terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Ensinamentos

Nas alturas do Tibet, onde a águia faz o ninho e o tempo é relativo, o Mestre meditava em sua posição de lótus. De repente, apavorado, entra correndo o estagiário do templo.

- Mestre! Vem vindo em nossa direção um exército terrível! Milhares de homens, animais, armas!

- Acordai os gulus e entragai-lhes os bambus! Lápido!

(Duas coisas: é de se supor, pela frase acima, que o Mestre falava em rimas, o que não é sempre verdade. Como também não é de boa-fé dizer que ele sistematicamente trocava os R pelos L. Acontecia apenas quando se emocionava.)

O Mestre calçou suas havaianas e desceu para terminar de dar as ordens. Grande alvoroço tomou conta do templo. Fizeram soar o gongo e os gurus, em passos rápidos, tomavam posições no batalhão, não sem antes passar pela despensa, onde se armavam com seus bambus de guerra.

Foi o tempo de terminarem de se arrumar e a marcha do exército inimigo começou a ser ouvida na curva da montanha. Chegava cada vez mais perto. O Mestre, que voava entre as fileiras conferindo se estava tudo em ordem, mandou abrirem as portas do templo. "Espelalemos lá fola!"

Em poucos minutos apenas a extensão do campo, salpicado de papoulas e madressilvas, separava as duas linhas rivais. Era assustadora a discrepância entre elas. De um lado, o exército inimigo, formado por milhares de homens, todos fortemente armados, vestindo couraças de bronze e montados em cavalos selvagens. Do outro lado, Mestre e seus discípulos, que não passavam de duzentos, armados apenas de bambus e sem proteção alguma a não ser suas batas.

Por alguns instantes os dois exércitos se encararam imóveis. O silêncio e a espera pesavam no ar. De repente o comandante dos inimigos cavalgou para a frente de seus homens, gritou uma ordem e deu meia-volta. Seu exército inteiro o seguiu, batendo em retirada.

***

Mais tarde, quando sorvia o chá, o Mestre foi outra vez interrompido pelo estagiário, que agora tinha a surpresa estampada no rosto:

- Mestre, não entendo.

- O que, meu filho?

- O que houve esta tarde? Por que os inimigos desistiram de lutar? Eles estavam em número muito maior, equipados com armas poderosas. E nós? Praticamente nús e com nossos bambus! (O estagiario começava, também ele, a rimar).

- Sim, eu vi.

- E mesmo assim o senhor nos levou para esperá-los no campo! Naquela hora eu pensei que seríamos esmagados! Como sabia que eles iriam desistir, Mestre?

- Eu não sabia, filho. Aquilo que se passa na mente do Outro é insondável. Mas só vamos descobrir as intenções dele com a gente se nos dispusermos a encará-lo. Às vezes o óbvio não é tão óbvio assim e, em todo caso, a coragem sempre é premiada.

- Não esquecerei nunca dessas palavras, Mestre!

- Faça delas o melhor uso. Agora me passe bule de chá, por favor.

- Aqui está.

- Obligado.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Petiscos, alguma bebida e uma conversa

É bom saber que no meu quarto posso ser o maior poeta de todos os tempos e também o mais extravagante. Ter um cavalo preto chamado Finisterre, montar-lhe sem arreio e varrer a galope os cantos distantes da Terra. Sublevar a multidão com minha guitarra, meus hinos libertários e meu inconfundível cigarro de palha no canto da boca, apagado. Ali cultivo as flores extintas e ouço o canto dos animais dos dois hemisférios, os reais e os sobrenaturais. Sobretudo, é onde posso conversar com o Diabo:

- Nunca entendi por que você usa um bigode à Dali.

- Não lhe ocorre que ele tenha me imitado? No início eu gostava mais das suas perguntas. O que houve? Perdeu a sede filosófica? Será que já encontrou a verdade ou desistiu de procurar?

- Pelo contrário. Ando encorajado para as buscas do Ano-Novo. Sinto a inspiração exploratória mais do que nunca.

- Entendo. Até aparecerem os negócios, paixões ou qualquer outra distração mais atraente. Passe a minhoca cítrica, por favor.

- Toma aqui. Você acha que me conhece, porque já viu muitos outros parecidos. Será que comigo não pode ser diferente? Será que não posso levar adiante a vontade de perscrutar a vida? Não acho que todos estejamos prometidos a uma existência às escuras, só porque de repente nos atropelam imperativos da convivência em sociedade ou sei lá o que mais as pessoas inventam para fugir do essencial e se aferrar ao supérfluo.

- O discurso, sem dúvida, é este, amigo reformador. Já ouvi mais ou menos as mesmas palavras numa infinidade de idiomas ao longo dos séculos, muitas vezes de mentes bem mais interessantes que a sua. Quantos fizeram ações das palavras? Quantos decidiram arcar com o preço de elevar o pensamento rumo à liberdade? Tão poucos. Não te vejo entre eles, você é um rapaz comum, com aspirações de rapaz comum. Vá tocar a vida como fazem seus colegas e todo o resto do planeta. As dores do conhecimento não são pra você.

- Você se engana. Quem disse que não quero ser alguém comum? Quero ser o mais normal dos homens, quero estar o mais próximo possível do projeto que o Universo talhou para a espécie. Mas não é isso que fazem a maioria das pessoas! Elas é que são incomuns, porque se afastam de sua própria natureza humana. Criam vontades, comportamentos e regras absolutamente anti-naturais. Criaram esta sociedade e suas leis que não passam de ficção. Muita gente acha que não dá pra escapar do engodo, mas eu acredito que dê!

- A Coca-Cola agora. Está gelada? Hum, que beleza. Obrigado. Você é engraçado. Não devia falar essas coisas por aí. Você fala? Devem te tomar por ingênuo e é isso que você é. Mas um ingênuo engraçado. Não me venha dizer que você não desconfia que a caminhada que propõe é um tanto solitária, no mínimo. Alguma receita para lidar com o silêncio? Não te vejo tão adaptado.

- Eu sei. Nisso você tem razão. Mas se essa conversa fosse há um ano, teria mais razão ainda. Tenho me preparado. Não acho que devo estar pronto exatamente agora ou amanhã. A espera, aliás, faz parte da pedagogia, acho. Além disso, tenho encontrado outras pessoas mais ou menos dispostas no mesmo sentido. Talvez eu tenha companhia. Talvez o mundo tenha chegado a um momento de inflexão, quando mais e mais gente vem cogitando rotas que não sejam as convencionais. O provolone, faz favor.

- Aqui está. Derretido como manda o bom-senso. Sabe de uma coisa? Se você se refere às pessoas ao seu redor quando diz que percebe gente disposta a se apartar da sociedade, acho que está exagerando. Abra um pouco os olhos, companheiro. O que as pessoas mais querem é inclusão, serem abraçados no grande seio da comunidade. Amar e ser amados, o grande sonho! Não sei se você também não é assim...

- Não estou falando em nos tornarmos eremitas. Mas será que não é possível aproveitar da sociedade só o que ela de melhor pode oferecer e não se deixar afetar pelo resto? Quero acreditar que sim! Ou não somos, humanos, dotados de inteligência justamente para repensar nosso próprio destino? Viver de acordo com os dogmas dos outros, sinceramente, não acho que a Natureza nos tenha feito para uma prisão assim.

- Hahahahaha! Se eu pudesse ser jovem outra vez! O que eu não daria pelas ilusões de antes? O que eu não daria para voltar a sonhar? Juro que lutaria com todas minhas forças ao seu lado, meu bravo, para provar para o mundo inteiro que a utopia está ao alcance de todos! Que bela lição não daríamos a todos aqueles que se aprisionam! E um dia a manhã iria raiar e ninguém mais precisaria prestar contas a não ser à própria consciência. E ninguém mais amaria por culpa ou por obrigação! Quantas crenças não se tornariam obsoletas e, consequentemente, seus profetas de araque! E os falsos sábios? Depois de muito tempo o homem experimentaria o gosto da palavra liberdade e, juro, lamberia os dedos!

- Agora sim! Eloquência! Poesia! Ainda cabe um na garupa de Finisterre!

- Dá cá um abraço!

- Feliz Natal!

- Feliz Natal!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A antevéspera de Natal

Descíamos a serra, que não era das mais imponentes, mas era orgulhosa, enlameada, cheia de buracos e ávida por motores importados. Sua paixão era fazer derrapar um de tração nas quatro rodas. Regozijava-se, escancarava a bocarra, seu sorriso de cascalho. Debaixo de chuva, então, redobrava a fúria e tornava-se quase invencível.

Descíamos a serra e, lá embaixo, encontrávamos um velho da idade dos séculos. Sentado no alpendre, afiava uma faca, o olhar concentrado, a barba cinza balançando com o vento. Seus cães nos lambiam. Cumprimentávamos o velho.

Ele guardava a faca no cinto, à moda dos caçadores de crocodilo, e colocava mais dois ou três itens menos importantes no seu alforje de caçador. "Vamos". E atrás dele seguia a fila de seus descendentes.

No meio do caminho as crianças começavam a correr, para chegar na frente. Estacavam diante do chiqueiro e olhavam com alguma compaixão e muita curiosidade para aqueles cujo destino estava traçado. A experiência tinha algo de místico.

O velho entrava no chiqueiro com um pontapé na porteira, que andava há anos emperrada e está até hoje. Só então os porcos se davam conta do que estava acontecendo e, desesperados, grunhiam para seus deuses. Em vão. O velho agarrava o mais gordo pela pata e o arrastava para fora. Sabiamente as crianças não criavam nenhum laço afetivo com um leitão nascido na fazenda, porque conheciam o que lhe esperava no fim do ano.

Quando os ajudantes conseguiam imobilizar o porco, cada um segurando numa pata, o velho desembainhava a faca - um facho de sol se refletia na lâmina - e desferia o golpe fatal no coração. Um grunhido terrível ecoava por quilômetros de distância. O mundo ficava em silêncio por um instante. Depois voltava ao normal. Nossos preparativos de Natal ainda guardam parentesco com os ritos pagãos.

Carregava-se o porco, num carrinho de mão, para o quintal de casa. Lá o velho usava a água fervente de um panelão, preparado no forno a lenha, para tirar o pelo do bicho. Jogava a água e raspava com a faca, curiosa barbearia. Depois o couro pelado do porco era tratado com labaredas de maçarico, completando a etapa da limpeza.

Abria-se o animal do queixo ao fim. Primeiro eram retirados os órgãos. Os comestíveis iam para uma bacia, os outros, não lembro. A faca não parava. De repente se instalava uma linha de produção: uns cortavam as partes maiores, outros as menores, outros picavam a carne, eram muitas atividades. Cada um desempenhava aquela em que se saía melhor e que estava de acordo com sua idade.

Gostaria muito de dizer que no meio daquele alegre trabalho alguém começava uma canção que era logo entoada por todos. Mas essa seria uma fantasia minha. Havia mesmo era muita conversa, mas era tão palpável o contentamento geral que, se alguém cantasse, não faria extravagância.

Perto do fim da tarde parava de chover. Abria um sol pudico. Nessa hora a gente colhia as uvas, mangas e goiabas, correndo o risco o tempo de todo de sermos picados por marimbondos, que também apreciavam as frutas. Quando alguém era ferroado, jogavam pinga no ferimento e tudo se resolvia.

Ia anoitecendo, as corujas iam piando. Era hora de carregar o carro com a comida batalhada ao longo do dia e que serviria para a ceia na noite seguinte. O carro que ia com o queijo caseiro demorava dois meses para se livrar do cheiro, com sorte lá pro carnaval.

"Tchau, velho." Subíamos a serra. Na época eu não entendia bem, mas hoje faz todo sentido que a antevéspera de Natal fosse, para mim, o dia mais feliz do fim do ano.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os neo-bárbaros

Gostaria muito de saber o que aconteceria se o mundo de repente recomeçasse do zero: se chegaríamos outra vez exatamente ao ponto em que estamos hoje ou se, em alguma bifurcação da História, tomaríamos um outro caminho. Caso este mundo seja a única alternativa possível, um destino inexorável, então a humanidade carrega em seu dna, para o bem e para o mal, uma sina que, mesmo com todo nosso desenvolvimento, nunca conseguiremos resolver.

Não quero acreditar que estejamos de mãos atadas diante dos defeitos da nossa sociedade. Como se tivéssemos imperativos biológicos ou mesmo psicológicos que não nos deixassem escolha! Diante das supostas falhas inatas do ser humano, qualquer proposta de reinvenção é ridicularizada como utopia. Uma vez li que a ditadura mais cruel é aquela que não deixa espaços para os subjugados sequer vislumbrarem um outro modo de vida. Talvez estejamos nesse ponto.

Vejo graves males na sociedade que construímos e que são atribuídos à "natureza humana": a cobiça, o consumismo, o exibicionismo, a competição selvagem em cada seara da vida, a mercantilização das pessoas, a coisificação dos sentimentos. Todos ligados à concepção, tida como verdade inquestionável entre nós, de que a felicidade está ligada a uma série de conquistas externas ao indivíduo, principalmente nas áreas profissional, material e sexual. Se continuarmos aceitando tais preceitos, vamos esgotar ainda mais as pessoas, que dão claros sinais de que andam sufocadas. Basta olhar ao redor.

O mais provável é que o homem não tenha nascido para idolatrar o dinheiro, ou a fama, ou qualquer outro desses valores distorcidos e que algo de fundamental na nossa essência tenha se perdido pelo caminho. Minha opinião é que geramos uma cultura em vários aspectos cruel e que desvirtuou nossa vocação natural. O processo se agravou nos últimos anos, porque agora a cultura martela nossas mentes 24 horas por dia, na televisão, no celular, em todo o canto e em qualquer circunstância. Ela é a nova religião. Com a diferença de que os sermões do padre eram circunscritos à igreja e os sermões de agora preenchem todo o tempo em que estamos acordados.

Vivemos um mundo dentro do outro. O da cultura não corresponde ao real e por vezes deturpa a verdade, mas é o que preferimos habitar. Fora da cultura resta o ostracismo e a rejeição, a meu ver os principais fantasmas do homem atual. O indíviduo aceita - quando não deseja - mesmo as maiores mutilações (até físicas) impostas à sua própria natureza , em nome da inclusão privelegiada na sociedade. Como nos apavora o silêncio, o estarmos só! Talvez porque, uma vez sentados frente a frente conosco, tenhamos verdades pouco confortáveis para nos dizer. Mas é libertador ouvi-las, e isso não nos ensina a cultura, pelo contrário, nos exorta o tempo inteiro ao convívio social, ainda que completamente vazio de significado, desde que mantenha a mente ocupada com frivolidades.

