quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Na fila da Mega-Sena

Hoje de manhã eu fui jogar na Mega-Sena. (Continuo achando que dinheiro não traz felicidade, mas talvez 120 milhões de reais não se enquadrem apenas na categoria dinheiro.)

A fila na lotérica estava enorme, isso eu não estranhei. Chamou a atenção mesmo foi que na minha frente havia um anão, como os dos filmes, de barba inclusive. Dá pra acreditar? Achei que era bom augúrio. De repente olhou para mim e disse:

- Amigo, faz um favor?

Meu companheiro de fila não alcançava as mesas onde a gente se apóia para marcar os números no volante. Além disso, seus bracinhos também não conseguiam chegar perto das canetas que ficam penduradas para uso dos clientes. Em suma, queria apostar mas não tinha como. Resolveu pedir minha ajuda. Ele ditaria os números e eu faria o jogo. Para mim não tinha problema, até achei que essa boa ação me conciliaria com os deuses e aumentaria minhas chances de levar o prêmio.

Uma frase do anão, no entanto, me azedou o espírito:

- Por favor, não vá jogar os mesmos números que eu. Quero ganhar sozinho.

Achei aquilo bem petulante. Não tinha passado pela minha cabeça copiar o jogo dele. Mas e se eu quisesse? Por acaso é proibido? Eu fazia um favor para o sujeito e ele me vinha com uma grosseria dessas! Decidi apostar nos mesmos números do anão. Além do mais, refleti, seria uma burrice não aproveitar seis dezenas que me chegassem como que por capricho celeste aos ouvidos. Pensem comigo: se o jogo do anão fosse sorteado, eu nunca me perdoaria por não ter pegado os números para mim também.

Absolvido pela minha consciência, disse ao pequeno que poderia ditar as dezenas tranquilamente, sem medo de que eu me apropriasse delas. Ele riu e balançou a cabeça positivamente, mas não sem antes coçar a barba. E me sussurrou, para que outros não ouvissem:

- 1, 2, 3, 4, 5, 6.

Ouvindo aquilo, tentei argumentar:

- Senhor anão, tem certeza de que vai fazer esse jogo?

- Perfeitamente.

- Seja razoável, companheiro. Uma sequência dessas nunca vai ser sorteada.

- Quem sabe?

- Tem certeza?

- Pois sim.

- Mas é uma burrice!

- Talvez não seja.

Em vão tentei demovê-lo da ideia. O anão estava irredutível, como, aliás, é próprio da natureza deles. No fim tive que jogar os números que ele pediu. Não precisei fazer outro jogo para mim copiando as dezenas do anão, porque antes mesmo de chegar à lotérica eu já estava decidido a apostar 1,2,3,4,5,6. Queria ganhar sozinho e, com tanta gente participando e tantos bolões sendo feitos, essa me pareceu a melhor maneira. Não fui o único a pensar assim. Havia aquele anão, que até agora não me sai da cabeça. Será que o universo quis me dar algum ensinamento com esse episódio? Não faço ideia.

Sei que hoje durmo com a sensação estranha de que a vida pode ser mais traquinas do que gostaríamos. E essa sensação deve voltar outras vezes em 2010. Mas que me encontre já milionário.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Provável desdobramento da crise

Mais um texto sobre o Arruda, depois eu prometo voltar aos assuntos sérios.

Acho que se Brasília fosse uma cidade que se desse ao respeito, estaríamos vivendo um clima de quase guerra civil agora. Deveriam haver manifestações diárias pela saída do governador, suficientes para inviabilizar a rotina. Uma agenda do caos deveria ter se instalado. Hoje os estudantes fecham o eixão e as principais vias, amanhã todos estacionam em fila dupla, depois de amanhã os garis param de recolher o lixo. Era para estarmos testemunhando a multiplicação de trincheiras e barricadas contra a PM, a tomada diária de prédios públicos, os gritos de ordem ecoando pelas ruas. Mas a vida segue como se não houvesse escândalo nenhum. Incrível como uma população tão mobilizada para algumas causas, como, por exemplo, proibir o funcionamento de bares e restaurantes depois da meia-noite, se mostre tão mansa em questões um pouco mais relevantes.

