do grande aquecimento de 19.

- Uau!

- Você iria gostar dele. Tinha uma cauda gigantesca, escamas por todo o corpo e uma mandíbula tão forte que conseguia arrastar qualquer tipo de presa pra dentro da água.

- Nossa!

...

- Pai?

- Hum?

- E o que era água?

* * *

- Pai?

- Sim?

- A professora disse que você não vai para o céu.

- E por que ela diria um negócio desses?

- Porque você toma comprimidos de células-tronco, feitos de bebezinhos mortos.

- Acho que a professora está exagerando.

- Eu também. Depois que inventaram o tele-transporte nem o céu é um lugar tão inacessível assim.

* * *

- Pai?

- Diga.

- Como foi que o Venerável Rei perdeu o dedinho?

- Num acidente, há muito tempo.

- Na época do primeiro golpe?

- Não.

- Na época do segundo golpe?

- Também não.

- Foi na época da Guerra do Etanol?

- Não, foi antes de tudo isso. Foi no tempo em que ainda existiam jacarés.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Uma fraqueza

Os vampiros, já o dissemos mais de uma vez, são criaturas atrozes. Felizmente têm um ponto fraco, sem o qual já teriam dominado o mundo há algum tempo: mulheres com orelhas de elfa.

Cito o caso de Clondike Wallace, renomado morto-vivo da Renascença, cuja fúria e destemor lhe teriam valido um império inteiro não fosse sua respiração falhar e as forças lhe abandonarem toda vez que Natasha se aproximava num raio de pelo menos dez metros.

Natasha tinha singulares orelhas de elfa.

Aqui é necessário um esclarecimento: orelhas de elfa de modo algum devem ser confundidas com orelhas de duende. Há um abismo enorme as separando. As primeiras são singelas e levemente afuniladas no cimo; as segundas são excessivas e grotescas, orbitando a uma certa distância da base, o que lhes dá um aspecto curiosamente cubista.

Vampiros, como bem sabemos, preferem a arte clássica.

Eles têm ainda um outro gosto muito peculiar, provavelmente herdado dos velhos condes dos Baixos-Cárpatos, condes estes muito heterodoxos em matéria de preferências: mulheres com dentes de castor.

Nesse último caso, pelo menos há certa fundamentação metafísica. Porque o beijo dos caninos proeminentes encaixaria à perfeição na anatomia dentária da castorzinha, e vice-versa. E isso, para o amor, é bonito.

São Balão

Dedicar a vida a cuidar da alma do próximo é um gesto fraterno.

Mas dedicar a morte para trazer um pouco de graça ao mundo é divino.

O padre nos afasta do pecado. O humorista, do tédio. Quando esses dois se fundem numa pessoa só, sai um santo.

Por isso nós, que em matéria de religião não esperamos o intermédio de terceiros, já acolhemos em nosso altar a figura de São Balão, o padroeiro do riso.

O vôo rumo ao nada, só agora me dei conta, é uma metáfora. Assim deve ser a alma, livre, sem roteiros pré-estabelecidos, brincalhona, limitada senão entre estas duas paredes:o céu e o mar.

Às vezes não enxergamos tais verdades. Obrigado, São Balão.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Diário de uma ocupação 4

Capítulo IV
O quadragésimo quinto dia

Edmond está irreconhecível. Os aspectos físicos são os que primeiro saltam aos olhos: a imensa barba onde antes havia um queixo pudico, a cabeleira desgrenhada, uma barriga recém conquistada. Mas talvez as maiores mudanças tenham acontecido no interior deste jovem homem: havia agora um brilho no olhar, em substituição à mansidão exagerada de outrora. Edmond entrou no gabinete cordeiro, sairia raposa.

Desde o terceiro dia de ocupação ele era o líder moral do movimento. Naquela crítica noite em que os insurgentes estavam acuados no gabinete, sem ter como resistir e nem como empreender uma fuga honrosa, Edmond trouxe-lhes a salvação. Caminhou até a estante de livros e pressionou " O Conde de Monte-Cristo". A passagem secreta se abriu. Um canal direto com o exterior, livre da fiscalização policial, estava estabelecido.