Desconfio que tudo isso tenham visto os hippies, os socialistas e outros cuja menção frequentemente vem acompanhada do adjetivo "utópico". Erraram, na minha opinião, não em propor um novo modelo de sociedade, que fosse mais justo e menos predatório (considerando que fosse esse realmente seu objetivo); o equívoco foi tentar impor um novo olhar de vida a uma população que estava e ainda está fortemente abraçada ao antigo. Não é por força da política, da boa vontade ou da guerra que se mudam as mentes. Leva tempo, gerações inteiras para que verdades enraizadas sejam substituídas por outras. Enquanto a maioria das pessoas continuar habitando o mundo velho, estaremos todos em maior ou menor grau fadados a ele.

Em maior ou menor grau porque acredito, de forma talvez até ingênua, que um distanciamento razoável da cultura vigente seja possível, sem que isso afete o conforto material e emocional. Não deve ser fácil, mas parece uma missão necessária e empolgante. Li um autor que fala em rebarbarização e gostei da ideia. Não no sentido de nos tornarmos selvagens, claro, mas no de reencontrarmos traços fundamentais de nossa natureza humana que deixamos para trás (talvez nas florestas ou nas estepes!).

Seria um erro e desperdício de tempo tentar incluir a população. Não dá pra sair pelas ruas gritando "rebarbarize-se!", se bem que dá vontade. Nosso momento é de protestar pela liberação do uso de certas drogas e por outras causas mais ou menos do mesmo gênero. De pouco adianta querer atropelar a ordem do dia. Vai chegar a hora de parar e colocar em dúvida a sociedade que construímos, até pela saturação que ela deve atingir. Mas essa hora não é agora e não dá sinais de estar por perto.

Até lá, resta aos neo-bárbaros (distinto clã, que ganha cada vez mais adesões) o contorcionismo de manter um pé neste mundo ao mesmo tempo que não se afastam do outro, o tacape na mão direita e o notebook na esquerda. Enquanto conseguirem, estará acesa a utopia.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Espírito da Noite

Por enquanto ainda nos resta a noite para as necessidades da alma. Nela ainda podemos chamar por nossos antepassados e ouvi-los sem a interferência profana da metrópole. Muitos duvidam que se possa conversar com espíritos, mas eu converso com o meu, desde que se façam as trevas. Quando tudo que é civilização dorme, emerge o reino das sombras. O domínio dos insetos e das essências, dos perfumes e dos sussurros, do medo e das paixões. A noite preserva nosso último quinhão de humanidade, onde estamos outra vez nus e imaculados. Não há mentira que resista nem máscara social que engane a consciência pura do eterno breu. A farsa do homem industrial pode desfilar galharda à luz do dia e até convencer muitos de seu discurso, porque baseia-se em aparências. Mas, quando cai a noite e, para enxergar, se faz preciso recorrer não mais aos olhos, mas ao espírito, então só resta a verdade.

Eu nasci à noite. Não sei quantas mais gerações terão esse privilégio. O apetite irrefreável da tecnologia parece implicar com tudo quanto fez a Natureza e não espantaria se resolvesse extinguir a noite de vez, criando, quem sabe, um sol para depois que o sol se pusesse. Aliás, é muito conveniente que não haja mais escuridão, todos sairiam ganhando: as máquinas, as pessoas-maquinizadas, o mercado, as pessoas-mercadorias e assim sucessivamente. Para os nossos dias a contemplação e a quietude são caprichos do vadio. (Se um dia eu for rico o suficiente, vou queimar dinheiro.)

Eu nasci à noite e a noite nasceu em mim.

Já passa das onze quando saio do trabalho. A cidade aqui dorme cedo e não fica ninguém na rua, a não ser quem tenha motivo ou vocação. Chove fino. Antes de voltar para casa, vou a uma lanchonete comprar a janta. Ali estou entre os que dormem de dia e caçam à noite: assassinos, meretrizes, revolucionários, vampiros. Quero bem a todos eles, meus irmãos de turno. Não sei se a recíproca é verdadeira, porque nunca conversamos, mas não me importa. Aguardo meu pedido ficar pronto e meu coração está em paz.

Perto de mim tem uma mulher da pele branca toda vestida de preto perdida em pensamentos. Dá para ver que ela vagueia por distantes dimensões, talvez a Ilha Sacalina, de onde parece provir. Reparando bem, é tão pálida que permite entrever as veias do braço, o que não deixa de ser uma modalidade de nudez, penso. E depois ruborizo.

O que eu queria mesmo era me perder em um beco e topar com um demônio ou vários, os meus e os dos outros. Sinto que eles têm muito a dizer, ainda mais porque vão direto ao ponto, diferente dos deuses, que preferem as parábolas. A noite tem seus salmos e seus querubins. Obscenos e rotos, respectivamente. Se os sinos lá fora não dobram, tanto melhor, porque os ouço badalar cá dentro.

Pouco antes de voltar para meu carro, a jovem de Sacalina vem pedir carona. Parecia desperta de seu transe.

- Quem é você? - ela perguntou.

- Vítor. E você?

- Sou o Espírito da Noite. Acredita em mim?

- Claro.

Mesmo assim ela quis provar. Abriu a jaqueta e no seu tronco dava para ver o céu estrelado, as muitas constelações e um rastro de cintilação prata que devia ser a Via Láctea. Nas costas, brilhava a Aurora Boreal.

- É na Noruega? - perguntei.

- É, sim - ela confirmou.

Fiquei olhando algum tempo, sem querer parecer indiscreto.

- Gosta da noite, Vítor?

- Muito.

- Eu sei. Já percebi. No início você tinha medo, mas agora gosta.

Ela levou a mão até a altura da terceira costela da esquerda, na direção de uma das tantas constelações, e arrancou de lá uma estrela, não muito grande.

- Toma. Um presente pela sua dedicação - e me estendeu a mão.

- O que é?

- Órion.

- E não vai fazer falta?

- Ninguém mais repara.

Desceu do carro sem que tívessemos sequer saído do estacionamento e eu entendi que a carona dela era para qualquer lugar ou lugar nenhum. Foi caminhando para longe, mas antes que sumisse de vez, gritei:

- Devolve minha carteira!

Brincadeira. Na verdade eu só fiquei olhando ela se afastar, afastar, até desaparecer na escuridão, ou seja, nela mesma. Aproveitei o exemplo para também mergulhar em mim.

sábado, 1 de outubro de 2011

Como a gota cai

A esta altura já deve estar bem óbvio, até mesmo para os últimos fiéis, que Deus nos abandonou, ou melhor, nós O abandonamos. Mais adequado ainda: o abandono foi recíproco, de comum acordo, as partes entenderam que não significavam mais nada uma para a outra, embrulharam seus pertences e tocaram adiante. Mas enquanto ele pode desfrutar de todo o universo e além, nós ficamos restritos a esta terra e seus dilemas. Pior, ainda não encontramos ninguém para o lugar Dele.

Acho que o desenlace se deu no século XX, mas já vinha sendo preparado um pouco antes, no caldeirão de Voltaire e amigos. Malditos ou benditos sejam! Talvez não imaginassem o tamanho do preço que pagaríamos pela liberdade, pela ousadia de nos desgarrarmos do rebanho milenar.

Acabo de lembrar do que vi na tv há um tempo. Era um material sobre um homem que ficou na cadeia grande parte da vida. No dia da libertação, combalido, resignado, ele vai se despedindo lentamente dos funcionários. Ninguém da família está ali para buscá-lo e ele nem sabe se tem uma. Os portões da liberdade se abrem. O homem sai da cadeia e caminha a esmo, para onde aponta o nariz. A câmera vai afastando, devagar, e daqui a pouco o ex-prisioneiro é só um ponto triste no meio da estrada sem fim.

