terça-feira, 26 de julho de 2011

Reencontro

Nunca se sabe quem poderemos encontrar na próxima esquina. Não se sabe nem se haverá uma próxima. Ainda mais em Brasília onde, dizem, não há esquinas.

Mas há.

Ontem desci do carro e tinha andado pouco quando o mendigo, surgido do nada, chamou "ô, patrão". Hesitei. Ele não.

- O senhor vai me desculpar, mas eu preciso de dinheiro para a marmita. Ali tem uma que custa...

Nisso foi surgindo em mim a inquietante impressão de que eu já tinha visto o homem antes. Onde, eu não sabia, e por mais que vasculhasse a memória, não conseguia lembrar. Tão forte era a sensação de conhecer o mendigo de algum lugar que comecei, ali mesmo, a crer em vidas passadas.

- Olha que engraçado. Acho que já nos encontramos em outra ocasião.

- Pois eu também fiquei com essa impressão assim que te vi descer do carro.

Pronto. O mendigo me reconheceu. Portanto havia o vínculo, nesta vida ou nas outras.

- Universidade, quem sabe?

- Você formou quando?

- Em 2008.

- Não, não. Nessa época eu não andava por lá. Talvez São Paulo! Já morou lá?

- Não. Sempre morei aqui.

Seguia o excruciante impasse. Entrementes, eu ia esvaziando minha carteira na mão do mendigo, entregue que estava ao prazer fraternal que me trazia aquele reencontro.

Quando veio, certamente dos céus, o estalo:

- Peraí! Você é o mendigo que, em junho de 2009, portanto há 2 anos, andava por aí de madrugada pedindo dinheiro pra comprar um leite especial para seu filho recém-nascido e intolerante a lactose?

- Deus! E não venha me dizer que você é o cara que, junto com um seu amigo, me deu carona em plena madrugada, me levou até a farmácia, comprou o tal leite pra mim e depois me deixou em casa?

Era eu mesmo. Ou melhor, era o Eu de há 2 anos. Só tinha visto o mendigo uma vez na vida, naquela ocasião e por cerca de meia-hora. E ainda assim o reconheci ontem à tarde. Também percebi muita alegria nele por ter me reencontrado. Ele disse que gostaria de me apertar a mão, mas que a mão dele estava muito suja e não seria possível. Estava suja mesmo, mas eu deveria ter estendido a minha em sinal de que não me importava, de que a satisfação espontânea e genuína que eu sentia por tê-lo reencontrado nessa esquina da vida (é isso mesmo, Brasília tem esquinas filosóficas) superava qualquer convenção social ou de higiene. Devia ter estendido a minha mão! Devia ter estendido! Outra coisa eu deveria ter feito mas não fiz: perguntar como anda o filho pequeno. Mas nos despedimos antes de esgotar todos os assuntos, como é próprio das grandes amizades.

Até a próxima.

Assim foi como os fatos transcorreram. Mas poderia ter sido de outra maneira:

- Cara, na verdade eu não sou mendigo. Esse é só um disfarce. Eu sou o Capeta e venho para te jogar em tentação, mas toda vez que me aproximo fico cativado com seu carisma, declino da minha missão e, em cima da hora, invento a história do mendigo.

- Mesmo? Você me acha tão simpático assim?

- Nem me fale. Olha aí. Você faz covinhas quando ri. Quem resiste? Sem contar a história do louva-deus no elevador.

- Ninguém ri dessa história.

- Ela é fantástica. Só acho que você não deveria levar as coisas tão a sério.

- Especificamente falando do caso do louva-deus ou da vida como um todo?

- Da vida como um todo. Toma de volta o dinheiro da marmita. Chega por hoje. Até a próxima.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O mato chama

Saio do trabalho e, no caminho,vou olhando a tarde, que já está do meio para o fim. O cenário é tão fresco e imaculado que dá a impressão da Terra ter sido terminada ontem. Não é possível, deve haver dois mundos, o real e o dos homens. Porque nada disso que eu vejo e ouço do lado de fora - o céu azul do inverno, as árvores (umas secas, outras floridas), o sol poente, o silêncio do crepúsculo -, nada disso encontra correspondência na vida que as pessoas levam. São duas realidades opostas: a do mundo como ele é e a do mundo que corrompemos, aquele em que vivemos. É como se a foto e a moldura tivessem se descolado radicalmente e cada uma criado existência própria.

Não há espaço para o real, natural, na ficção que a sociedade teceu para si. Fomos nos apartando com tanta voracidade e convicção do que é verdadeiro que hoje não fazemos nem ideia de que ele existe. Na verdade, não há nem mesmo vontade de resgatá-lo. Criamos prioridades, preocupações, anseios, desejos que nada dizem respeito à nossa genuína condição humana. Antes, servem para saciar deturpações que os homens impuseram à sua própria natureza.

Na rua o que vemos são pessoas moldadas e modificadas pelos dogmas desta época. Elas, em maioria, não passam de sombras do ser verdadeiro que abafaram por dentro. Aceitaram as diversas mutilações que a sociedade lhes infligiu sem reclamar, em nome do acolhimento e da inclusão.

Alguém vai dizer que essas mutilações sempre existiram. Mas talvez nunca foram tão fortes como a que experimentamos na sociedade do consumo desenfreado, onde a idolatria ao "ter" encontrou poderoso aliado nos meios de comunicação. A maior crueldade não é transformar as pessoas em ávidos consumidores, mas fazer delas também produto, porque vivemos em um mundo onde não se deseja só comprar e possuir, mas também despertar a cobiça dos outros por nós mesmos.

Em pouquíssimos momentos conseguimos nos libertar da profunda artificialidade em que nos emaranhamos. As relações pessoais são artificiais (vide as redes sociais na internet) , os valores são artificias, os caráteres são artificias. O corrupto, o imoral são respeitados desde que desfrutem de status social. Parecer ser ( e, sobretudo, ter) vale mais do que ser de fato. Tudo é aparência.

Enquanto isso as tardes se desenrolam lá fora, encantadas como sempre, como no primeiro dia da Criação, fazendo ressaltar a contradição absurda do que é a vida com o que fazemos dela.

Só existe um lugar onde o homem pode se reencontrar com sua natureza, sem máscaras nem interferências: no mato. Lá onde o verniz da sociedade não chega. Lá onde ainda se podem ver as estrelas à noite e, à luz delas e dos vaga-lumes, iluminar (alumiar) o eu interior. Onde os pensamentos ecoam nos pastos, sobem os morros e reverberam com o mugido das vacas. Lá onde os córregos murmuram salmos pagãos que nos convidam para lavar a alma mergulhados na água fria. Onde temos tudo que precisamos e não desejamos mais do que isso, que já é uma fartura. Lá onde não chega internet.

Talvez não dê para largar tudo agora e ir ao encontro do mato imediatamente. Mas nada impede umas visitas eventuais e, principalmente, carregá-lo sempre no pensamento.




O Mato