sábado, 6 de agosto de 2011

O banheiro feminino

Muito se especula acerca do banheiro feminino, embora as informações disponíveis sejam bastante imprecisas e não cheguem a formar um escopo teórico, como chamam os especialistas. Mais ou menos consensual, apenas o fato de que se trata de um terreno (dimensão?) frequentado por mulheres, que, por manterem intrigante silêncio a respeito, contribuem ainda mais para a nebulosidade em torno do tema. Qualquer dado mais concreto, lamentavelmente, pertence à seara dos rumores.

"Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou com uma cabeça de touro e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações." Assim escreve o velho Borges no conto "O labirinto". Tudo indica que falava do banheiro feminino. O mesmo se diz de Joseph Conrad e seu "O coração das trevas".

Há quem não se satisfaça com o intermédio da arte e queira enxergar o insondável com seus próprios olhos. Destaque para o caso do húngaro Ferénc Svijek - conhecido por vizinhos e amigos pela sua veia filosófica-, que em 1976 decidiu empreender sozinho uma expedição ao banheiro feminino. Voltou cinco dias depois e, sem trocar palavra com ninguém, resolveu alistar-se na guerra, qualquer uma das tantas que estavam em curso.

Poetas e desbravadores, cada um à sua maneira, se esquecem do fundamental. Tratamos aqui de um objeto eminentemente feminino, não de um outro qualquer, o que faz dele tão intrincado e cheio de minúcias quanto os demais do seu gênero. Ocorre com o banheiro feminino algo semelhante com o que se passa com o mar, que os franceses oportunamente chamam de 'a' mar. Ambos estão embebidos no espírito da mulher.

Não é de se admirar, portanto, que até os dias de hoje o banheiro feminino permaneça uma completa incógnita para os estudiosos. Quer entendê-lo? Compreenda as mulheres. Quer compreendê-las? Desvende o banheiro feminino. Aqui, ao que parece, o enigma começa a tecer círculos intransponíveis em volta do desalentado pesquisador. O labirinto de Creta etc.

É verdade que o universo e cercanias estão repletos de mistérios, a começar por ele próprio. Mas nenhum desses mistérios está tão próximo de nós, no cômodo ao lado, e ao mesmo tempo tão inalcançável quanto este que sobre o qual falamos aqui. Desconhecer os confins da galáxia, nada mais natural. Mas ignorar toda uma fauna e flora que devem se descortinar da porta do banheiro feminino adiante! Nada poderia atiçar mais nossa curiosidade e espírito científico.
Talvez a beleza more no mistério. Ao se fazer parecer um local (dimensão?) de fácil acesso, o banheiro feminino joga com nossa imaginação. Quem passa em frente àquela porta fingidamente receptiva sente, por um instante, que pode ver além dos seus véus. A isca foi lançada. Doce e agoniante sonho o da iminência de saciar a curiosidade jamais saciada.

Mas se chegamos a este século, tão avançado no tempo e na História (não nos costumes), com alguns segredos do universo ainda intactos, é preferível que assim permaneçam. Se resistiram aos holofotes da ciência e ao intrometimento do homem, merecem continuar habitando o reino do insondável. Por que não resguardar o pouco de fantasia que ainda nos resta? Pode fazer falta.

Há quem diga que o banheiro feminino não existe, que não passa de um ideário romântico. Como se tudo fosse apenas questão de comprovação laboratorial. Tristes dias estes em que a única espécie do planeta dotada de subjetividade resolve renunciá-la para livrar a existência da inquietante sensação da dúvida. Por que temer o desconhecido? A vida, cavalo selvagem por natureza, sem a dúvida vira um carrossel.

O fascínio pelo desconhecido nos acompanha dos primórdios e talvez até antes. Enquanto ele existir, o banheiro feminino vai continuar servindo de fonte de inspiração, desafios e controvérsias. Vai continuar acalentando os sonhos do poeta e intrigando o cientista em seu ofício. Ao buscar o desconhecido, cada um com a ferramenta que tem à disposição, desde a criança que se lança ao quarto escuro ao andarilho que tateia os confins do universo, o homem está, na verdade, procurando o não-explicado dentro dele mesmo. Esse não-explicado, que não tem nome nem nunca vai ter, também não tem solução.

Por isso, não deixa de ser irônico que, se algum dia uma expedição bem-sucedida chegar ao banheiro feminino, os expedicionários olharão seus reflexos no espelho (supondo que lá haja um espelho) e ali perceberão que o maior mistério de todos esteve e estará com eles o tempo todo.

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