terça-feira, 23 de agosto de 2011

Era uma tarde

Era uma tarde como outra qualquer, mas havia nela uma vontade, que parecia consciente, de se eternizar. Pessoas, coisas e todo o resto, não passávamos de joguetes naquela megalomania.

As crianças, nos pátios das escolas, gritavam por instinto e pelo prazer da anarquia. Pedestres cruzavam as ruas com uma ideia na mente, que era logo substituída por outra. Alguns carros começavam a voltar para casa. Sai a primeira fornada de pão.

Antes que alguém pensasse em poesia, passa a polícia com a sirene ligada. Atropela um pombo. Ninguém se condoeu. Os vendedores exaltavam, em rimas suspeitas, o abacaxi pérola. O primeiro bêbado abria o bar e pedia o de sempre.

Ilusões eram desfeitas e novas eram criadas sem que ninguém se desse conta de que eram ilusões. Amavam em pontos isolados. Um sapo coaxava no ritmo do hino nacional, mas ninguém ouviu. Lembranças reclusas vinham à tona.

Uma avó terminava de assar os pães de queijo.Os netos, no quintal, reuniam coragem para chegar perto dos mandarovás, que todo ano, sem falta, davam no pé de jasmim. Ali já não brincavam os netos de antes, agora adultos, mas os mais novos. A avó e os pães de queijo são os mesmos, talvez com um pouco mais de sal (os pães, não a avó).

Um velho repensou a vida e um jovem também. Deus, vestido de despachante, fiscalizava tudo de perto com uma mão coçando o queixo e a outra na cintura. Os capitalistas perdiam tempo em alguma atividade tão somente lucrativa. Os terroristas tramavam o próximo plano e não lhes passava pela cabeça que a vida é boa.

A primeira cigarra da temporada soltou o silvo do acasalamento. Um corrupto assoviava com dinheiro na cueca. Jogam um cigarro meio fumado no chão. Nem sinal de chuva.

De repente o sol chega à linha do horizonte. Vênus aponta no céu. Os pássaros se empoleiram para dormir, os vampiros, exatamente o contrário.

Uma rádio toca a Ave Maria.

Na luz pálida do fim da tarde, paira uma melancolia. Faz pensar que a tristeza também é bonita. Dissipa a névoa entre a mente e o absoluto. Por um minuto fugaz o universo se desnuda e deixa entrever até os mais íntimos segredos. No instante seguinte, como se pego de surpresa, veste rápido o sobretudo, que se chama noite.

sábado, 6 de agosto de 2011

O banheiro feminino

Muito se especula acerca do banheiro feminino, embora as informações disponíveis sejam bastante imprecisas e não cheguem a formar um escopo teórico, como chamam os especialistas. Mais ou menos consensual, apenas o fato de que se trata de um terreno (dimensão?) frequentado por mulheres, que, por manterem intrigante silêncio a respeito, contribuem ainda mais para a nebulosidade em torno do tema. Qualquer dado mais concreto, lamentavelmente, pertence à seara dos rumores.

"Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou com uma cabeça de touro e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações." Assim escreve o velho Borges no conto "O labirinto". Tudo indica que falava do banheiro feminino. O mesmo se diz de Joseph Conrad e seu "O coração das trevas".

Há quem não se satisfaça com o intermédio da arte e queira enxergar o insondável com seus próprios olhos. Destaque para o caso do húngaro Ferénc Svijek - conhecido por vizinhos e amigos pela sua veia filosófica-, que em 1976 decidiu empreender sozinho uma expedição ao banheiro feminino. Voltou cinco dias depois e, sem trocar palavra com ninguém, resolveu alistar-se na guerra, qualquer uma das tantas que estavam em curso.

Poetas e desbravadores, cada um à sua maneira, se esquecem do fundamental. Tratamos aqui de um objeto eminentemente feminino, não de um outro qualquer, o que faz dele tão intrincado e cheio de minúcias quanto os demais do seu gênero. Ocorre com o banheiro feminino algo semelhante com o que se passa com o mar, que os franceses oportunamente chamam de 'a' mar. Ambos estão embebidos no espírito da mulher.

Não é de se admirar, portanto, que até os dias de hoje o banheiro feminino permaneça uma completa incógnita para os estudiosos. Quer entendê-lo? Compreenda as mulheres. Quer compreendê-las? Desvende o banheiro feminino. Aqui, ao que parece, o enigma começa a tecer círculos intransponíveis em volta do desalentado pesquisador. O labirinto de Creta etc.

É verdade que o universo e cercanias estão repletos de mistérios, a começar por ele próprio. Mas nenhum desses mistérios está tão próximo de nós, no cômodo ao lado, e ao mesmo tempo tão inalcançável quanto este que sobre o qual falamos aqui. Desconhecer os confins da galáxia, nada mais natural. Mas ignorar toda uma fauna e flora que devem se descortinar da porta do banheiro feminino adiante! Nada poderia atiçar mais nossa curiosidade e espírito científico.
Talvez a beleza more no mistério. Ao se fazer parecer um local (dimensão?) de fácil acesso, o banheiro feminino joga com nossa imaginação. Quem passa em frente àquela porta fingidamente receptiva sente, por um instante, que pode ver além dos seus véus. A isca foi lançada. Doce e agoniante sonho o da iminência de saciar a curiosidade jamais saciada.

Mas se chegamos a este século, tão avançado no tempo e na História (não nos costumes), com alguns segredos do universo ainda intactos, é preferível que assim permaneçam. Se resistiram aos holofotes da ciência e ao intrometimento do homem, merecem continuar habitando o reino do insondável. Por que não resguardar o pouco de fantasia que ainda nos resta? Pode fazer falta.

Há quem diga que o banheiro feminino não existe, que não passa de um ideário romântico. Como se tudo fosse apenas questão de comprovação laboratorial. Tristes dias estes em que a única espécie do planeta dotada de subjetividade resolve renunciá-la para livrar a existência da inquietante sensação da dúvida. Por que temer o desconhecido? A vida, cavalo selvagem por natureza, sem a dúvida vira um carrossel.

O fascínio pelo desconhecido nos acompanha dos primórdios e talvez até antes. Enquanto ele existir, o banheiro feminino vai continuar servindo de fonte de inspiração, desafios e controvérsias. Vai continuar acalentando os sonhos do poeta e intrigando o cientista em seu ofício. Ao buscar o desconhecido, cada um com a ferramenta que tem à disposição, desde a criança que se lança ao quarto escuro ao andarilho que tateia os confins do universo, o homem está, na verdade, procurando o não-explicado dentro dele mesmo. Esse não-explicado, que não tem nome nem nunca vai ter, também não tem solução.

Por isso, não deixa de ser irônico que, se algum dia uma expedição bem-sucedida chegar ao banheiro feminino, os expedicionários olharão seus reflexos no espelho (supondo que lá haja um espelho) e ali perceberão que o maior mistério de todos esteve e estará com eles o tempo todo.