Saio do trabalho e, no caminho,vou olhando a tarde, que já está do meio para o fim. O cenário é tão fresco e imaculado que dá a impressão da Terra ter sido terminada ontem. Não é possível, deve haver dois mundos, o real e o dos homens. Porque nada disso que eu vejo e ouço do lado de fora - o céu azul do inverno, as árvores (umas secas, outras floridas), o sol poente, o silêncio do crepúsculo -, nada disso encontra correspondência na vida que as pessoas levam. São duas realidades opostas: a do mundo como ele é e a do mundo que corrompemos, aquele em que vivemos. É como se a foto e a moldura tivessem se descolado radicalmente e cada uma criado existência própria.
Não há espaço para o real, natural, na ficção que a sociedade teceu para si. Fomos nos apartando com tanta voracidade e convicção do que é verdadeiro que hoje não fazemos nem ideia de que ele existe. Na verdade, não há nem mesmo vontade de resgatá-lo. Criamos prioridades, preocupações, anseios, desejos que nada dizem respeito à nossa genuína condição humana. Antes, servem para saciar deturpações que os homens impuseram à sua própria natureza.
Na rua o que vemos são pessoas moldadas e modificadas pelos dogmas desta época. Elas, em maioria, não passam de sombras do ser verdadeiro que abafaram por dentro. Aceitaram as diversas mutilações que a sociedade lhes infligiu sem reclamar, em nome do acolhimento e da inclusão.
Alguém vai dizer que essas mutilações sempre existiram. Mas talvez nunca foram tão fortes como a que experimentamos na sociedade do consumo desenfreado, onde a idolatria ao "ter" encontrou poderoso aliado nos meios de comunicação. A maior crueldade não é transformar as pessoas em ávidos consumidores, mas fazer delas também produto, porque vivemos em um mundo onde não se deseja só comprar e possuir, mas também despertar a cobiça dos outros por nós mesmos.
Em pouquíssimos momentos conseguimos nos libertar da profunda artificialidade em que nos emaranhamos. As relações pessoais são artificiais (vide as redes sociais na internet) , os valores são artificias, os caráteres são artificias. O corrupto, o imoral são respeitados desde que desfrutem de status social. Parecer ser ( e, sobretudo, ter) vale mais do que ser de fato. Tudo é aparência.
Enquanto isso as tardes se desenrolam lá fora, encantadas como sempre, como no primeiro dia da Criação, fazendo ressaltar a contradição absurda do que é a vida com o que fazemos dela.
Só existe um lugar onde o homem pode se reencontrar com sua natureza, sem máscaras nem interferências: no mato. Lá onde o verniz da sociedade não chega. Lá onde ainda se podem ver as estrelas à noite e, à luz delas e dos vaga-lumes, iluminar (alumiar) o eu interior. Onde os pensamentos ecoam nos pastos, sobem os morros e reverberam com o mugido das vacas. Lá onde os córregos murmuram salmos pagãos que nos convidam para lavar a alma mergulhados na água fria. Onde temos tudo que precisamos e não desejamos mais do que isso, que já é uma fartura. Lá onde não chega internet.
Talvez não dê para largar tudo agora e ir ao encontro do mato imediatamente. Mas nada impede umas visitas eventuais e, principalmente, carregá-lo sempre no pensamento.
O Mato
terça-feira, 19 de julho de 2011
O mato chama
Postado por
Vítor Noronha Matos
às
17:00
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1 comentários:
Conhece Eric Blair?
Li-o, fantástico.
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