quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Uma distância há

Capítulo III

o triste desfecho (como já era esperado)

Natasha poderia ter usado o dinheiro para comprar um chocolate. Ela chegou a esboçar a idéia, mas se sentia gorda naquela semana e por isso passou direto pela banca de doces.

Ela poderia tê-lo dado ao vigia do carro, ao mendigo na esquina, ao chinês vendedor de prodígios.

E, se nenhuma dessas idéias lhe conviesse, mas se ela tivesse um mínimo de compaixão guardada, teria rasgado a nota em mil pedaços e jogado os restos no meio da rua, sepultando assim qualquer esperança que o Gato Estêvão pudesse alimentar.

Mas ela resolveu entrar na farmácia. (No fundo, não é certo condená-la. Natasha sequer sabia que era seguida).

Gato Estêvão viu quando ela se dirigiu ao balconista e fez um pedido. Viu também que ela efetuava o pagamento com a mesma nota de dois reais. E viu principalmente que, ao ir embora, Natasha levava consigo, enrolado na sacola da farmácia, um preservativo masculino.

***

Gato Estêvão, desse dia em diante, resolveu consagrar sua vida a uma causa maior: a pátria.

Como voluntário, partiu para o Haiti junto com as forças de paz do Exército brasileiro. Integrava a 22ª divisão do destacamento de fuzileiros da República.

Ele combatia com tanto valor que, com menos de dois meses no Caribe, era alçado à coronel.

Aquele bravo brasileiro traçava planos para quando retornasse: juntaria seus homens e retomaria o Uruguai "pela diplomacia da espada".

E ele teria conseguido, não fosse a grave febre tropical que o acometeu no ano passado. Ardendo no leito de morte, entregou para seu companheiro de alojamento - eu -um pequeno baú.

- Aí está a minha vida.

Dentro do baú achei algumas poucas figurinhas de jogadores do Flamengo e um caderno, que folheei. Na primeira página, estava colada a foto de uma mulher. Todas as outras tinham sido preenchidas com esta mesma frase:

Uma distância há.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Uma distância há

Capítulo II
uma aproximação improvável

Esta é uma história triste - como geralmente costumam ser aquelas que envolvem o gênero humano. Lamentamos que tenha se passado com o Gato Estêvão. Mas até mesmo os mais melancólicos enredos possuem seus momentos de esperança. É como se o destino brincasse com a presa antes de engoli-la.

No caso que ora narramos não foi diferente.

Gato Estêvão, o leitor deve lembrar, estava há meses alimentando esta idéia fixa chamada Natasha. Sua condição de incógnito também não tinha mudado.

Eu já disse que os dois estudavam na mesma universidade?

Houve uma manhã em que, no intervalo entre uma aula e outra, Gato Estêvão foi comprar um pão de queijo - nem só de amor se nutrem as almas apaixonadas.

- Um pão de queijo - e estendeu sua nota de dois reais ao vendedor.

Quase ao mesmo tempo, escuta uma voz ao seu lado:

- Água de coco, por favor.

A dona da voz - porque era uma mulher -dá uma nota de dez ao mesmo vendedor.

O vendedor, já adiantando o troco, repassa imediatamente para as mãos da mulher a nota que segundos antes pertencia ao Gato Estêvão.

Essa mulher era a Natasha.

Gato Estêvão, que a tudo assistiu como se estivesse delirando, precisou de todas as suas forças para não desmair diante do júbilo que era ver seu dinheiro entre aqueles dedos.

A vida valeu a pena, foi o que ele pensou na hora.

Mas o coração humano nunca se satisfaz. E, ao invés de voltar para casa com essa imensa felicidade, Gato Estêvão resolve seguir a Natasha para ver o que ela faria com o dinheiro que, à feição de uma aliança - se bem que sem o consentimento de uma das partes - agora os unia pra sempre.

Uma distância há

Capítulo I

onde narramos a trágica condição de Gato Estêvão, um sujeito que, no fundo, não era tão mau assim

Alguns amores - aliás, os mais tocantes - são impossíveis. Não falamos aqui de barreiras sociais, porque elas, por mais sólidas que pareçam, ainda assim podem ser transpostas, bastando para isso um golpe bem dado ou dois. O verdadeiro abismo entre uma alma e outra é de ordem divina, cavado pela natureza em pessoa; esse sim um vácuo insuperável, para a completa perdição de quem daria a vida para atravessá-lo.

