segunda-feira, 28 de julho de 2008

O quintal do mundo

Os países, como as pessoas, possuem vocações específicas.

O Brasil, por natureza, é o quintal do mundo. Foi um ato deliberado que nos levou a esse ponto? Não. Em nenhum momento da história reuniu-se um conselho de notáveis para decidir a vocação da pátria. Tão pouco foi algo imposto pela tirania de governantes. Um dom não se adquire de maneira artificial, ele aflora. O Brasil simplesmente nasceu para isso: ser o quintal do planeta, o latifúndio, o bosque primaveril.

Esse é um traço tão genuíno e poético que não posso deixar de me orgulhar. Por isso lamento muito a urbanização pela qual o país vem passando. Não a urbanização geográfica, porque ela é um movimento natural da sociedade e, vá lá, traz seus benefícios. O grande mal é a urbanização da alma. Os brasileiros estão cada vez mais longe de sua vocação campestre. Parece que, por medo de parecerem ultrapassadas, as pessoas decidiram se divorciar da natureza.

Ninguém mais sabe diferenciar um pirarucu de um pirara; ou uma matrinxã de um jaú; ou um pintarroxo de um pintassilgo. Eu também não sei, o que me deixa muito envergonhado. Aliás, é preciso adicionar urgentemente no currículo das escolas matérias que ensinem o nome e as principais características dos diferentes peixes, passáros, plantas e estrelas. Não quero meu filho sofrendo da mesma ignorância que o pai. Além disso, o brasileiro deve dominar, desde criança, habilidades básicas como ordenhar uma vaca, cavalgar sem arreio, acender uma fogueira e montar uma jangada de taboca em menos de sete minutos.

Por isso é tão bem-vinda a reprise da novela Pantanal. Aquilo lá é o Brasil strictu sensu. Não o Leblon das novelas atuais, cheio de gente vestida, carros luxuosos e shoppings.

Quando a gente está num front de batalha, à beira da morte, defendendo o país com a vida, procura no coração lembranças da pátria pelas quais vale a pena lutar. O que motiva mais o soldado: brigar pelos prados verdejantes ou por um complexo de arranha-céus? Na hora decisiva em que meu pelotão estiver defronte às linhas inimigas, naquele momento terrível em que os homens, baionetas em riste, começarem a correr uns ao encontro dos outros, eu gritarei: "Pelas margens do São Francisco!" "Pela asa da graúna!"

O dia em que o Brasil esquecer o sertão, esquece também de si mesmo.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A espada era a lei

Olaf costumava montar em seu cavalo e sair mundo afora reparando as injustiças e as maldades que encontrava pelo caminho.

Numa dessas tardes, às vésperas do inverno, quando cruzava a região erma do alto Reno, Olaf topou com um senhor que açoitava impiedosamente seu vassalo. Aquilo fez ferver o sangue do cavaleiro.

- Opa-lá-lá!

- Pois não, senhor?

- Ordeno-lhe que pare agora mesmo de surrar esse pobre homem, sob pena de ter que se haver com a fúria de Satiagraha!

- Saúde.

- O quê?! Então desdenhas Satiagraha, a espada mitológica dos reis do norte?

- Ah, sim. Uma espada. Eu já devia ter imaginado que o senhor era um cavaleiro andante. Eles abundam nesses tempos. Devo chamá-lo...

- Olaf Elmo de Rena.

- Aristeu de Rotemburgo, às ordens. E este é meu vassalo, Arenque.

- Salve.

- Onde estávamos mesmo, senhor Olaf?

- Eu intimava o senhor a parar de bater nesse homem indefeso.

- Claro. Afinal é isso que vocês, cavaleiros andantes, fazem: promovem a justiça. Mas será que em algum momento já pararam para pensar que nem em todos os lugares as pessoas querem a justiça? Que em alguns momentos o injusto e o opressor são realmente desejáveis? Por que antes de agir, com seu heroísmo habitual, os senhores não perguntam: "Olá, como vão? Sou um cavaleiro andante. Meus serviços são bem-vindos nesta freguesia?"

- Atchim!

- De novo a espada?

- Não, não, desculpe. É esse vento. Mas continue que o discurso do senhor está bastante bonito.

