quinta-feira, 26 de março de 2009

"Redima nosso clã"

Muita atenção para a história a seguir.

O ano era mais ou menos 1965. Tempos loucos, aqueles. Minha tia Cândida, então uma doce menininha, morava numa típica cidade do interior goiano. Ao que tudo indica era um lugar bem agradável e até mesmo próspero para os padrões da época. Chamava-se Buriti Alegre, ou coisa parecida.

Essa tia Cândida tinha um hábito: brincar no quintal da casa da avó. Ela não precisava de mais nada, completava-se brincando com suas bonecas. Era a satisfação suprema para aquela alma ingênua.

Mas infelizmente a pobrezinha não tinha sossego. Porque era só pisar os pés no quintal que o filho do vizinho resolvia alvejá-la com grãos de milho. Aquilo, segundo me disseram, machucava muito a minha tia, tanto no corpo quanto na alma. Ela chegava a chorar abraçada às bonecas. E era aí que o moleque jogava mais milho e com mais força.

Evidentemente ele estava, com todo ardor de seu coração juvenil, gostando da pequena Cândida. É que as crianças, e também os adultos, quando querem fazer uma coisa às vezes acabam fazendo outra, completamente oposta. E jogam milho em uma pessoa que, no fundo, gostariam de tratar bem.

Durou muito tempo aquela situação. Não é exagero nenhum dizer que a frágil tia Cândida viveu dias de Faixa de Gaza no quintal da avó, sempre sob intenso bombardeio. Os adultos preferiam não interferir naquilo que eles, com toda sua vivência, sabiam ser nada mais que parte do jogo social entre duas criaturas recém-inseridas no complexo mundo. A avó de Cândida, quando a cena toda começava, limitava-se a dizer apenas:

- Esse Lubinho é um garoto encapetado!

Minha tia nunca correspondeu às investidas de seu pretendente, ao contrário, começou a andar com um outro rapazinho muito mais sensível e que, tão logo soube daquela situação, lhe deu de presente um guarda-chuva. Cessaram os grãos de milho.

O curioso é que Lubinho ficou famoso anos mais tarde, já sob seu verdadeiro nome, que é Delúbio Soares. Todos sabemos o quanto ele desempenhou um papel central na política brasileira recentemente. Mas agora ficou mais fácil de entender alguns de seus atos menos probos e até mesmo de perdoá-lo. Porque não é fácil ser rejeitado da forma como ele foi logo no primeiro amor. Por mais que a gente tente esquecer, são feridas que nos atormentam para sempre, e nos levam a atitudes que, não fosse a profunda desventura, nunca cometeríamos.

O leitor tem, portanto, todo direito de imputar à minha família uma parcela da culpa pela recente derrocada da política brasileira. É um fardo que cabe ao meu DNA carregar. A própria tia Cândida, ela mesma uma grande patriota, não se conforma com o mal que fez ao país e toma remédio para os nervos toda noite.

Até outro dia eu não conhecia esta história. Ela me foi contada por um parente centenário, no seu leito de morte. Ele ficou sabendo que eu tinha um blog e pensou que revelar a verdade para o grande público seria uma maneira de aliviar um pouco o estrago que a família causou. Disse-me o moribundo:

- Redima nosso clã.

Então assumi o compromisso de relatar aqui o caso tal qual ele me foi dito. E prometi que meus filhos fariam o mesmo quando eles tivessem um blog, e também os filhos deles, e os filhos dos filhos deles. É o mínimo que podemos oferecer para nos reconciliar com a pátria.

Perdão, Brasil.

P.S.: o parente centenário que me contou tudo isso no leito de morte milagrosamente curou-se da doença. Foi uma felicidade geral e um tapa na medicina, que já o supunha entre os defuntos. Na última festa de família ele me chamou num canto e disse que a história, na verdade, foi toda inventada, fruto de sua imaginação brincalhona e de um antibiótico meio estranho que o médico lhe dera no hospital. Mas era uma trama tão boa que eu não podia simplesmente descartá-la. E, além do mais, a vida não é feita só daquilo que de fato aconteceu; mas, principalmente, do que poderia ter acontecido.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Um pequeno (mas valoroso) conto de terror

Duas sextas-feiras 13 consecutivas, uma em fevereiro, outra em março... Que coisa sinistra. Algo de muito sombrio se passa com o mundo. Isso me faz lembrar uma situação que aconteceu comigo no ano passado:

Eu tinha acabado de acordar, era uma manhã como outra qualquer. Mas assim que cheguei ao banheiro, para as abluções matinais, dei de cara com o sobrenatural: no espelho estava escrito, em letras grandes e escarlates: "É HOJE"

Meu Deus! - eu pensei. É hoje o quê? O dia de minha morte? E eu nem tenho um epitáfio ainda! Não vai dar tempo de me despedir de todas as pessoas que eu conheço - apesar de não conhecer muitas. E os filhos que eu não tive? A esposa que nunca amei? O Flamengo que não vi ganhar título importante? Etc.,etc.,etc.

Então comecei a relembrar toda minha vida. Fiquei realmente atordoado. Saí de casa para o trabalho prestando atenção em cada pessoa e em cada canto escuro, porque, afinal, "é hoje". A qualquer momento poderia acontecer alguma coisa.

Foi um dia difícil. Mas lá pelas tantas eu pensei: " e se hoje for, na verdade, o meu dia de sorte? O dia que vai transformar minha vida normal numa existência brilhante? Talvez seja esse o recado do espelho". Resolvi jogar no bicho. Apostei no peru. Fiquei sabendo semanas depois que tinha dado borboleta - o extremo oposto.

