sábado, 24 de julho de 2010

O submundo desnudado

O crime organizado tomou conta da cidade, exatamente como eu temia. O próximo passo é nossas vidas sofrerem profundas alterações para se adaptar à nova realidade. Um amigo meu, por exemplo, resolveu comprar um canivete para o caso de qualquer desentendimento com um bandido, e olha que ele é um jovem pacato, não o reconheço mais. Onde vai parar a ascensão do submundo? Para mim, a questão é muito simples: enquanto as autoridades há décadas utilizam os mesmos métodos de combate ao crime, os bandidos se modernizam periodicamente e hoje dispõem das mais criativas e sofisticadas técnicas que podemos imaginar.


Um exemplo é o que ocorre na rua embaixo da minha janela. Há cerca de dois meses comecei a ouvir uns latidos estranhamente pontuais, sempre por volta de meia-noite, às terças e quintas. "Cachorro incrível!", pensei comigo. Uma noite montei vigília na janela e vi, que na verdade, se tratava do fornecedor de drogas chamando o pequeno traficante. Emitia um latido, o traficante aparecia e eles trocavam abraços como se fossem velhos amigos que tinham se encontrado por um feliz acaso naquela esquina. (Essa pequena encenação, muito convincente e até emocionante, era necessária para despistar qualquer desconfiança). Depois trocavam algumas palavras amistosas e finalmente o fornecedor passava para o outro um pacote daquelas balas de gelatina levemente azedas chamadas "minhocas cítricas", acho. Ali estavam não as minhocas, mas as pedras de droga, que o traficante analisava rapidamente, antes de dar umas notas de dinheiro amassadas para o colega. Então os dois se despediam e, invariavelmente, quando já tinham se distanciado alguns passos, o fornecedor se virava para trás e gritava: "temos que marcar aquele futebol!" (sempre a encenação).

Isso quando era um latido só, porque já houve casos de serem dois. Nessas ocasiões, o pequeno traficante não aparecia, mas trinta segundos depois, uma viatura da polícia passava fazendo a ronda. Quando eram três latidos, o pequeno traficante vinha com um guarda-chuva. Logo em seguida começava a chover. Tudo mais transcorria como nas noites de um latido só.

Teve um dia que eu ouvi um diálogo diferente. Foi na hora que o traficante recebia o pacote de minhocas cítricas do fornecedor. Olhou lá dentro e se deparou com um produto inesperado:

- Que brincadeira é essa, cavalheiro?

- Prove.

- Mas são balinhas de gelatina!

- Só peço que prove.

O traficante deu uma mordida em uma das minhocas.

- Sublime!

- Perceba a textura.

- Estou percebendo. E derrete na boca.

- Sem dúvida.

- E como fazem para ser doces e azedas ao mesmo tempo?

- É inquietante. Não sei.

- Tenho clientes que pagariam uma fortuna por isso.

- Podemos dar um jeito. Recebo o carregamento de Honk Kong toda semana, sem intermediários.

- Fechado. Você me entrega às quartas-feiras?

- Às quartas-feiras. Um latido e meio?

- Era o que eu ia propor.

Apertaram as mãos solenemente e se separaram.

- Ah, e temos que marcar aquele futebol!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Se tudo fosse quicar e correr

Há três anos, eu já andava seriamente desconfiado de que as pessoas davam mais importância aos problemas do que eles realmente mereciam. Mas, como não conhecia um modelo alternativo fora daquele que me rodeava, mais ou menos me convenci que a vida fosse assim mesmo, cheia de questões sérias pedindo uma solução urgente. Até que a revelação me veio através de uns amigos que fiz na faculdade.