Dói ter que admitir, mas Gato Estêvão era um desses pobres condenados.

E por quem ele sofria?

Pela Natasha, não restam dúvidas.

Um dia, ele a ouviu dizer:

- Meu Deus, vai chover e eu não trouxe a sombrinha!

E ele fez dessa frase um verso, e mais tarde, do verso, uma música.

Talvez o leitor esteja curioso para saber se a Natasha era bonita. Gato Estêvão, se estivesse vivo, não gostaria de nos ver entrando em detalhes assim tão íntimos. Limito-me a dizer que ela tinha incomparáveis cabelos negros - ainda que, segundo o próprio Gato observou, eles ficavam meio louros à luz do crepúsculo e completamente castanhos em noite de lua.

Uma última informação: Natasha não sabia - nem nunca viria a saber - quem era Gato Estêvão.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Balada viking para as tardes em que chove muito*

Você está indo para a Cicatrizburgo Feira?

Salsa, sálvia, alecrim e tomilho

Lembre de mim a alguém que lá mora

Ela foi um verdadeiro amor meu, outrora.




*traduzido direto do inglês arcaico. A cancioneta é propriedade do folclore britânico.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Uma humilde contribuição para o avanço da pátria

O Brasil, se alimenta alguma ambição de virar um país sério, precisa urgentemente trocar as figuras de animais que estampam as notas de real por imagens das grandes personalidades que fizeram nossa história.

Qualquer brasileiro que tope com uma onça ou um peixe no verso das cédulas vai pensar que mora numa nação sem heróis. Isso aniquila a auto-estima coletiva. Talvez more aí essa eterna vocação para o terceiro-mundismo.


Preparamos algumas sugestões para reparar o erro.

Nota de 1 real: Dom Pedro II. Ele não é só o governanate que ficou mais tempo à frente do país (1841-1889). Se o Brasil conserva as esplêndidas dimensões continentais, deve o fato ao Imperador, que abafou as diversas revoltas separatistas deflagradas durante seu reinado. Além disso, Pedro II era um incentivador das artes e da ciência. Por exemplo, trouxe o telefone para o Brasil quando o invento ainda era desacreditado.

Nota de 2: Chico Mendes. Deu a vida pela Amazônia. Quanto mais perdida é a causa, mais bonita é a luta.

Nota de 5: Charles Muller. Não era brasileiro, mas trouxe o futebol pra cá.

Nota de 10: Dom Sardinha, primeiro bispo do Brasil. Adotou a linha-dura para evangelizar os índios. Em 1556, quando voltava para Portugal a fim de queixar-se com o Rei do mau comportamento dos nativos, naufragou junto com a tripulação na foz do rio Coruripe. Foi capturado, e posteriormente comido, pelos caetés. Representa, a um só tempo, o ideal antropofágico modernista e a importância de se manter separados o laico e o sagrado.

Nota de 20: Mario Garofalo. É o maior radiojornalista que o Brasil já teve. Em Brasília, fundou a obra-prima de sua vida: a SuperFm, síntese completa e acabada de todas as virtudes que uma emissora de rádio deveria ter.

Nota de 50: Deus, o brasileiro mais famoso de todos os tempos.

Nota de 100: Antônio Conselheiro, o Che Guevara do Brasil, nas palavras do sempre oportuno Marechal Alegre.

Um político, um ambientalista, um futebolista, um religioso, um comunicador, um ente divino e um revolucionário. A lista contempla todas as esferas do país.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

A população tem sede de esclarecimentos

Eu sinceramente gostaria de encerrar o assunto febre amarela. Acontece que são inúmeras as mensagens de leitores pedindo maiores informações sobre a doença. Segue o e-mail da Mariana Olviedo & Olviedo, nossa leitora de Alfarrobeiras, Mato Grosso do Sul:

"Caro presidente do O Furor, tenho muitas dúvidas com relação à febre amarela e o governo, a meu ver, não presta os esclarecimentos necessários. Só me resta você. Aconteceu algo assustador aqui em casa e não sei como proceder. No meio do quintal, dei de cara não com um macaco morto, mas com a metade de uma banana comida. O que devo fazer? Por favor, imploro ajuda. Estou desesperada."

