sexta-feira, 25 de abril de 2008

Uma fraqueza

Os vampiros, já o dissemos mais de uma vez, são criaturas atrozes. Felizmente têm um ponto fraco, sem o qual já teriam dominado o mundo há algum tempo: mulheres com orelhas de elfa.

Cito o caso de Clondike Wallace, renomado morto-vivo da Renascença, cuja fúria e destemor lhe teriam valido um império inteiro não fosse sua respiração falhar e as forças lhe abandonarem toda vez que Natasha se aproximava num raio de pelo menos dez metros.

Natasha tinha singulares orelhas de elfa.

Aqui é necessário um esclarecimento: orelhas de elfa de modo algum devem ser confundidas com orelhas de duende. Há um abismo enorme as separando. As primeiras são singelas e levemente afuniladas no cimo; as segundas são excessivas e grotescas, orbitando a uma certa distância da base, o que lhes dá um aspecto curiosamente cubista.

Vampiros, como bem sabemos, preferem a arte clássica.

Eles têm ainda um outro gosto muito peculiar, provavelmente herdado dos velhos condes dos Baixos-Cárpatos, condes estes muito heterodoxos em matéria de preferências: mulheres com dentes de castor.

Nesse último caso, pelo menos há certa fundamentação metafísica. Porque o beijo dos caninos proeminentes encaixaria à perfeição na anatomia dentária da castorzinha, e vice-versa. E isso, para o amor, é bonito.

São Balão

Dedicar a vida a cuidar da alma do próximo é um gesto fraterno.

Mas dedicar a morte para trazer um pouco de graça ao mundo é divino.

O padre nos afasta do pecado. O humorista, do tédio. Quando esses dois se fundem numa pessoa só, sai um santo.

Por isso nós, que em matéria de religião não esperamos o intermédio de terceiros, já acolhemos em nosso altar a figura de São Balão, o padroeiro do riso.

O vôo rumo ao nada, só agora me dei conta, é uma metáfora. Assim deve ser a alma, livre, sem roteiros pré-estabelecidos, brincalhona, limitada senão entre estas duas paredes:o céu e o mar.

Às vezes não enxergamos tais verdades. Obrigado, São Balão.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Diário de uma ocupação 4

Capítulo IV
O quadragésimo quinto dia

Edmond está irreconhecível. Os aspectos físicos são os que primeiro saltam aos olhos: a imensa barba onde antes havia um queixo pudico, a cabeleira desgrenhada, uma barriga recém conquistada. Mas talvez as maiores mudanças tenham acontecido no interior deste jovem homem: havia agora um brilho no olhar, em substituição à mansidão exagerada de outrora. Edmond entrou no gabinete cordeiro, sairia raposa.

Desde o terceiro dia de ocupação ele era o líder moral do movimento. Naquela crítica noite em que os insurgentes estavam acuados no gabinete, sem ter como resistir e nem como empreender uma fuga honrosa, Edmond trouxe-lhes a salvação. Caminhou até a estante de livros e pressionou " O Conde de Monte-Cristo". A passagem secreta se abriu. Um canal direto com o exterior, livre da fiscalização policial, estava estabelecido.

Comida, bebida, roupa de cama, artigos de higiene. Nunca mais os ocupantes passariam por privações. O gabinente poderia ficar tomado por meses.

A situação arrastou-se de tal modo que o reitor não teve outra escolha senão a renúncia.

No quadragésimo quinto dia foi realizada a desocupação. Edmond saiu carregado nos braços de seus companheiros.

***
Numa tarde dessas, Edmond corria no parque quando topou com a última pessoa no mundo que esperava encontrar: o reitor.

- Olá! Mas não é o jovem noivo? Você está diferente, rapaz! Essa barba, esse cabelo.

- Olá, reitor. Tudo bem?

- Graças a Deus.

- Eu não sabia que o senhor também corria.

- Ah, na minha idade não temos muita escolha. Ou fazemos algum exercício, ou...

- Escuta - disse Edmond - espero que o senhor não tenha ficado chateado com tudo que aconteceu. Quero dizer, eu também participei da ocupação, até cheguei a liderar o movimento...

- Não, que isso! Não precisa dar explicações. As coisas acontecem exatamente como deveriam. Está escrito. Quem somos nós para querer diferente? Eu estou bem, de verdade, estou bem.