Eles não se preocupavam com nada (melhor, se preocupavam em não arrumar preocupações). Ou pelo menos assim me parecia, pode ser que eu tenha idealizado a imagem deles para se ajustar às necessidades que eu tinha na época e tenho até hoje. O fato é que, na minha cabeça, aqueles amigos eram heróis da libertação, que vieram para mostrar que meus receios com relação à universidade, vida profissional, às expectativas que a sociedade deposita na gente, não valiam mais do que um churrasco no campus no meio da tarde ou uma partida de sinuca. Exatamente como, lá no fundo, eu já suspeitava.

A vida para eles obedecia a uma lógica que eu nunca tinha visto antes, e isso era o que mais me fascinava. O que era prioritário para todo resto, para esses amigos não passava de uma questão menor. Não sentiam necessidade de provar para o mundo que eram alunos brilhantes, jovens promissores, cidadãos exemplares. Tinham o único compromisso de serem fiéis às próprias verdades, mesmo que elas apontassem numa direção oposta à da maioria, como frequentemente ocorria.

Eu me sentia vingado quando eles faziam pouco caso de uma disciplina, porque minha grande vontade era mandar passear todos aqueles professores e sua enganação acadêmica, só que não tinha coragem. Também era um deleite quando meus amigos desobedeciam solenemente regras impostas por nossos colegas politicamente corretos, que confundiam civilidade com carolice. Claro que esse comportamento lhes renderam sanções e até jubilamentos, o que só contribuía para que eu os visse cada vez mais como mártires.

O mais curioso é que não havia nada de anti-natural na maneira deles agirem. Nasceram assim ou tinham se transformado, mas não se esforçavam para sê-lo. Pareciam exóticos para todo o resto e talvez não se dessem conta do quanto. Estavam sempre alegres e maquinando alguma ideia mirabolante , fosse para levantar dinheiro, fosse exclusivamente para se divertir. Nisso me lembravam personagens saídos das revistas em quadrinhos.

Um dia, um deles passou em frente a uma loja de material esportivo e viu uma bola de basquete. Juntou o dinheiro que tinha no bolso (que lhe faria falta, porque morava sozinho e estávamos no fim do mês) e resolveu comprar a bola, ainda que, até o minuto anterior, a ideia de jogar basquete não lhe passasse pela cabeça. Quando veio contar a novidade para a gente, todos os outros concordaram com a compra, como se dissessem "sim, você tomou uma decisão muito razoável". Só eu achei que não tinha o menor sentido.

Dali em diante começamos a jogar basquete todas as noites em quadras públicas da cidade. Foi uma época feliz, já faz três anos. Eu me sentia, de alguma maneira, tocando um pouco aquele mundo à parte em que meus amigos viviam e que eu invejava. Enquanto colegas de classe se preocupavam com estágios e tudo que tivesse a ver com um futuro respeitável, eu jogava basquete à meia-noite, um esporte do qual eu nunca gostei, e ainda por cima acordando os vizinhos e correndo o risco de ser abordado pela polícia. Parecia uma loucura das mais saudáveis e eu era grato aos amigos por tomar parte nela. Mas eu sabia que, por mais que me esforçasse, não conseguiria ser um deles e que minha participação naquela realidade estava com os meses contados, o que de fato aconteceu.

Hoje os mestres teriam muito pouco a se orgulhar deste discípulo aqui. Ainda me preocupo em excesso com qualquer bobagem e, pior, dou muita importância a coisas que reconheço não terem a menor importância para mim. A diferença é que agora guardo na memória o exemplo de que é possível construir a vida fundamentada naquilo que nos é realmente prioritário, sem medo do fracasso ou da censura, porque convivi com gente assim. Essa lembrança serve de alento. E quando me vejo tomando uma atitude que não me significa nada, só por obrigação ou para corresponder ao que as pessoas esperam que eu faça, me esforço rapidamente para levar o pensamento para alguma quadra noturna, longe das verdades padronizadas e convenções do dia-a-dia, onde minhas únicas preocupações eram quicar a bola e correr ao mesmo tempo, o que, por si só, convenhamos, já era um desafio.