sábado, 26 de fevereiro de 2011

Manifesto eremita

Existe um deslumbramento com as redes sociais da internet, para não dizer uma devoção, que dá a impressão de que o mundo não pode mais viver sem essas ferramentas. Ainda mais agora, depois que muita gente atribuiu a elas papel fundamental nas recentes revoltas nos países árabes. Como se os árabes precisassem da internet para lutar pela democracia, enquanto as principais revoluções ocidentais foram realizadas em períodos muito anteriores aos milagres da era digital. É uma análise que não deixa de trair certa arrogância.

Mas, vá lá, digamos que os egípcios tenham se organizado graças ao Facebook e ao Twitter. Digamos que a massa popular que sacudiu a praça Tahrir tenha um amplo acesso à internet, fato que não se vê, por exemplo, no grosso da população do Brasil, um dos países onde é mais alastrada a adesão às novidades do mundo virtual. Relevando tudo isso, ainda assim não é por sua capacidade de mobilização política ou de transformar nações que as redes sociais são tão endeusadas.

Elas cumprem um papel-chave na lamentável sociedade de aparências em que vivemos. Precisamos aparentar que somos felizes, desencanados, bem-sucedidos, bem-humorados, que nossas vidas são interessantes. Quanto mais gente souber, melhor. Queremos ser super-humanos, infalíveis como aqueles que vemos na TV, nos filmes, na internet. Ser apenas humano não dá ibope e precisamos consumir e ser consumidos.

As tristezas, as dores, as paixões, o medo, a parcimônia, as frustrações, as fragilidades nós varremos para debaixo do tapete. Justamente os sentimentos que nos fazem humanos. Quando eles são ignorados sobra o quê? Sobra a máquina.

Somos fiéis à máquina e pagamos tributo aos seus sacerdotes - Facebook, Twitter e todos os outros que vierem depois - na esperança de que nos entreguem uma vida sem falhas. Por isso idolatramos a tecnologia e nos regozijamos a cada inovação que surge no mercado. Mas o que temos em troca é uma existência cada vez mais padronizada: as pessoas falam do mesmo jeito, riem das mesmas coisas, têm as mesmas opiniões e aspirações, ouvem as mesmas músicas, enxergam o mundo do mesmo modo. Existe conforto na padronização. Ela nos exime de pensar por conta própria, dilui nossas frustrações na frustração geral, faz com que nos sintamos acolhidos na imensa sociedade de gente igual uma à outra.

É muita ingenuidade pensar, como pensam muitos, que as redes sociais na internet são instrumentos revolucionários. Mais do que tudo, são o desdobramento natural de um processo desencadeado já há um tempo, desde que as pessoas se convenceram de que elas mesmas e os outros vivem numa vitrine, como produtos a ser comprados. Revolução mesmo vai haver - e quem sabe esse dia não chega ainda para nossa geração? - quando elas se derem conta de que a verdadeira experiência humana se passa mais dentro do indivíduo do que nas inúmeras passarelas onde desfilamos nossa pretensão de super-homens.

(Enquanto escrevo, me lembro de um professor na faculdade que contava de um chinês que subiu uma montanha para filmar a chuva. Era um documentário sobre ela. O professor sempre se emocionava nessa hora. "A chuva... - dizia entre soluços -, a chuva..." Por que não? A chuva, sim, senhores!)

Não que devamos todos virar eremitas e migrar para o topo de uma montanha, onde ficaríamos apreciando o bode pastar e nos alimentando das moitas ralas. Mas que a montanha seja nossa própria individualidade e nossa vida livre de alienações; que o bode seja toda a beleza dos seres e coisas que nos circundam (a chuva do chinês, por exemplo); e que as moitas ralas sejam o conhecimento e as experiências que pudermos assimilar para nos tornar cada vez mais indivíduos, humanos, e menos coadjuvantes das nossas vidas, apenas outra engrenagem no mundo das máquinas.