quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Na fila da Mega-Sena

Hoje de manhã eu fui jogar na Mega-Sena. (Continuo achando que dinheiro não traz felicidade, mas talvez 120 milhões de reais não se enquadrem apenas na categoria dinheiro.)

A fila na lotérica estava enorme, isso eu não estranhei. Chamou a atenção mesmo foi que na minha frente havia um anão, como os dos filmes, de barba inclusive. Dá pra acreditar? Achei que era bom augúrio. De repente olhou para mim e disse:

- Amigo, faz um favor?

Meu companheiro de fila não alcançava as mesas onde a gente se apóia para marcar os números no volante. Além disso, seus bracinhos também não conseguiam chegar perto das canetas que ficam penduradas para uso dos clientes. Em suma, queria apostar mas não tinha como. Resolveu pedir minha ajuda. Ele ditaria os números e eu faria o jogo. Para mim não tinha problema, até achei que essa boa ação me conciliaria com os deuses e aumentaria minhas chances de levar o prêmio.

Uma frase do anão, no entanto, me azedou o espírito:

- Por favor, não vá jogar os mesmos números que eu. Quero ganhar sozinho.

Achei aquilo bem petulante. Não tinha passado pela minha cabeça copiar o jogo dele. Mas e se eu quisesse? Por acaso é proibido? Eu fazia um favor para o sujeito e ele me vinha com uma grosseria dessas! Decidi apostar nos mesmos números do anão. Além do mais, refleti, seria uma burrice não aproveitar seis dezenas que me chegassem como que por capricho celeste aos ouvidos. Pensem comigo: se o jogo do anão fosse sorteado, eu nunca me perdoaria por não ter pegado os números para mim também.

Absolvido pela minha consciência, disse ao pequeno que poderia ditar as dezenas tranquilamente, sem medo de que eu me apropriasse delas. Ele riu e balançou a cabeça positivamente, mas não sem antes coçar a barba. E me sussurrou, para que outros não ouvissem:

- 1, 2, 3, 4, 5, 6.

Ouvindo aquilo, tentei argumentar:

- Senhor anão, tem certeza de que vai fazer esse jogo?

- Perfeitamente.

- Seja razoável, companheiro. Uma sequência dessas nunca vai ser sorteada.

- Quem sabe?

- Tem certeza?

- Pois sim.

- Mas é uma burrice!

- Talvez não seja.

Em vão tentei demovê-lo da ideia. O anão estava irredutível, como, aliás, é próprio da natureza deles. No fim tive que jogar os números que ele pediu. Não precisei fazer outro jogo para mim copiando as dezenas do anão, porque antes mesmo de chegar à lotérica eu já estava decidido a apostar 1,2,3,4,5,6. Queria ganhar sozinho e, com tanta gente participando e tantos bolões sendo feitos, essa me pareceu a melhor maneira. Não fui o único a pensar assim. Havia aquele anão, que até agora não me sai da cabeça. Será que o universo quis me dar algum ensinamento com esse episódio? Não faço ideia.

Sei que hoje durmo com a sensação estranha de que a vida pode ser mais traquinas do que gostaríamos. E essa sensação deve voltar outras vezes em 2010. Mas que me encontre já milionário.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Provável desdobramento da crise

Mais um texto sobre o Arruda, depois eu prometo voltar aos assuntos sérios.

Acho que se Brasília fosse uma cidade que se desse ao respeito, estaríamos vivendo um clima de quase guerra civil agora. Deveriam haver manifestações diárias pela saída do governador, suficientes para inviabilizar a rotina. Uma agenda do caos deveria ter se instalado. Hoje os estudantes fecham o eixão e as principais vias, amanhã todos estacionam em fila dupla, depois de amanhã os garis param de recolher o lixo. Era para estarmos testemunhando a multiplicação de trincheiras e barricadas contra a PM, a tomada diária de prédios públicos, os gritos de ordem ecoando pelas ruas. Mas a vida segue como se não houvesse escândalo nenhum. Incrível como uma população tão mobilizada para algumas causas, como, por exemplo, proibir o funcionamento de bares e restaurantes depois da meia-noite, se mostre tão mansa em questões um pouco mais relevantes.

Continuando na atual toada, Brasília vai proporcionar ao mundo uma das maiores demonstrações de deboche na história da política, no que toca à relação entre representantes e representados: a permanência do Arruda no governo. E o pior é que nada indica que o desfecho será outro. As pessoas se acostumaram com a corrupção a ponto de passarem a considerá-la como um fato natural da vida, desagradável, porém inexorável. Como as catástrofes ambientais ou as doenças. Vem daí esse pensamento dominante, que tanto me irrita, de que se revoltar contra a má índole dos políticos é dar soco em ponta de faca. Ou coisa de gente romântica.

É num cenário assim - corrupção desenfreada e sociedade paralisada - que costumam surgir os justiceiros nas histórias em quadrinhos. O Batman, por exemplo, brota de uma Gotham maltratada pela corrupção. Mas talvez o exemplo mais bem acabado seja o V de Vingança, onde a revolta com a política é tamanha que o justiceiro decide explodir o Parlamento (quando não havia ninguém dentro, também não vamos incitar a violência, que não leva a lugar nenhum). Seria pedir demais que, no caso de Brasília, a vida imitasse a arte? Imaginem. Em algum lugar do DF, digamos uma casa afastada em Taguatinga, alguém está neste momento traçando um plano meticuloso para derrubar o governo Arruda. Esse sujeito está tão revoltado que deseja fazer justiça por conta própria. Ele quer se tornar um herói. Deve estar até pensando em que fantasia vai usar. Detalhe importante, nesses casos, é a fantasia. E a alcunha? Não dá para ser um mascarado sem uma alcunha digna. Se esse homem valoroso viesse me pedir conselho, eu sugeriria que ele se apresentasse à população como Róbson Pierre, uma releitura moderna e brasileira de um nome que já fez tremerem muitos poderosos.

A gente pode esperar que a Câmara Legislativa cumpra seu dever e decida enxotar o Arruda. Podemos também depositar nossas expectativas em algum tribunal ou, sabe-se lá, na OAB. São esperanças. Eu, senhores, por minha vez, prefiro me fiar numa possibilidade que pode parecer remota, mas seria sem dúvida a mais interessante: o surgimento de um justiceiro que, como nos quadrinhos, arriscaria a vida para restabelecer o reino da justiça e da moral em uma Brasília arrasada. Não custa acreditar.

P.S.: se esse herói aparecer, aviso de antemão, não sou eu. Estou apenas dando a ideia. Caso sirva de inspiração, cumpri meu papel. Força, Róbson Pierre.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Os trechos que a justiça não divulga

Políticos corruptos são, no fundo, pessoas normais, como eu e você. Têm as mesmas preocupações na vida, os mesmos prazeres, as mesmas limitações. Enfim, são homens de carne e osso. Mas as autoridades insistem em divulgar apenas as partes das gravações que fazem esses senhores parecerem monstros. Se fossem divulgados os diálogos inteiros, veríamos que se trata de gente absolutamente comum:

- Boa tarde, pessoal!

