sexta-feira, 27 de maio de 2011

A ampulheta

Aconteceu nessa semana e foi como uma revelação. De repente o relógio de parede aqui de casa, que havia funcionado pelos últimos vinte e cinco anos sem interrupções, parou - para incredulidade de todos. A família não teve dúvidas de que ele tinha pifado. A ninguém ocorreu talvez o mais provável: que o tempo não existe.

O tempo é um par de ponteiros parados, uma ruga que aparece, um sol que se põe, uma pedra gasta, uma lembrança distante, um filho crescido, uma duna que migra, uma ferida que fecha.

Mas para cada sol há uma lua que o sucede e depois um sol de novo. As rugas de um velho não são mais numerosas nem mais fundas que as de um feto. Nunca há nada novo, nunca uma ruptura, sempre o mesmo. Ainda se o mundo se encaminhasse para um ponto de chegada, se houvesse um sentido de progressão (ou regressão, que seja), o tempo poderia existir. Mas os acontecimentos se dão em círculos, partem de lugar nenhum para desembocar em lugar nenhum e sempre será assim. Vivemos um eterno instante composto de ações fracionadas, e não vários instantes fracionados, como somos levados a crer. Nesse grande e eterno instante residem o universo, as coisas, os seres e os fatos, mas nenhum deles tem o condão de alterar a harmonia do conjunto, de revolucionar o cenário. Como justificar um eventual passar do tempo se não há transformação de nada?

O tempo é uma invenção nossa, não existe por si, mas não deixa de impressionar que tenhamos nos tornado escravos dele. A história da humanidade bem poderia ser a das coisas que criamos para a elas nos aprisionarmos.

A invenção do tempo também trai outro desagradável hábito humano: querer reduzir tudo a um sistema lógico, que possa ser aceito por nossas presunçosas cabeças matemáticas. Nesse caso, a palavra tempo muitas vezes foi usada para medir duração de eventos. São conceitos diferentes. Não se trata de questionar a ideia que fazemos de cinco minutos ou um século. O que parece duvidoso é que a Natureza tenha colocado, no mesmo pacote da criação, os mares, o céu, os bichos, a força da gravidade as estrelas e... o tempo! Como se houvesse uma grande ampulheta cósmica vertendo areia desde o gênesis. O que ela estaria marcando? A data do fim? O aniversário de Deus?

Minha opinião é que inventamos o tempo mais ou menos pela mesma causa que inventamos as religiões. São ambos frutos de nosso medo da morte. Enquanto as religiões tentam simbolizar esperança, o tempo é o lado pessimista da nossa alma falando, o alerta de um destino inexorável. Na lógica que o homem teceu através dos milênios, o tempo é o responsável por nos conduzir pela mão, desde o início dos nossos dias, direto até a foz de nossas vidas. Ele é o fantasma gerado pela nossa mente e que nos empurra, a cada dia, um pouco mais para perto do fim. Se nos soubéssemos imortais, seria inútil essa abstração chamada tempo.

Mas gosto de pensar que, se ele não existe, por extensão talvez a causa maior de sua aceitação pelos homens, a morte, também não exista. Talvez seja ela também uma abstração. Talvez a morte seja muito mais um sinal exterior – como os ponteiros parados do relógio – do que uma condição de fato.