- O cavaleiro chega galopando no seu cavalo e me avista açoitando um homem neste campo abandonado. É natural pensar: olha, um desumano, um monstro. Na sua condição de cavaleiro andante, profissão muito honrada, aliás, o senhor sente-se impelido em deter minha violência. Mas olhe lá, vamos conversar antes de tomar decisões precipitadas. Será que este homem, este senhor Arenque, este pobre vagabundo, não consente em tomar a surra que lhe aplico? Será que não aceita ser enxovalhado dessa maneira em paga de um favor ou concessão que lhe fiz? Ou ainda para fugir de castigo maior? A verdade, cavaleiro Olaf Elmo de Rena, é que o próprio Arenque me pediu para tratá-lo nesses termos em que o senhor nos flagrou.

- Mas como pode?

- Acontece que este homem, vassalo de minha família já há alguns anos, fiel cumpridor de seus deveres servis, tem o hábito de freqüentar as tavernas à noite. Todos cultivamos nossos vícios, que fazer? A esposa já lhe deu um ultimato, mas Arenque continua escapando e volta para casa sempre com uma desculpa diferente. Só que na última madrugada ele se excedeu de tal maneira que já é meio-dia e ainda está na rua. Então teve uma idéia. Vai dizer à esposa que foi atacado por um bando de assaltantes. E me chamou para ajudá-lo a tornar a farsa um pouco mais verossímil. Entende agora o que se passava antes de nos interromper, mestre Olaf? Por pouco o senhor e seu ímpeto de herói não estragam o casamento de um homem honesto.

- Oh!

- Vê como é sutil o mundo?

- De fato.

- Espero que não tenha estremecido demais as suas convicções.

- Não, de modo algum. Vai haver sempre um lugar em que meus braços e minha espada poderão servir a algum injustiçado. Tomarei somente o cuidado de analisar bem a situação e pensar duas vezes antes de desembainhar Satiagraha.

- Saúde.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O morcego dentro de nós

Um sujeito que só traja preto, como se vivesse em luto eterno; inspira-se no morcego - mesmo quando há cisnes no mundo - e se faz conhecer por Cavaleiro das Trevas.

Não é ao Batman que vou assistir hoje à noite. É a mim mesmo.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Estrelas

O pessoal da firma foi passar o fim de semana numa fazenda. Todo mundo muito animado, festejando até alta madrugada. De repente o Marcondes puxa a Teresa pelo braço:

- Tá vendo aquilo ali? É o céu. Olha o tanto de estrela. Teresa, fala sério, você nunca viu um céu tão estrelado assim, já? Aposto que não. Na cidade não tem isso. Na cidade o céu tem uma estrela ou duas. Culpa da iluminação, dos neons, dos faróis. Quem mora na cidade não faz a menor idéia de como o ceú é estrelado. Isso é vida, Teresa? Não saber como são inúmeras as estrelas que existem acima de nós? Milhares de pontinhos luminosos, que na verdade são explosões cósmicas, que na verdade são a pulsação do todo universal, e nós aqui embaixo, ignorantes de toda essa grandeza. Isso é vida? Não é. Não é!

- Marcondes, você bebeu.

- Não, Teresa. Pelo contrário, eu nunca estive tão sóbrio em toda minha vida. É esse céu que me faz enxergar a verdade. A luz lá em cima penetra e clareia minha mente aqui embaixo. Vejo e compreendo tudo. Estrelas, me invadam! Ursa-maior, me invada, eu a conclamo! Os poetas diriam "milhares de estrelas salpicam o firmamento"; eu digo simplesmente... ou melhor, não digo nada, porque estou estupefato. É isso. Estou sem palavras. Quase não me sinto capaz de articular uma sílaba sequer. Eu cantaria uma ária de Verdi exatamente agora, se conhecesse alguma. Ou dançaria. Mas ainda assim não conseguiria exprimir a milésima parte do meu deslumbramento. Vou lembrar deste instante sublime pro resto da minha vida. Obrigado por compartilhá-lo comigo, Teresa.

- Marcondes, você tá dando em cima de mim? Tá achando que eu vou cair nesse papo pseudo-poético?