- Opa!

- Boa tarde, chefe. Melhorou da dor na coluna?

- Nem me fale, rapaz. Acabei de chegar da farmácia. Gastei uma grana com analgésico.

- Aproveitou pra comprar o xampu da calvície?

- Não. Esqueci. Ah! Esqueci também de pegar o gato na Pet Shop . As crianças vão me matar.

- Viu o Flamengo ontem, chefe?

- Não. Minha filha ficou vendo um filme adoelscente de vampiros. Como é que foi?

- Perdemos. Mas o juiz roubou.

- P...! Odeio gente desonesta!

- É fogo mesmo!

- O que é aquilo encostado ali no canto da parede?

- O que chefe? Não estou vendo nada.

- Ali ó. Aquele negócio preto, do lado da sua pasta.

- Ah, aquilo! É uma escultura do Rodin que a minha esposa trouxe da Europa.

- Engraçado. Parece uma filmadora.

- Não parece? O cara era um visionário.

- Vamos resolver logo, gente? Os maços estão prontos.

- Vamos. Porque tempo é dinheiro.

- Com a diferença de que o tempo não dá trabalho para colocar nos bolsos do paletó.

- Ha, ha, ha.

- Ha, ha, ha. Boa, chefe. Vamos dividir então.

- Vamos. Mas antes, vem cá pessoal. Vamos nos abraçar aqui e fechar os olhos.

- Pai nosso que estais no céu...

domingo, 29 de novembro de 2009

Gerúndio vai à forra

Até hoje me lembro do dia em que o Arruda demitiu o gerúndio. Foi um ato arrojado aquele. Ali ficou claro que o governador não permitiria que nada atrapalhasse seus planos para o DF, nem mesmo a gramática. Eis agora o troco. No dia do impeachment, haverá, certamente, muita gente que "vai estar se divertindo".

Em toda essa lamentável tragédia que se abateu sobre a cúpula do governo distrital, há uma questão quase cômica com a qual devemos começar a nos preocupar: a dificuldade que será estabelecer, pelas vias costumeiras, um substituto para o Arruda. O vice-governador, primeiro na linha sucessória, também está envolvido no escândalo. O mesmo acontece com o presidente da Câmara, a segunda opção. Acho que a terceira alternativa é o presidente do Tribunal de Justiça, mas bonito mesmo seria se os juízes cravassem uma espada em uma pedra na frente do Buriti e dessem o governo para o primeiro bravo que conseguisse retirá-la. Já deu certo em imbróglios parecidos.

Ou então o Arruda pode tentar levar adiante a história de que o dinheiro era para comprar panetone para os pobres, que nem é tão inverossímil assim. Eu mesmo estou inclinado a acreditar nessa versão. Se ele tivesse dito que compraria pão e leite, aí ficaria na cara que estava mentindo. Pão e leite é muito óbvio, qualquer macaco velho pensaria nisso. Mas panetone não. Se for uma desculpa esfarrapada, pelo menos que se reconheça que tem certo refinamento.

Lastimável mesmo é que agora não vai sobrar ninguém para negociar o show do McCartney no aniversário da cidade. Pena, porque seria um acontecimento histórico. Fica para os 60 anos. Imagino que em algum lugar de Nova York um telefone esteja tocando neste momento.

- Hello?

- Sir Mccartney ! É sobre o show que o senhor faria aqui em Brasília...

- Yes?

- Estaremos adiando o evento.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Cada uma que me acontece

Eu nunca consigo escutar as mensagens de voz no meu celular. Não que eu me atrapalhe com a tecnologia, não sou tão arcaico assim. Mas meu telefone vive sem créditos, por isso não dá para acessar a caixa de mensagem. Na verdade só coloquei crédito uma vez, na semana em que comprei o celular, em 2004. De lá pra cá, nem um centavo. Me orgulho muito disso. Enquanto tem um monte de gente que gasta os tubos com telefone, eu não gasto nada. Vou dar dinheiro para as empresas de telefonia? Até parece! Essas corporações não têm o menor pudor de explorar o cliente, prestam um serviço terrível e ainda enchem nossas paciências com milhares de torpedos de propaganda. E já ouvi dizer que os funcionários delas trabalham em regime quase escravo. Bem, posso bater no peito e dizer que com esse capitalismo eu não contribuo.

O chato da história, como já falei, é que não consigo escutar minhas mensagens de voz. Vai que uma de minhas musas resolve se declarar e me deixa um recado? Eu nunca saberei. E no dia seguinte posso encontrá-la, mas como não falarei nada ela vai pensar que eu "já estou em outra", como dizem os jovens. Confesso que de vez em quando fico meio desesperado pensando nisso. Do jeito que as coisas estão, as pessoas se comunicando apenas virtualmente, não duvido nada de que um desencontro assim já tenha acontecido com alguém no planeta.

Só que outro dia, faz um mês mais ou menos, eu consegui ouvir uma mensagem de voz. Achei até estranho, porque não tinha crédito nenhum. A mensagem apareceu na tela do telefone e só por fanfarronice eu cliquei "ouvir". E deu certo. Na época achei que tinha sido uma falha da operadora. Agora, esquisita mesmo foi a mensagem que escutei. Uma voz muito sedutora de mulher, com certo sotaque, dizia as seguintes palavras:

"Beirute, WCF, número 02."

Imediatamente fui ao Google. WCF era um feira, simpósio ou coisa parecida, que aconteceria na capital do Líbano durante todo o mês. A World Crisis Fundaments estava em sua segunda edição, a primeira foi em maio, em Edimburgo. Várias palestras e debates para entender a crise financeira e o impacto dela no mundo, dessa vez com enfoque nas economias do Oriente Médio. O que eu tinha a ver com isso? Não fazia a menor ideia. E é claro que não dava para cruzar meio planeta só para satisafazer a curiosidade. Mas por sorte eu tenho um tio que é assessor do Ministério do Comércio e estava de viagem marcada para Dubai, com escala em Beirute. Conseguiu uma vaga para mim na comitiva oficial. Cinco dias depois de receber a mensagem eu desembarcava no Líbano.

Assim que saí do aeroporto dei um jeito de me informar onde era o Centro de Convenções -tinham instalado a Feira lá. À medida que ia me aproximando, estranhava o pouco movimento de pessoas. Imaginava que encontraria o lugar apinhado de estudiosos e gestores do mundo inteiro, mas na verdade ali estava muito mais parado do que em outras ruas da cidade, havia até um certo clima de luto. Na entrada do Centro, encontrei um segurança. Perguntei para ele se era lá mesmo que estava a WCF. Ele me disse que o evento tinha sido cancelado na semana anterior, depois de um atentado terrorista. Por sorte ninguém tinha morrido, os danos foram só materiais. Perguntei se tinha sido um homem-bomba.

- Não - ele me respondeu - foi mulher-bomba. Bela mulher, por sinal. E tinha uma voz sedutora.

