quarta-feira, 22 de abril de 2009

Um registro em meio às trevas


Por obra do imponderável e de uma reforma aqui em casa, tive que escrever meus textos à luz de velas nesta madrugada, como pode ficar comprovado na foto acima.

Se vissem passar um morcego pela minha janela, diriam: ali está Byron trabalhando.

Se ouvissem uma sequência de tosses: Álvares de Azevedo voltou da taverna.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Meio ogro, meio pássaro

A esta altura metade do planeta já deve ter assistido ao vídeo da Susan Boyle. Não é pra menos. Eu mesmo nunca vi nada mais bonito na minha vida. Quando Susan - a escosa feia, gorda, desempregada, de 47 anos e virgem - sobe ao palco, a gente fica com a impressão de que está diante de um equívoco da natureza. Mas basta ela cantar a primeira nota para nos darmos conta exatamente do contrário.

Dizem que a Demi Moore chora ao ver o vídeo. Acontece o mesmo com a minha tia Cândida. Eu ainda não cheguei a esse ponto, o que de modo algum diminui o valor da Susan.

Por que tanta gente se emociona com ela? Acho que a Susan, sem querer, nos poucos minutos de sua perfomance, escancarou três contradições chocantes:

A contradição social: por mais que a sociedade se julgue avançada e esclarecida, ainda condena os indivíduos baseada exclusivamente na aparência. Foi o que os jurados do programa e também todo o auditório perceberam na hora. Por isso ficaram entre constrangidos e maravilhados diante do que viam.

A contradição da natureza: como uma voz daquela foi parar num corpo daquele? O que passa na cabeça da entidade que determina esse tipo de coisa? Estamos à mercê de um deus traquinas?

A contradição da alma: a própria Susan demorou 47 anos para confiar no seu talento. No fundo, nem ela acreditava no que era capaz. É bem provável que se olhasse no espelho durante esses anos todos e pensasse:

- Não é possível que esta voz esteja saindo daqui.

Susan é um alento para todos que olham para o espelho com descrença. Num vídeo de cinco minutos, consegue dar sentido para milhões de vidas desesperadas. Isso a coloca quase como uma santa. E está finalmente explicado por que Susan nunca se casou e vive sozinha com um gato, o mr. Peebles: não existem homens à altura dela.

(não quero dizer com isso que mr. Peebles seja alguém exepcional)

www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo