quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Cada uma que me acontece

Eu nunca consigo escutar as mensagens de voz no meu celular. Não que eu me atrapalhe com a tecnologia, não sou tão arcaico assim. Mas meu telefone vive sem créditos, por isso não dá para acessar a caixa de mensagem. Na verdade só coloquei crédito uma vez, na semana em que comprei o celular, em 2004. De lá pra cá, nem um centavo. Me orgulho muito disso. Enquanto tem um monte de gente que gasta os tubos com telefone, eu não gasto nada. Vou dar dinheiro para as empresas de telefonia? Até parece! Essas corporações não têm o menor pudor de explorar o cliente, prestam um serviço terrível e ainda enchem nossas paciências com milhares de torpedos de propaganda. E já ouvi dizer que os funcionários delas trabalham em regime quase escravo. Bem, posso bater no peito e dizer que com esse capitalismo eu não contribuo.

O chato da história, como já falei, é que não consigo escutar minhas mensagens de voz. Vai que uma de minhas musas resolve se declarar e me deixa um recado? Eu nunca saberei. E no dia seguinte posso encontrá-la, mas como não falarei nada ela vai pensar que eu "já estou em outra", como dizem os jovens. Confesso que de vez em quando fico meio desesperado pensando nisso. Do jeito que as coisas estão, as pessoas se comunicando apenas virtualmente, não duvido nada de que um desencontro assim já tenha acontecido com alguém no planeta.

Só que outro dia, faz um mês mais ou menos, eu consegui ouvir uma mensagem de voz. Achei até estranho, porque não tinha crédito nenhum. A mensagem apareceu na tela do telefone e só por fanfarronice eu cliquei "ouvir". E deu certo. Na época achei que tinha sido uma falha da operadora. Agora, esquisita mesmo foi a mensagem que escutei. Uma voz muito sedutora de mulher, com certo sotaque, dizia as seguintes palavras:

"Beirute, WCF, número 02."

Imediatamente fui ao Google. WCF era um feira, simpósio ou coisa parecida, que aconteceria na capital do Líbano durante todo o mês. A World Crisis Fundaments estava em sua segunda edição, a primeira foi em maio, em Edimburgo. Várias palestras e debates para entender a crise financeira e o impacto dela no mundo, dessa vez com enfoque nas economias do Oriente Médio. O que eu tinha a ver com isso? Não fazia a menor ideia. E é claro que não dava para cruzar meio planeta só para satisafazer a curiosidade. Mas por sorte eu tenho um tio que é assessor do Ministério do Comércio e estava de viagem marcada para Dubai, com escala em Beirute. Conseguiu uma vaga para mim na comitiva oficial. Cinco dias depois de receber a mensagem eu desembarcava no Líbano.

Assim que saí do aeroporto dei um jeito de me informar onde era o Centro de Convenções -tinham instalado a Feira lá. À medida que ia me aproximando, estranhava o pouco movimento de pessoas. Imaginava que encontraria o lugar apinhado de estudiosos e gestores do mundo inteiro, mas na verdade ali estava muito mais parado do que em outras ruas da cidade, havia até um certo clima de luto. Na entrada do Centro, encontrei um segurança. Perguntei para ele se era lá mesmo que estava a WCF. Ele me disse que o evento tinha sido cancelado na semana anterior, depois de um atentado terrorista. Por sorte ninguém tinha morrido, os danos foram só materiais. Perguntei se tinha sido um homem-bomba.

- Não - ele me respondeu - foi mulher-bomba. Bela mulher, por sinal. E tinha uma voz sedutora.

Tive que me apoiar no ombro do segurança para não cair, de tanto que minhas pernas tremiam. Assim que recobrei um pouco do equilíbrio, quis saber que dia mais ou menos o ataque tinha acontecido. Eu já imaginava a resposta: foi no mesmo dia em que recebi a mensagem.

Voltei no primeiro voo para o Brasil, disposto a tentar esquecer os últimos acontecimentos. Mas, não sei se já disse isso aqui, sou um pouco neurótico e infelizmente a história toda não saía da minha cabeça. Tive dificuldade para dormir e para comer naqueles dias, e quando dormia sonhava com a mulher-bomba. Ora ela aparecia loira, ora morena e, nas piores noites, vinha ruiva. Tenho um pé atrás com ruivas.

Por mais que eu quebrasse a cabeça, não conseguia entender o que eu tinha a ver com a terrorista e nem por que ela resolveu me mandar uma mensagem exatamente no dia em que explodiria meio quarteirão. Estava a ponto de perder toda a paz de espírito quando uma tarde, refletindo no meu quarto, tive uma grande sacada, tão reveladora que na hora me pareceu ter sido inspiração divina.