Tive que me apoiar no ombro do segurança para não cair, de tanto que minhas pernas tremiam. Assim que recobrei um pouco do equilíbrio, quis saber que dia mais ou menos o ataque tinha acontecido. Eu já imaginava a resposta: foi no mesmo dia em que recebi a mensagem.

Voltei no primeiro voo para o Brasil, disposto a tentar esquecer os últimos acontecimentos. Mas, não sei se já disse isso aqui, sou um pouco neurótico e infelizmente a história toda não saía da minha cabeça. Tive dificuldade para dormir e para comer naqueles dias, e quando dormia sonhava com a mulher-bomba. Ora ela aparecia loira, ora morena e, nas piores noites, vinha ruiva. Tenho um pé atrás com ruivas.

Por mais que eu quebrasse a cabeça, não conseguia entender o que eu tinha a ver com a terrorista e nem por que ela resolveu me mandar uma mensagem exatamente no dia em que explodiria meio quarteirão. Estava a ponto de perder toda a paz de espírito quando uma tarde, refletindo no meu quarto, tive uma grande sacada, tão reveladora que na hora me pareceu ter sido inspiração divina.

Lembrei que Beirute era o nome também de um bar aqui em Brasília. E que de repente WCF poderia significar WC feminino. O número 2, por extensão, só poderia ser o segundo box do banheiro. Fazia sentido ou eu estava ficando louco de vez? Como eu tinha até viajado o mundo para tentar decifrar o mistério, não custava nada dar um pulo logo ali, na quadra ao lado.

Saí na mesma hora para o Beirute. Não sabia o que ia encontrar, mas receava que fosse coisa desagradável, para não dizer perigosa mesmo. Cheguei lá o bar estava abrindo, era quase fim de tarde. Pedi autorização para ir até o banheiro feminino. Nunca imaginei que minha primeira incursão nesse ambiente sagrado para as mulheres seria em circunstâncias tão pouco românticas.

O banheiro estava aparentemente vazio, com um cheiro de detergente de limão ainda fresco no ar. Havia duas cabines, entrei na segunda. Precisei reunir toda a coragem que eu nem sabia que tinha para seguir em frente. Achei um envelope escondido embaixo da privada. Estava enderaçado a mim. Dentro havia um bilhete que dizia:

"Não perca sua linha. Recarregue seus créditos até dia 30/08 e ganhe R$ 80 em torpedos para falar com quem você quiser."

Dá pra acreditar?

Esse episódio não mudou minha opinião sobre as operadoras de celular. Mas uma coisa eu tive que reconhecer: os sujeitos não brincam em serviço.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Canto de resistência

As recentes chuvas aqui em Brasília têm me deixado meio angustiado. Não é certo chover em setembro. Alguma coisa muito estranha - provavelmente mais terrível do que estranha - está em curso.

As pessoas parecem não perceber a gravidade da situação e, longe de estarem preocupadas, comemoram os temporais dos últimos dias, porque "amenizaram a seca". Mas se chove no período naturalmente destinado à estiagem, é lógico acreditar que, na época das chuvas, elas não virão. Percebam o tamanho da tragédia.

O relógio do clima claramente está mudando. Se nós, humanos, conseguimos nos adaptar a essa inversão das estações, a natureza infelizmente não tem a mesma capacidade. Imaginem um pé de manga, acostumado a florir durante a seca de setembro e a dar frutos nas chuvas de novembro. Como ele vai agir quando perceber que o clima agora está ao contrário? Vai dar primeiro a manga e só depois as flores? Prefiro nem pensar nisso por enquanto.

Uma amiga me alertou para uma possibilidade ainda pior. Talvez as cigarras não apareçam este ano. Aí sim seria um duro golpe. E tudo indica que seja isso mesmo que vai acontecer. As cigarras, como todos sabem, saem da terra logo nas primeiras chuvas depois de muitas semanas de seca intensa. Com essa bagunça que está o clima, elas devem perder o momento certo de vir à superfície. Ou suas larvas podem ter sido afogadas pela chuva fora de hora, botando a perder toda uma geração do inseto, hipótese que eu lastimo.

Uma das características de Brasília que eu mais gostava era o barulho das cigarras em todo canto da cidade sempre que chegava o fim do ano. Bons tempos, já saudosos.

Mas talvez nem tudo esteja perdido. Hoje, em pleno ápice da desesperança, tive um alento. Eu ainda dormia, a manhã estava nas primeiras horas, quando comecei a perceber um certo barulho no jardim. Inicialmente pensei que fosse um sonho. O barulho foi ficando mais nítido, até que levantei e fui até a janela. Era bom demais para ser verdade. Uma cigarra solitária cantava numa árvore ali próxima. Cantava a plenos pulmões, como se disso dependesse a própria vida.

Pobre menina, pensei. As cigarras cantam para acasalar, mas não há nenhuma outra por perto. A não ser que ela consiga atrair um besouro ou um zangão, o que acho difícil, está destinada a cantar em vão. Foi só aí que eu atinei: esta solitária cigarra não está cantando para atrair um parceiro, não! Seu canto é um ato de resistência. É o "caminhando e cantando" dela. É um hino de protesto contra as cruéis mudanças da natureza que estão separando-a de suas irmãs de espécie.

Confesso que me comovi. Amanhã, se a cigarra solitária ainda estiver lá fora, acho que vou engrossar o movimento e cantar também. Só espero que ela não confunda minhas intenções. Meu canto, como o dela, será apenas de protesto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Permitam-me uma poesia

Permitam-me uma poesia:

Ontem me doía a garganta
e hoje o nariz
é uma corredeira
que espanta

Será que dor tanta
não há chá que extirpe
e padece meu eu
da suína gripe?

***

Agora, outra. Esta é de amor. Desculpem:

Houve um tempo
em que eu era feliz
Ganhava o Flamengo
sem precisar do juiz
O céu era azul
cheio de bem-te-vis
Te olhar pela fechadura
não consegui
mas quis.



* A primeira poesia se chama "Gripe a, a gripe."
** A segunda não tem nome ainda.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Crise de representatividade?

O país chega cada vez mais perto do fundo do poço e as pessoas não se dão conta. Aliás, a maioria age como se as coisas nunca tivessem corrido tão dentro da normalidade como agora. Mas eu acho (e tenho alguns poucos companheiros que partilham da mesma opinião) que o Brasil e seu projeto de sociedade estão à beira da ruína. Como nunca antes.

Os escândalos na política, geralmente apontados como o maior mal que nos assola, por si sós seriam suficientes para que descrêssemos do futuro. Os motivos para pessimismo, no entanto, vão além. Mais grave é observar que os maus-hábitos dos políticos revelam, na verdade, o esfacelamento de toda a sociedade.

A corrupção e o delito são condutas que, entre nós, ganharam status de "coisa normal". A neta do Sarney, quando usa seu ilustre parentesco para arranjar emprego para o namorado no Congresso, até deve desconfiar de que toma uma atitude no mínimo pouco republicana. Mas tem a plena consciência de que seu gesto é absolutamente natural e de que todos (ou quase) no país fariam o mesmo no lugar dela. Nesse ponto, a neta não está longe de ter razão.

Aproveitar-se do dinheiro público; burlar a legislação para obter vantagens; pleitear favores com amigos e parentes ocupantes de cargos na máquina administrativa. Consideramos tudo isso normal. Mas não pode ser.

Caráter e dignidade andam em baixa. Perderam espaço para o poderio financeiro. É ele que, antes de mais nada, garante prestígio e reconhecimento entre os cidadãos. Pouco importa a que preço tal poderio foi alcançado. Procuramos o dinheiro com uma sanha quase doentia para depois esbanjá-lo com as necessidades mais primitivas e imediatas. Isso, alguém vai me chamar de romântico, é muito vulgar.

Tanta pobreza de espírito tem nos levado aos cúmulos da mediocriodade em todas as áreas, da vida pessoal às artes, passando pela política, por exemplo. O brasileiro é um sujeito tacanho, desinteressado e de mau gosto. O fato de nunca o país ter sido agraciado com um prêmio Nobel - ao contrário de alguns vizinhos sul-americanos - pode significar algo mais do que mero acaso.

Mas o julgamento geral é de que tudo corre bem e de que somos uma sociedade saudável, apesar de uns problemas aqui e acolá, considerados naturais. E, claro, tem a questão dos políticos, mas eles - raciocina a cabeça do povo - formam um grupo de desvirtuados totalmente dissociado do resto da população. Triste equívoco. Nossos políticos sintetizam com rara perfeição o conjunto do povo que os elege. Por isso, não acredito em crise de representatividade, como tem sido repetido desde que o Congresso começou a afundar na própria lama. A crise é do país.



quinta-feira, 16 de julho de 2009

Seria engraçado se

Seria muito engraçado se descobrissem um manuscrito inédito do Maquiavel, intitulado A Princesa. E, na esteira desse achado, revelações surpreendentes. A Princesa teria sido, na verdade, a obra de estreia do escritor, na época em que ele ainda lutava para ser reconhecido no mundo das letras. Um romance lascivo e cheio de segundas intenções. Em mais de mil páginas – com ilustrações – narra as peripécias de uma jovem herdeira do trono que, graças ao seu fraco por aventuras com a criadagem, é banida da família real; uma vez entre a plebe, adota a vida desregrada com a qual sempre sonhou. O sucesso do livro foi tão estrondoso que deu ao Maquiavel o prestígio e o dinheiro que ele precisava para publicar seu tão sonhado tratado sobre ciência política. Apesar de ser esta última a obra que o eternizou, fontes relatam que, no leito de morte e já sentindo a vida se esvair, Maquiavel repetia entre sussurros para os amigos: “O outro livro é que é o bom. Dele eu não me envergonho. Já essa chatice, peço-vos que queimem todos os exemplares”. Mas os amigos, certamente traídos pela falta de lirismo, interpretaram equivocadamente a frase do moribundo e acabaram queimando a obra errada.

Agora, seria engraçado também se o bigode do Sarney fosse postiço e caísse em frente às câmeras bem no dia da renúncia. Imaginem. O senador convoca coletiva no gabinete para anunciar sua saída da presidência da Congresso. Discorda das denúncias, acha tudo descabido, mas pelo bem do Legislativo decidiu se afastar. Faz tudo com muita dignidade e pompa. Mas no ápice do discurso, lhe cai o bigode. Ouve-se de uma repórter que transmitia a coletiva ao vivo: “Atenção, atenção. Alguma coisa acaba de pular do rosto do senador, provavelmente uma taturana.” Duplamente desmascarado, na política e na estética, Sarney simplesmente abaixa a cabeça e começa a chorar. Seus guinchos cortam o coração de todos os presentes. Ele viria chorar muito mais no dia seguinte, ao descobrir que a Fundação Sarney seria fechada por irregularidades na administração e suas atividades passariam para a tutela da Fundação J. Lago.

E, finalmente, seria muito engraçado, muito mesmo, mas também seria trágico, se eu fosse ao casamento de todas as mulheres bonitas que conheço, porém sempre na condição de convidado. Aliás, é o que se desenha. Uma a uma, num terrível efeito cascata, elas vêm arranjando namorado. Sempre que aparece uma nova compromissada, tenho um amigo que sentencia: “é outra que vamos ver entrar na igreja da perspectiva de quem está sentado”. E olha que esse meu amigo dificilmente erra uma previsão. Se o destino vai ser tão bem-humorado comigo - e tudo indica que vai -, bem que poderia ser também nos dois casos hipotéticos acima. Não custaria nada, e ainda daria motivo para todo mundo rir junto, uns dos outros, o que, afinal, ainda é o melhor remédio.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Humilde sugestão para os cinemas

Hoje em dia ninguém paga inteira no cinema, a não ser, claro, eu e meu amigo Marechal Alegre. Dois notórios zé-manés, vai lembrar alguém.

A tragédia é que me falta coragem para falsificar a carteirinha de estudante. Sei que todo mundo falsifica e que ninguém nunca foi nem será preso por causa disso. Mas eu, justo eu, não dou conta. Resultado: pago inteira desde o término faculdade.

Não vejo problema em baixar música da internet, furar sinal vermelho de madrugada e fazer barulho depois das 22 horas. Mas acho desagradável cometer certos delitos. Principalmente parar em vaga reservada para deficiente ou idoso, jogar lixo na rua e falsificar a carteirinha. Fico achando que se incorrer num desses deslizes, perco o direito, por exemplo, de me revoltar com os desvios do Congresso.

Por isso tenho uma sugestão para os cinemas. Fazer uma promoção para quem paga inteira. Algo no gênero: “pague inteira e ganhe 50% de desconto”. Assim ninguém mais precisaria falsificar a carteirinha e nós pouparíamos os bons cidadãos de se desviarem do bom caminho. Seria muito cívico.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Estão ceifando a minha juventude

Sexta-feira eu estava passando de carro e vi, num bar lá perto de casa, um monte de gente fantasiada, uns de diabo, outros de anjo. "A batalha pelas nossas almas", pensei. Mas era tudo, na verdade, uma campanha do Detran para educar sobre os riscos do álcool ao volante. Que espirituoso. Aquilo me fez revisitar uma velha tese.

A tese de que estão ceifando a minha juventude. Existe um empenho das autoridades de Brasília, quase uma obsessão, em transformar a cidade na capital da ordem absoluta, onde não sobreviva o menor resquício de transgressão ou de agito. É daí que vem, por exemplo, a empulhação do álcool zero. E também a lei seca, que fecha bares e restaurantes à meia-noite em dias de semana e às 2 da madrugada no sábado. Mais: contagiados pela conduta oficial, os cidadãos adotam medidas parecidas em casa. Acham-se cobertos de razão quando reclamam com os vizinhos que ousam fazer uma reuniãozinha que ultrapasse as 22 horas. Brasília se esforça em procurar maneiras de acentuar o próprio marasmo.

Confundem ordem com pasmaceira, rigor com intolerância e, sobretudo, acham que combater o arruaceiro é o mesmo que combater aquele que se diverte. São incapazes de enxergar as nuances que diferenciam um do outro. É a lógica da inspetora de colégio: se as crianças estão se divertindo, é porque alguma estão aprontando.

Concordo que quem bebe não pode dirigir. Mas o espírito dessas incontáveis blitze que espalham suas arapucas pela cidade não é evitar acidentes de trânsito. Eles até que falam que é, mas não é, não é! (desculpem, me exaltei). O objetivo é aporrinhar quem quer - oh, pecado! - gozar um pouco de entretenimento. Se quisessem mesmo diminuir os acidentes, inventariam também uma maneira de multar quem dirige com sono, ou quem está com pressa de chegar ao trabalho, quem brigou com a namorada e, principalmente, quem carrega uma grávida em trabalho de parto no banco de trás. Dirigir sob essas condições é perigoso também.

Estou exaltado, vão perdoando. É porque, morador de Brasília, sinto que minha juventude está sendo ceifada. As autoridades querem controlar toda a minha vida. Acham que eu não posso ir a uma pizzaria às 2 da manhã, por isso fecham todas as pizzarias. Que eu não posso tomar uma taça de champanhe na casa da minha tia no aniversário dela e depois voltar dirigindo. Que eu não posso conversar debaixo do bloco com os amigos durante a madrugada. O patrulhamento é tão exagerado que mês passado fui parado em duas blitze no intervalo de cinco dias. Se eu fosse bandido, teria sido capturado duas vezes na mesma semana. Mas, que coisa, eu não sou bandido.

Se os jovens da cidade não tinham uma causa pela qual lutar, aí está ela. Vamos nos bater contra a ingerência do estado policialesco em nossas vidas. A geração passada se orgulha de ter vivido sob a ditadura, tempos de resistência e brios. Pois bem. Em mais nada ficamos a dever agora, já podemos olhar nossos pais nos olhos. Habemus anos de chumbo. Só que essa atual ditadura tem uma sutileza: ela não se importa, como antigamente, em nos privar dos direitos políticos. Sua crueldade vai além. Quer nos privar da juventude.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A mulher do retrato

Largou tudo e resolveu abrir uma barraca na praia (como nas propagandas). Deixou para trás um excelente emprego, imóveis e ações na bolsa. E um passado talvez dolorido.

Já fazia dez anos.

Na cidadezinha do litoral foi muito bem-recebido. Contratou uma cozinheira que preparava a comida da barraca. Senhora muito popular e, por extensão, fez do patrão um sujeito querido também. Ele não demorou a fazer amigos.

Ninguém sabia o motivo que tinha trazido aquele homem para um lugar tão remoto. Desconfiava-se, porém. Atrás do balcão, no alto da parede, ele tinha pendurado o retrato de uma mulher. O retrato ocupava o mesmo lugar há dez anos. Quem chegava à barraca dava de cara com a moldura. Dizia-se na cidade: "aquela foto deve explicar tudo".

Mas o dono da barraca não gostava de falar no retrato. Quando algum curioso mencionava o assunto, ele se saía com frases mais ou menos assim:

- Vento sul. Amanhã será bom para as ostras.

Quanto mistério! Quanta obscuridade! As mais loucas conjecturas iam sendo formuladas. Certo era que se tratava de um amor despedaçado. Mas despedaçado em quais circunstâncias? Trágicas? Banais? Cinematográficas? Essa dúvida é que matava.

Passaram-se os anos.

Até que um dia a mulher do retrato foi vista na praia. Fora uma ruga perto da boca e o cabelo cortado, não tinha mudado praticamente nada. Grande frisson causou aquela aparição.

A mulher caminhou em direção à barraca - não podia ser diferente. Todos os olhos a acompanhavam. Quando ela chegou ao balcão, pareceu não notar o retrato. O dono se aproximou. Disse ele:

- Pois não?

E ela:

- Eu queria um coco. Tem coco?

- Gelado ou natural?

- Gelado, se tiver.

Silêncio enquanto o homem busca o coco. As pessoas que discretamente chegaram perto para acompanhar o fatídico encontro prendem a respiração. Aguardam algo grandioso para qualquer momento.

O homem volta:

- Aqui está. São dois e cinquenta.

- Obrigada.

- Obrigado você.

A mulher dá meia-volta e vai embora. O homem fica limpando uma sujeira no balcão. A cozinheira, completamente aturdida, pergunta quase aos berros:

- Ela aparece aqui depois desses anos todos e você não faz nada?

O patrão agora removia um fiapo de coco da camisa:

- Não era ela. Era a irmã gêmea.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Um registro em meio às trevas


Por obra do imponderável e de uma reforma aqui em casa, tive que escrever meus textos à luz de velas nesta madrugada, como pode ficar comprovado na foto acima.

Se vissem passar um morcego pela minha janela, diriam: ali está Byron trabalhando.

Se ouvissem uma sequência de tosses: Álvares de Azevedo voltou da taverna.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Meio ogro, meio pássaro

A esta altura metade do planeta já deve ter assistido ao vídeo da Susan Boyle. Não é pra menos. Eu mesmo nunca vi nada mais bonito na minha vida. Quando Susan - a escosa feia, gorda, desempregada, de 47 anos e virgem - sobe ao palco, a gente fica com a impressão de que está diante de um equívoco da natureza. Mas basta ela cantar a primeira nota para nos darmos conta exatamente do contrário.

Dizem que a Demi Moore chora ao ver o vídeo. Acontece o mesmo com a minha tia Cândida. Eu ainda não cheguei a esse ponto, o que de modo algum diminui o valor da Susan.

Por que tanta gente se emociona com ela? Acho que a Susan, sem querer, nos poucos minutos de sua perfomance, escancarou três contradições chocantes:

A contradição social: por mais que a sociedade se julgue avançada e esclarecida, ainda condena os indivíduos baseada exclusivamente na aparência. Foi o que os jurados do programa e também todo o auditório perceberam na hora. Por isso ficaram entre constrangidos e maravilhados diante do que viam.

A contradição da natureza: como uma voz daquela foi parar num corpo daquele? O que passa na cabeça da entidade que determina esse tipo de coisa? Estamos à mercê de um deus traquinas?

A contradição da alma: a própria Susan demorou 47 anos para confiar no seu talento. No fundo, nem ela acreditava no que era capaz. É bem provável que se olhasse no espelho durante esses anos todos e pensasse:

- Não é possível que esta voz esteja saindo daqui.

Susan é um alento para todos que olham para o espelho com descrença. Num vídeo de cinco minutos, consegue dar sentido para milhões de vidas desesperadas. Isso a coloca quase como uma santa. E está finalmente explicado por que Susan nunca se casou e vive sozinha com um gato, o mr. Peebles: não existem homens à altura dela.

(não quero dizer com isso que mr. Peebles seja alguém exepcional)

www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo

quinta-feira, 26 de março de 2009

"Redima nosso clã"

Muita atenção para a história a seguir.

