quarta-feira, 28 de abril de 2010

50 anos depois

Minhas previsões para o centenário de Brasília. Podem cobrar quando for o dia.

- O Memorial JK terá dado lugar ao Memorial Roriz. Natural, porque pai é quem cria, não quem bota no mundo.

- Em vez de "capital do Rock", seremos a "capital do Gospel".

- Alguém vai lembrar que Brasília é maior que seus escândalos políticos, ainda que nunca os escândalos políticos tenham sido maiores do que então.

- A Catedral vai estar fechada para reforma.

- Haverá grande polêmica em torno da construção do setor Su-Sudeste (teremos quase esgotado a rosa-dos-ventos).

- Moradores das satélites precisarão de visto para trabalhar no Plano. Aqueles que forem partidários do governador vão conseguir.

- Os bares e restaurantes continuarão fechando as portas pontualmente à meia-noite.

- E, finalmente, o Niemeyer vai falar mal da cidade em alguma entrevista rabugenta. Mas ninguém vai dar muita bola.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vou começar a torcer pelos apagões

Instalaram uns postes de iluminação novos no gramado em frente ao meu prédio. No primeiro dia, achei que estavam preparando algum evento, talvez um jogo de futebol, de tão intensa que era a luz. Depois descobri que vão ficar ali em definitivo, aqueles postes e sua iluminação exagerada, e que as noites daqui para frente serão mais claras do que nunca. Situação dramática para quem, como eu, prefere as madrugadas como elas nasceram para ser, sombras e trevas. Outro dia li no jornal que cientistas britânicos afirmavam que o direito ao céu noturno deveria ser inviolável. Eu sempre soube disso. Mas, se na cidade já é difícil ver as estrelas, por causa das luzes artificiais, no meu caso especial ficou mais complicado ainda. Com esses postes novos, não dá para distinguir direito se anoiteceu ou se é o dia que ficou meio nublado. Claro que uma anomalia dessas traz sérias consequências para quem vive ao redor.


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Eu, por exemplo, para manter meu quarto escuro - não bastava para o poder público colocar um sol da meia-noite lá fora, era preciso que a luz invadisse o meu quarto também - tive que recorrer ao expediente da cortina fechada. Justo eu, que nunca gostei de véus entre meu sono e a madrugada. Vá lá, com isso a gente se acostuma. Mais triste tem sido testemunhar o esgotamento gradual de toda minha inspiração. Era o breu da noite - minha verdadeira musa, agora eu sei -que alimentava meu lirismo. O fim de um decretou a morte do outro e já não tenho ideias além de razoáveis. Pelo menos é um desfecho poético para essa carreira de bardo.

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Curioso é que Brasília, graças aos escândalos políticos, não tem governo para decidir sobre os assuntos da cidade desde o início do ano. Obras estão abandonadas, projetos foram suspensos e a máquina pública só não parou completamente porque tem funcionado por inércia. Mas alguém para resolver instalar postes novos em frente ao meu prédio o governo tem. Os integrantes do GDF que não foram presos, pediram afastamento ou estão envolvidos com as eleições indiretas. Fico imaginando que tenha sobrado só um funcionário, em alguma secretaria distante, engajado no projeto da "nova iluminação pública". Deve ser um idealista.

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Mudanças causam grande transtorno também à Fauna, podem alertar especialistas
O que vai ser das corujas, seres noturnos, que se acostumaram à escuridão do gramado aqui em frente? E os morcegos? E se tiver algum galo nas redondezas, será que continuará cantando antes de amanhecer ou vai se confundir com a luminosidade e começará a cantar em horários completamente absurdos?

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Lamento muito. Alguém vai falar que a iluminação é para evitar assaltos. Mas eles já ocorrem durante o dia, sem muito constrangimento por parte do bandido ou infrator, se for menor (tem diferença). E sabem do que mais? Não se substitui um assalto por outro. Mas se for para substituir, que se faça a escolha certa. O que é ter uma carteira batida de vez em quando perto de ter nosso céu noturno surrupiado para sempre?