terça-feira, 28 de julho de 2009

Crise de representatividade?

O país chega cada vez mais perto do fundo do poço e as pessoas não se dão conta. Aliás, a maioria age como se as coisas nunca tivessem corrido tão dentro da normalidade como agora. Mas eu acho (e tenho alguns poucos companheiros que partilham da mesma opinião) que o Brasil e seu projeto de sociedade estão à beira da ruína. Como nunca antes.

Os escândalos na política, geralmente apontados como o maior mal que nos assola, por si sós seriam suficientes para que descrêssemos do futuro. Os motivos para pessimismo, no entanto, vão além. Mais grave é observar que os maus-hábitos dos políticos revelam, na verdade, o esfacelamento de toda a sociedade.

A corrupção e o delito são condutas que, entre nós, ganharam status de "coisa normal". A neta do Sarney, quando usa seu ilustre parentesco para arranjar emprego para o namorado no Congresso, até deve desconfiar de que toma uma atitude no mínimo pouco republicana. Mas tem a plena consciência de que seu gesto é absolutamente natural e de que todos (ou quase) no país fariam o mesmo no lugar dela. Nesse ponto, a neta não está longe de ter razão.

Aproveitar-se do dinheiro público; burlar a legislação para obter vantagens; pleitear favores com amigos e parentes ocupantes de cargos na máquina administrativa. Consideramos tudo isso normal. Mas não pode ser.

Caráter e dignidade andam em baixa. Perderam espaço para o poderio financeiro. É ele que, antes de mais nada, garante prestígio e reconhecimento entre os cidadãos. Pouco importa a que preço tal poderio foi alcançado. Procuramos o dinheiro com uma sanha quase doentia para depois esbanjá-lo com as necessidades mais primitivas e imediatas. Isso, alguém vai me chamar de romântico, é muito vulgar.

Tanta pobreza de espírito tem nos levado aos cúmulos da mediocriodade em todas as áreas, da vida pessoal às artes, passando pela política, por exemplo. O brasileiro é um sujeito tacanho, desinteressado e de mau gosto. O fato de nunca o país ter sido agraciado com um prêmio Nobel - ao contrário de alguns vizinhos sul-americanos - pode significar algo mais do que mero acaso.

Mas o julgamento geral é de que tudo corre bem e de que somos uma sociedade saudável, apesar de uns problemas aqui e acolá, considerados naturais. E, claro, tem a questão dos políticos, mas eles - raciocina a cabeça do povo - formam um grupo de desvirtuados totalmente dissociado do resto da população. Triste equívoco. Nossos políticos sintetizam com rara perfeição o conjunto do povo que os elege. Por isso, não acredito em crise de representatividade, como tem sido repetido desde que o Congresso começou a afundar na própria lama. A crise é do país.



quinta-feira, 16 de julho de 2009

Seria engraçado se

Seria muito engraçado se descobrissem um manuscrito inédito do Maquiavel, intitulado A Princesa. E, na esteira desse achado, revelações surpreendentes. A Princesa teria sido, na verdade, a obra de estreia do escritor, na época em que ele ainda lutava para ser reconhecido no mundo das letras. Um romance lascivo e cheio de segundas intenções. Em mais de mil páginas – com ilustrações – narra as peripécias de uma jovem herdeira do trono que, graças ao seu fraco por aventuras com a criadagem, é banida da família real; uma vez entre a plebe, adota a vida desregrada com a qual sempre sonhou. O sucesso do livro foi tão estrondoso que deu ao Maquiavel o prestígio e o dinheiro que ele precisava para publicar seu tão sonhado tratado sobre ciência política. Apesar de ser esta última a obra que o eternizou, fontes relatam que, no leito de morte e já sentindo a vida se esvair, Maquiavel repetia entre sussurros para os amigos: “O outro livro é que é o bom. Dele eu não me envergonho. Já essa chatice, peço-vos que queimem todos os exemplares”. Mas os amigos, certamente traídos pela falta de lirismo, interpretaram equivocadamente a frase do moribundo e acabaram queimando a obra errada.

Agora, seria engraçado também se o bigode do Sarney fosse postiço e caísse em frente às câmeras bem no dia da renúncia. Imaginem. O senador convoca coletiva no gabinete para anunciar sua saída da presidência da Congresso. Discorda das denúncias, acha tudo descabido, mas pelo bem do Legislativo decidiu se afastar. Faz tudo com muita dignidade e pompa. Mas no ápice do discurso, lhe cai o bigode. Ouve-se de uma repórter que transmitia a coletiva ao vivo: “Atenção, atenção. Alguma coisa acaba de pular do rosto do senador, provavelmente uma taturana.” Duplamente desmascarado, na política e na estética, Sarney simplesmente abaixa a cabeça e começa a chorar. Seus guinchos cortam o coração de todos os presentes. Ele viria chorar muito mais no dia seguinte, ao descobrir que a Fundação Sarney seria fechada por irregularidades na administração e suas atividades passariam para a tutela da Fundação J. Lago.

E, finalmente, seria muito engraçado, muito mesmo, mas também seria trágico, se eu fosse ao casamento de todas as mulheres bonitas que conheço, porém sempre na condição de convidado. Aliás, é o que se desenha. Uma a uma, num terrível efeito cascata, elas vêm arranjando namorado. Sempre que aparece uma nova compromissada, tenho um amigo que sentencia: “é outra que vamos ver entrar na igreja da perspectiva de quem está sentado”. E olha que esse meu amigo dificilmente erra uma previsão. Se o destino vai ser tão bem-humorado comigo - e tudo indica que vai -, bem que poderia ser também nos dois casos hipotéticos acima. Não custaria nada, e ainda daria motivo para todo mundo rir junto, uns dos outros, o que, afinal, ainda é o melhor remédio.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Humilde sugestão para os cinemas

Hoje em dia ninguém paga inteira no cinema, a não ser, claro, eu e meu amigo Marechal Alegre. Dois notórios zé-manés, vai lembrar alguém.

A tragédia é que me falta coragem para falsificar a carteirinha de estudante. Sei que todo mundo falsifica e que ninguém nunca foi nem será preso por causa disso. Mas eu, justo eu, não dou conta. Resultado: pago inteira desde o término faculdade.

Não vejo problema em baixar música da internet, furar sinal vermelho de madrugada e fazer barulho depois das 22 horas. Mas acho desagradável cometer certos delitos. Principalmente parar em vaga reservada para deficiente ou idoso, jogar lixo na rua e falsificar a carteirinha. Fico achando que se incorrer num desses deslizes, perco o direito, por exemplo, de me revoltar com os desvios do Congresso.

Por isso tenho uma sugestão para os cinemas. Fazer uma promoção para quem paga inteira. Algo no gênero: “pague inteira e ganhe 50% de desconto”. Assim ninguém mais precisaria falsificar a carteirinha e nós pouparíamos os bons cidadãos de se desviarem do bom caminho. Seria muito cívico.