O ano era mais ou menos 1965. Tempos loucos, aqueles. Minha tia Cândida, então uma doce menininha, morava numa típica cidade do interior goiano. Ao que tudo indica era um lugar bem agradável e até mesmo próspero para os padrões da época. Chamava-se Buriti Alegre, ou coisa parecida.

Essa tia Cândida tinha um hábito: brincar no quintal da casa da avó. Ela não precisava de mais nada, completava-se brincando com suas bonecas. Era a satisfação suprema para aquela alma ingênua.

Mas infelizmente a pobrezinha não tinha sossego. Porque era só pisar os pés no quintal que o filho do vizinho resolvia alvejá-la com grãos de milho. Aquilo, segundo me disseram, machucava muito a minha tia, tanto no corpo quanto na alma. Ela chegava a chorar abraçada às bonecas. E era aí que o moleque jogava mais milho e com mais força.

Evidentemente ele estava, com todo ardor de seu coração juvenil, gostando da pequena Cândida. É que as crianças, e também os adultos, quando querem fazer uma coisa às vezes acabam fazendo outra, completamente oposta. E jogam milho em uma pessoa que, no fundo, gostariam de tratar bem.

Durou muito tempo aquela situação. Não é exagero nenhum dizer que a frágil tia Cândida viveu dias de Faixa de Gaza no quintal da avó, sempre sob intenso bombardeio. Os adultos preferiam não interferir naquilo que eles, com toda sua vivência, sabiam ser nada mais que parte do jogo social entre duas criaturas recém-inseridas no complexo mundo. A avó de Cândida, quando a cena toda começava, limitava-se a dizer apenas:

- Esse Lubinho é um garoto encapetado!

Minha tia nunca correspondeu às investidas de seu pretendente, ao contrário, começou a andar com um outro rapazinho muito mais sensível e que, tão logo soube daquela situação, lhe deu de presente um guarda-chuva. Cessaram os grãos de milho.

O curioso é que Lubinho ficou famoso anos mais tarde, já sob seu verdadeiro nome, que é Delúbio Soares. Todos sabemos o quanto ele desempenhou um papel central na política brasileira recentemente. Mas agora ficou mais fácil de entender alguns de seus atos menos probos e até mesmo de perdoá-lo. Porque não é fácil ser rejeitado da forma como ele foi logo no primeiro amor. Por mais que a gente tente esquecer, são feridas que nos atormentam para sempre, e nos levam a atitudes que, não fosse a profunda desventura, nunca cometeríamos.

O leitor tem, portanto, todo direito de imputar à minha família uma parcela da culpa pela recente derrocada da política brasileira. É um fardo que cabe ao meu DNA carregar. A própria tia Cândida, ela mesma uma grande patriota, não se conforma com o mal que fez ao país e toma remédio para os nervos toda noite.

Até outro dia eu não conhecia esta história. Ela me foi contada por um parente centenário, no seu leito de morte. Ele ficou sabendo que eu tinha um blog e pensou que revelar a verdade para o grande público seria uma maneira de aliviar um pouco o estrago que a família causou. Disse-me o moribundo:

- Redima nosso clã.

Então assumi o compromisso de relatar aqui o caso tal qual ele me foi dito. E prometi que meus filhos fariam o mesmo quando eles tivessem um blog, e também os filhos deles, e os filhos dos filhos deles. É o mínimo que podemos oferecer para nos reconciliar com a pátria.

Perdão, Brasil.

P.S.: o parente centenário que me contou tudo isso no leito de morte milagrosamente curou-se da doença. Foi uma felicidade geral e um tapa na medicina, que já o supunha entre os defuntos. Na última festa de família ele me chamou num canto e disse que a história, na verdade, foi toda inventada, fruto de sua imaginação brincalhona e de um antibiótico meio estranho que o médico lhe dera no hospital. Mas era uma trama tão boa que eu não podia simplesmente descartá-la. E, além do mais, a vida não é feita só daquilo que de fato aconteceu; mas, principalmente, do que poderia ter acontecido.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Um pequeno (mas valoroso) conto de terror

Duas sextas-feiras 13 consecutivas, uma em fevereiro, outra em março... Que coisa sinistra. Algo de muito sombrio se passa com o mundo. Isso me faz lembrar uma situação que aconteceu comigo no ano passado:

Eu tinha acabado de acordar, era uma manhã como outra qualquer. Mas assim que cheguei ao banheiro, para as abluções matinais, dei de cara com o sobrenatural: no espelho estava escrito, em letras grandes e escarlates: "É HOJE"

Meu Deus! - eu pensei. É hoje o quê? O dia de minha morte? E eu nem tenho um epitáfio ainda! Não vai dar tempo de me despedir de todas as pessoas que eu conheço - apesar de não conhecer muitas. E os filhos que eu não tive? A esposa que nunca amei? O Flamengo que não vi ganhar título importante? Etc.,etc.,etc.

Então comecei a relembrar toda minha vida. Fiquei realmente atordoado. Saí de casa para o trabalho prestando atenção em cada pessoa e em cada canto escuro, porque, afinal, "é hoje". A qualquer momento poderia acontecer alguma coisa.

Foi um dia difícil. Mas lá pelas tantas eu pensei: " e se hoje for, na verdade, o meu dia de sorte? O dia que vai transformar minha vida normal numa existência brilhante? Talvez seja esse o recado do espelho". Resolvi jogar no bicho. Apostei no peru. Fiquei sabendo semanas depois que tinha dado borboleta - o extremo oposto.

E também não custava nada deixar uma mensagem na caixa-postal de metade das colegas do escritório. "É hoje".

Mas o dia já estava terminando e nada de surpreendente tinha acontecido. Emoção reservada para as últimas horas, eu já deveria saber. Na volta para casa fui a pé, para respirar melhor o ar da noite. Houvesse o que eu houvesse, eu precisava estar preparado.

Sentei na cama e esperei o destino se revelar diante de mim. Longas horas. No fundo eu esperava que caísse um raio na cozinha ou que alguém rompesse a porta e entrasse no apartamento trazendo a boa nova. Sabe-se lá os métodos de que se vale o sobrenatural.

Deu a meia-noite. E nada do grande fato aparecer.

Na manhã seguinte, quando acordei, fui para o banheiro. No mesmo espelho e com as mesmas letras escarlates da véspera, agora aparecia escrito, para meu completo desespero:

"FOI ONTEM".

terça-feira, 3 de março de 2009

Curiosidades

Fato era uma cidade do antigo império romano, distante da capital não mais de 500 milhas, muito famosa pelas suas excelentes estradas. Não havia em todo o mundo conhecido vias tão largas e bem pavimentadas como aquelas. Por isso, todo viajante fazia questão de dirigir sua biga por Fato. O único problema era que o caminho até as estradas da cidade era bastante complicado. E as pessoas ficavam tão nervosas quando não conseguiam chegar ao destino que acabavam brigando feio umas com as outras. Era cena comum naquela época ver um pedestre tentando acalmar discussões ferozes entre dois viajantes:

- Aonde vocês querem chegar com isso?