O reitor bebe um gole d´água e continua:

- Aliás, eu também tenho um negócio pra te contar.

- Me contar?

- Isso. Casei com a Natasha.

- Não brinca!

- Sério. Naquele dia, quando eu saí da reitoria, corri direto para a igreja. Eu sabia que você iria ter problemas para chegar na hora marcada, por isso fui avisar sua noiva e os convidados. Mas quando vi a Natasha, toda de branco, caí perdidamente apaixonado. Aproveitamos a igreja decorada e o padre a postos para casar ali mesmo. Foi bonito.

O reitor e Edmond se olharam com aquela expressão que costumamos fazer quando pensamos "como é incrível a vida!".

- Minha esposa é a revolução - disse Edmond.

Os dois trocaram um aperto de mãos verdadeiramente afetuoso. Eles estavam para sempre ligados por um laço maior que o parentesco ou a amizade: o destino.

Despediram-se e já iam se afastando quando o reitor virou para trás e disse:

- Você usou a passagem secreta, não foi?

- Foi.

- Será que você não encontrou uma caneta bico-de-pena perdida lá dentro? Acho que deixei cair na pressa da fuga.

- Não, não encontrei nenhuma.

- Ah.

E nunca mais se viram na vida.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Diário de uma ocupação 3

Capítulo III
O segundo dia

Edmond acordou de seu abismo só na manhã seguinte. Foi uma voz que o despertou:

- Picanha mal-passada, vai?

Em que lugar adorável tinha se transformado o gabinete do reitor! Não era mais aquela sala de despachos impregnada da desolação que tão bem caracteriza os ambientes onde a burocracia se instala. A vida agora pulsava ali. Grande parte dessa transformação era devida ao animado grupo que confraternizava em torno da churrasqueira, perto da grande janela. Também contribuíam a roda de samba e o futebol de sabão improvisado no tapete persa. Edmond, apreciando o cenário, quase se esqueceu de que era um infeliz.

- Contra o quê estamos protestando? - perguntou ao rapaz que lhe oferecia picanha.

- Contra o reitor. A gente só sai daqui quando ele renunciar ao cargo.

Entretanto passou o pãozinho com alho e Edmond não pensou em mais nada.

A tarde inteira transcorreu mui deliciosamente. O próprio Edmond custava a acreditar, mas ele se divertia. Aquelas pessoas ali, seus novos camaradas, irmãos em armas, não eram, no final das contas, gente tão estranha assim. Ele estava até fazendo amizades.

Tinha, por exemplo, o Ubiratan, um exímio tocador de violão. Sua especialidade era compor músicas de desagravo ao Médici. Belíssimas canções. O general se aborreceria bastante se ainda estivesse vivo.

Outra figuraça era o Tudesco, romeno da Valáquia, radicado no Brasil aos 14 . Isso sem falar no Tumba, no Xenofantes, na Tigresa, no Carlinhos - que dizia-se, era ninja - no Jessé e no Gata- Magra, o líder, cujo anel não levava a figura de uma caveira, como havíamos pensado, e sim o próprio retrato.

No final da tarde Edmond, no seu íntimo, agradecia por aquelas companhias.

Ele queria retribuir a calorosa acolhida. De alguma maneira ajudar o movimento.

A oportunidade não tardou.

De madrugada, justamente na crítica hora em que os ânimos flertam com o desepero, Gata-Magra reuniu o conselho de guerra. A situação era emergencial. Os ocupantes perdiam força numa velocidade insustentável. Como a rampa que dava para o gabinete do reitor estava bloqueada por agentes da polícia, era impossível renovar o estoque de alimento, bebida e objetos de higiene. A revolução iria morrer de inanição. Ou os estudantes descobriam uma alternativa para fazer seus insumos chegarem à sala ocupada, ou estariam fadados ao fracasso.

Edmond pediu a palavra:

- Eu tenho a solução.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Diário de uma ocupação 2

Capítulo II
a primeira tarde

Quando Edmond entendeu o que estava acontecendo - o que não levou mais de cinco minutos -, quando viu que tinha se metido, por puro acaso, no meio de uma manifestação estudantil contra o reitor, foi até capaz de rir. Teria chorado se pudesse antever o desfecho. Porém achou graça no início. Só não tinha conseguido que assinassem sua trasferência, mas tudo bem. Isso poderia ser resolvido numa outra hora.

