sexta-feira, 28 de março de 2008

Esses romanos são loucos

Não pretendo direcionar o pensamento do leitor para esta ou aquela conclusão. Limito-me a apresentar os fatos. Cada um julga como bem lhe aprouver.

Segue aqui um diálogo entreouvido há 2000 anos, numa esquina de Roma, mais próxima das catacumbas do que recomendava o bom juízo da época. Era alta madrugada:

-Quo vadis?

-Vade Mecum.

Longa pausa.

- Ó tempora! Ó mores!

- Alea jacta est.

...

- In nomine Patris...

- ...et Filii...

- ... et Spiritus Sancti...

- Amen.

Apertaram-se as mãos e tomaram caminhos opostos.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Seres macabros, feitos terríveis(ou 14 dias depois)

Que força sinistra é essa, capaz de destruir até a mais firme das resoluções do espírito?

Que impregna de verdades a vida já tão carente de fantasia?

Que, com a indiferença do açougueiro e a certeza do cirurgião, arranca dos homens a felicidade como se fosse uma verruga insolente?

A esse monstro, cavalheiros, convencionou-se chamar Segunda-Feira.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Troco

Aproveitando o momento, os touros também resolveram aplicar o princípio da reciprocidade contra os espanhóis.

Pamplona nunca mais será a mesma.

sábado, 8 de março de 2008

A batalha de Coachalpa Teotucán

Vejo com profundo pesar minguarem as chances de uma guerra generalizada na América do Sul.

Era uma oportunidade única de sacudir a apatia que há muito tempo paralisa este continente.

E, sem dúvida, seria o empurrão que faltava para tornar " O Furor" um blog conhecido no mundo todo.

Eis o tipo de reportagem que me colocaria na vanguarda do jornalismo de guerra, levaria o nome Vítor Matos para os lares mais remotos do globo e mataria de inveja os correspondentes no Oriente Médio:

Colinas de Coachalpa Teotucán, a 500 km do norte de Quito - O sol se levanta para o sexágesimo quinto dia de guerra. À luz da manhã foi confirmado aquilo de que no crepúsculo já se desconfiava: a linha negra avançando no horizonte, à esquerda do acampamento colombiano, é mesmo o exército da Guiana Francesa que vem se juntar à batalha. Aqueles homens trajam chapéus tricornos, à moda Napoleão, e isso inspirou certo terror nos adversários.

Na planície ainda jazem os soldados paraguaios, completamente dizimados na tarde anterior. Coitados. Travavam uma luta encarnecida contra os uruguaios quando suas armas, surpreendentemente, começaram a falhar. Seriam falsificadas? Não posso garantir.

Entrementes, já se ouvem as primeiras movimentações da manhã. No ar, paira uma sensação de que hoje será um dia decisivo para a guerra. Depois de dois meses marcados por mortes e fúria, talvez um desenlace. É impossível, todavia, prever quem sairá vencedor e até mesmo se haverá algum.

Uma bomba explodida entre as linhas peruanas e bolivianas indica que, para aqueles lados do campo de batalha, a luta recomeçou. Da minha posição estratégica posso ver o exato instante em que os argentinos decidem tomar parte no tumulto. Eles estão fazendo catimba, o que irrita bastante os adversários. Alguém grita que Pelé é melhor que o Maradona. A coisa fica cruel.

No céu azul de Coachalpa Teotucán a aeronáutica chilena, toda ela composta por condores especialmente treinados, faz manobras ameaçadoras. Aqui embaixo, na terra, os calores da guerra envolvem os exércitos do continente inteiro. O espetáculo é, a um só tempo, desolador e fascinante.

Os brasileiros estão mal, muito mal, graças à altitude. Apenas a divisão Tapioca, comandada pela ministra Dilma Rousseff, dá sinais da bravura e intrepidez que caracterizam nosso povo. Montada em seu quarto-de-milha negro e empunhando uma espada dos tempos do Império, tal qual um Duque de Caxias, Dilma conduz seus homens numa avalanche de fúria e destemor pelas formações inimigas. Ao fundo entoam Vandré. Este repórter não pôde conter as lágrimas.

Ocorre que, mesmo a despeito de toda a glória, chega uma hora em que a guerra começa a entediar. Os homens sentem falta de casa e morrer pela pátria já não soa tão heróico como no início. É o momento ideal para selar um armistício. Mas, nesse ambiente de bravos que é o campo de batalha, quem pisaria em cima do próprio orgulho em nome da paz? Quem teria a grandeza de apertar a mão do inimigo? Enfim, quem daria voz ao sentimento geral e colocaria um fim àquele massacre que, afinal, já não empolgava mais ninguém?

Pressentindo que a carcomida guerra precisava apenas de um leve sopro para ruir inteira, me dirigi a uma elevação mais ou menos no centro do vale. Já contavam quatro horas da tarde. Os soldados largaram as armas para acompanhar meus passos . O silêncio abateu-se sobre as colinas de Coachalpa Teotucán. Ciente de que àquela altura todo um continente punha os olhos sobre mim, enchi os pulmões e bradei com os punhos em riste:

-Por que não te calas?

O barulho das palmas e os urros de viva fizeram vibrar as montanhas ao redor como nem os tiros de canhão e a marcha dos exércitos tinham conseguido até então. Como um César em triunfo, voltei para Quito carregado nos braços daqueles valorosos soldados. Agora já não havia mais rivalidade e os inimigos de até poucas horas atrás tinham se tornado aliados na honrosa tarefa de me transportar como a um rei. Na última noite antes de voltarmos todos para casa, houve um grande churrasco de confraternização e um amigo-oculto para selar a paz. Os sul-americanos eram irmãos novamente.

Apenas a Venezuela teimava em continuar disparando metralhadoras nas agora vazias e silenciosas colinas de Coachalpa Teotucán.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Celúlas-tronco

Se a discussão das células-tronco ficar girando em torno dos parâmetros para definir o início da vida, então o impasse corre o risco de nunca sair do lugar. Porque estabelecer o momento exato em que começa a vida humana não é um procedimento simples que possa ser submetido a criterização objetiva. O ideal seria adotar uma convenção - baseada em critérios científicos, até onde a ciência alcançar, e no bom-senso -, mas a radicalização do debate impede qualquer decisão definitiva.

Ambos os lados da contenda têm sua dose de razão. Se a Igreja afirma que a vida começa na concepção, como refutá-la? Que instrumentos a ciência oferece capazes de negar esse argumento? Ao mesmo tempo, é plausível admitir também que a vida poderia começar apenas depois da formação do sistema nervoso, por exemplo. Por que não? Se a sociedade pretende encontrar a solução desse dilema na ciência ou na fé, vai nadar em hipóteses inconsistentes e vagas. O mais certo é deixar se manifestar a razoabilidade.

O Brasil deveria estabelecer um período dentro do qual o embrião estaria passível de ser extraído para pesquisas (ou então para o aborto): 10 semanas após a concepção, por exemplo. Na 11ª semana o amontoado de células já é inviolável. Acho que seria um caminho satisfatório.

Nessa polêmica toda, foi surpreendente a pesquisa, divulgada ontem, mostrando que 75% da população do Brasil é favorável a estudos com células-tronco de embriões. Não sei não. Acho que o brasileiro é muito retrógrado - mais do que a gente pensa – para dar apoio tão maciço a uma questão dessa natureza. Em todo caso, se a pesquisa realmente estiver de acordo com a realidade, é sinal de que se experimenta algum avanço por aqui.

Cabe ao tribunal consolidar esse passo para frente. Ou manter o país, por mais um tempo, na retaguarda do pensamento mundial.