quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ética no trabalho

Você está no banheiro da repartição. De repente, o chefe aparece no mictório ao lado. Você:

a) cumprimenta com a mão direita e com a esquerda dá continuidade ao que está fazendo.

b) cumprimenta com a mão esquerda e com a direita dá continuidade ao que está fazendo.

c) aproveita o momento de vulnerabilidade e pede um aumento.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Na calada da noite

Era madrugada. No alto de uma torre antiga, trancafiado na cela mais escura de todo o edifício, um homem por volta dos cinqüenta anos comia frango assado. Estava apreensivo? Tinha motivos para tal? Uma janela gradeada deixava entrar não mais que uma réstia de luz no cômodo. A lua, que dali podia ser entrevista apenas através das barras de ferro, parecia brilhar quadrada.

Esse homem vestia terno - não queremos com isso inferir absolutamente nada, apenas nos preocupamos em pintar o quadro da forma mais fidedigna possível - e tomava seu jantar muito lentamente. De vez em quando, pegava com a mão um pedaço do frango, a coxa ou a asa, e fazia menção de levar até a boca, mas interrompia o movimento no meio do caminho para de repente soltar uma risada. Por vezes era uma risada bem baixinha, quase consigo mesmo, noutros momentos, no entanto, era uma estrondosa gargalhada. Diríamos que se tratava de alguém com vários motivos para ser feliz, se não soubéssemos que o homem em questão estava preso.

Ele não se incomodava nem com os ratos que de vez em quando atravessavam o quarto, nem com os filetes d´água que escorriam das paredes.

De repente o homem ouviu um barulho de passos subindo a escada, cada vez mais próximos. Vinha alguém. Os passos foram chegando perto até que o preso pôde reconhecer o recém-chegado:

- Delegado! Não esperava o senhor aqui, a esta hora. Escuta: aceita um pedaço?

- Não, obrigado. Posso entrar?

- Claro.

O delegado abriu o cadeado, entrou na cela e sentou-se ao lado do preso.

- Tem certeza de que não quer comer?

- Tenho, tenho.

- Meus advogados já chegaram?

- Já. Estão lá embaixo com os papéis.

- Ótimo. Olha, delegado, parabéns, viu? Atuação de primeira. Nunca imaginei que um dia eu seria preso. Xilindró mesmo, sabe, com algema e tudo. Tem até rato aqui, olha. Quem diria, rapaz? Homens como o senhor enobrecem o Bra...

- Eu vim aqui te pedir um favor - o delegado a essa altura tinha um ar muito melancólico.

- Favor?

- É. Eu queria que você fugisse daqui. Fugisse da prisão.

- Fugir? - o homem soltou um riso debochado. Por que eu iria querer fugir, delegado? Daqui a pouco, no mais tardar de manhã cedo, meus advogados vão conseguir a liberação, dentro dos conformes da lei, tudo direitinho. Então pra quê fugir? Pra quê? Não estou te entendendo, delegado. O senhor quer suborno agora? Justo o senhor, tão incorruptível esses anos todos!

O delegado suspirou profundamente:

- Não é isso. É pelo bem do país. Se você sair daqui de manhã, pela porta da frente, amparado pela Justiça e pelos mais altos magistrados da nação, sorridente e impecável, inocente como um anjo, vai desferir um golpe muito duro na pouca confiança que as pessoas ainda depositam nas instituições democráticas, entende?. O Brasil já está praticamente desacreditado pela população, as coisas andam por um fio. De repente tudo pode ruir, virar uma terra de ninguém. A gente não pode deixar isso acontecer. Se não... Fiquei a noite inteira pensando nisso.

- Delegado, o senhor é mesmo um homem exemplar. Me orgulho muito de ter sido preso por alguém assim. Mas não chegou a me comover. Ainda prefiro esperar meus advogados agirem. Aliás, o senhor mesmo disse que eles já estão aí embaixo, então é só questão de tempo e tudo estará terminado. Além do mais, uma fuga só serviria para me complicar com a Justiça. Eu me tornaria um foragido à toa. Mas foi um prazer conhecê-lo, delegado. Seja feliz.

- Por favor, eu apelo para os seus sentimentos patrióticos. Pense nas criancinhas, o que elas vão achar? "Papai, quando crescer eu quero ser que nem aquele homem ali na TV." "Mas, meu filho, ele é um bandido."

- Ora, delegado, não me venha com...

