sexta-feira, 23 de maio de 2008

Lágrimas de sangue

Prelúdio:

Sempre quis postar um texto com esse título. E eis que depois de nove meses de blog surge uma oportunidade. Não é a melhor das oportunidades, reconheço. Mas vai saber quando (e se) surgirá outra.

Agora, o texto:

Acontece que faz mais ou menos umas três semanas que meu olho esquerdo, na metade compreendida entre o canto interno e a íris, ali onde deveria predominar a coloração branca como as nuvens, está terrivelmente vermelho.

E sempre que me olho no espelho, esperançoso de que tudo tenha voltado ao normal, surpreendo-me ao constatar que continuo na mesma.

O que seria isso, meu Deus?

É claro que não vou ao médico para descobrir. Uma vez li num livro que só existem três tipos de pacientes: aqueles que não estão doentes, mas vão ao médico porque acham que têm alguma coisa; aqueles que até têm algum problema, mas se curariam de qualquer jeito, mesmo que não procurassem o especialista e, finalmente, aqueles que estão tão doentes que não fará diferença alguma se forem ou não ao médico. Eu, que já era bastante contrário a freqüentar consultórios, achei o respaldo teórico que me faltava.

Vasculho por minha conta as causas que estariam por trás de tão misterioso sintoma. Submeto-as a vocês. Se houver alguém que tenha chegado a diagnóstico diferente, por favor não deixe de me alertar.

Olho esquerdo vermelho. Causas:

a) A crise dos 22. Nesse período da vida, para aqueles que insistem em não fugir para o campo, somos acossados por uma série de chateações. O corpo reage de diversas formas: em uns cai o cabelo, noutros falha a sanidade, numa minoria excêntrica enrubescem os olhos. (Numa minoria mais excêntrica ainda ocorrem os três sintomas juntos e ainda outros mais)

b) A baixa umidade relativa do ar. Por que não? Só porque nasci em Brasília não significa que estou imune à seca. É verdade que a vida inteira escarneci de quem apresentava reações à poeira e outras frescuras, mas e daí? Sou humilde o suficiente pra admitir que também me tornei sensível a essas intempéries.

c) E agora a melhor e a mais provável hipótese. Na realidade, nem sei por que ainda sustento as outras, de tanto que estou convencido de que é esta a verdadeira. Meu olho está vermelho senão graças ao fato de que finalmente estou me tornando um vampiro. Já era tempo. Espero ser um morto-vivo simpático e elegante. Obrigado a todos que me incentivaram e me deram o apoio necessário para chegar até aqui. Eu não teria conseguido sem vocês.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Índios

Muita gente acha que os índios brasileiros são uns selvagens. Discordo. Acontece é que estão muito mal assessorados. Precisam urgentemente de um personal civilizator, o profissional perfeito para tirar alguém da barbárie sem que a pessoa perca a originalidade.

Falta, por exemplo, alguém para lhes dizer que aquela indumentária do neolítico tardio está totalmente ul-tra-pas-sa-da. Salvos os seios de fora, nada do que os índios usam combina com a nossa urbano-modernidade. Fica muito difícil de aceitá-los assim.

Outra coisa: aqueles cabelinhos. Por Tupã! Não é porque o sujeito mora numa tribo que obrigatoriamente ele vai ter que aparar as madeixas debaixo de uma cuia. Sem contar que esse papo de corte à la Papa-Capim pode até funcionar para crianças dos zero aos três anos de idade, mas não num índio de verdade, porque aí já vira pleonasmo capilar.

Agora, se os índios realmente querem ter voz ativa na sociedade - causa muito justa, uma vez que são tão brasileiros como todos nós, diria até mais, porque estavam aqui antes mesmo do Brasil chegar - estão muito enganados pensando que vão conseguir isso retalhando o pessoal a golpes de facão. Não discuto o método, que é até bem eficiente e econômico. O problema é que vai ter sempre alguém da imprensa dita séria
classificando o gesto como "coisa de bárbaros". E nós sabemos que contra essa classe de profissionais não adianta lutar.

Os índios têm é que mudar o tom do diálogo. Num país de lordes, a sofisticação do discurso faz muita diferença. Em vez de perderem tempo brigando por questões arcaicas como terras, preservação de rios e outras bobagens silvícolas, deveriam concentrar esforços em adaptar a pauta de reivindicações ao Brasil pós-Investment Grade. Peçam ações na Bolsa. Peçam uma alíquota de 0,8 por cento sobre operações financeiras que seja revertida integralmente para a reforma de ocas. Quero ver se não vão angariar o apoio de setores significativos da sociedade.

Os índios são ao mesmo tempo uma minoria oprimida, exótica e representativa das raízes do Brasil. É muito fácil gostar deles. Mas eles precisam colaborar.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Idiossincrasias do ano 2028

- Pai?

- Sim?

- Que coisa estranha é esta aqui na foto?

- É um jacaré, filho. Um animal que habitava o planeta antes do grande aquecimento de 19.

- Uau!

- Você iria gostar dele. Tinha uma cauda gigantesca, escamas por todo o corpo e uma mandíbula tão forte que conseguia arrastar qualquer tipo de presa pra dentro da água.

- Nossa!

...

- Pai?

- Hum?

- E o que era água?

* * *

- Pai?

- Sim?

- A professora disse que você não vai para o céu.

- E por que ela diria um negócio desses?

- Porque você toma comprimidos de células-tronco, feitos de bebezinhos mortos.

- Acho que a professora está exagerando.

- Eu também. Depois que inventaram o tele-transporte nem o céu é um lugar tão inacessível assim.

* * *

- Pai?

- Diga.

- Como foi que o Venerável Rei perdeu o dedinho?

- Num acidente, há muito tempo.

- Na época do primeiro golpe?

- Não.

- Na época do segundo golpe?

- Também não.

- Foi na época da Guerra do Etanol?

- Não, foi antes de tudo isso. Foi no tempo em que ainda existiam jacarés.