- Não, Teresa, não, você está enganada. Não nego que você seja uma mulher deslumbrante, talvez a mais deslumbrante que eu já tenha visto. Talvez não, você de fato é a mulher mais fascinante que eu já conheci. Nem na TV vi uma igual. Inclusive a única coisa que me motiva a continuar indo para aquele trabalho insuportável é saber que vou te encontrar lá, sentada na sua mesa, metida num terninho preto e de pernas cruzadas. Aliás, Teresa, nunca perca seu jeito de cruzar as pernas, a direita apenas levemente apoiada sobre a esquerda, fazendo força mais na ponta do pé do que nas coxas propriamente ditas.

- Marcondes!

- Mas Teresa, hoje você não significa nada para mim. Só consigo me concentrar nas estrelas, minhas musas nesta madrugada, desculpe. Você é atraente, mas elas são radiantes. O que posso fazer? Não é demérito ser ofuscada pelo Universo. Oh, como eu queria saber o nome de cada uma das constelações, para poder fazer poesias em homenagem a elas e cantá-las antes de dormir. Oh, como dói não saber como lhes chamar! Vê aquela ali, a grande, formada por umas dez ou doze estrelas? Para mim é Andrômeda, mas pode ser Aquário ou então Órion. Ou então qualquer outra! Houve uma época, remota na história do homem, em que nossos antepassados conheciam a posição exata de cada estrela no céu, bem como seus nomes e suas utilidades para a orientação na savana. Eles se orientavam pelas estrelas, dá pra acreditar? Hoje nós perdemos tudo isso. E o que mais perdemos junto? O que mais? Perdemos a capacidade de contemplar o céu. Hoje, em homenagem aos meus antepassados, eu contemplo o céu. Contemplo e me ajoelho diante de tanta beleza. Venha, Teresa, ajoelhe-se também. Olha, uma estrela cadente! Feche os olhos e faça um pedido!

Uma hora depois estavam os dois deitados na cama, fumando:

- Admite, Marcondes. Você planejou isso. Foi tudo uma estratégia.

- Não foi, juro.

sábado, 12 de julho de 2008

Sabedoria que emana de um tonel - meio vazio

O ébrio tem razões que a própria razão desconhece.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Uma correção e, ao mesmo tempo, uma contribuição

No início do ano postei um texto dizendo que era uma vergonha o dinheiro aqui no Brasil ser estampado com animais. E cheguei até a listar algumas personalidades nacionais que poderiam substituir nossa fauna nas cédulas. Perdoem-me, hoje vejo que estava completamente enganado. Se existe um país que tem o direito de pintar animais no dinheiro, esse país é o Brasil.

No entanto, a escolha de quais animais devem ser homenageados foi errônea. Vai aqui uma sugestão para o Banco Central:

1 real: anta

2 reais: capivara

10 reais: fica a arara mesmo

20 reais: fica o mico mesmo

50 reais: fica a onça mesmo

100 reais: jumento

A mulher do protocolo

A mulher do protocolo se chamava Candice. Talvez fosse bonita na época em que ainda era a moça do protocolo. E mais risonha. Daquele tempo, mantinha sua dedicação ao trabalho, que permanecia irretocável.

Candice trabalhava na presidência da república desde que a capital foi para Brasília. Serviu sob o regime militar e nos vinte anos que se seguiram à redemocratização, sempre com o mesmo afinco, jamais manifestando qualquer preferênca política ou partidária. Por ser discreta, era apreciada.

No Alvorada diziam que ela era quase tão antiga no palácio quanto as emas do jardim. Um dia, um daqueles bichos, o mais velho, morreu. Ouviram Candice murmurar para as paredes:

- Eu a conheci quando ainda era um ovo.

Candice desempenhava uma função delicada. Cabia a ela puxar os aplausos do auditório quando uma autoridade terminava seu discurso. Um segundo de atraso poderia deixar um chefe de estado, quem sabe, constrangido, humilhado, com a idéia de que não teria agradado à platéia. Para que fatos lamentáveis assim não ocorressem, existia Candice.

Ela havia se tornado uma mestre em sua arte. Tinha desenvolvido um tal ouvido que conseguia distinguir o fim de qualquer discurso com vinte e duas palavras de antecedência. Mal o palestrante terminava, o auditório já se desfazia em palmas.