Comida, bebida, roupa de cama, artigos de higiene. Nunca mais os ocupantes passariam por privações. O gabinente poderia ficar tomado por meses.

A situação arrastou-se de tal modo que o reitor não teve outra escolha senão a renúncia.

No quadragésimo quinto dia foi realizada a desocupação. Edmond saiu carregado nos braços de seus companheiros.

***
Numa tarde dessas, Edmond corria no parque quando topou com a última pessoa no mundo que esperava encontrar: o reitor.

- Olá! Mas não é o jovem noivo? Você está diferente, rapaz! Essa barba, esse cabelo.

- Olá, reitor. Tudo bem?

- Graças a Deus.

- Eu não sabia que o senhor também corria.

- Ah, na minha idade não temos muita escolha. Ou fazemos algum exercício, ou...

- Escuta - disse Edmond - espero que o senhor não tenha ficado chateado com tudo que aconteceu. Quero dizer, eu também participei da ocupação, até cheguei a liderar o movimento...

- Não, que isso! Não precisa dar explicações. As coisas acontecem exatamente como deveriam. Está escrito. Quem somos nós para querer diferente? Eu estou bem, de verdade, estou bem.

O reitor bebe um gole d´água e continua:

- Aliás, eu também tenho um negócio pra te contar.

- Me contar?

- Isso. Casei com a Natasha.

- Não brinca!

- Sério. Naquele dia, quando eu saí da reitoria, corri direto para a igreja. Eu sabia que você iria ter problemas para chegar na hora marcada, por isso fui avisar sua noiva e os convidados. Mas quando vi a Natasha, toda de branco, caí perdidamente apaixonado. Aproveitamos a igreja decorada e o padre a postos para casar ali mesmo. Foi bonito.

O reitor e Edmond se olharam com aquela expressão que costumamos fazer quando pensamos "como é incrível a vida!".

- Minha esposa é a revolução - disse Edmond.

Os dois trocaram um aperto de mãos verdadeiramente afetuoso. Eles estavam para sempre ligados por um laço maior que o parentesco ou a amizade: o destino.

Despediram-se e já iam se afastando quando o reitor virou para trás e disse:

- Você usou a passagem secreta, não foi?

- Foi.

- Será que você não encontrou uma caneta bico-de-pena perdida lá dentro? Acho que deixei cair na pressa da fuga.

- Não, não encontrei nenhuma.

- Ah.

E nunca mais se viram na vida.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Diário de uma ocupação 3

Capítulo III
O segundo dia

Edmond acordou de seu abismo só na manhã seguinte. Foi uma voz que o despertou:

- Picanha mal-passada, vai?

Em que lugar adorável tinha se transformado o gabinete do reitor! Não era mais aquela sala de despachos impregnada da desolação que tão bem caracteriza os ambientes onde a burocracia se instala. A vida agora pulsava ali. Grande parte dessa transformação era devida ao animado grupo que confraternizava em torno da churrasqueira, perto da grande janela. Também contribuíam a roda de samba e o futebol de sabão improvisado no tapete persa. Edmond, apreciando o cenário, quase se esqueceu de que era um infeliz.

- Contra o quê estamos protestando? - perguntou ao rapaz que lhe oferecia picanha.

- Contra o reitor. A gente só sai daqui quando ele renunciar ao cargo.

Entretanto passou o pãozinho com alho e Edmond não pensou em mais nada.

A tarde inteira transcorreu mui deliciosamente. O próprio Edmond custava a acreditar, mas ele se divertia. Aquelas pessoas ali, seus novos camaradas, irmãos em armas, não eram, no final das contas, gente tão estranha assim. Ele estava até fazendo amizades.

Tinha, por exemplo, o Ubiratan, um exímio tocador de violão. Sua especialidade era compor músicas de desagravo ao Médici. Belíssimas canções. O general se aborreceria bastante se ainda estivesse vivo.

