sexta-feira, 26 de junho de 2009

Estão ceifando a minha juventude

Sexta-feira eu estava passando de carro e vi, num bar lá perto de casa, um monte de gente fantasiada, uns de diabo, outros de anjo. "A batalha pelas nossas almas", pensei. Mas era tudo, na verdade, uma campanha do Detran para educar sobre os riscos do álcool ao volante. Que espirituoso. Aquilo me fez revisitar uma velha tese.

A tese de que estão ceifando a minha juventude. Existe um empenho das autoridades de Brasília, quase uma obsessão, em transformar a cidade na capital da ordem absoluta, onde não sobreviva o menor resquício de transgressão ou de agito. É daí que vem, por exemplo, a empulhação do álcool zero. E também a lei seca, que fecha bares e restaurantes à meia-noite em dias de semana e às 2 da madrugada no sábado. Mais: contagiados pela conduta oficial, os cidadãos adotam medidas parecidas em casa. Acham-se cobertos de razão quando reclamam com os vizinhos que ousam fazer uma reuniãozinha que ultrapasse as 22 horas. Brasília se esforça em procurar maneiras de acentuar o próprio marasmo.

Confundem ordem com pasmaceira, rigor com intolerância e, sobretudo, acham que combater o arruaceiro é o mesmo que combater aquele que se diverte. São incapazes de enxergar as nuances que diferenciam um do outro. É a lógica da inspetora de colégio: se as crianças estão se divertindo, é porque alguma estão aprontando.

Concordo que quem bebe não pode dirigir. Mas o espírito dessas incontáveis blitze que espalham suas arapucas pela cidade não é evitar acidentes de trânsito. Eles até que falam que é, mas não é, não é! (desculpem, me exaltei). O objetivo é aporrinhar quem quer - oh, pecado! - gozar um pouco de entretenimento. Se quisessem mesmo diminuir os acidentes, inventariam também uma maneira de multar quem dirige com sono, ou quem está com pressa de chegar ao trabalho, quem brigou com a namorada e, principalmente, quem carrega uma grávida em trabalho de parto no banco de trás. Dirigir sob essas condições é perigoso também.

Estou exaltado, vão perdoando. É porque, morador de Brasília, sinto que minha juventude está sendo ceifada. As autoridades querem controlar toda a minha vida. Acham que eu não posso ir a uma pizzaria às 2 da manhã, por isso fecham todas as pizzarias. Que eu não posso tomar uma taça de champanhe na casa da minha tia no aniversário dela e depois voltar dirigindo. Que eu não posso conversar debaixo do bloco com os amigos durante a madrugada. O patrulhamento é tão exagerado que mês passado fui parado em duas blitze no intervalo de cinco dias. Se eu fosse bandido, teria sido capturado duas vezes na mesma semana. Mas, que coisa, eu não sou bandido.

Se os jovens da cidade não tinham uma causa pela qual lutar, aí está ela. Vamos nos bater contra a ingerência do estado policialesco em nossas vidas. A geração passada se orgulha de ter vivido sob a ditadura, tempos de resistência e brios. Pois bem. Em mais nada ficamos a dever agora, já podemos olhar nossos pais nos olhos. Habemus anos de chumbo. Só que essa atual ditadura tem uma sutileza: ela não se importa, como antigamente, em nos privar dos direitos políticos. Sua crueldade vai além. Quer nos privar da juventude.