- Às vias de Fato.

A expressão acabou pegando e nós a usamos até os dias de hoje.

Outra expressão curiosa que herdamos da antiguidade remonta à cidade grega de Esparta. Lá, por volta de 342 A.C., morava um fabricante de instrumentos musicais conhecido como Falópio. Era um senhor muito bondoso - como geralmente são aqueles ligados à música -, que ajudava as mães desesperadas a evitar que seus bebezinhos fossem descartados no abismo dos enjeitados. Sabemos que em Esparta os recém-nascidos considerados não aptos para servir à nação eram jogados fora. Mas esse bom senhor escondia os bebês dentro dos instrumentos de sua fábrica, longe dos olhos das autoridades, e cuidava deles até que tivessem idade para voltar para casa. Não raro, na Esparta daquela época, uma senhora respeitável perguntava para outra:

- De onde saiu o seu filho?

- Das trompas de Falópio.

domingo, 1 de março de 2009

Reflexões

Tive um carnaval inquietante do ponto de vista intelectual. Questões seríssimas passaram pela minha cabeça, como, por exemplo, a importância do Lula ter jogado camisinhas para os súditos na Sapucaí. Ali o Brasil adicionou um terceiro elemento - não sei bem qual - ao antigo binômio pão e circo, criando assim as bases em que deve se sustentar a política no século XXI. Ser brasileiro, atualmente, é andar na vanguarda da História.

Mas isso não foi o que mais me impressionou. Calou fundo em minh'alma uma conversa que tive com um bom amigo enquanto víamos as escolas de samba se sucederem na tv. Falávamos do fim do mundo, evento que, pela sua proximidade, tem nos assustado bastante. Eis o que dissemos:

- Vai salame?

- Não, valeu. Eu quero aquele queijo kozlowski. Você não para de falar nele.

- Kozlowski é a moça que tá narrando o desfile. Queijo só tem minas.

Opa! Perdão a todos, selecionaram o trecho errado da conversa. Foi o meu estagiário. Já pensei em demitir o rapaz, mas com essa crise solapando a economia não pegaria bem. Ia parecer anti-patriótico.

Agora sim, a parte certa:

- Rapaz, o mundo está acabando. Disso eu não tenho mais dúvidas. A camada de ozônio, o efeito estufa, o aquecimento global, o derretimento das geleiras...

- É verdade. Mas sabe o que seria pior? Se o mundo se tornasse um local completamente inóspito, desagradável, feio, mas não acabasse por completo. Restariam só as ruínas do que um dia foi o planeta, só a carcaça, entende? A humanidade teria que se acostumar a habitar um deserto pós-apocalipse. Imagine, rapaz!

- Taí. Acho que num primeiro momento é isso o que vai acontecer. Outro dia eu tava lendo num livro que a temperatura na Terra vai ficar tão quente e os raios solares tão intensos que a humanidade vai ter que passar a viver em cavernas durante o dia, para se proteger. A gente se tornaria seres de hábitos noturnos, tipo as toupeiras.

- Claro, é isso mesmo. E com o tempo nossas características físicas iriam sofrer profundas modificações. Por exemplo, nossos olhos se acostumariam a enxergar na escuridão, mas ficariam completamente cegos na claridade.

- E ninguém mais teria aquela marca branca deixada pela sunga ou pelo biquini, porque nossa pele se tornaria extremamente pálida sem o contato com a luz do dia.

- Que coisa!

- E as pessoas, quando quiserem se referir a alguém muito velho, dirão: "fulano é da época do glúteo branco". Não é assustador?

- Muito.

No meio dessas reflexões, começou o desfile do Salgueiro. Notamos que a Viviane Araújo não apresentava marcas de biquini. Teria o fim do mundo já começado pelos lados do Rio de Janeiro? É o que tudo indica.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Lições de carnaval

Não é por ser carnaval que qualquer cantada barata vai surtir efeito. Vejamos, por exemplo, o seguinte caso:

"Ala-la-ôo ôo ôo ôo ô, mas que calor ôo ôo ôo ôo ô...."

- Sabia que você fica excelente nessa fantasia de doninha?

- Quê? Fala mais alto!

- Você fica excelente nessa fantasia de doninha.

- Não é de doninha. É da Dilma.

- Não importa. Você fica excelente nela.

- Como não importa? Você elogia a minha fantasia, mas nem sabe do que estou vestida? Que papinho picareta!

- Calma, calma, não é isso. É que pelo ângulo que eu olhei... e essa luz também não ajuda... ainda mais com meu tapa-olho de pirata. Bom, pareceu uma doninha.

- Sabe por que você não reparou direito na fantasia? Porque você não está nem aí pra ela. Pra homens como você pouco importa se eu estou fantasiada disso ou daquilo. Vocês querem é me ver sem fantasia nenhuma! É isso! E me vem com historinha de " fica excelente desse jeito, fica linda vestida assim, pá, pá, pá..." Faça-me o favor!

"Ala-la-ôo ôo ôo ôo ô, mas que calor ôo ôo ôo ôo ô...."

Duas horas depois:

- Moça, peraí! Eu estive observando durante a festa toda. Por que os bigodes e o rabo na sua fantasia? Que eu saiba a Dilm....

"Bebeu água? Tá com sede? Olha, olha, olha a água mineral..."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Notícias do château

Acho que mais de uma vez já expus aqui minha proximidade afetiva com a Idade Média. Princesas, masmorras, dragões, duelos, essas belezas todas. Portanto, não vai causar espanto a carta que um colega do clube dos duzentistas me remeteu outro dia. Diz ele:

" Caro confrade, boas notícias! Acredita que consegui um emprego? Por si só já era fato de se comemorar, porque com essa crise financeira é mais fácil perder o trabalho do que arranjar um. Mas a minha sorte vai além. Pasme: fui contratado para servir num castelo! Inacreditável, não? Um castelo como nos bons tempos do medievo, com suas várias torres e aléias, masmorras, pátios, ponte elevadiça, passagens secretas, arqueiros nas muradas, etc. Tem inclusive um corcunda responsável por repicar os sinos de hora em hora. Parece o século XIII - é tudo com o que nosso clube dos duzentistas sempre sonhou. E eu nem sabia que havia castelos no Brasil. Se houve alguém com bom gosto o bastante para erguer uma maravilha dessas, acredite, há esperanças para o nosso tempo.

A minha função aqui não poderia ser mais nobre. Ocupo o cargo de bobo da corte. Quando vesti a fantasia pela primeira vez e me olhei no espelho mal pude conter as lágrimas. Aposto que não estava devendo em nada para os melhores bobos dos salões de Pepino, o Breve. É verdade que nem preciso me esforçar muito no trabalho. O patrão ri o tempo todo, mesmo das piadas sem graça. Ele ri para as paredes, ri quando almoça, ri quando está dormindo. Não sei de onde vem tanto contentamento. É um sujeito muito alegre, além de visionário. Outro dia, quando nos encontramos na travessa do corredor Renoir com a Alameda da Vinci, perguntei o que ele achava do mercado de bobos da corte no Brasil. O patrão respondeu que nunca viu um país com uma mão-de-obra tão qualificada nesse setor. E que eu era um dos mais promissores da classe. Homem divertido e visionário, como eu disse. Despediu-se com uma de suas eternas risadas.