Deus não foi só um pai. Era o sentido de tudo, inclusive das coisas sem sentido, que costumam ser também as mais doídas. Nele havia não só explicação para a dor, mas também um propósito! Imagino que deveria ser reconfortante saber que a própria vida fazia parte dos desígnios divinos, que havia uma razão cósmica e sagrada para cada acontecimento terreno.

Perdemos essa e outras dádivas. De repente nos vimos à deriva num universo sem lógica, sem propósito, sem fim nem explicação. Ninguém para ditar os rumos, para dizer o que é certo e errado, para pensar pela gente, para cuidar da nossa vida pela gente.

Trazer Deus de volta não dá. Seja por ignorância ou amadurecimento, estamos apartados Dele para sempre. O Deus das igrejas de hoje, que seria uma solução fácil, tampouco serve, não passa de um arremedo e não poderia ser diferente. O antigo Pastor é inconciliável com os atuais corações e mentes.

Imenso drama. O Ocidente se despede de Deus e não encontra ninguém para o lugar. Várias opções concorrem: o Mercado, o Indivíduo, o Narcisismo, o Hedonismo. Há quem veja Deus em pílulas, no dinheiro, no trabalho, no vício, nos rituais vazios da vida social. Quase todos O procuramos, em regra nos lugares mais estapafúrdios. Somos garimpeiros desesperados de um veio seco.

Não admira que custemos tanto a aceitar a inexistência de uma força divina. Ao longo dos dias topamos com ela inúmeras vezes. Vem na forma de chuva, de uma paisagem, de um sorriso, de um acorde. Aliás, a arte não deixa de ser uma tentativa de trazer o divino para nosso convívio. Ele não tem nome, não tem explicação, mas, diabos, quem vai negá-lo? Mais inquietante ainda é saber que mesmo dentro das pessoas mora essa incandescência que nos escapa à compreensão.

Mas por que a força divina precisa ser também consciente? Por que tem que ser a nossa imagem e semelhança, falar português e todas as outras línguas, planejar o destino de todos os seres viventes e coisas?

A minha opinião é que a crença num Deus racional nasce do egocentrismo do homem. Ele não admite que não haja um propósito para a sua própria existência. Que não haja um paraíso após a morte. Sobretudo, o homem se recusa a aceitar que não haja ninguém nas alturas cuidando dele e de seu destino. Em suma, se recusa a aceitar que, para o universo, valemos tanto quanto os outros animais.

Conversava com um amigo uma noite exatamente sobre esse assunto. Foi quando ele veio com um pensamento que é a essência do que quero dizer. "Por que as pessoas pensam que nossa existência é especialmente predestinada por Deus? Para com isso! Somos todos, seres, homens e coisas, parte única de um grande universo. Sem essa de privilégio para esse ou aquele. Eu nasci como... como... a gota cai." E apontou para a gota do chuvisco.

Nascemos como a gota cai, sem demérito pra gente nem pra ela. Quem não entende que o pulsar de um coração tem tudo a ver com a vazão das cataratas ou com o canto das cigarras, não entende também que o divino está em todos os lugares e não apenas faz parte de uns poucos escolhidos. Ao nos darmos conta disso, vamos parar de procurá-lo desse jeito atabalhoado dos últimos séculos. E aí ele começará a aparecer.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Era uma tarde

Era uma tarde como outra qualquer, mas havia nela uma vontade, que parecia consciente, de se eternizar. Pessoas, coisas e todo o resto, não passávamos de joguetes naquela megalomania.

As crianças, nos pátios das escolas, gritavam por instinto e pelo prazer da anarquia. Pedestres cruzavam as ruas com uma ideia na mente, que era logo substituída por outra. Alguns carros começavam a voltar para casa. Sai a primeira fornada de pão.

Antes que alguém pensasse em poesia, passa a polícia com a sirene ligada. Atropela um pombo. Ninguém se condoeu. Os vendedores exaltavam, em rimas suspeitas, o abacaxi pérola. O primeiro bêbado abria o bar e pedia o de sempre.

Ilusões eram desfeitas e novas eram criadas sem que ninguém se desse conta de que eram ilusões. Amavam em pontos isolados. Um sapo coaxava no ritmo do hino nacional, mas ninguém ouviu. Lembranças reclusas vinham à tona.

Uma avó terminava de assar os pães de queijo.Os netos, no quintal, reuniam coragem para chegar perto dos mandarovás, que todo ano, sem falta, davam no pé de jasmim. Ali já não brincavam os netos de antes, agora adultos, mas os mais novos. A avó e os pães de queijo são os mesmos, talvez com um pouco mais de sal (os pães, não a avó).

Um velho repensou a vida e um jovem também. Deus, vestido de despachante, fiscalizava tudo de perto com uma mão coçando o queixo e a outra na cintura. Os capitalistas perdiam tempo em alguma atividade tão somente lucrativa. Os terroristas tramavam o próximo plano e não lhes passava pela cabeça que a vida é boa.

A primeira cigarra da temporada soltou o silvo do acasalamento. Um corrupto assoviava com dinheiro na cueca. Jogam um cigarro meio fumado no chão. Nem sinal de chuva.

De repente o sol chega à linha do horizonte. Vênus aponta no céu. Os pássaros se empoleiram para dormir, os vampiros, exatamente o contrário.

Uma rádio toca a Ave Maria.

Na luz pálida do fim da tarde, paira uma melancolia. Faz pensar que a tristeza também é bonita. Dissipa a névoa entre a mente e o absoluto. Por um minuto fugaz o universo se desnuda e deixa entrever até os mais íntimos segredos. No instante seguinte, como se pego de surpresa, veste rápido o sobretudo, que se chama noite.

sábado, 6 de agosto de 2011

O banheiro feminino

Muito se especula acerca do banheiro feminino, embora as informações disponíveis sejam bastante imprecisas e não cheguem a formar um escopo teórico, como chamam os especialistas. Mais ou menos consensual, apenas o fato de que se trata de um terreno (dimensão?) frequentado por mulheres, que, por manterem intrigante silêncio a respeito, contribuem ainda mais para a nebulosidade em torno do tema. Qualquer dado mais concreto, lamentavelmente, pertence à seara dos rumores.

"Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou com uma cabeça de touro e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações." Assim escreve o velho Borges no conto "O labirinto". Tudo indica que falava do banheiro feminino. O mesmo se diz de Joseph Conrad e seu "O coração das trevas".

Há quem não se satisfaça com o intermédio da arte e queira enxergar o insondável com seus próprios olhos. Destaque para o caso do húngaro Ferénc Svijek - conhecido por vizinhos e amigos pela sua veia filosófica-, que em 1976 decidiu empreender sozinho uma expedição ao banheiro feminino. Voltou cinco dias depois e, sem trocar palavra com ninguém, resolveu alistar-se na guerra, qualquer uma das tantas que estavam em curso.

Poetas e desbravadores, cada um à sua maneira, se esquecem do fundamental. Tratamos aqui de um objeto eminentemente feminino, não de um outro qualquer, o que faz dele tão intrincado e cheio de minúcias quanto os demais do seu gênero. Ocorre com o banheiro feminino algo semelhante com o que se passa com o mar, que os franceses oportunamente chamam de 'a' mar. Ambos estão embebidos no espírito da mulher.

Não é de se admirar, portanto, que até os dias de hoje o banheiro feminino permaneça uma completa incógnita para os estudiosos. Quer entendê-lo? Compreenda as mulheres. Quer compreendê-las? Desvende o banheiro feminino. Aqui, ao que parece, o enigma começa a tecer círculos intransponíveis em volta do desalentado pesquisador. O labirinto de Creta etc.