Não raro ela topava com um desafio. Houve uma vez em que o FHC foi falar sobre o impacto do câmbio flutuante na vida do brasileiro comum para uma platéia composta por alunos da sexta à oitava série. Candice teve que se desdobrar, mas no final o presidente foi aplaudido de pé. Ele mal pôde conter uma lágrima no canto do olho. Candice, então, sentia-se, recompensada.

Há pouco tempo correu a notícia de que o primeiro-ministro da Buldávia viria ao Brasil fechar acordos importantes sobre etanol. Estava previsto um discurso em Brasília. Candice exasperou-se. Ela não falava buldavo. Tinha feito várias línguas exóticas - romeno, grego, russo, suomi -, mas não o buldavo. Como foi cometer esse erro? Agora estava perdida, porque não conseguiria identificar o exato momento em que terminaria o discurso do primeiro-ministro. E não haveria palmas. E sem palmas, corria-se também o risco de não haver acordos sobre etanol.

Candice não perdeu tempo. Como tinha ainda duas semanas antes da visita oficial, mergulhou nos livros. Estudava dia e noite. Contratou um professor da embaixada. Respirava, comia e bebia em buldavo. Ao cabo de dez dias, já tinha um domínio razoável do idioma.

No dia do pronunciamento do primeiro-ministro, Candice estava em perfeita tranqüilidade. Tanta confiança provinha de extrema dedicação, marca registrada de sua conduta ao longo de todos esses anos. Observou que o auditório estava cheio. "Tanto melhor. Mais palmas".

O primeiro-ministro não se alongou por mais de dez minutos. Antes mesmo de pronunciar a última sílaba da última palavra - que era Zvratska, "obrigado" em buldavo - os apluasos já ribombavam pela sala. Candice corou de orgulho. Mas notou que, curiosamente, o primeiro-ministro não ficou satisfeito como ela imaginava. Diria até que ele estava em certa medida contrariado.

À noite um assessor da presidência da república bateu à porta do quarto de Candice. Foi dizer que o presidente brasileiro e o primeiro-ministro buldavo estavam muito chateados com a reação do auditório após o discurso. Na Buldávia, bater palma era um gesto ofensivo, porque, nos mais de trezentos anos em que os buldavos foram escravos dos otomanos, era assim que os amos chamavam os subordinados. O presidente esperava que a senhora do protocolo - o assessor escandiu bem essas últimas palavras - soubesse desse particular.

Por fim o assessor estendeu um papel a Candice. Era a exoneração. Candice estava destituída do seu cargo no protocolo. No entanto, em reconhecimento aos serviços prestados ao longo dos últimos anos, o presidente lhe concedia uma nova função no palácio.

Daquele dia em diante Candice passou a trabalhar no estábulo das emas. Ela não sabia explicar, mas desconfiava que estava mais contente ali.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A mar

Foi só no domingo, vendo um filme no cinema, que me dei conta de um fato aterrador, mas para o qual nunca dirigimos a devida atenção. Uma questão que, se não tem grandes implicações materiais, descortina um olhar surpreendentemente cristalino sobre a vida. É como se repentinamente passássemos a enxergar luzes onde antes só havia trevas e fumaça.

A constatação não poderia ser mais simples: atinei, pela primeira vez, que, em francês, o substantivo "mar" vem na forma feminina, e não na masculina, como em português, por exemplo. La mer. Justo e óbvio. O mar é uma mulher, é preciso ser um ogro para não percebê-lo.

Nunca a afirmação de que se conhece um povo pela língua falada se mostrou tão procedente como agora. Os franceses historicamente estão na vanguarda do pensamento universal. Ter partido deles a idéia de tratar o mar como uma mulher não surpreende. Decepcionante é notar que os portugueses, cujo passado glorioso é praticamente indissociável das ondas, da espuma e da água salgada - a ponto de terem escrito a respeito as seguintes palavras "Ó mar salgado/ Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?" - tenham esse tempo todo se dirigido a ele como a um homem, um sujeito.

Os portugueses desvendaram a superfície dos sete mares. Os franceses, a alma.

Nós, brasileiros, não precisamos ficar reféns do legado de nossos patrícios. Doravante, os leitores só me verão escrever A Mar.

Em tempo: a mar é uma mulher, mas nem todas as mulheres são como a mar.