Só lamento que o castelo tenha sido colocado à venda.É uma pena, porque um proprietário como o atual vai ser difícil de encontrar. Homens da estirpe dele são raros no mundo, quanto mais no Brasil. Lordes, meu amigo, lordes. Se nosso país tivesse uma meia dúzia de cavalheiros assim, estaríamos em outra situação - tanto culturalmente quanto socialmente. Escreva o que estou dizendo: você ainda vai ouvir falar no patrão, ah vai.

Saudações de seu confrade,

o Bobo"

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Icebergs

No final de semana assisti ao "Foi apenas um sonho", o filme que reuniu o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet doze anos depois de Titanic. Gostei do que vi e fico sem entender por que não o indicaram ao Oscar. (É melhor que "o Curioso caso de Benjamin Button", por exemplo). Mas talvez minha opinião seja um pouco passional. É que já fui ao cinema predisposto a gostar do filme. Eu tinha a impressão de que ele refletiria literalmente os meus pensamentos sobre um tema que vira e mexe discuto em rodas acaloradas: o casamento. Impressão mais que confirmada.

Está tudo ali, no "foi apenas um sonho". Não perco mais tempo tentando convencer quem quer que seja das minhas posições sobre a vida conjugal. Vou carregar um dvd do filme e, provocado, direi apenas:

- Assista.

Alguém pode achar que o casal do filme é problemático demais e não serve de parâmetro para análise. Mas no fundo todo casamento carrega em si um certo nível de decadência - uns muito, outros menos, depende do caso. Quantas pessoas não conhecemos que enquanto solteiras são divertidas, dispostas, aventureiras e depois que casam perdem, digamos, a graça? Gente que tinha sonhos, mil planos na cabeça e, de uma hora para outra, se conforma com a vida como ela é? Há casais que fingem não perceber que a união conjugal poda as potencialidades de cada um - esses são os felizes, ao menos na aparência, e são representados no filme pelos vizinhos dos protagonistas. Outros, como os personagens de DICaprio e Winslet, não suportam a mediocridade em que se veem e explodem, a ponto de tomarem nojo um do outro.

O mais assustador do filme é que tanto marido quanto mulher, na juventude, se achavam especiais, dotados de talentos artísticos e donos de um futuro brilhante; e pouco a pouco percebem que são tão ordinários quanto os vizinhos ou os colegas do trabalho, gente sem graça. Isso provavelmente vai acontecer com a maioria de nós. Aí entra outro ponto que sempre me incomodou: a minha mediocridade eu posso até aguentar sozinho, mas dividi-la com outra pessoa deve ser insuportável.

E talvez tenha sido uma ironia proposital chamar exatamente o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet para fazer o casal em crise. Justo eles que passaram para a história do cinema com seu amor juvenil e inabalável em Titanic. Naquela ocasião, os personagens se inclinavam na proa do navio para encarar o Atlântico de frente e se auto-proclamarem os donos do mundo. Em "Foi apenas um sonho", a euforia dá lugar à desilusão. Em comum, os dois filmes têm um iceberg que se interpõe entre os amantes e a felicidade eterna. No primeiro, o iceberg é real, feito de gelo. No segundo, é uma invenção meio insana das pessoas e atende pelo nome de matrimônio.

sábado, 10 de janeiro de 2009

A filosofia do 'senta e rema'.

Vou abrir os trabalhos do ano compartilhando um ensinamento aqui no site. Palavras de luz e sabedoria que vão mudar o seu modo de encarar a vida. É a minha mui humilde contribuição para 2009.

Conta a lenda que um dia um jovem rapaz chegou para a sua primeira aula de caiaque. Ele estava, naturalmente, nervoso, como todos nós costumamos ficar quando vamos fazer alguma coisa pela primeira vez. Afligiam a cabeça do mancebo questões do tipo: será que vou dar conta? eu posso virar o barco! eu posso me afogar! eu posso perder a direção e bater no caiaque de outro aluno! ou pior, perder a direção e bater no caiaque de uma aluna! etc, etc, etc.

Foi nesse estado mental que ele se apresentou ao professor. O mestre, que era um chinês (logo se verá que não por acaso), empurrou tranquilamente o caiaque na direção do rapaz. Este, mal disfarçando a aflição, perguntou:

- Como eu faço?

Ao que o professor respondeu:

- Senta e rema.

Uma luz iluminou a mente do jovem, de dentro para fora e também de fora para dentro. De repente, tudo o que parecia nebuloso e difuso em sua vida tornou-se claro como a água sob o casco do seu caiaque. O impossível já não assustava. E o monstro, que era viver, poderia ser vencido. Dali em diante, o rapaz, que transformou o 'Senta e Rema' no seu Pai Nosso, nunca mais se perguntou: "o que eu faço agora?"

E você, leitor, continua perdendo tempo com obstáculos criados pela mente, amarras impostas por você mesmo? Aceite de presente o 'Senta e Rema". Não precisa agradecer. Verá como ele se aplica a todas as situações da vida.

- Mãe, estou grávida.

- Senta e rema. ( O que significa o seguinte: então aguarde nove meses e evite os bailes funk. Até lá, procure comprar um berço e não se esqueça do pré-natal. Fazer o quê?)

Ou ainda:

- Não-sei-quem não me ama.

- Senta e rema.

Ou:

- Preciso tomar jeito na vida.

- Senta e Rema.

E finalmente:

- Será que.. Não sei se... E se... Talvez seja melhor....

- Senta e rema, dirá o sábio.

O 'Senta e Rema' é a carta de alforria do cidadão moderno. Ou melhor, carta de euforia. A vida encarada sem complicações, culpas, ou medos.

Agora voltando ao rapaz da aula de caiaque. Naquele dia ele entrou na água repleto de confiança, cheio de poder e auto-estima. Nada poderia detê-lo, nem mesmo o próprio Netuno e suas artimanhas marinhas. Por isso mesmo ele ficou inconsolável quando virou o caiaque logo no primeiro minuto. E mais ainda quando não conseguiu desvirá-lo e teve que testemunhar, lentamente, o naufrágio da embarcação. Os demais alunos, que singravam o lago em plena harmonia com seus caiaques, como se formassem uma unidade com o equipamento, centauros das águas, olhavam com desprezo para aquela vergonha náutica.

Derrotado, humilhado, ofendido no orgulho, o jovem voltou à margem, onde encontrou o professor chinês colhendo peônias. Coberto de tristeza, perguntou ao mestre:

- E agora?!

Já sabemos qual foi a resposta.


P.S.: uma observação linguística. Na verdade o mestre chinês dizia "Senta e Lema", mas para não prejudicar o entendimento global de tão sutil filosofia preferimos adotar a grafia em português original. Nada tendo esse fato a ver com o novo acordo ortográfico. N. do T.