É verdade que o universo e cercanias estão repletos de mistérios, a começar por ele próprio. Mas nenhum desses mistérios está tão próximo de nós, no cômodo ao lado, e ao mesmo tempo tão inalcançável quanto este que sobre o qual falamos aqui. Desconhecer os confins da galáxia, nada mais natural. Mas ignorar toda uma fauna e flora que devem se descortinar da porta do banheiro feminino adiante! Nada poderia atiçar mais nossa curiosidade e espírito científico.
Talvez a beleza more no mistério. Ao se fazer parecer um local (dimensão?) de fácil acesso, o banheiro feminino joga com nossa imaginação. Quem passa em frente àquela porta fingidamente receptiva sente, por um instante, que pode ver além dos seus véus. A isca foi lançada. Doce e agoniante sonho o da iminência de saciar a curiosidade jamais saciada.

Mas se chegamos a este século, tão avançado no tempo e na História (não nos costumes), com alguns segredos do universo ainda intactos, é preferível que assim permaneçam. Se resistiram aos holofotes da ciência e ao intrometimento do homem, merecem continuar habitando o reino do insondável. Por que não resguardar o pouco de fantasia que ainda nos resta? Pode fazer falta.

Há quem diga que o banheiro feminino não existe, que não passa de um ideário romântico. Como se tudo fosse apenas questão de comprovação laboratorial. Tristes dias estes em que a única espécie do planeta dotada de subjetividade resolve renunciá-la para livrar a existência da inquietante sensação da dúvida. Por que temer o desconhecido? A vida, cavalo selvagem por natureza, sem a dúvida vira um carrossel.

O fascínio pelo desconhecido nos acompanha dos primórdios e talvez até antes. Enquanto ele existir, o banheiro feminino vai continuar servindo de fonte de inspiração, desafios e controvérsias. Vai continuar acalentando os sonhos do poeta e intrigando o cientista em seu ofício. Ao buscar o desconhecido, cada um com a ferramenta que tem à disposição, desde a criança que se lança ao quarto escuro ao andarilho que tateia os confins do universo, o homem está, na verdade, procurando o não-explicado dentro dele mesmo. Esse não-explicado, que não tem nome nem nunca vai ter, também não tem solução.

Por isso, não deixa de ser irônico que, se algum dia uma expedição bem-sucedida chegar ao banheiro feminino, os expedicionários olharão seus reflexos no espelho (supondo que lá haja um espelho) e ali perceberão que o maior mistério de todos esteve e estará com eles o tempo todo.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Reencontro

Nunca se sabe quem poderemos encontrar na próxima esquina. Não se sabe nem se haverá uma próxima. Ainda mais em Brasília onde, dizem, não há esquinas.

Mas há.

Ontem desci do carro e tinha andado pouco quando o mendigo, surgido do nada, chamou "ô, patrão". Hesitei. Ele não.

- O senhor vai me desculpar, mas eu preciso de dinheiro para a marmita. Ali tem uma que custa...

Nisso foi surgindo em mim a inquietante impressão de que eu já tinha visto o homem antes. Onde, eu não sabia, e por mais que vasculhasse a memória, não conseguia lembrar. Tão forte era a sensação de conhecer o mendigo de algum lugar que comecei, ali mesmo, a crer em vidas passadas.

- Olha que engraçado. Acho que já nos encontramos em outra ocasião.

- Pois eu também fiquei com essa impressão assim que te vi descer do carro.

Pronto. O mendigo me reconheceu. Portanto havia o vínculo, nesta vida ou nas outras.

- Universidade, quem sabe?

- Você formou quando?

- Em 2008.

- Não, não. Nessa época eu não andava por lá. Talvez São Paulo! Já morou lá?

- Não. Sempre morei aqui.

Seguia o excruciante impasse. Entrementes, eu ia esvaziando minha carteira na mão do mendigo, entregue que estava ao prazer fraternal que me trazia aquele reencontro.

Quando veio, certamente dos céus, o estalo:

- Peraí! Você é o mendigo que, em junho de 2009, portanto há 2 anos, andava por aí de madrugada pedindo dinheiro pra comprar um leite especial para seu filho recém-nascido e intolerante a lactose?

- Deus! E não venha me dizer que você é o cara que, junto com um seu amigo, me deu carona em plena madrugada, me levou até a farmácia, comprou o tal leite pra mim e depois me deixou em casa?

Era eu mesmo. Ou melhor, era o Eu de há 2 anos. Só tinha visto o mendigo uma vez na vida, naquela ocasião e por cerca de meia-hora. E ainda assim o reconheci ontem à tarde. Também percebi muita alegria nele por ter me reencontrado. Ele disse que gostaria de me apertar a mão, mas que a mão dele estava muito suja e não seria possível. Estava suja mesmo, mas eu deveria ter estendido a minha em sinal de que não me importava, de que a satisfação espontânea e genuína que eu sentia por tê-lo reencontrado nessa esquina da vida (é isso mesmo, Brasília tem esquinas filosóficas) superava qualquer convenção social ou de higiene. Devia ter estendido a minha mão! Devia ter estendido! Outra coisa eu deveria ter feito mas não fiz: perguntar como anda o filho pequeno. Mas nos despedimos antes de esgotar todos os assuntos, como é próprio das grandes amizades.

Até a próxima.

Assim foi como os fatos transcorreram. Mas poderia ter sido de outra maneira:

- Cara, na verdade eu não sou mendigo. Esse é só um disfarce. Eu sou o Capeta e venho para te jogar em tentação, mas toda vez que me aproximo fico cativado com seu carisma, declino da minha missão e, em cima da hora, invento a história do mendigo.

- Mesmo? Você me acha tão simpático assim?

- Nem me fale. Olha aí. Você faz covinhas quando ri. Quem resiste? Sem contar a história do louva-deus no elevador.

- Ninguém ri dessa história.

- Ela é fantástica. Só acho que você não deveria levar as coisas tão a sério.

- Especificamente falando do caso do louva-deus ou da vida como um todo?

- Da vida como um todo. Toma de volta o dinheiro da marmita. Chega por hoje. Até a próxima.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O mato chama

Saio do trabalho e, no caminho,vou olhando a tarde, que já está do meio para o fim. O cenário é tão fresco e imaculado que dá a impressão da Terra ter sido terminada ontem. Não é possível, deve haver dois mundos, o real e o dos homens. Porque nada disso que eu vejo e ouço do lado de fora - o céu azul do inverno, as árvores (umas secas, outras floridas), o sol poente, o silêncio do crepúsculo -, nada disso encontra correspondência na vida que as pessoas levam. São duas realidades opostas: a do mundo como ele é e a do mundo que corrompemos, aquele em que vivemos. É como se a foto e a moldura tivessem se descolado radicalmente e cada uma criado existência própria.

Não há espaço para o real, natural, na ficção que a sociedade teceu para si. Fomos nos apartando com tanta voracidade e convicção do que é verdadeiro que hoje não fazemos nem ideia de que ele existe. Na verdade, não há nem mesmo vontade de resgatá-lo. Criamos prioridades, preocupações, anseios, desejos que nada dizem respeito à nossa genuína condição humana. Antes, servem para saciar deturpações que os homens impuseram à sua própria natureza.

Na rua o que vemos são pessoas moldadas e modificadas pelos dogmas desta época. Elas, em maioria, não passam de sombras do ser verdadeiro que abafaram por dentro. Aceitaram as diversas mutilações que a sociedade lhes infligiu sem reclamar, em nome do acolhimento e da inclusão.

