domingo, 7 de março de 2010

Um escafandro, por favor

Noite passada eu tive um sonho que custarei a esquecer. Pode ser que ele represente algo de alvissareiro operando dentro de mim ou pode ter sido só uma piada da minha cabeça mesmo. Não sei. Quando as coisas acontecem comigo não consigo ter uma opinião muito razoável a respeito.

No sonho eu estava numa sala de aula. A julgar pelo estado das cadeiras e por um e outro rosto conhecido, era a minha faculdade. A professora tinha pedido para a gente escrever um texto que depois teríamos que ler para a turma. Eu fui o primeiro aluno escolhido. Levanto e começo a ler meu texto em voz alta. Começava assim:

"O mar é um sujeito profundo."

"O mar é um sujeito profundo"? Que charlatanice! Soa a pseudo-lirismo descarado. E pior, tem certas pretensões filosóficas. De onde eu posso ter tirado isso, não faço a menor ideia. Sei que no sonho brindo com esta pérola meus colegas de classe, minha professora e a mim mesmo - que, espectador, não sabia o que estava por vir: "o mar é um sujeito profundo".

Não sei se havia outras frases ou se o texto se resumia a essa única. Logo após minha leitura, lembro que a professora ficou visivelmente indignada. Eu devo ter ofendido seus mais caros valores estéticos. Na visão dela, aquela frase era descabida, vazia, e não fazia sentido sob nenhum ponto de vista.

Eu ainda tentei argumentar em favor da minha obra, dizendo que havia ali um certo vanguardismo que estava passando despercebido. (Logo se vê que o eu do sonho era bem mais desembaraçado que o eu real). Mas não lembro de como terminou o caso todo. Acordei e fiquei com a frase na cabeça.

Vocês já ouviram falar em certa tendência da psicologia que analisa os sonhos. Parece que, de acordo com estudiosos da área, quando sonhamos estamos, na realidade, dando voz aos impulsos mais puros do nosso subconsciente. É um contato direto com o estado bruto de nosso ser. Mas não só isso. Dizem que todos os personagens dos nossos sonhos representam nós mesmos. Percebem a gravidade da situação?

Se essa análise for verdadeira, se todos os personagens do sonho forem, no fundo, nós mesmos, então a frase "o mar é um sujeito profundo" fica ainda mais intrigante. Vejam, todos os personagens são uma representação minha ou de um lado da minha personalidade. Eu sou a professora, eu sou os meus colegas de classe, eu sou eu mesmo(aquele que lê o texto), mas eu também sou o mar. Por que não? Quando digo: "o mar é um sujeito profundo", só agora enxergo, é como se quisesse revelar para mim mesmo "o Vítor é um sujeito profundo". Que louco.

Não profundo como sinônimo de complexo ou sábio. Profundo no sentido de que há um Vítor que não vem à superfície, que dorme nas profundezas, talvez muito abaixo do pré-sal. E quer aflorar, levando em conta a veemência com a qual defendi meu texto no sonho. Por outro lado, a viagem à tona deve ser cheia de obstáculos, ilustrados pela recusa da professora em aceitar o discurso.

“O mar é um sujeito profundo...” Olhando assim, até que não é tão má frase. Será que dormindo sou melhor escritor do que acordado?

Atualizado 5 minutos após a publicação: um amigo leu o texto e acha que matou a charada. Eu teria escrito, na verdade, "Omar é um sujeito profundo", e não "O mar...". Essa nova interpretação faz pouco sentido para mim. Juro.