Continuando na atual toada, Brasília vai proporcionar ao mundo uma das maiores demonstrações de deboche na história da política, no que toca à relação entre representantes e representados: a permanência do Arruda no governo. E o pior é que nada indica que o desfecho será outro. As pessoas se acostumaram com a corrupção a ponto de passarem a considerá-la como um fato natural da vida, desagradável, porém inexorável. Como as catástrofes ambientais ou as doenças. Vem daí esse pensamento dominante, que tanto me irrita, de que se revoltar contra a má índole dos políticos é dar soco em ponta de faca. Ou coisa de gente romântica.

É num cenário assim - corrupção desenfreada e sociedade paralisada - que costumam surgir os justiceiros nas histórias em quadrinhos. O Batman, por exemplo, brota de uma Gotham maltratada pela corrupção. Mas talvez o exemplo mais bem acabado seja o V de Vingança, onde a revolta com a política é tamanha que o justiceiro decide explodir o Parlamento (quando não havia ninguém dentro, também não vamos incitar a violência, que não leva a lugar nenhum). Seria pedir demais que, no caso de Brasília, a vida imitasse a arte? Imaginem. Em algum lugar do DF, digamos uma casa afastada em Taguatinga, alguém está neste momento traçando um plano meticuloso para derrubar o governo Arruda. Esse sujeito está tão revoltado que deseja fazer justiça por conta própria. Ele quer se tornar um herói. Deve estar até pensando em que fantasia vai usar. Detalhe importante, nesses casos, é a fantasia. E a alcunha? Não dá para ser um mascarado sem uma alcunha digna. Se esse homem valoroso viesse me pedir conselho, eu sugeriria que ele se apresentasse à população como Róbson Pierre, uma releitura moderna e brasileira de um nome que já fez tremerem muitos poderosos.

A gente pode esperar que a Câmara Legislativa cumpra seu dever e decida enxotar o Arruda. Podemos também depositar nossas expectativas em algum tribunal ou, sabe-se lá, na OAB. São esperanças. Eu, senhores, por minha vez, prefiro me fiar numa possibilidade que pode parecer remota, mas seria sem dúvida a mais interessante: o surgimento de um justiceiro que, como nos quadrinhos, arriscaria a vida para restabelecer o reino da justiça e da moral em uma Brasília arrasada. Não custa acreditar.

P.S.: se esse herói aparecer, aviso de antemão, não sou eu. Estou apenas dando a ideia. Caso sirva de inspiração, cumpri meu papel. Força, Róbson Pierre.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Os trechos que a justiça não divulga

Políticos corruptos são, no fundo, pessoas normais, como eu e você. Têm as mesmas preocupações na vida, os mesmos prazeres, as mesmas limitações. Enfim, são homens de carne e osso. Mas as autoridades insistem em divulgar apenas as partes das gravações que fazem esses senhores parecerem monstros. Se fossem divulgados os diálogos inteiros, veríamos que se trata de gente absolutamente comum:

- Boa tarde, pessoal!

- Opa!

- Boa tarde, chefe. Melhorou da dor na coluna?

- Nem me fale, rapaz. Acabei de chegar da farmácia. Gastei uma grana com analgésico.

- Aproveitou pra comprar o xampu da calvície?

- Não. Esqueci. Ah! Esqueci também de pegar o gato na Pet Shop . As crianças vão me matar.

- Viu o Flamengo ontem, chefe?

- Não. Minha filha ficou vendo um filme adoelscente de vampiros. Como é que foi?

- Perdemos. Mas o juiz roubou.

- P...! Odeio gente desonesta!

- É fogo mesmo!

- O que é aquilo encostado ali no canto da parede?

- O que chefe? Não estou vendo nada.

- Ali ó. Aquele negócio preto, do lado da sua pasta.

- Ah, aquilo! É uma escultura do Rodin que a minha esposa trouxe da Europa.

- Engraçado. Parece uma filmadora.

- Não parece? O cara era um visionário.

- Vamos resolver logo, gente? Os maços estão prontos.

- Vamos. Porque tempo é dinheiro.

- Com a diferença de que o tempo não dá trabalho para colocar nos bolsos do paletó.

- Ha, ha, ha.

- Ha, ha, ha. Boa, chefe. Vamos dividir então.

- Vamos. Mas antes, vem cá pessoal. Vamos nos abraçar aqui e fechar os olhos.

- Pai nosso que estais no céu...