Alguém vai dizer que essas mutilações sempre existiram. Mas talvez nunca foram tão fortes como a que experimentamos na sociedade do consumo desenfreado, onde a idolatria ao "ter" encontrou poderoso aliado nos meios de comunicação. A maior crueldade não é transformar as pessoas em ávidos consumidores, mas fazer delas também produto, porque vivemos em um mundo onde não se deseja só comprar e possuir, mas também despertar a cobiça dos outros por nós mesmos.

Em pouquíssimos momentos conseguimos nos libertar da profunda artificialidade em que nos emaranhamos. As relações pessoais são artificiais (vide as redes sociais na internet) , os valores são artificias, os caráteres são artificias. O corrupto, o imoral são respeitados desde que desfrutem de status social. Parecer ser ( e, sobretudo, ter) vale mais do que ser de fato. Tudo é aparência.

Enquanto isso as tardes se desenrolam lá fora, encantadas como sempre, como no primeiro dia da Criação, fazendo ressaltar a contradição absurda do que é a vida com o que fazemos dela.

Só existe um lugar onde o homem pode se reencontrar com sua natureza, sem máscaras nem interferências: no mato. Lá onde o verniz da sociedade não chega. Lá onde ainda se podem ver as estrelas à noite e, à luz delas e dos vaga-lumes, iluminar (alumiar) o eu interior. Onde os pensamentos ecoam nos pastos, sobem os morros e reverberam com o mugido das vacas. Lá onde os córregos murmuram salmos pagãos que nos convidam para lavar a alma mergulhados na água fria. Onde temos tudo que precisamos e não desejamos mais do que isso, que já é uma fartura. Lá onde não chega internet.

Talvez não dê para largar tudo agora e ir ao encontro do mato imediatamente. Mas nada impede umas visitas eventuais e, principalmente, carregá-lo sempre no pensamento.




O Mato

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A ampulheta

Aconteceu nessa semana e foi como uma revelação. De repente o relógio de parede aqui de casa, que havia funcionado pelos últimos vinte e cinco anos sem interrupções, parou - para incredulidade de todos. A família não teve dúvidas de que ele tinha pifado. A ninguém ocorreu talvez o mais provável: que o tempo não existe.

O tempo é um par de ponteiros parados, uma ruga que aparece, um sol que se põe, uma pedra gasta, uma lembrança distante, um filho crescido, uma duna que migra, uma ferida que fecha.

Mas para cada sol há uma lua que o sucede e depois um sol de novo. As rugas de um velho não são mais numerosas nem mais fundas que as de um feto. Nunca há nada novo, nunca uma ruptura, sempre o mesmo. Ainda se o mundo se encaminhasse para um ponto de chegada, se houvesse um sentido de progressão (ou regressão, que seja), o tempo poderia existir. Mas os acontecimentos se dão em círculos, partem de lugar nenhum para desembocar em lugar nenhum e sempre será assim. Vivemos um eterno instante composto de ações fracionadas, e não vários instantes fracionados, como somos levados a crer. Nesse grande e eterno instante residem o universo, as coisas, os seres e os fatos, mas nenhum deles tem o condão de alterar a harmonia do conjunto, de revolucionar o cenário. Como justificar um eventual passar do tempo se não há transformação de nada?

O tempo é uma invenção nossa, não existe por si, mas não deixa de impressionar que tenhamos nos tornado escravos dele. A história da humanidade bem poderia ser a das coisas que criamos para a elas nos aprisionarmos.

A invenção do tempo também trai outro desagradável hábito humano: querer reduzir tudo a um sistema lógico, que possa ser aceito por nossas presunçosas cabeças matemáticas. Nesse caso, a palavra tempo muitas vezes foi usada para medir duração de eventos. São conceitos diferentes. Não se trata de questionar a ideia que fazemos de cinco minutos ou um século. O que parece duvidoso é que a Natureza tenha colocado, no mesmo pacote da criação, os mares, o céu, os bichos, a força da gravidade as estrelas e... o tempo! Como se houvesse uma grande ampulheta cósmica vertendo areia desde o gênesis. O que ela estaria marcando? A data do fim? O aniversário de Deus?

Minha opinião é que inventamos o tempo mais ou menos pela mesma causa que inventamos as religiões. São ambos frutos de nosso medo da morte. Enquanto as religiões tentam simbolizar esperança, o tempo é o lado pessimista da nossa alma falando, o alerta de um destino inexorável. Na lógica que o homem teceu através dos milênios, o tempo é o responsável por nos conduzir pela mão, desde o início dos nossos dias, direto até a foz de nossas vidas. Ele é o fantasma gerado pela nossa mente e que nos empurra, a cada dia, um pouco mais para perto do fim. Se nos soubéssemos imortais, seria inútil essa abstração chamada tempo.

Mas gosto de pensar que, se ele não existe, por extensão talvez a causa maior de sua aceitação pelos homens, a morte, também não exista. Talvez seja ela também uma abstração. Talvez a morte seja muito mais um sinal exterior – como os ponteiros parados do relógio – do que uma condição de fato.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conto de Fadas

Se Deus existisse e se tivesse a mínima veia para a piada, os fatos amanhã transcorreriam assim:

Abadia de Westminster, Primavera de 2011. Por uma série de motivos improváveis, o lustre está caído no chão e o padre corre entre os bancos atrás de um leitão visivelmente embriagado (o leitão, não o padre). A nave está toda vazia, a não ser por duas figuras sentadas no altar:

- Eu falei para não convidar o Mr. Bean.

- Foi a vovó quem fez questão.

- E vocês precisam fazer tudo que ela quer? Custava ter ponderado um pouco?

- É que a cerimônia foi presente dela...

- Tá. E o Lula? Quem chamou?

- Ninguém. Ele entrou de penetra.

- Mas como? Com essa quantidade de seguranças?

- Acho que o Harry facilitou a entrada.

- Ah! Eu sabia! Eu sabia!

- O que foi agora? Vai implicar com a minha família inteira?

- Não vou implicar com a sua família inteira. Só gostaria que as pessoas deixassem
de ser crianças e passassem a assumir as responsabilidades da vida adulta!

- Mas ele é uma criança.

- Claro que é! E eu sou a rainha da Inglaterra!

- Olha, se você não queria ter entrado para a família, era só ter avisado. A gente não precisava seguir em frente. Ninguém estava te obrigando.

- (recobrando a calma) Tudo que eu mais queria era esse casamento. Mas não assim. Não desse jeito.

- Eu não te disse que seriam muitas as dificuldades? Hoje foi só a primeira delas. É o peso de ocupar a posição que ocupamos. Haverá tardes de domingo, por exemplo, em que vamos querer sair de carruagem e os cavalos não estarão atrelados ainda.

- (fazendo beicinho e com jeito de quem vai chorar) Eu sei...

- Mas o que importa é que a gente se ama e vai passar por cima de tudo isso. Juntos.

Nesse ínterim, o padre finalmente alcança o leitão.

- Tem razão. E até que foi engraçado quando o Lula puxou a dentadura da Camilla, não foi?

- Tá vendo? A gente ainda vai dar risada desse dia.

E, apesar dos percalços do caminho, viveram felizes para sempre.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Eu queria ser um caminhoneiro

Eu queria ser um caminhoneiro. “Lá vem ele com esse papo de novo. Por que então não larga tudo e vai pedir emprego em uma transportadora?”Antes fosse assim tão simples. Por mais que eu acredite no poder do homem de dispor de seu próprio destino e fazer de sua vida aquilo que bem entende, algumas barreiras são intransponíveis, porque foram erguidas pela própria Natureza. No meu caso, tenho coração de caminhoneiro, mas não me deram o resto. Meu drama é como o do homem de lata do Mágico de Oz, só que ao contrário.