Lembrei que Beirute era o nome também de um bar aqui em Brasília. E que de repente WCF poderia significar WC feminino. O número 2, por extensão, só poderia ser o segundo box do banheiro. Fazia sentido ou eu estava ficando louco de vez? Como eu tinha até viajado o mundo para tentar decifrar o mistério, não custava nada dar um pulo logo ali, na quadra ao lado.

Saí na mesma hora para o Beirute. Não sabia o que ia encontrar, mas receava que fosse coisa desagradável, para não dizer perigosa mesmo. Cheguei lá o bar estava abrindo, era quase fim de tarde. Pedi autorização para ir até o banheiro feminino. Nunca imaginei que minha primeira incursão nesse ambiente sagrado para as mulheres seria em circunstâncias tão pouco românticas.

O banheiro estava aparentemente vazio, com um cheiro de detergente de limão ainda fresco no ar. Havia duas cabines, entrei na segunda. Precisei reunir toda a coragem que eu nem sabia que tinha para seguir em frente. Achei um envelope escondido embaixo da privada. Estava enderaçado a mim. Dentro havia um bilhete que dizia:

"Não perca sua linha. Recarregue seus créditos até dia 30/08 e ganhe R$ 80 em torpedos para falar com quem você quiser."

Dá pra acreditar?

Esse episódio não mudou minha opinião sobre as operadoras de celular. Mas uma coisa eu tive que reconhecer: os sujeitos não brincam em serviço.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Canto de resistência

As recentes chuvas aqui em Brasília têm me deixado meio angustiado. Não é certo chover em setembro. Alguma coisa muito estranha - provavelmente mais terrível do que estranha - está em curso.

As pessoas parecem não perceber a gravidade da situação e, longe de estarem preocupadas, comemoram os temporais dos últimos dias, porque "amenizaram a seca". Mas se chove no período naturalmente destinado à estiagem, é lógico acreditar que, na época das chuvas, elas não virão. Percebam o tamanho da tragédia.

O relógio do clima claramente está mudando. Se nós, humanos, conseguimos nos adaptar a essa inversão das estações, a natureza infelizmente não tem a mesma capacidade. Imaginem um pé de manga, acostumado a florir durante a seca de setembro e a dar frutos nas chuvas de novembro. Como ele vai agir quando perceber que o clima agora está ao contrário? Vai dar primeiro a manga e só depois as flores? Prefiro nem pensar nisso por enquanto.

Uma amiga me alertou para uma possibilidade ainda pior. Talvez as cigarras não apareçam este ano. Aí sim seria um duro golpe. E tudo indica que seja isso mesmo que vai acontecer. As cigarras, como todos sabem, saem da terra logo nas primeiras chuvas depois de muitas semanas de seca intensa. Com essa bagunça que está o clima, elas devem perder o momento certo de vir à superfície. Ou suas larvas podem ter sido afogadas pela chuva fora de hora, botando a perder toda uma geração do inseto, hipótese que eu lastimo.

Uma das características de Brasília que eu mais gostava era o barulho das cigarras em todo canto da cidade sempre que chegava o fim do ano. Bons tempos, já saudosos.

Mas talvez nem tudo esteja perdido. Hoje, em pleno ápice da desesperança, tive um alento. Eu ainda dormia, a manhã estava nas primeiras horas, quando comecei a perceber um certo barulho no jardim. Inicialmente pensei que fosse um sonho. O barulho foi ficando mais nítido, até que levantei e fui até a janela. Era bom demais para ser verdade. Uma cigarra solitária cantava numa árvore ali próxima. Cantava a plenos pulmões, como se disso dependesse a própria vida.

Pobre menina, pensei. As cigarras cantam para acasalar, mas não há nenhuma outra por perto. A não ser que ela consiga atrair um besouro ou um zangão, o que acho difícil, está destinada a cantar em vão. Foi só aí que eu atinei: esta solitária cigarra não está cantando para atrair um parceiro, não! Seu canto é um ato de resistência. É o "caminhando e cantando" dela. É um hino de protesto contra as cruéis mudanças da natureza que estão separando-a de suas irmãs de espécie.

Confesso que me comovi. Amanhã, se a cigarra solitária ainda estiver lá fora, acho que vou engrossar o movimento e cantar também. Só espero que ela não confunda minhas intenções. Meu canto, como o dela, será apenas de protesto.