- Olha só: ali na parede em frente à janela tem um tijolo falso. É o décimo de baixo para cima e o quinto da direita para a esquerda. Pressione-o até ouvir um ruído. Uma passagem secreta vai aparecer, ela dá para um túnel de cerca de cinco quilômetros que leva até uma rua perto do centro da cidade. Ninguém vai incomodá-lo lá, eu garanto. Pense nas criancinhas, companheiro. Adeus.

O delegado saiu da cela, voltou a trancar o cadeado e desceu as escadas taciturno.

Na manhã seguinte, quando o carcereiro e os advogados foram levar o habeas corpus do preso, tomaram um grande susto ao descobrirem a cela completamente vazia. Completamente, não. Porque encontraram num canto da parede, na altura do décimo tijolo de baixo para cima e do quinto da esquerda para a direita, os restos espicaçados de um frango assado.

sábado, 16 de agosto de 2008

Dúvidas olímpicas

Texto extraído da nossa sucursal de esportes.

De quatro em quatro anos sou acossado pela mesma espécie de enigmas, esta semana tão instigantes que não têm me deixado dormir em paz. Ó gregos, só vocês devem ter as respostas!

- Por que os jogadores de vôlei a cada ponto vão se abraçar no meio da quadra? E por que alguns aproveitam esse momento para aplicar tapinhas em locais pouco convencionais do companheiro?

- Por que quem nunca assiste a esporte de repente aparece como um profundo conhecedor do assunto, versando de nado sincronizado a badmington?

- Por que as mães e as tias gostam tanto de Ginástica Olímpica?

- Por que sempre tem uma brasileira que cai da trave? E por que as chinesas nunca caem?

- Quem está dopado? Quem não está?

- Deveriam criar uma categoria só para a Ednanci?

- Quão melhor seria o mundo sem o futebol feminino?

- Cadê o Baloubet du Rue?

- O nome da goleira da seleção brasileira de handebol é aquele mesmo?

- Por que não te calas, Galvão?

- Por que todo brasileiro que ganha medalha teve uma vida sofrida e o que não ganha amarelou ou foi prejudicado pela arbitragem?

- Como é que nenhum jogador nunca desceu a mão no Bernardinho?

- Onde é que os russos do volêi de praia treinam? Na Sibéria?

- Que diabos significa carpado?

- Quantas vezes os repórteres vão usar a expressão ´espírito olímpico`?

E, finalmente:

- Alguém ainda cai nessa de que o importante é competir?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Uma tarde entre os ipês



A figura aí é uma foto que eu tirei ontem à tarde, na UnB. Faz parte de um exercício que estou impondo a mim mesmo, para adquirir olhar fotográfico, se é que esse tipo de coisa já não nasce com a gente. Sempre que sobra um tempo livre, pego a câmera e abordo um objeto sob vários ângulos, insistentemente, tentando produzir algo que valha a pena. Ontem foi o primeiro dia de "aula". A julgar pelo resultado, exposto acima, vocês devem imaginar o quanto ainda tenho pela frente. De qualquer forma, acho que o mundo se divide em dois grupos de pessoas: os raros que têm olhar fotográfico e a multidão que não tem. Eu queria muito fazer parte do time dos escolhidos, principalmente porque tenho uma veia de artista frustrado que não vai parar de espezinhar enquanto eu não achar um ramo da arte em que me saia mais ou menos bem. Além disso, desconfio que o cara do olhar fotográfico enxerga a vida com enquadramento de cinema. No lugar do olho é como se o sujeito carregasse uma lente. Eu queria ser assim.

Vou contar um pouco do meu processo criativo, porque isso também faz parte do aprendizado, segundo atestam alguns mestres que tive o prazer de ouvir ao longo da vida. Tudo começou ontem, depois da aula da manhã, quando eu voltava pra casa e de repente topei com esse ipê -a árvore da foto é um ipê amarelo, Tabebuia serratifolia -, todo florido e dourado. A primeira imagem que me veio à cabeça foi daquelas cerejeiras de filme japonês feudal, com suas pétalas caindo mansamente ao toque do vento. Todo mundo sabe que eu tenho um fraco pelo Japão feudal. Mas aí, olhando melhor, percebi que o referido ipê tinha ainda mais graça que uma cerejeira japonesa, porque ele guardava um contraste muito grosseiro com a seca que castiga Brasília nesta época do ano: achatado entre duas aridezas, o céu sem nuvens e a terra sem grama, o ipê florido parecia uma afronta do cerrado à impiedade de São Pedro. Pensei: "está aí algo que merece uma foto".

