quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Lições de carnaval

Não é por ser carnaval que qualquer cantada barata vai surtir efeito. Vejamos, por exemplo, o seguinte caso:

"Ala-la-ôo ôo ôo ôo ô, mas que calor ôo ôo ôo ôo ô...."

- Sabia que você fica excelente nessa fantasia de doninha?

- Quê? Fala mais alto!

- Você fica excelente nessa fantasia de doninha.

- Não é de doninha. É da Dilma.

- Não importa. Você fica excelente nela.

- Como não importa? Você elogia a minha fantasia, mas nem sabe do que estou vestida? Que papinho picareta!

- Calma, calma, não é isso. É que pelo ângulo que eu olhei... e essa luz também não ajuda... ainda mais com meu tapa-olho de pirata. Bom, pareceu uma doninha.

- Sabe por que você não reparou direito na fantasia? Porque você não está nem aí pra ela. Pra homens como você pouco importa se eu estou fantasiada disso ou daquilo. Vocês querem é me ver sem fantasia nenhuma! É isso! E me vem com historinha de " fica excelente desse jeito, fica linda vestida assim, pá, pá, pá..." Faça-me o favor!

"Ala-la-ôo ôo ôo ôo ô, mas que calor ôo ôo ôo ôo ô...."

Duas horas depois:

- Moça, peraí! Eu estive observando durante a festa toda. Por que os bigodes e o rabo na sua fantasia? Que eu saiba a Dilm....

"Bebeu água? Tá com sede? Olha, olha, olha a água mineral..."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Notícias do château

Acho que mais de uma vez já expus aqui minha proximidade afetiva com a Idade Média. Princesas, masmorras, dragões, duelos, essas belezas todas. Portanto, não vai causar espanto a carta que um colega do clube dos duzentistas me remeteu outro dia. Diz ele:

" Caro confrade, boas notícias! Acredita que consegui um emprego? Por si só já era fato de se comemorar, porque com essa crise financeira é mais fácil perder o trabalho do que arranjar um. Mas a minha sorte vai além. Pasme: fui contratado para servir num castelo! Inacreditável, não? Um castelo como nos bons tempos do medievo, com suas várias torres e aléias, masmorras, pátios, ponte elevadiça, passagens secretas, arqueiros nas muradas, etc. Tem inclusive um corcunda responsável por repicar os sinos de hora em hora. Parece o século XIII - é tudo com o que nosso clube dos duzentistas sempre sonhou. E eu nem sabia que havia castelos no Brasil. Se houve alguém com bom gosto o bastante para erguer uma maravilha dessas, acredite, há esperanças para o nosso tempo.

A minha função aqui não poderia ser mais nobre. Ocupo o cargo de bobo da corte. Quando vesti a fantasia pela primeira vez e me olhei no espelho mal pude conter as lágrimas. Aposto que não estava devendo em nada para os melhores bobos dos salões de Pepino, o Breve. É verdade que nem preciso me esforçar muito no trabalho. O patrão ri o tempo todo, mesmo das piadas sem graça. Ele ri para as paredes, ri quando almoça, ri quando está dormindo. Não sei de onde vem tanto contentamento. É um sujeito muito alegre, além de visionário. Outro dia, quando nos encontramos na travessa do corredor Renoir com a Alameda da Vinci, perguntei o que ele achava do mercado de bobos da corte no Brasil. O patrão respondeu que nunca viu um país com uma mão-de-obra tão qualificada nesse setor. E que eu era um dos mais promissores da classe. Homem divertido e visionário, como eu disse. Despediu-se com uma de suas eternas risadas.

Só lamento que o castelo tenha sido colocado à venda.É uma pena, porque um proprietário como o atual vai ser difícil de encontrar. Homens da estirpe dele são raros no mundo, quanto mais no Brasil. Lordes, meu amigo, lordes. Se nosso país tivesse uma meia dúzia de cavalheiros assim, estaríamos em outra situação - tanto culturalmente quanto socialmente. Escreva o que estou dizendo: você ainda vai ouvir falar no patrão, ah vai.

Saudações de seu confrade,

o Bobo"

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Icebergs

No final de semana assisti ao "Foi apenas um sonho", o filme que reuniu o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet doze anos depois de Titanic. Gostei do que vi e fico sem entender por que não o indicaram ao Oscar. (É melhor que "o Curioso caso de Benjamin Button", por exemplo). Mas talvez minha opinião seja um pouco passional. É que já fui ao cinema predisposto a gostar do filme. Eu tinha a impressão de que ele refletiria literalmente os meus pensamentos sobre um tema que vira e mexe discuto em rodas acaloradas: o casamento. Impressão mais que confirmada.

Está tudo ali, no "foi apenas um sonho". Não perco mais tempo tentando convencer quem quer que seja das minhas posições sobre a vida conjugal. Vou carregar um dvd do filme e, provocado, direi apenas:

- Assista.

Alguém pode achar que o casal do filme é problemático demais e não serve de parâmetro para análise. Mas no fundo todo casamento carrega em si um certo nível de decadência - uns muito, outros menos, depende do caso. Quantas pessoas não conhecemos que enquanto solteiras são divertidas, dispostas, aventureiras e depois que casam perdem, digamos, a graça? Gente que tinha sonhos, mil planos na cabeça e, de uma hora para outra, se conforma com a vida como ela é? Há casais que fingem não perceber que a união conjugal poda as potencialidades de cada um - esses são os felizes, ao menos na aparência, e são representados no filme pelos vizinhos dos protagonistas. Outros, como os personagens de DICaprio e Winslet, não suportam a mediocridade em que se veem e explodem, a ponto de tomarem nojo um do outro.

O mais assustador do filme é que tanto marido quanto mulher, na juventude, se achavam especiais, dotados de talentos artísticos e donos de um futuro brilhante; e pouco a pouco percebem que são tão ordinários quanto os vizinhos ou os colegas do trabalho, gente sem graça. Isso provavelmente vai acontecer com a maioria de nós. Aí entra outro ponto que sempre me incomodou: a minha mediocridade eu posso até aguentar sozinho, mas dividi-la com outra pessoa deve ser insuportável.

E talvez tenha sido uma ironia proposital chamar exatamente o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet para fazer o casal em crise. Justo eles que passaram para a história do cinema com seu amor juvenil e inabalável em Titanic. Naquela ocasião, os personagens se inclinavam na proa do navio para encarar o Atlântico de frente e se auto-proclamarem os donos do mundo. Em "Foi apenas um sonho", a euforia dá lugar à desilusão. Em comum, os dois filmes têm um iceberg que se interpõe entre os amantes e a felicidade eterna. No primeiro, o iceberg é real, feito de gelo. No segundo, é uma invenção meio insana das pessoas e atende pelo nome de matrimônio.