Eu realmente queria ser um caminhoneiro. A alma humana precisa das vastidões para espraiar-se. Nas cidades ela vive aprisionada, cativa das parafernálias tecnológicas, dos prazos e limites, das obrigações, do tumulto, dos padrões sociais. A liberdade está na amplidão de uma paisagem a perder de vista, onde a alma reencontra sua essência, o infinito, e nos traz de volta para nossa verdadeira condição humana, para mais perto de nossas origens. Uma dessas amplidões é o Mar. Outra é a Estrada. Deus - ou a ideia que se tem dele - habita ambas.


O caminhoneiro, portanto, é também um marujo, com a vantagem de que capitaneia o próprio navio. Esse bem-aventurado homem não conhece limites nem fronteiras, a não ser a linha do horizonte. Seu itinerário é sua consciência. Não presta satisfações e não tem horário regulado por ninguém, senão pelo Sol e pela Lua, que são seus confidentes. Trata o Vento por tu. Dorme em 365 leitos por ano - salvo nos anos bissextos -, e se depara, talvez, com 365 amores.O caminhoneiro é um galanteador.


Conhece o Brasil pelos buracos das BR´s, como quem lê um país em braile. No sertão, entre o vale do Jequitinhonha e o do São Francisco, olha para a vegetação e sabe o exato ponto onde termina a jurisdição de Guimarães Rosa e começa a de Jorge Amado. Não titubeia um segundo na hora de apontar com precisão a sutil fronteira que separa as regiões que falam mexerica daquelas que preferem tangerina.


Come a coxinha com catupiry dos postos de beira de estrada como se estivesse provando o néctar dos deuses. E, de fato, está.


Não posso deixar de me imaginar como um integrante da categoria. Talvez não fosse o de maior destreza ao volante, tampouco o mais hábil para decorar os caminhos e atalhos, mas seria, certamente, um dos mais felizes. Acordaria às quatro da manhã, mesmo se estivesse fazendo frio, para ver o amanhecer com as velas desfraldadas, em plena travessia da Estrada. Tomaria o café com as frutas que eu colhesse nas beiras do caminho e com o naco envelhecido de queijo minas do dia anterior.Faria amigos nas principais rodovias do país. Na BR 316, altura de Vitória da Conquista, conversaria sobre futebol com o Antônio, frentista e torcedor do Flamengo. Ficaria hospedado sempre na mesma pensão em Itabaiana, entre Sergipe e Alagoas. Lá me apaixonaria platonicamente pela Iolanda, a moça da recepção. Nunca trocaríamos uma palavra. Quando voltasse para a pensão depois de cinco anos, descobriria que ela tinha se casado há pouco tempo com um rapaz o qual, provavelmente, não amava.Quando a noite me surpreendesse ainda na estrada, eu pararia no acostamento e montaria vigília ali mesmo. Subiria para o topo da caçamba com um livro e, até cair no sono, revezaria a leitura das páginas com a das estrelas. De tanto passar pelos mesmos cantos e finais de mundo, logo começaria a ser reconhecido pelas pessoas. E quando meu caminhão passasse buzinando em frente a uma casa amiga, certamente diriam: "Lá vai o Cavaleiro da Boléia Solitária."


Em meus doces devaneios, só não consegui ainda resolver uma questão, a mais fundamental de todas. Não sei qual frase pintar no paralamas do meu caminhão. Sempre que tenho um tempo livre procuro me concentrar nessa labuta lírica, mas não sai nada. O que é grave, porque um caminhoneiro sem uma frase de paralamas não é digno da profissão nem do nome que ostenta. Não deixa de ser irônico que todos os meus anos de estudo, minha pretensa queda pelas letras, todos os livros lidos e poemas sorvidos não valham de nada nessa hora. O caminhoneiro de verdade olha para a carcaça de sua embarcação ainda na revenda, a caçamba vazia e os pneus murchos, e onde o homem comum só vê um conjunto de lata, ferros e borracha, ele vislumbra o verso que emana da máquina, apreende-lhe o espírito, e como Michelângelo ao pincelar de um só golpe o bigode de Deus na Capela Sistina, o caminhoneiro tasca no paralama a frase definitiva que ressoará pelas BR´s Brasil afora.


O caminhoneiro é, portanto, também um poeta. Romântico, marujo e poeta. Don Juan, Vespúcio e Camões em um só homem. E eu ousando dizer que gostaria de tomar parte nessa seleta irmandade! Como se não soubesse que os grandes ofícios, aqueles que realmente importam, não são escolhidos pela gente, mas escolhem a pessoa ainda antes do berço.


Que haja por aí gente que coloca em dúvida as glórias de ser um caminhoneiro, penso que seja um lamentável reflexo do nosso tempo. As pessoas temem a Estrada, mas se esquecem que somos feitos dela. Hoje, a Estrada e sua imensidão representam um mundo inconveniente, porque escancara a insignificância dos pequenos trilhos em círculos que percorremos todos os dias e construímos para nosso medíocre conforto, a frágil ilusão de que tudo corre em ordem. Na Estrada a ficção do dia-a-dia perde a força e a gente se depara com a vida sem véus. Belezas e dores vêm dessa visão. Por que preferimos evitá-la?


Renegamos esses heróis já que neles sobra a coragem que nos falta. Os jovens não querem ser caminhoneiros. Pelo contrário, abarrotam universidades e preparatórios para concursos em busca de uma profissão prestigiosa e estável. É uma lógica incontestável, que está em todas as partes. No fundo, gostaria que meu desejo do título do texto não se aplicasse só a mim. Eu queria uma sociedade toda mais caminhoneira.


P.S.1: doutos pensadores e respeitáveis estudiosos defendem a tese de que o Brasil devesse substituir os caminhões pelo transporte ferroviário. Alegam que assim os gargalos do país ligados ao escoamento de mercadorias seriam sanados em grande parte. Talvez esses poetas do progresso se esquecem que dentro de um trem ninguém ouve o barulho dos pássaros lá fora, ou da chuva, não existe a possibilidade de se tomar o caminho que der vontade, tampouco de parar nos postos de beira de estrada, muito menos de se balançar no solavanco dos buracos da rodovia. Eles não são amigos deste blog.


P.S.2: Ouço uma música da década de 60 e fico sabendo que naquela época os caminhoneiros eram chamados de Chofer de Caminhão. Um nome muito mais adequado, sem dúvida. Retifico, portanto, meu desejo inicial. O que eu queria mesmo era ser um Chofer de Caminhão.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Manifesto eremita

Existe um deslumbramento com as redes sociais da internet, para não dizer uma devoção, que dá a impressão de que o mundo não pode mais viver sem essas ferramentas. Ainda mais agora, depois que muita gente atribuiu a elas papel fundamental nas recentes revoltas nos países árabes. Como se os árabes precisassem da internet para lutar pela democracia, enquanto as principais revoluções ocidentais foram realizadas em períodos muito anteriores aos milagres da era digital. É uma análise que não deixa de trair certa arrogância.

Mas, vá lá, digamos que os egípcios tenham se organizado graças ao Facebook e ao Twitter. Digamos que a massa popular que sacudiu a praça Tahrir tenha um amplo acesso à internet, fato que não se vê, por exemplo, no grosso da população do Brasil, um dos países onde é mais alastrada a adesão às novidades do mundo virtual. Relevando tudo isso, ainda assim não é por sua capacidade de mobilização política ou de transformar nações que as redes sociais são tão endeusadas.

