sábado, 29 de janeiro de 2011

O par de tênis adequado

Quando o trem parou e olhei pela janela, vi que o lugar era bem diferente do que eu imaginava. Não sei por que, achei que encontraria algo meio sobrenatural, com suas emanações etéreas e auroras boreais vindas do além. Ao contrário, era uma cidade comum como qualquer outra, talvez não do nosso tempo, mas qualquer outra cidade de algum século perdido.

Na entrada da estação, um rapaz presumivelmente familiar me aguardava. Era meu eu interior:

- Então aqui é a minha mente? - perguntei depois de cumprimentá-lo.

- Até onde a vista alcança e mais ainda - e ele me apontou na direção das montanhas que ficavam na borda da cidade, além das montanhas havia mais montanhas e depois delas um borrão azul que poderia ser o mar. Pelo menos eu gostaria que fosse.

Saímos pelas ruas de pedra (minha mente tem ruas de pedra) e nos juntamos aos muitos pedestres, que caminhavam entre cavalos e carroças. Os homens, em geral, carregavam arco e flecha ou gaitas de foles, o que me levou a concluir que se dividiam em caçadores e bardos. As mulheres eram todas loiras, longas tranças jogadas sobre o ombro. Tinham as orelhas levemente pontudas, como as elfas.

- Não trouxe malas? - quis saber meu eu interior.

- Não. Vou embora hoje mesmo.

- Hoje? Nunca nos visita e quando vem não fica nem para passar uma noite? Talvez não dê tempo de conhecer tudo.

Enquanto isso ia me mostrando cada detalhe do que encontrávamos no caminho. A rua 14 de fevereiro (meu primeiro dia na escola), que desemboca na rua 2 de junho (quando, sem querer, o finado Rex me mordeu na perna). Mais além ficava uma avenida toda ladeada por hortênsias vermelhas e pretas. Não perguntei, mas deduzi que aquilo devia ter alguma coisa a ver com futebol.

Não só a flora, mas também a fauna da minha mente tem um quê de excêntrica. Por exemplo, vi bandos de morcegos voando sem constrangimento em plena luz do dia. E dois ou três unicórnios pastando. Achei tudo tão de bom gosto que ousei pensar que tinha aprimorado, dentro de mim, a obra da Natureza.

Sentamos à sombra de uma enorme estátua do Quasímodo.

- Eu interior, tenho uma dúvida: a vida aqui é sempre assim?

Ele pegou um pedaço de pedra que estava solto no chão e ergueu para me mostrar:

- Isto foi o que sobrou da taverna depois do tsunami da semana passada. Temos disso nesta região. Às vezes escurece no meio da tarde e a gente já sabe que é hora de procurar abrigo. De repente, vem a tormenta. Os pássaros começam a voar de marcha à ré, as árvores se soltam sozinhas do solo e tombam uma atrás da outra, as montanhas trocam de lugar entre si e das profundezas da terra arrebenta um trovão cavernoso, que faz tremer as casas.

- E depois?

- Depois passa. Algumas construções não resistem, outras ganham novos formatos, mas a maioria fica de pé. Para o meu gosto, as tormentas acabam trazendo muita beleza. Logo o sol aparece, mais brilhante do que nunca, e um arco-íris surge do nada. Nessa hora os bardos saem para compor, porque estão no auge da inspiração. E os javalis e as crianças correm para chafurdar nas poças d´água, nas mesmas, sem fazer distinção entre as espécies.

Engraçado. Enquanto meu eu interior continuava explicando o que acontecia depois das grandes tempestades, lembrei que eu não fazia ideia de quando foi a última vez que vi um arco-íris na vida real. Javalis, eu nunca vi.

No final da tarde, depois de termos caminhado o dia inteiro e visto quase toda a cidade, chegamos pertos dos bosques da periferia. Imediatamente me atraiu a atenção um portal tomado pelo musgo, gasto pelo tempo e fechado por cerradas fileiras de arame farpado. Ele dava para uma estrada muito estreita e sinuosa, que, pelas enormes pedras cravadas no caminho e pelas moitas de espinhos espalhadas em curtos intervalos, dava a impressão de ser bastante inóspita.

- Aonde leva aquela estrada?

- Oh, aquela é a Estrada do seu Coração. Ninguém vai lá há muito tempo.

Ficamos os dois examinando por uns minutos a trilha além do portal. Na linha do horizonte ela fazia uma curva e depois desaparecia da vista, podendo se estender por quilômetros adiante.

- Vamos? - e enquanto dizia isso meu eu interior começava a afastar os arames.

- Melhor não. Outro dia, sem falta. É que, pelo visto, a trilha é pesada e eu não trouxe o meu par de tênis adequado.

Despedi-me do meu eu interior e logo depois estava no trem de volta, talvez decidido a repetir a viagem em breve.

Lição do dia: desculpas esfarrapadas. Até quando?