sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O rapsodo feliz

Hoje ninguém mais lembra de uma velha construção que ficava no extremo norte da cidade. Há 30 anos ela deixou de existir. No seu lugar construíram primeiro um cinema, depois nada e finalmente uma igreja. Do cinema ainda restaram uns poucos que se recordam, do terreno baldio também. Mas o antigo edifício, podemos afirmar com toda certeza, foi completamente esquecido.

Era um prédio ao estilo barroco. Ficava no final de uma rua que, de tão mal-iluminada, obrigava o passante a, de noite, caminhar tateando os muros se não quisesse tropeçar e cair. Talvez por isso fosse uma rua bem pouco freqüentada. A verdade é que se contavam histórias muito terríveis daquelas vizinhanças e seria surpreendente alguém resolver passear por ali.

Quem se aventurasse, no entanto, encontraria o velho prédio. Os andares superiores, que eram três, ficavam sempre vazios. No térreo funcionava uma taverna. Pendurada à porta havia uma tabuleta dos tempos do Império na qual estava escrito: "o rapsodo feliz".

Lá dentro ficava o pequeno salão, com umas poucas mesas e um balcão no fundo. Os clientes eram sempre os mesmos, eu estava entre eles. Bebíamos solitários e em silêncio. Um desavisado poderia achar que estávamos rezando e não estaria de todo enganado, porque, de certa forma, era um ambiente de contemplação.

Todas as noites, num canto do salão, uma figura corcunda e completamente envolta em seu manto tocava piano. Dela não se podia ver nenhuma parte do corpo além das mãos que percorriam o teclado. Tocava a noite inteira sem parar e nem mesmo os primeiros a chegar na taverna ou os últimos a deixá-la conseguiam ver aquela criatura em outra posição que não debruçada sobre o instrumento. Era sempre uma música vagarosa e sombria.

Imaginávamos que o corcunda era o rapsodo que dava nome ao lugar. A parte do 'feliz' ninguém entendia.

Quando uma noite um sujeito corpulento de bigode, que apesar de ser um dos freqüentadores mais antigos nunca tinha proferido palavra até então, disse o seguinte:

- Eu quero ver o rosto daquele pianista.

Falou alto o suficiente para que o salão inteiro ouvisse. De repente todos acordaram de seu transe solitário para prestar atenção ao homem de bigode. Apenas o corcunda parecia estar alheio ao que se passava. A música seguia.

- Boa idéia - respondeu um outro sujeito, o da mesa dois.

Uma agitação incomum percorreu o salão. Estavam todos sobressaltados. O homem de bigode e o da mesa dois levantaram-se e caminharam em direção ao corcunda. Os outros acompanhavam a cena paralisados. Da minha cadeira eu gritei 'não!', mas acho que ninguém ouviu. O corcunda continuava tocando com se nada estivesse acontencendo.

Os dois homens se aproximaram e agarraram o pianista, cada um segurando um dos braços. A vítima não oferecia a menor resistência. O sujeito corpulento levou a mão ao capuz que cobria o rosto da criatura.

Nesse instante eu fechei os olhos e abaixei a cabeça. Só percebi que o rosto tinha sido revelado porque dois ou três caras gritaram perto de mim. Segundos depois, quando tive coragem de reabrir os olhos, o corcunda já estava coberto novamente, sentado em frente ao piano, preparando-se para retomar a música. O sujeito de bigode continuava em pé, imóvel, muito pálido e parecia sem forças para se mexer.

Na noite seguinte, quando voltei à taverna, não encontrei nenhum dos outros clientes. Apenas o corcunda estava lá. Assim que sentei, ele deixou o piano e veio em minha direção. Tive a impressão de já ter ouvido sua voz em algum desenho bíblico:

- Todos os dias o homem come o fruto proibido, é assim desde os tempos de Eva. Mesmo aqui em nossa pequena comunidade, nossa taverna, tão pacata e harmoniosa, chegaria a hora fatal. Eu já sabia disso. Mas você me surpeendeu. Você não quis olhar. Seu exemplo é o que venho procurando há milênios. Aceite isto como prova de reconhecimento.

E me estendeu um pedaço de papel marrom, muito semelhante a um bilhete ou passaporte. Em filigrana estava escrito: 'céu'.

Antes que eu pudesse agradecer, o corcunda continuou:

- Entendo também que é seu direito, por ter tentado me defender, contemplar aquilo que seus companheiros desnudaram à força. Deseja, bravo amigo, que eu lhe mostre meu rosto?