Outra figuraça era o Tudesco, romeno da Valáquia, radicado no Brasil aos 14 . Isso sem falar no Tumba, no Xenofantes, na Tigresa, no Carlinhos - que dizia-se, era ninja - no Jessé e no Gata- Magra, o líder, cujo anel não levava a figura de uma caveira, como havíamos pensado, e sim o próprio retrato.

No final da tarde Edmond, no seu íntimo, agradecia por aquelas companhias.

Ele queria retribuir a calorosa acolhida. De alguma maneira ajudar o movimento.

A oportunidade não tardou.

De madrugada, justamente na crítica hora em que os ânimos flertam com o desepero, Gata-Magra reuniu o conselho de guerra. A situação era emergencial. Os ocupantes perdiam força numa velocidade insustentável. Como a rampa que dava para o gabinete do reitor estava bloqueada por agentes da polícia, era impossível renovar o estoque de alimento, bebida e objetos de higiene. A revolução iria morrer de inanição. Ou os estudantes descobriam uma alternativa para fazer seus insumos chegarem à sala ocupada, ou estariam fadados ao fracasso.

Edmond pediu a palavra:

- Eu tenho a solução.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Diário de uma ocupação 2

Capítulo II
a primeira tarde

Quando Edmond entendeu o que estava acontecendo - o que não levou mais de cinco minutos -, quando viu que tinha se metido, por puro acaso, no meio de uma manifestação estudantil contra o reitor, foi até capaz de rir. Teria chorado se pudesse antever o desfecho. Porém achou graça no início. Só não tinha conseguido que assinassem sua trasferência, mas tudo bem. Isso poderia ser resolvido numa outra hora.

Levantou-se e caminhou para o rumo da porta arrombada. Dois estudantes de sentinela lhe barraram a passagem.

Por que Edmond simplesmente não recorreu à violência, acertou dois chutões nos tornozelos dos sentinelas e saiu correndo porta afora? Porque era um civilizado.

Resolveu procurar o líder dos estudantes, o sujeito do anel de caveira. Foi encontrá-lo reunido com o conselho de guerra:

- Olá, desculpe interromper. O senhor me parece sensato. Ótimo. Escuta: eu não faço parte do seu grupo. Estava aqui conversando com o reitor e de repente...vush! dá pra acreditar? Que coisa, rapaz! Só que eu tenho um casamento, o meu, daqui a pouco. Preciso ir embora, entende? Dá pra pedir praqueles dois lá na porta me deixarem passar? É o meu casamen...

- Nossa esposa é a revolução.

E o pobre Edmond, que já tinha comprado o champanhe da lua-de-mel, de uma hora para a outra se vê metido nesta desagradável relação poligâmica, onde dividia a parceira (não uma mulher, um ideal obscuro) com uma centena de estudantes que ele nunca tinha visto na vida.

Lembrou-se do celular. Ligou para a Natasha e contou a ela todas as desventuras do dia. Desde a fuga do reitor até a porta arrombada e finalmente o gabinete ocupado. E disse para a noiva que talvez não pudesse chegar à igreja na hora marcada.

- Calhorda. - E não atendeu mais o telefone.

Edmond mergulhou nesse estado de catatonia profunda, que os poetas chamam simplesmente de abismo. Adotaremos tal nomeclatura.

Diário de uma ocupação 1

Capítulo I
O primeiro dia

No dia do seu casamento, Edmond acordou cedo, porque tinha ainda negócios a resolver antes da cerimônia. O primeiro deles era na universidade.

Aqui colocamos um comentário: se o noivo tivesse optado por cortar o cabelo, dar os últimos retoques no terno ou lustrar os sapatos antes de ir à universidade, nada de desagradável teria lhe acontecido naquele dia. Mas quem pode adivinhar as vontades do destino?
Edmond de nada desconfiava. Era feliz na sua ignorância.

Uma vez na universidade, procurou o guichê que atendia aos alunos da graduação:

- É aqui que eu consigo a transferência pro campus de São Tristão?

