sexta-feira, 27 de junho de 2008

Enólogos

Uma das principais marcas dos nossos dias é a crítica de vinhos altamente especializada. Ela está no rádio, na televisão e nas festas de família, graças a algum cunhado.

Como chegamos a isso? Por que tanta degeneração? Onde foi que a civilização errou?

O momento decisivo foi, claro, a Revolução Francesa. Os insurgentes combateram a monarquia, o direito divino, os privilégios do primeiro estado, mas se esqueceram do fundamental: dissociar, na cabeça das pessoas, a idéia de nobreza da de prestígio social. Assim, a burguesia tomou o poder, mas a maneira nobre de se portar continuou regendo a elite mundo afora.

A nobreza foi vencida. Seu poder de fascinação, não. E como tudo aquilo que sobrevive a uma reviravolta social, se fortaleceu.

Por isso hoje, quando alguém procura afetar importância, saca de algum gesto grã-fino. Como discorrer sobre um vinho para a namorada:

- Este tinto não te parece meio social-democrata, amor?

- Com leves notas de totalistarismo.

É claro que vivemos numa época de exageros, onde tudo é elevado à última potência. E não há limites. Desconfio de já ter ouvido o seguinte diálogo na fila da padaria:

- Tenho um Cabaret du Croissant que me lembra Machado na fase romântica.

- Oh!

Já perdi a esperança de que algum dia voltemos a encarar os vinhos como apenas uma bebida. Ou as músicas pelo o que elas são, e não pelo que nos forçamos a enxergar nas entrelinhas. Tenho um amigo que percebe uma clara alusão à revolução russa de 17 em toda obra de arte, mesmo que tenha sido produzida antes do século XX.

Encaremos uma pedra no meio do caminho como nada mais que uma pedra no meio do caminho. Sob pena de, num futuro não muito distante, as pessoas começarem a não se entender em mais nada. E os diálogos tornarem-se completamente inviáveis:

- Bonita camisa, Nadja.

- O que você quer dizer com isso? Que meu decote é tão chamativo que você não consegue parar de olhar? Ou que a camisa é feia, mas não tem problema porque você quer mesmo é me ver sem ela? Ou o engraçadinho está sugerindo que ganhei a camisa de presente do chefe, o que deixaria bem claro que, como afinal dizem por aí, eu tenho um caso com ele?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Ana Alieksandronova

A vida inteira nunca estive realmente sozinho, mesmo nos momentos em que parecia não haver mais ninguém. Meu medo estava sempre ali, à espreita, aguardando a hora de roubar a cena.

Desconfio que ele me acompanhe desde o dia em que nasci, numa já distante e chuvosa madrugada de dezembro. Quando chorei ao deixar o útero, foi o pavor de ver todo aquele instrumental cirúrgico ao redor que me fez chorar, e não o tapa do médico.

Lembro como se fosse ontem dos suores que me acossavam à noite, na época de criança. Morria de medo que gárgulas viessem assombrar o quarto. Cheguei a ver um, em certa ocasião, mas ele se desculpou, entrou no armário e disse que era engano. A partir daí insisti com minha mãe para transferir o fox paulistinha para dentro de casa. Então eram três que passavam a madrugada em claro: eu, Rex e meu medo.

Para muitos a transição da infância para a adolescência significa deixar o mundo da fantasia para trás. Comigo foi mais ou menos assim. Meus medos migraram dos seres míticos para os de carne e osso. Passei a tremer só de pensar em assaltantes, professores, palhaços de semáforo, chefes de gangues da escola e tudo o mais que pudesse me bater, humilhar ou causar vergonha.

Mais recentemente na linha da vida, houve ainda uma outra transformação na natureza de meus medos, sutil, mas determinante. Agora temo as pessoas em geral. Todas elas. Não precisam mais exercer um ofício amedrontador ou representar uma classe em especial. Nem serem absurdamente feias ou portarem um revólver. Basta serem pessoas.

De tão íntimo que somos, e ciente de que vamos passar o resto da vida juntos, decidi batizar meu medo de Ana Alieksandronova, para facilitar a relação. Escolhi um nome russo, porque tem mais a ver com nós dois.

É preciso reconhecer que Ana Alieksandronova já me salvou algumas vezes. Como na época em que me impediu de acompanhar o primo Douglas no vôo de asa delta. Não aconteceu nada com o Douglas. Mas comigo, quem pode garantir que não seria diferente?

Todavia Ana começa a se tornar um incômodo insuportável demais. Não nego que de vez em quando me flagro pensando em expulsá-la. Mas quando olho para aquela carinha, aquele sorriso cativante, simplesmente toda coragem se esvai. Vou ter que pedir uma ajuda para a minha força de vontade, o Nestor. Só que ele é meio indolente e, ao contrário de Ana, não me visita quase nunca. Da última vez que o vi, Nestor estava de malas prontas para a Bahia e passou lá em casa só para dizer que não ia levar o celular. Isso já faz oito anos.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Peçanha dá novas mostras de sua argúcia

Assistindo aos jogos da Eurocopa, inquietou-me uma questão, que ora não tem me deixado dormir.

Percebi que, na festa das arquibancadas, torcedores da maioria dos países usam um adorno típico de sua nação para enfeitar a cabeça. Adorno que, a um só tempo, diz muito sobre a história, a cultura e o espírito do país. Por exemplo: torcedores gregos que se fantasiam com elmos espartanos. Ou os espanhóis e seus chapéus de toureiro. Italianos com os louros de César. Nórdicos e o capacete viking, de chifres. Alemães com os chapeuzinhos de tirolês.

Acionei a mente para achar qual seria o enfeite de cabeça típico do Brasil. Vasculhei. Muito assustado, cheguei a isto: "acho que o torcedor brasileiro é um dos poucos que não têm nada próprio de seu país que sirva como capacete, elmo, chapéu ou coisa do gênero". O que é uma tristeza.

Tem o chapéu de cangaceiro, mas ele não abrange todo o país, apenas uma região, o nordeste. Pensei ainda na estrutura de frutas que encimava a Carmem Miranda. Também isso não capta a essência do Brasil. O que sobra? O que sobra?

Levei essa questão para o amigo Peçanha, filósofo e cabelereiro, certo de que ele, sábio como uma coruja, encontraria uma solução para o caso. Eis suas palavras:

- Meu caro, antes de se exasperar com o quê colocar em cima da cabeça, o brasileiro precisa primeiro preocupar-se em botar algo dentro dela.

A diferença que não faz ter um gênio por perto.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Totó Evski, o cãozinho suicida

Às vezes a vida parece um fardo pesado demais. Até mesmo para um animal de estimação.

Era o que sentia o frágil Totó Evski, o cãozinho suicida. E epiléptico.

Ele tinha um sonho: enforcar-se na última árvore da Amazônia.

Bonita imagem. Duas existências diametralmente opostas convergindo para o fim ao mesmo tempo. O titã verde e a insignificância cinzenta (era essa a cor do cãozinho). O universo e o átomo caindo juntos no abismo. O pulmão do mundo, pelo qual todos chorariam, e a vergonha da criação, de quem nem as pulgas sentiriam falta.

De imaginar coisas belas assim seus olhinhos de canino marejavam.

Totó Evski tinha arroubos de escritor de vez em quando.