E também não custava nada deixar uma mensagem na caixa-postal de metade das colegas do escritório. "É hoje".

Mas o dia já estava terminando e nada de surpreendente tinha acontecido. Emoção reservada para as últimas horas, eu já deveria saber. Na volta para casa fui a pé, para respirar melhor o ar da noite. Houvesse o que eu houvesse, eu precisava estar preparado.

Sentei na cama e esperei o destino se revelar diante de mim. Longas horas. No fundo eu esperava que caísse um raio na cozinha ou que alguém rompesse a porta e entrasse no apartamento trazendo a boa nova. Sabe-se lá os métodos de que se vale o sobrenatural.

Deu a meia-noite. E nada do grande fato aparecer.

Na manhã seguinte, quando acordei, fui para o banheiro. No mesmo espelho e com as mesmas letras escarlates da véspera, agora aparecia escrito, para meu completo desespero:

"FOI ONTEM".

terça-feira, 3 de março de 2009

Curiosidades

Fato era uma cidade do antigo império romano, distante da capital não mais de 500 milhas, muito famosa pelas suas excelentes estradas. Não havia em todo o mundo conhecido vias tão largas e bem pavimentadas como aquelas. Por isso, todo viajante fazia questão de dirigir sua biga por Fato. O único problema era que o caminho até as estradas da cidade era bastante complicado. E as pessoas ficavam tão nervosas quando não conseguiam chegar ao destino que acabavam brigando feio umas com as outras. Era cena comum naquela época ver um pedestre tentando acalmar discussões ferozes entre dois viajantes:

- Aonde vocês querem chegar com isso?

- Às vias de Fato.

A expressão acabou pegando e nós a usamos até os dias de hoje.

Outra expressão curiosa que herdamos da antiguidade remonta à cidade grega de Esparta. Lá, por volta de 342 A.C., morava um fabricante de instrumentos musicais conhecido como Falópio. Era um senhor muito bondoso - como geralmente são aqueles ligados à música -, que ajudava as mães desesperadas a evitar que seus bebezinhos fossem descartados no abismo dos enjeitados. Sabemos que em Esparta os recém-nascidos considerados não aptos para servir à nação eram jogados fora. Mas esse bom senhor escondia os bebês dentro dos instrumentos de sua fábrica, longe dos olhos das autoridades, e cuidava deles até que tivessem idade para voltar para casa. Não raro, na Esparta daquela época, uma senhora respeitável perguntava para outra:

- De onde saiu o seu filho?

- Das trompas de Falópio.

domingo, 1 de março de 2009

Reflexões

Tive um carnaval inquietante do ponto de vista intelectual. Questões seríssimas passaram pela minha cabeça, como, por exemplo, a importância do Lula ter jogado camisinhas para os súditos na Sapucaí. Ali o Brasil adicionou um terceiro elemento - não sei bem qual - ao antigo binômio pão e circo, criando assim as bases em que deve se sustentar a política no século XXI. Ser brasileiro, atualmente, é andar na vanguarda da História.

Mas isso não foi o que mais me impressionou. Calou fundo em minh'alma uma conversa que tive com um bom amigo enquanto víamos as escolas de samba se sucederem na tv. Falávamos do fim do mundo, evento que, pela sua proximidade, tem nos assustado bastante. Eis o que dissemos:

- Vai salame?

- Não, valeu. Eu quero aquele queijo kozlowski. Você não para de falar nele.

- Kozlowski é a moça que tá narrando o desfile. Queijo só tem minas.

Opa! Perdão a todos, selecionaram o trecho errado da conversa. Foi o meu estagiário. Já pensei em demitir o rapaz, mas com essa crise solapando a economia não pegaria bem. Ia parecer anti-patriótico.

Agora sim, a parte certa:

- Rapaz, o mundo está acabando. Disso eu não tenho mais dúvidas. A camada de ozônio, o efeito estufa, o aquecimento global, o derretimento das geleiras...

- É verdade. Mas sabe o que seria pior? Se o mundo se tornasse um local completamente inóspito, desagradável, feio, mas não acabasse por completo. Restariam só as ruínas do que um dia foi o planeta, só a carcaça, entende? A humanidade teria que se acostumar a habitar um deserto pós-apocalipse. Imagine, rapaz!

- Taí. Acho que num primeiro momento é isso o que vai acontecer. Outro dia eu tava lendo num livro que a temperatura na Terra vai ficar tão quente e os raios solares tão intensos que a humanidade vai ter que passar a viver em cavernas durante o dia, para se proteger. A gente se tornaria seres de hábitos noturnos, tipo as toupeiras.

- Claro, é isso mesmo. E com o tempo nossas características físicas iriam sofrer profundas modificações. Por exemplo, nossos olhos se acostumariam a enxergar na escuridão, mas ficariam completamente cegos na claridade.

- E ninguém mais teria aquela marca branca deixada pela sunga ou pelo biquini, porque nossa pele se tornaria extremamente pálida sem o contato com a luz do dia.

- Que coisa!

- E as pessoas, quando quiserem se referir a alguém muito velho, dirão: "fulano é da época do glúteo branco". Não é assustador?

- Muito.

No meio dessas reflexões, começou o desfile do Salgueiro. Notamos que a Viviane Araújo não apresentava marcas de biquini. Teria o fim do mundo já começado pelos lados do Rio de Janeiro? É o que tudo indica.