terça-feira, 26 de outubro de 2010

O sorriso do destino

Amigos, esta é uma vida bonita e não fica bem pensar o contrário. Por mais que às vezes andemos meio desiludidos e em dúvida sobre o que viemos fazer aqui, sempre tem um acontecimento que nos faz perceber a graça de estar sob o céu. Podem ser coisas pequenas: uma ligação no celular que nunca toca, cigarras cantando no seu banheiro, um amigo que subitamente aparece de bigode. Ou pode ser o que aconteceu comigo hoje.


Estava à toa em casa, perdido em maquinações não muito saudáveis, e decidi caminhar um pouco lá fora, para dar ao destino uma oportunidade de me surpreender. É preciso que a gente também faça nossa parte, pensei, a vida não trabalha com entregas em domicílio. E era um fim de tarde clássico, tinha acabado de chover, várias cores no céu. Lá fui eu. Mas nem bem tinha começado a caminhada, um sujeito me interrompeu. (Releiam o título do texto, por gentileza, é a este fato a seguir que ele se refere). Automaticamente, como bem me ensinaram as autoridades, levei os olhos ao crachá do homem. Depois de me certificar do que estava escrito, tive a consciência de que este dia entraria para a história.

Sim, senhores, era um pesquisador do Ibope. Um pesquisador do Ibope, com tudo que isso significa, seu peso místico, sua aura inquisitória, seu questionário fumegante, decisivo para os rumos da pátria, quiçá do universo. Tudo isso diante de mim. E pensar que milhões de pessoas país afora duvidam da existência desse paladino das pesquisas eleitorais, só porque nunca viram um. Eu também, pobre tolo, já começava a colocá-lo na conta dos seres sub judice, como duendes e et´s. Mas nunca cheguei a descrer completamente e hoje minha fé foi premiada.

Prestarei meu testemunho, que considero valioso já que muitos de vocês passarão o resto da vida sem o privilégio da experiência que eu tive (culpem o destino, não a mim). Um pesquisador do Ibope é um sujeito simpático nos modos e no trato, tem uma aparência discreta, se bem que levemente abaulada no baixo ventre. Chama-se Diego e sacode um pouco, mas não demais, a mão do interlocutor na hora de cumprimentar. Apenas o necessário para mostrar firmeza sem intimidação e cordialidade sem intimidade. O pesquisador do Ibope é um gentleman.

Agora, aos trâmites. Nome? Vítor - sem o "c", por favor. Ah, já escreveu com "c"? Não tem problema. Assim fica como Victor Hugo, tremendo poeta. Já leu o Corcunda de Notre Dame? (Inventei a parte da conversa literária. O resto se passou como o descrito). Se eu me considero muito satisfeito, satisfeito, insatisfeito ou muito insatisfeito com a vida? Satisfeito. Fez ainda outras perguntas sócio-econômicas, quanto eu ganho, qual é a renda lá de casa, qual é a minha profissão, minha religião e meu sexo.

Não perguntou o sexo, deve ter deduzido. Estou só romanceando a história.

Perguntou, também, claro, em quem eu vou votar para governador e presidente. Aqui era a minha grande chance de detonar todo o sistema. Responder tudo errado sobre minhas intenções de voto só para ver o caos instalado, numa espetacular reação em cadeia, que iria desde o instituto de pesquisa, passando pela imprensa e terminando no Palácio do Planalto. Mas na hora eu estava tão feliz que nenhum pensamento revolucionário me ocorreu. Tudo bem, não me arrependo. Depois de cinco minutos que merecerão pelo menos dois capítulos na minha biografia, tinha chegado ao fim a entrevista.

Quais são as chances de eu ter sido vítima de um golpe ou pegadinha? Bem concretas, vamos ser sinceros. Rememorando os detalhes, a prancheta do pesquisador não me soou muito profissional e ele próprio parecia conter um riso de canto de boca de vez em quando. Mas que importa? Julgar-se amado é, no fundo, ser amado de fato. Já basta. Se foi uma ficção o que vivi, não faz diferença, porque para mim funcionou como vida real .

Para terminar, um tópico delicado. As pessoas desconfiadas - sei que há delas entre meus melhores leitores - devem ter estranhado a brevidade da pesquisa. Provavelmente, acham que eu omiti alguma parte. Na cabeça delas, existe um rito secreto entre pesquisador e entrevistado para que itens da pesquisa permaneçam sigilosos. Os desconfiados acham que o agente tem uma planilha confidencial de questionário - talvez denominada "Páginas P."-, onde estão as perguntas que realmente contam para o sucesso da pesquisa e que não podem chegar aos ouvidos da concorrência, por isso convencem o entrevistado, de algum modo desconhecido, a não falar nada a respeito. É uma tese respeitável, mesmo assim não vou me meter no assunto.

Mas se estivesse na sua pele, leitor, depois de descobrir que pesquisadores do Ibope realmente existem, e em carne e osso, eu não duvidaria de mais nada neste mundo.