Levantou-se e caminhou para o rumo da porta arrombada. Dois estudantes de sentinela lhe barraram a passagem.

Por que Edmond simplesmente não recorreu à violência, acertou dois chutões nos tornozelos dos sentinelas e saiu correndo porta afora? Porque era um civilizado.

Resolveu procurar o líder dos estudantes, o sujeito do anel de caveira. Foi encontrá-lo reunido com o conselho de guerra:

- Olá, desculpe interromper. O senhor me parece sensato. Ótimo. Escuta: eu não faço parte do seu grupo. Estava aqui conversando com o reitor e de repente...vush! dá pra acreditar? Que coisa, rapaz! Só que eu tenho um casamento, o meu, daqui a pouco. Preciso ir embora, entende? Dá pra pedir praqueles dois lá na porta me deixarem passar? É o meu casamen...

- Nossa esposa é a revolução.

E o pobre Edmond, que já tinha comprado o champanhe da lua-de-mel, de uma hora para a outra se vê metido nesta desagradável relação poligâmica, onde dividia a parceira (não uma mulher, um ideal obscuro) com uma centena de estudantes que ele nunca tinha visto na vida.

Lembrou-se do celular. Ligou para a Natasha e contou a ela todas as desventuras do dia. Desde a fuga do reitor até a porta arrombada e finalmente o gabinete ocupado. E disse para a noiva que talvez não pudesse chegar à igreja na hora marcada.

- Calhorda. - E não atendeu mais o telefone.

Edmond mergulhou nesse estado de catatonia profunda, que os poetas chamam simplesmente de abismo. Adotaremos tal nomeclatura.

Diário de uma ocupação 1

Capítulo I
O primeiro dia

No dia do seu casamento, Edmond acordou cedo, porque tinha ainda negócios a resolver antes da cerimônia. O primeiro deles era na universidade.

Aqui colocamos um comentário: se o noivo tivesse optado por cortar o cabelo, dar os últimos retoques no terno ou lustrar os sapatos antes de ir à universidade, nada de desagradável teria lhe acontecido naquele dia. Mas quem pode adivinhar as vontades do destino?
Edmond de nada desconfiava. Era feliz na sua ignorância.

Uma vez na universidade, procurou o guichê que atendia aos alunos da graduação:

- É aqui que eu consigo a transferência pro campus de São Tristão?

- Motivo da transferência, senhor?

- Casamento. Minha futura esposa mora lá.

- Nesse caso o senhor deve procurar o departamento de emigração, no prédio da reitoria.

E assim fez Edmond.

Mas o departamento de imigração infelizmente nada podia fazer por Edmond. O rapaz deveria procurar a subsecretaria do aluno que troca de estado civil (SATEC). A Sheila da SATEC lamentou muitíssimo, mas o caso era competência do Seu Macedo do almoxarifado, o verdadeiro responsável por aquele tipo de demanda. Tampouco ali Edmond conseguiu o documento de que precisava. Passou ainda em vários outros escritórios até que finalmente foi levado ao gabinete do reitor.

- Quer dizer que você se casa hoje? Meus parabéns.

- Obrigado.

- Deixa que eu assino logo esta autorização de transferência. Você deve estar louco pra voltar pra casa. Ah, eu me lembro do dia do meu casamento. Era uma ansiedade rapaz... rá, rá ... uma ansiedade...

Nesse ponto da conversa uma estranha luz vermelha piscou no fundo do gabinete. A tranqüilidade até então reinante na fisionomia do reitor foi substituída por certa inquietação. Ele caminhou até a estante de livros. Com a caneta, deu um toque na lombada do "O Conde de Monte Cristo". Uma passagem secreta surgiu na parede em frente. O reitor correu para ela e antes de desaparecer dentro do túnel escuro, virou-se para Edmond e sussurou:


- Boa sorte.

A passagem se fechou. De algum lugar dentro das paredes ecoavam os passos acelerados do reitor, cada vez mais distantes. A tudo Edmond assistia embasbacado.