- Motivo da transferência, senhor?

- Casamento. Minha futura esposa mora lá.

- Nesse caso o senhor deve procurar o departamento de emigração, no prédio da reitoria.

E assim fez Edmond.

Mas o departamento de imigração infelizmente nada podia fazer por Edmond. O rapaz deveria procurar a subsecretaria do aluno que troca de estado civil (SATEC). A Sheila da SATEC lamentou muitíssimo, mas o caso era competência do Seu Macedo do almoxarifado, o verdadeiro responsável por aquele tipo de demanda. Tampouco ali Edmond conseguiu o documento de que precisava. Passou ainda em vários outros escritórios até que finalmente foi levado ao gabinete do reitor.

- Quer dizer que você se casa hoje? Meus parabéns.

- Obrigado.

- Deixa que eu assino logo esta autorização de transferência. Você deve estar louco pra voltar pra casa. Ah, eu me lembro do dia do meu casamento. Era uma ansiedade rapaz... rá, rá ... uma ansiedade...

Nesse ponto da conversa uma estranha luz vermelha piscou no fundo do gabinete. A tranqüilidade até então reinante na fisionomia do reitor foi substituída por certa inquietação. Ele caminhou até a estante de livros. Com a caneta, deu um toque na lombada do "O Conde de Monte Cristo". Uma passagem secreta surgiu na parede em frente. O reitor correu para ela e antes de desaparecer dentro do túnel escuro, virou-se para Edmond e sussurou:


- Boa sorte.

A passagem se fechou. De algum lugar dentro das paredes ecoavam os passos acelerados do reitor, cada vez mais distantes. A tudo Edmond assistia embasbacado.

Dez segundos transcorreram sem que o rapaz conseguisse esboçar reação alguma. No décimo-primeiro ele soltou um grito, porque viu a porta do gabinete ser arrombada e dar passagem a uma horda de estudantes furibundos. Um jovel com anel de caveira, talvez o líder do grupo, subiu na mesa e gritou:

- É isso galera! A reitoria tá ocupada! Ninguém entra e ninguém sai!

Edmond consultou o relógio e percebeu que faltavam seis horas para o casamento.

Lobato, do além, sorri

Rapaz, que coisa! Descobriram outro mega poço de petróleo nos mares do Brasil. Daqui a pouco a gente encosta em Dubai. E então todo brasileiro médio poderá ter seu próprio harém.

Mas é como vaticinou meu amigo desembargador Dominique: essa história está com cara de que vai melar. Vejo pelo menos três possibilidades bem plausíveis de fracasso, dada a vocação para a lambança que afamou este país:

1- Na hora de furar a barreira pré-sal, depois de muito alarde em torno de uma tecnologia única no mundo que os engenheiros da Petrobrás desenvolveram em parceria com técnicos da Unicamp, a máquina dá um clamoroso pau, sai furando todo o fundo do mar e deixa vazar bilhões de litros de petróleo para o oceano. Os peixes morrem; os corais morrem; as baleias morrem; as tartarugas morrem; as sereias morrem. O óleo foge de controle e afeta também os ecossistemas marinhos do Pacífico, do Índico e de todo o resto do Atlântico. Os danos ambientais são irreversíveis. As potências mundiais ficam coléricas e declaram embargo econômico ao Brasil.

2- Digamos que a tal máquina funcione direitinho e consiga extrair todo o conteúdo adormecido debaixo da insondável barreira pré-sal. Mas, quando os técnicos vão analisar a qualidade do produto, eis a surpresa: não era petróleo, e sim um líquido escuro e viscoso qualquer que dali em diante seria cartesianamente batizado de pós-sal.

