terça-feira, 12 de maio de 2009

A mulher do retrato

Largou tudo e resolveu abrir uma barraca na praia (como nas propagandas). Deixou para trás um excelente emprego, imóveis e ações na bolsa. E um passado talvez dolorido.

Já fazia dez anos.

Na cidadezinha do litoral foi muito bem-recebido. Contratou uma cozinheira que preparava a comida da barraca. Senhora muito popular e, por extensão, fez do patrão um sujeito querido também. Ele não demorou a fazer amigos.

Ninguém sabia o motivo que tinha trazido aquele homem para um lugar tão remoto. Desconfiava-se, porém. Atrás do balcão, no alto da parede, ele tinha pendurado o retrato de uma mulher. O retrato ocupava o mesmo lugar há dez anos. Quem chegava à barraca dava de cara com a moldura. Dizia-se na cidade: "aquela foto deve explicar tudo".

Mas o dono da barraca não gostava de falar no retrato. Quando algum curioso mencionava o assunto, ele se saía com frases mais ou menos assim:

- Vento sul. Amanhã será bom para as ostras.

Quanto mistério! Quanta obscuridade! As mais loucas conjecturas iam sendo formuladas. Certo era que se tratava de um amor despedaçado. Mas despedaçado em quais circunstâncias? Trágicas? Banais? Cinematográficas? Essa dúvida é que matava.

Passaram-se os anos.

Até que um dia a mulher do retrato foi vista na praia. Fora uma ruga perto da boca e o cabelo cortado, não tinha mudado praticamente nada. Grande frisson causou aquela aparição.

A mulher caminhou em direção à barraca - não podia ser diferente. Todos os olhos a acompanhavam. Quando ela chegou ao balcão, pareceu não notar o retrato. O dono se aproximou. Disse ele:

- Pois não?

E ela:

- Eu queria um coco. Tem coco?

- Gelado ou natural?

- Gelado, se tiver.

Silêncio enquanto o homem busca o coco. As pessoas que discretamente chegaram perto para acompanhar o fatídico encontro prendem a respiração. Aguardam algo grandioso para qualquer momento.

O homem volta:

- Aqui está. São dois e cinquenta.

- Obrigada.

- Obrigado você.

A mulher dá meia-volta e vai embora. O homem fica limpando uma sujeira no balcão. A cozinheira, completamente aturdida, pergunta quase aos berros:

- Ela aparece aqui depois desses anos todos e você não faz nada?

O patrão agora removia um fiapo de coco da camisa:

- Não era ela. Era a irmã gêmea.