quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Lapônia que não me sai do pensamento

A noite de natal.

Você vai estar encurralado, em qualquer canto da casa. O melhor, nessas horas, é assumir seu melhor ar de distraído, quase apaspalhado, e, o mais importante, não encarar ninguém diretamente nos olhos. Mesmo assim, as chances de escapatória são praticamente nulas.

Uma tia velha vai te achar, ainda que você tenha se camuflado no canto escuro e insalubre do jardim. Ela vai te achar e vai te fazer perguntas que você não gostaria de responder nem numa confissão ao papa. Inexoravelmente, ela vai te perguntar onde está sua namorada que ainda não chegou para a ceia. E você será obrigado a responder que não, não tem namorada nenhuma. Ou então esta clássica: "seu emprego tem pagado bem? É que lá em Campo Grande quem trabalha na sua área reclama bastante dos salários". E então você, mais uma vez, se não quiser ser desmascarado pela sua mãe mais tarde, vai ter que responder a dura verdade: não tenho emprego algum, quanto mais salário.

Isso sem falar nos primos bem-sucedidos. Até ontem eles jogavam futebol na rua com você. Mas agora o carro importado e a loiraça que eles exibem o tempo todo durante a ceia os tornam importantes demais para perder tempo falando com os parentes derrotados. Se você quiser, entre na fila para admirar os bancos de couro e a marcha automática.

Tem ainda o tio sabido que vai passar o tempo inteiro dissertando sobre a crise financeira e as terríveis consequências para o Brasil, essa potência do mundo emergente.

É por isso que o Papai Noel deixa os presentes, mas nunca fica para a festa. Ele sabe o que teria que aguentar. Terminado o serviço, o velho sábio volta correndo para a Lapônia. A Lapônia das imensidões brancas e solitárias. Onde um indivíduo pode passar semanas, meses até, sem encontrar uma pessoa sequer. Onde os pensamentos têm eco. Onde as dores são remoídas até a última lágrima e as alegrias se misturam ao infinito. Onde chega uma hora em que, graças à neve que cai, não se sabe onde termina o céu e começa o chão.

E principalmente: onde todo dia é noite.

Na Lapônia qualquer um vira poeta. Qualquer decepção é motivo suficiente para descrer eternamente da vida e qualquer tristeza vem acompanhada de lágrimas que, tão logo brotam, já viram gelo. Gelo escorrendo pelas maçãs do rosto. Não consigo pensar em beleza maior.

Hoje, enquanto estiver destrinchando minha coxa de peru, quem olhar para mim verá alguém presente apenas de corpo. A alma estará longe, voando pelas estepes gélidas da Escandinávia. E quando a tia velha perguntar, pela décima vez, por onde anda minha namorada que não chega para a ceia, não hesitarei em responder:

- Na Lapônia.

Não será uma total mentira. A não ser pelo fato de que estarei me referindo não a uma moça de carne e osso, mas a um ideal feito de neve e vazio. Papai Noel, bota a rena no espeto: o senhor pode ter visita em breve.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Um vôo para a história

Enquanto cortava o ar, num vôo rasante a centímetros da orelha de George Bush, o sapato do jornalista iraquiano deixava um pé anônimo para tomar seu lugar de honra na história da humanidade. A saga dos homens na Terra se divide em antes do sapato e depois dele. A.S. , D.S.

A maioria ainda não assimilou a real importância da sapatada. Natural, grandes acontecimentos turvam a visão, justamente pelo seu tamanho descomunal. Mas quando a poeira das primeiras emoções baixar e as análises migrarem do terreno da piada para o da razão, perceberemos que o gesto do tal jornalista inaugurou uma nova era política e social. A Era da Impotência Esclarecida.

Esse novo momento (ou momentum) pelo qual passa a humanidade se caracteriza pela absoluta falta de instrumentos de protesto à disposição do cidadão comum. Vivemos num regime onde as vozes são muito mais sufocadas do que nas sanguinolentas ditaduras do passado.Hoje a repressão é sutil e, por isso, mais eficiente. Desde pequenos somos envolvidos numa intrincada teia de valores sociais, medos e preconceitos que vão nos reger a vida inteira. Em poucas palavras, somos domesticados. Diante dos desmandos e excessos dos poderosos, não somos capazes de erguer um só dedo, tomados que estamos pela inércia dos costumes.

Os meios pelos quais o povo se fazia ouvir foram se atrofiando, porque ninguém mais quis usá-los. Hoje, pensar em trincheiras é praticamente impossível. Assim como pensar em grandes passeatas, greves estrondosas, piquetes, tomadas de prédios públicos, derrubadas de prédios públicos, prisões de governantes, prisões dos parentes dos governantes. Tudo isso morreu. O que nos resta? O que sobra para um cidadão indignado? Confiar na mídia, que não o representa? Apostar suas esperanças em eleições de fachada? Não. O que lhe resta é atirar o seu sapato. Ele sabe que não vai adiantar nada. Mas pelo menos tentou reavivar a velha chama. Tal é um Impotente Esclarecido.

O mundo toma tons cada vez mais sombrios. A imagem do sapato, em pleno vôo, é o extertor de uma humanidade que padece dos próprios vícios. Seu último e desesperado suspiro. Mas talvez fosse dessa rajada de ar que o corpo quase entregue precisasse para se reerguer. A sapatada pode ter errado a cabeça de Bush, no entanto, se tiver acertado o coração das pessoas - como atingiu o meu-, terá cumprido seu objetivo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O caminhoneiro dentro de nós

As pessoas continuam não sabendo o que fazer da própria vida. Tomam suas decisões baseadas mais em imposições sociais do que na vontade individual. Se dessem maior atenção ao que realmente sentem necessidade de fazer, importando-se menos com o que vão pensar familiares, amigos e demais indivíduos ao redor, grande parte de suas frustrações estariam resolvidas. E os livros de auto-ajuda iriam, ao lado dos divãs, para o purgatório dos utensílios obsoletos.

O casamento é um bom exemplo de atitudes que as pessoas tomam levadas pela inércia dos costumes. Chega uma idade em que é estranho a moça ou rapaz permanecerem solteiros. A família faz pressão, os amigos também, mesmo que em tom de brincadeira. O próprio solteirão sente-se em débito consigo, como se estivesse quebrando alguma regra sagrada. Procura o casamento como alguém que deseja quitar uma dívida.

Semana passada o IBGE mostrou que um em cada três e meio casamentos no Brasil acaba em divórcio. É porque se trata de uma instiutição falida, incompatível com século XXI? Não, é porque as pessoas erram ao escolher o par. E, tarde demais, descobrem que se juntaram a alguém muito diferente daquilo que tinham imaginado. Fazem a escolha de forma precipitada, levadas pelo o que elas acham que é amor, mas que no fundo pode ser imposição do meio social, conveniência, necessidade de "endireitar-se na vida". Daí resultam as uniões cada vez mais frágeis e efêmeras, tão comuns aos nossos dias.

No fundo, qual é o problema em demorar um pouco para casar, ou não casar nunca? Qual é o problema de não querer fazer uma faculdade, de não querer ter emprego fixo, de não querer ter filhos?

As pessoas procuram ter uma vida normal, igual a de todo o mundo, ninguém quer parecer uma aberração social. Estudar, arranjar emprego, ter filhos, criá-los, para que então eles possam repetir esses mesmos passos e também os filhos deles, e os netos. A busca é por uma rotina pacata e devidamente controlada, sem espaço para contratempos ou imprevistos.

O problema é que isso vai contra uma das necessidades mais elementares do espírito humano, que é viver aventuras. Na história da humanidade essa necessidade está sempre presente, seja na conquista dos oceanos, nas guerras ou nas descobertas científicas . Não há como negá-la. Na alma do burocrata encarcerado duplamente, no escritório e no paletó, grita um caminhoneiro que diz: "deixe tudo para trás, entre numa boléia e percorra o país de norte a sul. Tenha uma amante em cada posto de estrada, brigue a faca com ladrões na divisa do Mato Grosso com Rondônia, e, caso sobreviva, atole na Belém-Brasília. Em suma, seja feliz."

É essa voz que a gente se esforça para sufocar, dia após dia, em nossas rotinas cinzentas e programadas. Mas eu não vou deixar morrer o caminhoneiro dentro de mim e convido o leitor a fazer o mesmo. Afinal, " a vida é curta. Curta." (este último pensamento, do qual se desconhece o autor, foi extraído da traseira de um scania - já estou entrando no clima).