3- E agora a hipótese mais melancólica - e também a mais provável: o país não consegue desenvolver tecnologia nenhuma para extrair o petróleo do fundo do mar. E todo aquele tesouro jaz ali, intocável, enquanto a economia aqui na superfície fica contando os centavos pra fechar o ano no azul. A nação inteira chora seu infortúnio a cada dia que o preço do barril bate novo recorde no mercado munidal. De quatro em quatro anos um presidente se elege prometendo tirar " nem que seja com minhas próprias mãos" a redenção da pátria debaixo daqueles sete quilômetros de água. Nenhum êxito. Milhões de caçadores de fortuna deixam Serra Pelada e outros rincões de pobreza para tentar a sorte em alto-mar. É a corrida do ouro brasileira. A nova Califórnia. Uns morrem afogados, outros explodem com a pressão.

As mães-de-santo são convocadas. Elas descobrem o problema. É tudo praga do Monteiro Lobato. Bonecas Emílias são atadas junto às oferendas para Iemanjá. Das culminâncias do além uma voz gargalha.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O Lucas gosta do mar

Alguns bebês dão a impressão de serem espíritos de sábios irreverentes refugiados num corpo recém-nascido por mera zombeteirice. Enquanto suas mãozinhas, pezinhos e bracinhos denotam a mais cândida inocência, o olhar dessas feras não engana: há um maroto ali. Ficamos diante deles como se encarássemos um diabrete de auréolas e asas de anjo. Que gracinha!

Assim é meu pequeno primo Lucas, que faz um ano hoje, para júbilo completo da família.

A primeira vez que eu o segurei nos braços ele contava cinco meses. Na ocasião pensei: “esse rapazinho tem o jeito de um velho eremita. Decerto erraram na idade.”

Lucas não tem os impulsos naturais de todo bebê. Diante de um objeto curioso, como um controle remoto ou um cabide, não tem vontade de arremessar, bater no chão ou colocar na boca - ele observa. Quando viu chover pela primeira vez, ficou 45 minutos sentado imóvel em frente à janela aberta. Assim que cessaram os pingos, virou a cabecinha para o lado e disse, na linguagem dos bebês: "acabou."


Naquela noite chorei de comoção porque vi que ainda nascem contempladores.

No início do ano o pequeno esteve na praia com os pais. Ligaram de lá alardeando a notícia: "o Lucas gosta do mar". A mim não supreendeu. É claro que ele iria gostar.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Esses romanos são loucos

Não pretendo direcionar o pensamento do leitor para esta ou aquela conclusão. Limito-me a apresentar os fatos. Cada um julga como bem lhe aprouver.

Segue aqui um diálogo entreouvido há 2000 anos, numa esquina de Roma, mais próxima das catacumbas do que recomendava o bom juízo da época. Era alta madrugada:

-Quo vadis?

-Vade Mecum.

Longa pausa.

- Ó tempora! Ó mores!

- Alea jacta est.

...

- In nomine Patris...

- ...et Filii...

- ... et Spiritus Sancti...

- Amen.

Apertaram-se as mãos e tomaram caminhos opostos.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Seres macabros, feitos terríveis(ou 14 dias depois)

Que força sinistra é essa, capaz de destruir até a mais firme das resoluções do espírito?

Que impregna de verdades a vida já tão carente de fantasia?

Que, com a indiferença do açougueiro e a certeza do cirurgião, arranca dos homens a felicidade como se fosse uma verruga insolente?

A esse monstro, cavalheiros, convencionou-se chamar Segunda-Feira.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Troco

Aproveitando o momento, os touros também resolveram aplicar o princípio da reciprocidade contra os espanhóis.

Pamplona nunca mais será a mesma.

sábado, 8 de março de 2008

A batalha de Coachalpa Teotucán

Vejo com profundo pesar minguarem as chances de uma guerra generalizada na América do Sul.

Era uma oportunidade única de sacudir a apatia que há muito tempo paralisa este continente.

E, sem dúvida, seria o empurrão que faltava para tornar " O Furor" um blog conhecido no mundo todo.

