quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Cuidado com as portas

Imagino que a formatura na faculdade seja uma época marcante para a maioria das pessoas. Do contrário não veríamos tantos colegas, no último semestre do curso, sempre sorridentes nos corredores, conversando sobre planos futuros, ocupados até a tampa com tarefas que lhes enchem de prazer, como escolher o vestido mais adequado para o dia da festa. Ao observá-los, envoltos nesse turbilhão de alegria e expectativas, não consigo deixar de pensar comigo: lá vai gente feliz.

Eu que, correndo tudo como se espera, formo dentro de um mês, lamentavelmete não estou vendo graça nisso. Na verdade, é um drama deixar a faculdade para trás. Fico pensando em todas as coisas que restaram por fazer: os livros que não li, a inteligência que não adquiri, o festival de música que não ganhei - e que não participei, uma vez que não toco instrumento algum - e os professores e colegas malas que não xinguei. Agora, faltando um mês para o fim, é pouco provável que essas frustações sejam resolvidas. Carregarei o vácuo para sempre.

É claro que a situação pode ser amenizada. Ainda não descartei sair no braço com uns desafetos no dia da formatura. E também tomar o microfone da mão do orador para expor algumas verdades sobre o "futuro da nação" que estará ali de beca. Vovós, preparem-se para uma colação como nunca viram em todas essas muitas décadas que as senhoras carregam nas costas.

Para não dizer que minha passagem na universidade não teve seus momentos de fantasia, gostaria de rememorar aqui um episódio pertecente ao já distante primeiro semestre de 2005. Desculpem-me se o tom da narrativa parecer saudosista demais. É que, só hoje o percebo, 2005 ainda não acabou.

Eu estava sentado numa dessas beiradas de jardim em que a Universidade de Brasília é pródiga. Conversava com alguns amigos, o Bigode, o Coquinho, o Toupeira e o Sapão, se não me engano. Na nossa frente ficava um banheiro velho, instituição também muito comum na UnB. Logo chegou uma dupla de servidores, vassouras e esfregões na mão, com jeito de que estavam prestes a empreender uma faxina. Eram um homem e uma mulher.

Ele lembrava o Seu Madruga; ela, Mercedes Sosa. Ambos transpareciam pouco ânimo. Colocaram o carrinho de detergentes na frente da porta do banheiro, para barrar a passagem de um desavisado qualquer que pudesse atrapalhar a limpeza. E entraram no cômodo, ligaram as torneiras, puseram-se a esfregar. Esfregaram por cinco minutos. Lá de fora eu ouvia o ruído das vassouras roçando o piso, a água jorrando pelas paredes, os ralos engolindo a sujeira.

De repente Mercedes Sosa saiu do banheiro com um balde para encher, fechando a porta atrás de si. Pachorramente, ela foi até uma torneira ali próxima. Apoiou as mãos nas cadeiras e soltou um grito, aparentemente dirigido ao seu parceiro, lá dentro do banheiro: "não abre a porta não!"

As paredes da universidade reverberaram: "não abre a porta não!"

A mulher desligou a torneira e rumou de volta para o banheiro. Levava o balde cheio na mão.

Eu e meus amigos observávamos aqueles movimentos com a certeza de que algo de grandioso estava prestes a acontecer.

Mercedes chegou perto do banheiro.

Eu já nem respirava.

Ela inclinou o corpo para trás, ergueu o balde com as duas mãos , uma na alça, outra na base, e, com um golpe rápido, lançou a água em direção à porta.

Isso no exato instante em que a maçaneta girou, a porta abriu e a cabeça infeliz de Madruga surgiu perguntando:

- O que você disse?

Mas já era tarde. Mercedes não pôde deter o movimento que já havia iniciado. A água do balde, destinada a limpar a madeira da porta, encontrou seu fim nas roupas do faxineiro.

- Eu falei para não abrir a porta!

Tudo aconteceu exatamente como nas comédias baratas. Fiquei feliz de ter presenciado aquela cena. Por dois motivos: primeiramente, percebi que a vida pode ser tão prazerosa como a ficção, não precisamos aceitar a realidade como uma pasmaceira inevitável. E, principalmente, o caso dos dois faxineiros me ensinou uma lição. Nesses derradeiros momentos de faculdade, todos falam das "portas que serão abertas" daqui para frente, mas poucos pararam para pensar o que vão encontrar além delas. Contra esse tipo de equívoco eu já estou prevenido.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Palavra de homem

Ontem, por obra e acaso de uma aula da faculdade, assisti a um documentário que vai me inspirar para o resto da vida. Chama-se "Nanook do Norte" e mostra a rotina de um esquimó nos confins do Canadá, em plena década de 20 do século passado. Nanook, o protagonista, é um orgulho para o gênero masculino. Inicialmente, ele não se diferencia muito da maioria dos chefes de família mundo afora, porque sua maior preocupação é dar conforto à prole, comportamento muito natural. O que faz de Nanook um exemplo para os machos-alfa da espécie humana está na maneira como ele sustenta os seus. Os filhinhos estão com fome? Papai Nanook caça um leão-marinho para eles. Ou então entra num buraco na neve e sai de lá minutos depois com uma raposa debaixo do braço. Tudo sem o auxílio de arma alguma, claro, exceto um arpão feito com marfim de morsa, confeccionado pelo próprio Nanook. E, no final do dia, depois de passar meia tundra na faca, Nanook constrói um iglu para a família. Isso é que é ser homem.

