Era uma tarde como outra qualquer, mas havia nela uma vontade, que parecia consciente, de se eternizar. Pessoas, coisas e todo o resto, não passávamos de joguetes naquela megalomania.
As crianças, nos pátios das escolas, gritavam por instinto e pelo prazer da anarquia. Pedestres cruzavam as ruas com uma ideia na mente, que era logo substituída por outra. Alguns carros começavam a voltar para casa. Sai a primeira fornada de pão.
Antes que alguém pensasse em poesia, passa a polícia com a sirene ligada. Atropela um pombo. Ninguém se condoeu. Os vendedores exaltavam, em rimas suspeitas, o abacaxi pérola. O primeiro bêbado abria o bar e pedia o de sempre.
Ilusões eram desfeitas e novas eram criadas sem que ninguém se desse conta de que eram ilusões. Amavam em pontos isolados. Um sapo coaxava no ritmo do hino nacional, mas ninguém ouviu. Lembranças reclusas vinham à tona.
Uma avó terminava de assar os pães de queijo.Os netos, no quintal, reuniam coragem para chegar perto dos mandarovás, que todo ano, sem falta, davam no pé de jasmim. Ali já não brincavam os netos de antes, agora adultos, mas os mais novos. A avó e os pães de queijo são os mesmos, talvez com um pouco mais de sal (os pães, não a avó).
Um velho repensou a vida e um jovem também. Deus, vestido de despachante, fiscalizava tudo de perto com uma mão coçando o queixo e a outra na cintura. Os capitalistas perdiam tempo em alguma atividade tão somente lucrativa. Os terroristas tramavam o próximo plano e não lhes passava pela cabeça que a vida é boa.
A primeira cigarra da temporada soltou o silvo do acasalamento. Um corrupto assoviava com dinheiro na cueca. Jogam um cigarro meio fumado no chão. Nem sinal de chuva.
De repente o sol chega à linha do horizonte. Vênus aponta no céu. Os pássaros se empoleiram para dormir, os vampiros, exatamente o contrário.
Uma rádio toca a Ave Maria.
Na luz pálida do fim da tarde, paira uma melancolia. Faz pensar que a tristeza também é bonita. Dissipa a névoa entre a mente e o absoluto. Por um minuto fugaz o universo se desnuda e deixa entrever até os mais íntimos segredos. No instante seguinte, como se pego de surpresa, veste rápido o sobretudo, que se chama noite.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Era uma tarde
Postado por
Vítor Noronha Matos
às
16:16
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1 comentários:
Lembro-me deste dia. Também ouvi a Ave Maria na Brasília Super Rádio FM
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