Eis o tipo de reportagem que me colocaria na vanguarda do jornalismo de guerra, levaria o nome Vítor Matos para os lares mais remotos do globo e mataria de inveja os correspondentes no Oriente Médio:

Colinas de Coachalpa Teotucán, a 500 km do norte de Quito - O sol se levanta para o sexágesimo quinto dia de guerra. À luz da manhã foi confirmado aquilo de que no crepúsculo já se desconfiava: a linha negra avançando no horizonte, à esquerda do acampamento colombiano, é mesmo o exército da Guiana Francesa que vem se juntar à batalha. Aqueles homens trajam chapéus tricornos, à moda Napoleão, e isso inspirou certo terror nos adversários.

Na planície ainda jazem os soldados paraguaios, completamente dizimados na tarde anterior. Coitados. Travavam uma luta encarnecida contra os uruguaios quando suas armas, surpreendentemente, começaram a falhar. Seriam falsificadas? Não posso garantir.

Entrementes, já se ouvem as primeiras movimentações da manhã. No ar, paira uma sensação de que hoje será um dia decisivo para a guerra. Depois de dois meses marcados por mortes e fúria, talvez um desenlace. É impossível, todavia, prever quem sairá vencedor e até mesmo se haverá algum.

Uma bomba explodida entre as linhas peruanas e bolivianas indica que, para aqueles lados do campo de batalha, a luta recomeçou. Da minha posição estratégica posso ver o exato instante em que os argentinos decidem tomar parte no tumulto. Eles estão fazendo catimba, o que irrita bastante os adversários. Alguém grita que Pelé é melhor que o Maradona. A coisa fica cruel.

No céu azul de Coachalpa Teotucán a aeronáutica chilena, toda ela composta por condores especialmente treinados, faz manobras ameaçadoras. Aqui embaixo, na terra, os calores da guerra envolvem os exércitos do continente inteiro. O espetáculo é, a um só tempo, desolador e fascinante.

Os brasileiros estão mal, muito mal, graças à altitude. Apenas a divisão Tapioca, comandada pela ministra Dilma Rousseff, dá sinais da bravura e intrepidez que caracterizam nosso povo. Montada em seu quarto-de-milha negro e empunhando uma espada dos tempos do Império, tal qual um Duque de Caxias, Dilma conduz seus homens numa avalanche de fúria e destemor pelas formações inimigas. Ao fundo entoam Vandré. Este repórter não pôde conter as lágrimas.

Ocorre que, mesmo a despeito de toda a glória, chega uma hora em que a guerra começa a entediar. Os homens sentem falta de casa e morrer pela pátria já não soa tão heróico como no início. É o momento ideal para selar um armistício. Mas, nesse ambiente de bravos que é o campo de batalha, quem pisaria em cima do próprio orgulho em nome da paz? Quem teria a grandeza de apertar a mão do inimigo? Enfim, quem daria voz ao sentimento geral e colocaria um fim àquele massacre que, afinal, já não empolgava mais ninguém?

Pressentindo que a carcomida guerra precisava apenas de um leve sopro para ruir inteira, me dirigi a uma elevação mais ou menos no centro do vale. Já contavam quatro horas da tarde. Os soldados largaram as armas para acompanhar meus passos . O silêncio abateu-se sobre as colinas de Coachalpa Teotucán. Ciente de que àquela altura todo um continente punha os olhos sobre mim, enchi os pulmões e bradei com os punhos em riste:

-Por que não te calas?

O barulho das palmas e os urros de viva fizeram vibrar as montanhas ao redor como nem os tiros de canhão e a marcha dos exércitos tinham conseguido até então. Como um César em triunfo, voltei para Quito carregado nos braços daqueles valorosos soldados. Agora já não havia mais rivalidade e os inimigos de até poucas horas atrás tinham se tornado aliados na honrosa tarefa de me transportar como a um rei. Na última noite antes de voltarmos todos para casa, houve um grande churrasco de confraternização e um amigo-oculto para selar a paz. Os sul-americanos eram irmãos novamente.

Apenas a Venezuela teimava em continuar disparando metralhadoras nas agora vazias e silenciosas colinas de Coachalpa Teotucán.