Recusei e até hoje, trinta anos depois, me arrependo. Mas na época eu não passava de um jovem inseguro e assustado. Depois tentei diversas vezes reencontrar o corcunda, em vão. 'O Rapsodo Feliz' fechou na manhã seguinte à noite em que se passaram esses últimos acontecimentos. Como lembrança, restou o bilhete que ganhei. Até hoje não sei direito para que ele serve. No fundo, algo me diz que não quero descobrir tão cedo.

domingo, 9 de novembro de 2008

O cavaleiro da esperança

Uma das grandes carências do Brasil é não ter um herói de verdade, alguém para se pintar no verso da nota de cem (nosso dinheiro talvez seja o único que vem estampado com animais. Será a onça-pintada o que de melhor a nação já produziu?). Que falta não faz um sujeito montado num cavalo, a espada na mão, colocando a própria vida em risco pela honra da pátria. Um William Wallace, que servisse de referência para as crianças e motivo de orgulho para os velhos. O Brasil infelizmente não tem isso.

É claro que a história oficial tenta nos empurrar heróis nacionais goela abaixo. Sorte que a população está ficando precavida contra essas artimanhas. O embuste Tiradentes, por exemplo, não engana mais ninguém, nem o mais crédulo aluno de primário. O que foi a inconfidência mineira? Burgueses, dissociados da massa, movidos exclusivamente por interesses econômicos. Nenhuma faisquinha de amor à pátria ou de solidariedade com os oprimidos. Por favor, é muita mesquinharia. Não tem semelhança física com Jesus Cristo que resista à limpidez dos fatos. Tiradentes já era.

A rigor, candidato a grande homem neste país só tivemos um por enquanto, curiosamente relegado por historiadores e governantes : Antônio Conselheiro.

No entanto, tudo indica que os dias de penúria chegaram ao fim. É engraçado, mas parece que justamente o século XXI, tão pobre nas artes, na política e em todo o resto, vai dar o primeiro herói de fato ao Brasil. Ou já deu. Aí está o delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal, pai da já eternizada operação Satiagraha.

Você ri, leitor? Normal. Criou-se no país o hábito de fazer piadas e de ridicularizar esse homem. "Um maluco que tentou fazer justiça sozinho e acabou metendo os pés pelas mãos". É o que eles querem que nós acreditemos. ( Pelo pronome 'eles' utilizado na frase anterior, entenda-se os abomináveis inimigos da nação, cujos tentáculos abrangem todos os setores da sociedade, desde a televisão até o bar da esquina).

Se o Protógenes fosse apenas mais um maluco, não estaria sendo, nesse exato momento, limado da própria corporação da qual faz parte, a Polícia Federal. Não teria três de seus apartamentos, um em Brasília, outro em São Paulo, um terceiro no Rio, invadidos na calada da madrugada por agentes da polícia. Ele, como os elefantes da música infantil, incomoda muita gente.

O que fez este homem para, de repente, tornar-se um pária? Ousou enfrentar o temido Daniel Dantas, uma espécie de Al Capone brasileiro, indivíduo que, sou forçado a inferir, tem amigos poderosos. Protógenes fez Dantas dormir duas noites na cadeia. Isso custou ao delegado todo o seu prestígio. "Um maluco que tentou fazer justiça sozinho e acabou metendo os pés pelas mãos"

É uma luta desigual. De um lado Protógenes, a favor do Brasil. Do outro o Brasil, contra o Protógenes.

Na época em que estourou a Satiagraha, saiu nos jornais uma transcrição de conversa telefônica entre o Al Capone e um de seus asseclas, na qual eles falavam da possibilidade de subornar Protógenes. Reproduzo-a aqui, não textualmente, mas com o sentido preservado:

Al: Já tentou falar com o tal delegado?

Assecla: Já. Ele não aceita.

Al: Como não aceita? Já tentou falar diretamente?

Assecla: Não adianta. Com esse delegado não adianta.

Eu quis chorar quando li esse trecho. Olhei ao redor para ver se estava no Brasil mesmo, ou se aquilo era um sonho. Até então nunca tinha ouvido falar de agente público em transcrição de conversa telefônica que recusasse suborno. O sujeito para ter a honestidade reconhecida até pelos bandidos é porque é alguém diferenciado de fato.

O Protógenes é um idealista, um romântico. Haja vista o nome Satiagraha, importado diretamente da revolução pacífica do Gandhi. A truculência e a impavidez do delegado aliadas à sensibilidade do poeta. Eu não consigo imaginar perfil mais inspirador.

Aos poucos o Brasil aprende a dar valor ao herói que vai nascendo. Hoje de manhã, caminhando por Brasília, vi uma moça vestindo uma camisa estampada com os seguintes dizeres: 'Protógenes Queiroz contra a corrupção'. Isso quer dizer o seguinte: há uma luz no fim do túnel.

E para aqueles que acham o nome Protógenes simplesmente mais uma excentricidade de um sujeito já repleto de bizarrices, aqui vai um pouco de etimologia. Proto: início, o primeiro, pioneiro. Genes: do grego genós, significa nascer, origem. Juntando os dois temos: o precursor do futuro, daquilo que vai nascer. E com um pouco de licença poética: o cavaleiro da esperança.