domingo, 26 de dezembro de 2010

O banquete anual dos escritores

Em 2010 o banquete anual dos escritores foi diferente. No lugar do tradicional amigo-oculto, tiveram a ideia de organizar um desafio. Cada um dos mestres deveria levar para o jantar um objeto qualquer que representasse a essência de toda a sua obra. Aquele que desse conta da tarefa com mais poesia seria declarado o vencedor.

O primeiro escritor levantou-se com uma caveira na mão. Os colegas logo entenderam. Sua literatura versava sobre o ser e o não ser. Todos na mesa aplaudiram.

Depois foi a vez de um jovem romancista que mostrou aos convivas a caixa de um tarja-preta. O rapaz escrevia por e sobre o amor. Mais aplausos.

Um senhor grisalho e de ar austero apresentou uma boneca inflável. A solidão era a linha-mestra de seus romances. Dessa vez os colegas não só aplaudiram, como alguns não conseguiram conter uma lágrima.

Em seguida um dos acadêmicos levantou-se com um de seus próprios livros na mão. Claro, sua literatura era sobre o óbvio. De alguma maneira, todos os colegas sabiam que esse seria o objeto que ele iria apresentar, mas nem por isso deixaram de felicitá-lo pela ideia.

O próximo escritor, com muito garbo e dignidade, abriu a carteira e exibiu aos presentes um maço de notas de cem dólares. Os colegas, que em geral torciam o nariz para o membro mais bem-sucedido da Academia, não puderam deixar de lhe reconhecer a sinceridade e propuseram um brinde em sua homenagem.

Um veterano ficcionista, muito apreciado no meio univesitário, empunhava um frango assado de padaria. É que, segundo a crítica, sua literatura não tinha pé nem cabeça. Um acadêmico quis ler um desagravo em favor do colega. Mas foi interrompido pelo próprio veterano, que gostava de ser visto como gênio incompreendido.

Houve ainda um intelectual recém saído da universidade que levantou-se, mostrou as mãos espalmadas e tornou a sentar. Sua obra era sobre o nada. O confrade ao lado, com quem tinha estreita afinidade poética, repetiu o mesmo gesto, só que com um pouco mais de veemência. O vácuo era seu grande tema. Aplausos e aplausos.

Quando todos os escritores já haviam apresentado seus objetos e estavam bastante satisfeitos com a própria inteligência, um sujeito de aparência questionável deu um chute na porta do salão e caminhou rumo à mesa dos artistas. Ficaram todos surpresos. O homem então disse:

- Vocês me conhecem. Eu sou o ghost writer de muitos sentados aqui. O intelectual ao seu lado também me contratou, não foi só você que teve a ideia. Os seus parágrafos são meus parágrafos. Já escrevi dezenas de livros e ao mesmo tempo nenhum. Mas pelo menos tenho direito de participar da brincadeira. Querem saber a essência da minha literatura? É esta!

O homem sacou um revólver do bolso, mirou contra o próprio peito e, para horror dos acadêmicos, disparou. Mas a arma estava descarregada. Ele então desatou numa risada lunática e foi embora da mesma forma súbita com que entrou, não sem antes deixar um gesto obsceno de lembrança.

Fora esse, o jantar seguiu sem mais incidentes. O prêmio da noite, por unanimidade, foi entregue ao escritor da boneca inflável. Para 2011, a Academia estuda voltar com o amigo-oculto, ou talvez nem isso.