segunda-feira, 7 de março de 2011

Eu queria ser um caminhoneiro

Eu queria ser um caminhoneiro. “Lá vem ele com esse papo de novo. Por que então não larga tudo e vai pedir emprego em uma transportadora?”Antes fosse assim tão simples. Por mais que eu acredite no poder do homem de dispor de seu próprio destino e fazer de sua vida aquilo que bem entende, algumas barreiras são intransponíveis, porque foram erguidas pela própria Natureza. No meu caso, tenho coração de caminhoneiro, mas não me deram o resto. Meu drama é como o do homem de lata do Mágico de Oz, só que ao contrário.


Eu realmente queria ser um caminhoneiro. A alma humana precisa das vastidões para espraiar-se. Nas cidades ela vive aprisionada, cativa das parafernálias tecnológicas, dos prazos e limites, das obrigações, do tumulto, dos padrões sociais. A liberdade está na amplidão de uma paisagem a perder de vista, onde a alma reencontra sua essência, o infinito, e nos traz de volta para nossa verdadeira condição humana, para mais perto de nossas origens. Uma dessas amplidões é o Mar. Outra é a Estrada. Deus - ou a ideia que se tem dele - habita ambas.


O caminhoneiro, portanto, é também um marujo, com a vantagem de que capitaneia o próprio navio. Esse bem-aventurado homem não conhece limites nem fronteiras, a não ser a linha do horizonte. Seu itinerário é sua consciência. Não presta satisfações e não tem horário regulado por ninguém, senão pelo Sol e pela Lua, que são seus confidentes. Trata o Vento por tu. Dorme em 365 leitos por ano - salvo nos anos bissextos -, e se depara, talvez, com 365 amores.O caminhoneiro é um galanteador.


Conhece o Brasil pelos buracos das BR´s, como quem lê um país em braile. No sertão, entre o vale do Jequitinhonha e o do São Francisco, olha para a vegetação e sabe o exato ponto onde termina a jurisdição de Guimarães Rosa e começa a de Jorge Amado. Não titubeia um segundo na hora de apontar com precisão a sutil fronteira que separa as regiões que falam mexerica daquelas que preferem tangerina.


Come a coxinha com catupiry dos postos de beira de estrada como se estivesse provando o néctar dos deuses. E, de fato, está.


Não posso deixar de me imaginar como um integrante da categoria. Talvez não fosse o de maior destreza ao volante, tampouco o mais hábil para decorar os caminhos e atalhos, mas seria, certamente, um dos mais felizes. Acordaria às quatro da manhã, mesmo se estivesse fazendo frio, para ver o amanhecer com as velas desfraldadas, em plena travessia da Estrada. Tomaria o café com as frutas que eu colhesse nas beiras do caminho e com o naco envelhecido de queijo minas do dia anterior.Faria amigos nas principais rodovias do país. Na BR 316, altura de Vitória da Conquista, conversaria sobre futebol com o Antônio, frentista e torcedor do Flamengo. Ficaria hospedado sempre na mesma pensão em Itabaiana, entre Sergipe e Alagoas. Lá me apaixonaria platonicamente pela Iolanda, a moça da recepção. Nunca trocaríamos uma palavra. Quando voltasse para a pensão depois de cinco anos, descobriria que ela tinha se casado há pouco tempo com um rapaz o qual, provavelmente, não amava.Quando a noite me surpreendesse ainda na estrada, eu pararia no acostamento e montaria vigília ali mesmo. Subiria para o topo da caçamba com um livro e, até cair no sono, revezaria a leitura das páginas com a das estrelas. De tanto passar pelos mesmos cantos e finais de mundo, logo começaria a ser reconhecido pelas pessoas. E quando meu caminhão passasse buzinando em frente a uma casa amiga, certamente diriam: "Lá vai o Cavaleiro da Boléia Solitária."


Em meus doces devaneios, só não consegui ainda resolver uma questão, a mais fundamental de todas. Não sei qual frase pintar no paralamas do meu caminhão. Sempre que tenho um tempo livre procuro me concentrar nessa labuta lírica, mas não sai nada. O que é grave, porque um caminhoneiro sem uma frase de paralamas não é digno da profissão nem do nome que ostenta. Não deixa de ser irônico que todos os meus anos de estudo, minha pretensa queda pelas letras, todos os livros lidos e poemas sorvidos não valham de nada nessa hora. O caminhoneiro de verdade olha para a carcaça de sua embarcação ainda na revenda, a caçamba vazia e os pneus murchos, e onde o homem comum só vê um conjunto de lata, ferros e borracha, ele vislumbra o verso que emana da máquina, apreende-lhe o espírito, e como Michelângelo ao pincelar de um só golpe o bigode de Deus na Capela Sistina, o caminhoneiro tasca no paralama a frase definitiva que ressoará pelas BR´s Brasil afora.


O caminhoneiro é, portanto, também um poeta. Romântico, marujo e poeta. Don Juan, Vespúcio e Camões em um só homem. E eu ousando dizer que gostaria de tomar parte nessa seleta irmandade! Como se não soubesse que os grandes ofícios, aqueles que realmente importam, não são escolhidos pela gente, mas escolhem a pessoa ainda antes do berço.


Que haja por aí gente que coloca em dúvida as glórias de ser um caminhoneiro, penso que seja um lamentável reflexo do nosso tempo. As pessoas temem a Estrada, mas se esquecem que somos feitos dela. Hoje, a Estrada e sua imensidão representam um mundo inconveniente, porque escancara a insignificância dos pequenos trilhos em círculos que percorremos todos os dias e construímos para nosso medíocre conforto, a frágil ilusão de que tudo corre em ordem. Na Estrada a ficção do dia-a-dia perde a força e a gente se depara com a vida sem véus. Belezas e dores vêm dessa visão. Por que preferimos evitá-la?


Renegamos esses heróis já que neles sobra a coragem que nos falta. Os jovens não querem ser caminhoneiros. Pelo contrário, abarrotam universidades e preparatórios para concursos em busca de uma profissão prestigiosa e estável. É uma lógica incontestável, que está em todas as partes. No fundo, gostaria que meu desejo do título do texto não se aplicasse só a mim. Eu queria uma sociedade toda mais caminhoneira.


P.S.1: doutos pensadores e respeitáveis estudiosos defendem a tese de que o Brasil devesse substituir os caminhões pelo transporte ferroviário. Alegam que assim os gargalos do país ligados ao escoamento de mercadorias seriam sanados em grande parte. Talvez esses poetas do progresso se esquecem que dentro de um trem ninguém ouve o barulho dos pássaros lá fora, ou da chuva, não existe a possibilidade de se tomar o caminho que der vontade, tampouco de parar nos postos de beira de estrada, muito menos de se balançar no solavanco dos buracos da rodovia. Eles não são amigos deste blog.


P.S.2: Ouço uma música da década de 60 e fico sabendo que naquela época os caminhoneiros eram chamados de Chofer de Caminhão. Um nome muito mais adequado, sem dúvida. Retifico, portanto, meu desejo inicial. O que eu queria mesmo era ser um Chofer de Caminhão.