Uma grande parcela da população acha que tirar foto de temas da natureza é demonstração de pieguice. Bobagem. A priori, nenhum objeto é "infotografável". Basta que saibam trabalhá-lo com inteligência. E, aliás, o que pode render melhores fotos do que a natureza? Como pode alguém pensar que uma árvore é coisa tão simples e banal a ponto de beirar o brega? Mas isso não me surpreende porque as pessoas há muito tempo já perderam a dádiva do bom gosto.

Voltei para o local do ipê. Não sei se já tive a felicidade de lhes contar, mas ontem à tarde estive de folga. Cheguei por volta das quatro horas e esperei, porque, como todo detentor de olhar fotográfico sabe, o final da tarde é o momento ideal para se bater uma foto, graças à inclinação dos raios solares que, nessa hora do dia, criam um jogo de luz e sombra riquíssimo nos objetos. O que me levou a pensar o seguinte: fotografar é como caçar uma baleia. É preciso aguardar o exato instante em que o monstro for buscar oxigênio na superfície, deixando seu lombo cachalótico exposto, para então apertarmos o gatilho e torcermos para o arpão encontrar o alvo. O instante em que a baleia sai do seu esconderijo das águas profundas para respirar acontece muito raramente ao longo de um dia. E dura poucos segundos. Daí a importância dos caçadores serem extremamente precisos e pontuais. É o que chamo de momentum baleium, que equivale àquilo que nas belas-artes batizou-se de momentum fotográfico.

Sabem o que é triste nisso tudo? A câmera digital matou o momentum fotográfico. Sem a limitação física do filme e com a facilidade tecnológica, possibilitou ao fotógrafo bater ínúmeros quadros por minuto, sem preocupar-se tanto com o instante crucial. É como se as baleias subissem para respirar e ficassem pairando no ar, minutos a fio, a mercê dos arpões. Lógico que isso criaria uma certa leniência nos caçadores. E cada vez menos um exímio atirador seria necessário, porque afinal as baleias estariam ali dando sopa mesmo que mais cedo ou mais tarde alguém vai acertá-las. Decorre daí uma mediocrização do mercado de caçadores de baleia. É claro que estender essa linha de raciocínio integralmente para o mundo dos fotógrafos pós-câmera digital seria forçar um pouco a barra. Mas não deixa de ser uma metáfora pertinente.

Digo mais: a câmera digital está para a fotografia como a metralhadora para a guerra. Nos princípios da pólvora os soldados dispunham de apenas um parco tiro por vez, dada a necessidade de parar e recarregar as armas após cada saraivada. Depois a carnificina era na base da baioneta. Quer dizer, ou o mosqueteiro caprichava bastante no seu tiro, ou então poderia não ter tempo sequer para se arrepender. Com a metralhadora é diferente. Não há esmero, não há magia. É uma torrente de balas, grosseira e exacerbada.

Se eu pudesse eleger o maior problema da sociedade de hoje, seria exatemente este: a obsessão pela eficiência. As pessoas gastam todo seu tempo a uma busca desvairada pela excelência, nas diversas áreas da vida. A ciência mesmo evolui com o objetivo de potencializar a capacidade humana, rumo ao máximo da eficácia. Chegamos ao ponto, por exemplo, em que se produzem super-indivíduos, como os atletas biônicos, que batem recordes a cada cinco minutos e as mulheres de laboratório, suas medidas perfeitas, seus contornos irretocáveis.

Essa turma da máxima eficiência se esquece do fundamental, isto é, que o divertido são as imperfeições. Que o tempero das coisas está no fato de que elas também tenham defeitos, não sejam sempre eficientes, sofram de vez em quando alguma recaída. E se inventassem uma máquina de pescar, que retirasse dezenas de peixes da água por minuto ao simples apertar de um botão? Matariam o prazer da pescaria, que é passar horas esperando um puxão do anzol para depois descobrir que era um pneu furado. A precisão matemática, o rigor da perfeição, fica muito bem em sitemas virtuais, robôs e aberrações do gênero. Na vida real, prefiro as coisas com suas arestas - e graça.

Terminava de bater as 24 poses do filme, todas elas em torno do referido ipê, quando passou um conhecido. Decerto se trata de um sujeito muito sério e ocupado. Depois de uma breve conversa, em que tomou par da minha tarefa naquela tarde, me disse o seguinte:

- Você não tem o que fazer. Passar a tarde tirando foto de um ipê...

- Tabebuia serratifolia - corrigi.