Dez segundos transcorreram sem que o rapaz conseguisse esboçar reação alguma. No décimo-primeiro ele soltou um grito, porque viu a porta do gabinete ser arrombada e dar passagem a uma horda de estudantes furibundos. Um jovel com anel de caveira, talvez o líder do grupo, subiu na mesa e gritou:

- É isso galera! A reitoria tá ocupada! Ninguém entra e ninguém sai!

Edmond consultou o relógio e percebeu que faltavam seis horas para o casamento.

Lobato, do além, sorri

Rapaz, que coisa! Descobriram outro mega poço de petróleo nos mares do Brasil. Daqui a pouco a gente encosta em Dubai. E então todo brasileiro médio poderá ter seu próprio harém.

Mas é como vaticinou meu amigo desembargador Dominique: essa história está com cara de que vai melar. Vejo pelo menos três possibilidades bem plausíveis de fracasso, dada a vocação para a lambança que afamou este país:

1- Na hora de furar a barreira pré-sal, depois de muito alarde em torno de uma tecnologia única no mundo que os engenheiros da Petrobrás desenvolveram em parceria com técnicos da Unicamp, a máquina dá um clamoroso pau, sai furando todo o fundo do mar e deixa vazar bilhões de litros de petróleo para o oceano. Os peixes morrem; os corais morrem; as baleias morrem; as tartarugas morrem; as sereias morrem. O óleo foge de controle e afeta também os ecossistemas marinhos do Pacífico, do Índico e de todo o resto do Atlântico. Os danos ambientais são irreversíveis. As potências mundiais ficam coléricas e declaram embargo econômico ao Brasil.

2- Digamos que a tal máquina funcione direitinho e consiga extrair todo o conteúdo adormecido debaixo da insondável barreira pré-sal. Mas, quando os técnicos vão analisar a qualidade do produto, eis a surpresa: não era petróleo, e sim um líquido escuro e viscoso qualquer que dali em diante seria cartesianamente batizado de pós-sal.

3- E agora a hipótese mais melancólica - e também a mais provável: o país não consegue desenvolver tecnologia nenhuma para extrair o petróleo do fundo do mar. E todo aquele tesouro jaz ali, intocável, enquanto a economia aqui na superfície fica contando os centavos pra fechar o ano no azul. A nação inteira chora seu infortúnio a cada dia que o preço do barril bate novo recorde no mercado munidal. De quatro em quatro anos um presidente se elege prometendo tirar " nem que seja com minhas próprias mãos" a redenção da pátria debaixo daqueles sete quilômetros de água. Nenhum êxito. Milhões de caçadores de fortuna deixam Serra Pelada e outros rincões de pobreza para tentar a sorte em alto-mar. É a corrida do ouro brasileira. A nova Califórnia. Uns morrem afogados, outros explodem com a pressão.

As mães-de-santo são convocadas. Elas descobrem o problema. É tudo praga do Monteiro Lobato. Bonecas Emílias são atadas junto às oferendas para Iemanjá. Das culminâncias do além uma voz gargalha.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O Lucas gosta do mar

Alguns bebês dão a impressão de serem espíritos de sábios irreverentes refugiados num corpo recém-nascido por mera zombeteirice. Enquanto suas mãozinhas, pezinhos e bracinhos denotam a mais cândida inocência, o olhar dessas feras não engana: há um maroto ali. Ficamos diante deles como se encarássemos um diabrete de auréolas e asas de anjo. Que gracinha!

Assim é meu pequeno primo Lucas, que faz um ano hoje, para júbilo completo da família.

A primeira vez que eu o segurei nos braços ele contava cinco meses. Na ocasião pensei: “esse rapazinho tem o jeito de um velho eremita. Decerto erraram na idade.”

Lucas não tem os impulsos naturais de todo bebê. Diante de um objeto curioso, como um controle remoto ou um cabide, não tem vontade de arremessar, bater no chão ou colocar na boca - ele observa. Quando viu chover pela primeira vez, ficou 45 minutos sentado imóvel em frente à janela aberta. Assim que cessaram os pingos, virou a cabecinha para o lado e disse, na linguagem dos bebês: "acabou."


Naquela noite chorei de comoção porque vi que ainda nascem contempladores.

No início do ano o pequeno esteve na praia com os pais. Ligaram de lá alardeando a notícia: "o Lucas gosta do mar". A mim não supreendeu. É claro que ele iria gostar.