Perto do Nanook eu me senti menos macho. Resolvi mudar de postura daqui para frente. Na impossibilidade de caçar minha própria comida - não dá para bater no atendente depois de pagar pelo pão - organizei uma lista de princípios básicos que ajudarão todo homem, mesmo cerceado pelo ambiente urbano frufru do século XXI, a ser um macho-alfa digno de um Nanook. Ei-la:

- homem arranja briga em casa para assistir a jogo da segunda divisão. Aliás, ele assina o pay-per-view da série B na TV do quarto e chama os amigos para ver junto, sentados na cama. A esposa, naturalmente, deve ser expulsa para a sala. O macho-alfa nunca vê novela, e se por acidente contrariar essa regra, passa o capítulo inteiro fazendo barulhos com a boca toda vez que aparece uma atriz de shortinho.

- homem só faz tatuagem se for na prisão.

- a dieta do homem é composta primordialmente por carne de mamífero, de preferência mal passada. Isso exclui frango, peixe e principalmente esse cúmulo da frescura que é a comida japonesa. Uma única exceção é aberta ao peixe frito, quando, na beira do rio, depois de um dia inteiro de intensa pescaria com os amigos, o macho-alfa se alimenta do merecido fruto de seu trabalho. Jamais toma sucos.

- homem não paga mais de dez reais para cortar o cabelo. E nunca, mas nunca mesmo, deve pronunciar expressões como "repique minha franja", "condicionador" ou "ponta dupla". A barba deve andar invariavelmente mal feita e suja de farofa.

- homem não entende nada de vinhos. Mas sabe distingüir uma maminha de um contra-filé só de bater os olhos.

- homem só escuta música com violino e piano em dia de casamento ou enterro.

- todo homem deve ter um fila chamado Rex, uma Brasília que não funciona encostada na garagem e um chinelo Rider da Copa de 94.

- todo homem deve ter um boneco do Shiryu enfeitando a estante do quarto. (Só um homem de verdade sabe do que eu estou falando)

- um legítimo homem pode até ser delicado com as mulheres, mas nunca delicado como as mulheres.

- e principalmente: homem não chora. Mas tem todo direito de derramar umas lágrimas quando a torcida canta o hino do seu time na arquibancada e o Van Dame ganha o torneio no final de 'O Grande Dragão Branco.'

domingo, 5 de outubro de 2008

Farsa

Domingos como hoje são a apoteose do embuste que é a democracia no Brasil. As eleições não servem para o povo escolher seus governantes, ao contrário do que nos é ensinado acreditar. Os mandatários da nação a ela são impostos por um conjunto de forças anterior e maior que o pleito eleitoral. Não somos livres para escolhermos quem bem entendermos. Candidatos que contrariem o gosto da ordem estabelecida dificilmente chegam a concorrer e, caso entrem na disputa, jamais disporão dos meios necessários para se eleger. Se um político participa de uma eleição em condições de ganhar, é porque ele já tem o aval de quem realmente faz as escolhas no país. A eleição serve apenas para o povo legitimar uma opção, não para ser ouvido. Não à toa o comparecimento diante das urnas é obrigatório. Além de se criar um ambiente de saudável atividade democrática, confere-se ao eleito a incontestável corroboração de milhões de votos.

No Brasil não há alternância de poder, mas de nomes. É tolice achar que as eleições de quatro em quatro anos geram equilíbrio de forças entre os variados setores da sociedade. Entra governante, sai governante, a classe beneficiada é sempre a mesma. Sei que a frase está gasta e pode soar como ladainha revolucionária, mas os donos do poder no Brasil são os mesmos há 500 anos. O próprio Lula, costumeiro usuário da frase, para finalmente conseguir ganhar uma eleição, precisou se adequar, teve que se tornar "um deles". Não tivesse mudado o tom do discurso, ele estava até hoje tentando se eleger para alguma coisa. O Lula não foi eleito pelo povo, mas por um establishment. Por isso essa história de que "só num país com uma democracia de verdade um torneiro mecânico poderia virar presidente" não é tão bonita assim como parece.

Eu não sou daqueles que têm raiva da elite política brasileira porque ela é feita de gente rica. Não tenho esse tipo de preconceito e nem acho que um rico é necessariamente um mau governante. O problema da elite que sempre dirigiu o Brasil é que ela, principalmente nos dias de hoje, não tem homens com vocação pública. Governa-se apenas para o interesse próprio e sem nenhum projeto para desenvolver o país. Essa gente preocupa-se exclusivamente em perpetuar-se no poder, zelando pela conservação do modelo de sociedade e pouco se importando com quem vem abaixo de si na pirâmide social. Assim é nossa democracia. A eleição é o ato que coroa todo o embuste.

E sabem o que é o pior nisso tudo? O povão sabe que só serve de massa de manobra, mas, por ignorância, leniência ou preguiça prefere não se indignar. Participa comportadamente da farsa. Ele tem perfeita ciência de que os políticos querem votos apenas para se fartar no poder e que, depois de eleitos, viram as costas para a sociedade. Mas o povo não se dispõe a mudar a situação. É a Lei Vampeta aplicada à sociedade. Na época em que jogava no Flamengo o Vampeta, criticado pelas más atuações, deu a seguinte e histórica declaração: " eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo". No Brasil acontece coisa parecida. Eles fingem que há uma democracia e a gente finge que acredita.