Elas cumprem um papel-chave na lamentável sociedade de aparências em que vivemos. Precisamos aparentar que somos felizes, desencanados, bem-sucedidos, bem-humorados, que nossas vidas são interessantes. Quanto mais gente souber, melhor. Queremos ser super-humanos, infalíveis como aqueles que vemos na TV, nos filmes, na internet. Ser apenas humano não dá ibope e precisamos consumir e ser consumidos.

As tristezas, as dores, as paixões, o medo, a parcimônia, as frustrações, as fragilidades nós varremos para debaixo do tapete. Justamente os sentimentos que nos fazem humanos. Quando eles são ignorados sobra o quê? Sobra a máquina.

Somos fiéis à máquina e pagamos tributo aos seus sacerdotes - Facebook, Twitter e todos os outros que vierem depois - na esperança de que nos entreguem uma vida sem falhas. Por isso idolatramos a tecnologia e nos regozijamos a cada inovação que surge no mercado. Mas o que temos em troca é uma existência cada vez mais padronizada: as pessoas falam do mesmo jeito, riem das mesmas coisas, têm as mesmas opiniões e aspirações, ouvem as mesmas músicas, enxergam o mundo do mesmo modo. Existe conforto na padronização. Ela nos exime de pensar por conta própria, dilui nossas frustrações na frustração geral, faz com que nos sintamos acolhidos na imensa sociedade de gente igual uma à outra.

É muita ingenuidade pensar, como pensam muitos, que as redes sociais na internet são instrumentos revolucionários. Mais do que tudo, são o desdobramento natural de um processo desencadeado já há um tempo, desde que as pessoas se convenceram de que elas mesmas e os outros vivem numa vitrine, como produtos a ser comprados. Revolução mesmo vai haver - e quem sabe esse dia não chega ainda para nossa geração? - quando elas se derem conta de que a verdadeira experiência humana se passa mais dentro do indivíduo do que nas inúmeras passarelas onde desfilamos nossa pretensão de super-homens.

(Enquanto escrevo, me lembro de um professor na faculdade que contava de um chinês que subiu uma montanha para filmar a chuva. Era um documentário sobre ela. O professor sempre se emocionava nessa hora. "A chuva... - dizia entre soluços -, a chuva..." Por que não? A chuva, sim, senhores!)

Não que devamos todos virar eremitas e migrar para o topo de uma montanha, onde ficaríamos apreciando o bode pastar e nos alimentando das moitas ralas. Mas que a montanha seja nossa própria individualidade e nossa vida livre de alienações; que o bode seja toda a beleza dos seres e coisas que nos circundam (a chuva do chinês, por exemplo); e que as moitas ralas sejam o conhecimento e as experiências que pudermos assimilar para nos tornar cada vez mais indivíduos, humanos, e menos coadjuvantes das nossas vidas, apenas outra engrenagem no mundo das máquinas.

sábado, 29 de janeiro de 2011

O par de tênis adequado

Quando o trem parou e olhei pela janela, vi que o lugar era bem diferente do que eu imaginava. Não sei por que, achei que encontraria algo meio sobrenatural, com suas emanações etéreas e auroras boreais vindas do além. Ao contrário, era uma cidade comum como qualquer outra, talvez não do nosso tempo, mas qualquer outra cidade de algum século perdido.

Na entrada da estação, um rapaz presumivelmente familiar me aguardava. Era meu eu interior:

- Então aqui é a minha mente? - perguntei depois de cumprimentá-lo.

- Até onde a vista alcança e mais ainda - e ele me apontou na direção das montanhas que ficavam na borda da cidade, além das montanhas havia mais montanhas e depois delas um borrão azul que poderia ser o mar. Pelo menos eu gostaria que fosse.

Saímos pelas ruas de pedra (minha mente tem ruas de pedra) e nos juntamos aos muitos pedestres, que caminhavam entre cavalos e carroças. Os homens, em geral, carregavam arco e flecha ou gaitas de foles, o que me levou a concluir que se dividiam em caçadores e bardos. As mulheres eram todas loiras, longas tranças jogadas sobre o ombro. Tinham as orelhas levemente pontudas, como as elfas.

- Não trouxe malas? - quis saber meu eu interior.

- Não. Vou embora hoje mesmo.

- Hoje? Nunca nos visita e quando vem não fica nem para passar uma noite? Talvez não dê tempo de conhecer tudo.

Enquanto isso ia me mostrando cada detalhe do que encontrávamos no caminho. A rua 14 de fevereiro (meu primeiro dia na escola), que desemboca na rua 2 de junho (quando, sem querer, o finado Rex me mordeu na perna). Mais além ficava uma avenida toda ladeada por hortênsias vermelhas e pretas. Não perguntei, mas deduzi que aquilo devia ter alguma coisa a ver com futebol.

Não só a flora, mas também a fauna da minha mente tem um quê de excêntrica. Por exemplo, vi bandos de morcegos voando sem constrangimento em plena luz do dia. E dois ou três unicórnios pastando. Achei tudo tão de bom gosto que ousei pensar que tinha aprimorado, dentro de mim, a obra da Natureza.

Sentamos à sombra de uma enorme estátua do Quasímodo.

- Eu interior, tenho uma dúvida: a vida aqui é sempre assim?

Ele pegou um pedaço de pedra que estava solto no chão e ergueu para me mostrar:

- Isto foi o que sobrou da taverna depois do tsunami da semana passada. Temos disso nesta região. Às vezes escurece no meio da tarde e a gente já sabe que é hora de procurar abrigo. De repente, vem a tormenta. Os pássaros começam a voar de marcha à ré, as árvores se soltam sozinhas do solo e tombam uma atrás da outra, as montanhas trocam de lugar entre si e das profundezas da terra arrebenta um trovão cavernoso, que faz tremer as casas.

- E depois?

- Depois passa. Algumas construções não resistem, outras ganham novos formatos, mas a maioria fica de pé. Para o meu gosto, as tormentas acabam trazendo muita beleza. Logo o sol aparece, mais brilhante do que nunca, e um arco-íris surge do nada. Nessa hora os bardos saem para compor, porque estão no auge da inspiração. E os javalis e as crianças correm para chafurdar nas poças d´água, nas mesmas, sem fazer distinção entre as espécies.

Engraçado. Enquanto meu eu interior continuava explicando o que acontecia depois das grandes tempestades, lembrei que eu não fazia ideia de quando foi a última vez que vi um arco-íris na vida real. Javalis, eu nunca vi.

No final da tarde, depois de termos caminhado o dia inteiro e visto quase toda a cidade, chegamos pertos dos bosques da periferia. Imediatamente me atraiu a atenção um portal tomado pelo musgo, gasto pelo tempo e fechado por cerradas fileiras de arame farpado. Ele dava para uma estrada muito estreita e sinuosa, que, pelas enormes pedras cravadas no caminho e pelas moitas de espinhos espalhadas em curtos intervalos, dava a impressão de ser bastante inóspita.

- Aonde leva aquela estrada?

- Oh, aquela é a Estrada do seu Coração. Ninguém vai lá há muito tempo.

Ficamos os dois examinando por uns minutos a trilha além do portal. Na linha do horizonte ela fazia uma curva e depois desaparecia da vista, podendo se estender por quilômetros adiante.

- Vamos? - e enquanto dizia isso meu eu interior começava a afastar os arames.

- Melhor não. Outro dia, sem falta. É que, pelo visto, a trilha é pesada e eu não trouxe o meu par de tênis adequado.

Despedi-me do meu eu interior e logo depois estava no trem de volta, talvez decidido a repetir a viagem em breve.

Lição do dia: desculpas esfarrapadas. Até quando?