Minha prezada Mariana, você fez muito bem em nos notificar. O caso é realmente grave. Pior do que encontrar um macaco morto é, de fato, topar com uma banana comida, porque isso significa que o animal esteve ali e sofreu morte fulminante - haja vista que não teve tempo sequer de terminar a refeição.

A grande pergunta é: onde teria ido parar o cadáver?

Mariana, essa é a resposta que a medicina tradicional não sabe - ou não quer - prestar à sociedade. O macaco morto está bem ali, devidamente estirado ao lado da banana, como não poderia deixar de ser. Só que nossos olhos não podem vê-lo. Trata-se da febre transparente, uma variação horrível e neo-tropical da febre amarela.

Nessa nova modalidade da doença, o funcionamento do fígado não é prejudicado, ao contrário, tem seu desempenho potencializado em 500 por cento (esse número, claro, varia de organismo para organismo). É tão intensa a atividade hepática e tão veloz a circulação do sangue pelo corpo que o indivíduo acossado pela febre transparente vai progressivamente perdendo suas cores naturais, atingindo o cúmulo da invisibilidade no exato momento do óbito.

É medonho.

Uma última informação, Mariana. Não há nada que você possa fazer para se prevenir. Como é absolutamente impossível enxergar o vírus da febre transparente, os cientistas nunca conseguiram produzir a vacina. O vetor da doença é igualmente incógnito: pode ser tanto um pernilongo quanto um urso polar, porque também fica inacessível à visão.

Contra um força invisível, manda a sensatez que se recorra a outra de igual natureza: rezemos.

O que se passa no sufocante hiato entre um ano letivo e o outro

O tédio tem um aliado funesto: as férias.

Para escapar das garras de tão terrível dupla, muitos decidem viajar. Outros procuram meios de se entreter aqui mesmo na cidade. Há ainda os que simplesmente enlouquecem.

Se você não lembra mais da última vez que se viu vestido com uma roupa que não fosse o pijama, se a sua barba (no caso dos homens e de uma minoria do sexo feminino) estiver conurbando com os pêlos do peito e se as suas madrugadas são inteiramente dedicadas à filmografia imprópria, lamento informar, mas você faz parte da terceira categoria de pessoas listada no parágrafo acima.

Força. Este ano o carnaval chega mais cedo, o que indica que são grandes as chances de, em meados de fevereiro, a vida já ter voltado ao normal.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Aquilo que já era ruim fica ainda pior

Cientistas de um laboratório independente estão realizando autópsias em alguns dos macacos encontrados mortos em Goiás.

Esses dedicados estudiosos descobriram indícios aterrorizantes nos cadáveres dos animais: olhos injetados de sangue, garras afiadas no lugar onde deveriam ficar os dedos e caninos pontiagudos projetando-se da boca.

Não são simples micos que estão espalhando a Febre Amarela pelo Brasil. São vamprimatas.

Valha-nos Deus.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Saúde em foco

Aparece um macaco morto no quintal da sua casa. Você:

a) providencia um enterro digno.

b) arranca-lhe as córneas e vende no mercado de órgãos.

c) corre pro posto de saúde rezando para que a vacina contra febre amarela esteja disponível também em gotinhas.

*Lembrando que nesse tipo de teste não há resposta certa ou errada. A melhor decisão vai sempre depender do perfil do cidadão e das circunstâncias em que ele estiver envolvido.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Enquanto eu dormia (ah!...)

De acordo com uma crença milenar, os sonhos nada mais são que passeios de almas. Na hora em que a gente adormece, elas deixam o corpo e perambulam pelo planeta.

Vivenciam incríveis aventuras que, ora, são justamente as imagens vistas durante o sono.

Donde concluo que minha alma é muito mais bem-sucedida que o dono.

E bem que poderia me ensinar alguns truques.