sábado, 13 de fevereiro de 2010

A questão da tatuagem

O preso-celebridade é disparado o que dá mais trabalho. Que gente! Eles têm essa mania de questionar as regras da cadeia, como se estivessem em um hotel ou na própria casa. Díficil colocar na cabeça deles o conceito de estar encarcerado. E quando resolvem pedir comida de fora, pizza ou fast-food? O pessoal da cozinha fica muito ofendido, e não é para menos. Eu também ficaria.

No entanto, ninguém sofre mais com o preso-celebridade do que o carcereiro. É esse profissional abnegado que aguenta todos os caprichos, os chiliques, os ataques de estrelismo e, principalmente, os fingidos princípios de infarto do preso-celebridade. Tudo isso com paciência e serenidade tibetanas. O carcereiro sabe que zela não só por um preso, mas pela boa reputação da casa. Os bandidos passam, a cadeia fica.

Esta é a história, verdadeira, de um carcereiro e um preso-celebridade. Desse último vocês provavelmente já ouviram falar, foi preso, se não me engano, na semana passada mesmo. Os jornais devem ter dado.

Tão logo esse preso foi acomodado em suas dependências, mandaram chamar o seu Leomir. O seu Leomir era o carcereiro com mais tempo de serviços prestados na cadeia, funcionário exemplar, quase um mito, chamava os delegados pelos apelidos e era a referência para os mais novos. Por tais motivos, e também por alguns outros, logo se verá, cabiam a ele os presos-celebridade.

Parece que tinha um método para lidar com os famosos, ninguém sabia muito bem no que consistia. Fato é que, sob os cuidados do seu Leomir, os presos célebres se comportavam incrivelmente bem. Houve até uma vez que ele estava viajando e um outro rapaz teve que vigiar um cantor que tinha se desentendido com o fisco. Para encurtar a história, ao cabo de três dias o carcereiro estava preso por maus-tratos e o tal cantor tinha recebido uma indenização de não sei quantos mil reais, além de se ver livre de todas as acusações anteriores. Não deixaram mais o seu Leomir se afastar por muito tempo.

Então, como eu dizia, chegou esse preso novo, um homem poderoso, e mandaram chamar o seu Leomir. Assim que ficaram a sós, o carcereiro fez as apresentações de praxe:

- Esta é sua cela. A TV fica desligada o tempo todo, exceto quando passa futebol. Aqui vemos campeonato carioca e jamais o paulista, jogos do Flamengo prioritariamente. À sua direita fica o banheiro, pode usá-lo à vontade a qualquer hora do dia, mas nunca por mais de cinco minutos de cada vez, porque aí já se configuraria um cárcere dentro do cárcere e nós não queremos problemas. A roupa de cama é trocada toda semana, assim como a de banho, mas as toalhas da mesa não são trocadas nunca, por uma questão de superstição minha. Visitas íntimas são permitidas nos finais de semana, uma de cada vez. Já padres, pastores e similares em hipótese alguma são admitidos, pelo mesmo motivo que a toalha de mesa não é trocada, etc, etc, etc...

O preso, extremamente abatido com sua nova condição, ouviu toda a explicação de seu Leomir e assentiu com a cabeça, primeiro porque tinha entendido bem, depois porque achou que era tudo muito razoável e justo.

As coisas transcorreram mais ou menos dentro da normalidade até a noite do primeiro dia. Foi quando, após o jantar, o seu Leomir apareceu com um objeto que lembrava uma agulha, só que de proporções maiores.

- O que é isso? - perguntou o preso, levemente abalado.

- A questão da tatuagem - respondeu seu Leomir.

A cadeia tem suas regras, que valem para os criminosos comuns, mas também para os renomados. Uma delas, talvez a mais tradicional, é que todo preso, para marcar sua passagem pela instituição, tem que sair de lá com uma tatuagem no corpo. Não só pela tradição, isso também ajuda na reintegração ao meio social. Uma vez posto em liberdade, o detento pensaria duas vezes antes de incorrer em erros que pudessem trazê-lo de volta, porque veria em sua própria pele uma marca que nunca o deixaria esquecer da pena cumprida. A tatuagem, portanto, era um favor e não um castigo. Além do mais, o preso poderia escolher o desenho que gostaria de tatuar.

- Desde que não seja legenda de partido político - acrescentou seu Leomir.

- Mas eu devo ser solto em poucos dias! - quis argumentar o preso.

- Por isso sugiro que escolha logo o seu desenho.

O preso refletiu por alguns segundos. Seu Leomir, imóvel, tinha a expressão grave de alguém que só deseja cumprir seu dever com o máximo de correção. Finalmente o preso perguntou:

- E dói?

Acho difícil que um dia venhamos realmente a saber se o preso consentiu ou não em fazer a tatuagem. Como eu disse no início, presos-celebridade são cheios de melindres e sempre têm um advogado de quem podem dispor para quase tudo. Por outro lado, eu também não descartaria o talento de seu Leomir para questões dessa natureza. Uma maneira eficiente de tirarmos a prova da tatuagem é observar se o preso em questão, que certamente não terá sossego da imprensa nas próximas semanas, vai aparecer sem camisa em frente às câmeras. Se não aparecer, bem, é de se desconfiar. Talvez esteja querendo esconder algo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Explicação aos irmãos em armas

Muitos companheiros do Movimento têm me perguntado por que eu não fui à passeata “Fora Arruda” ontem de manhã. Minha ausência é realmente lamentável, ainda mais que nesses últimos meses acabei me tornando uma das principais vozes da sociedade civil não-organizada no combate à corrupção. Reconheço que dessa vez deixei os irmãos desamparados. Mas felizmente tenho uma boa justificativa.

Acontece que, se por um lado eu repudio a corrupção com toda veemência, também tenho na mesma conta o ato de acordar cedo. Não sei qual dessas duas atrocidades mais me incomoda. Uma se caracteriza por tirar o dinheiro do trabalhador para patrocinar a riqueza de um grupo de malfeitores alojados no poder. A outra obriga o cidadão de bem a abdicar de horas sagradas de seu sono em favor de prioridades discutíveis da sociedade burguesa, como trabalho, estudo e outras obrigações.

Como, apesar de muito refletir, eu não conseguia escolher em qual das duas frentes minha revolta deveria ser empenhada, acabei, mais por inércia do que outra coisa, ficando na cama mesmo, que aliás estava de um aconchego embriagante.

Mas, se serve de compensação, enquanto dormia tive um sonho. Nele o Arruda e o Paulo Octávio pediam renúncia depois de três dias e três noites de protestos intensos da população nas ruas. Esse tipo de visão é o estímulo esotérico de que todo movimento social precisa para se sentir mais confiante em busca das suas metas. É como o sonho de Dom Bosco para os candangos. Se eu tivesse saído da cama mais cedo, hoje não teríamos esse triunfo na manga. O importante na luta é isso, cada um batalhando na sua área de atuação. Dessa pluralidade de contribuições, faz-se um todo vencedor. Avante.