sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Espírito da Noite

Por enquanto ainda nos resta a noite para as necessidades da alma. Nela ainda podemos chamar por nossos antepassados e ouvi-los sem a interferência profana da metrópole. Muitos duvidam que se possa conversar com espíritos, mas eu converso com o meu, desde que se façam as trevas. Quando tudo que é civilização dorme, emerge o reino das sombras. O domínio dos insetos e das essências, dos perfumes e dos sussurros, do medo e das paixões. A noite preserva nosso último quinhão de humanidade, onde estamos outra vez nus e imaculados. Não há mentira que resista nem máscara social que engane a consciência pura do eterno breu. A farsa do homem industrial pode desfilar galharda à luz do dia e até convencer muitos de seu discurso, porque baseia-se em aparências. Mas, quando cai a noite e, para enxergar, se faz preciso recorrer não mais aos olhos, mas ao espírito, então só resta a verdade.

Eu nasci à noite. Não sei quantas mais gerações terão esse privilégio. O apetite irrefreável da tecnologia parece implicar com tudo quanto fez a Natureza e não espantaria se resolvesse extinguir a noite de vez, criando, quem sabe, um sol para depois que o sol se pusesse. Aliás, é muito conveniente que não haja mais escuridão, todos sairiam ganhando: as máquinas, as pessoas-maquinizadas, o mercado, as pessoas-mercadorias e assim sucessivamente. Para os nossos dias a contemplação e a quietude são caprichos do vadio. (Se um dia eu for rico o suficiente, vou queimar dinheiro.)

Eu nasci à noite e a noite nasceu em mim.

Já passa das onze quando saio do trabalho. A cidade aqui dorme cedo e não fica ninguém na rua, a não ser quem tenha motivo ou vocação. Chove fino. Antes de voltar para casa, vou a uma lanchonete comprar a janta. Ali estou entre os que dormem de dia e caçam à noite: assassinos, meretrizes, revolucionários, vampiros. Quero bem a todos eles, meus irmãos de turno. Não sei se a recíproca é verdadeira, porque nunca conversamos, mas não me importa. Aguardo meu pedido ficar pronto e meu coração está em paz.

Perto de mim tem uma mulher da pele branca toda vestida de preto perdida em pensamentos. Dá para ver que ela vagueia por distantes dimensões, talvez a Ilha Sacalina, de onde parece provir. Reparando bem, é tão pálida que permite entrever as veias do braço, o que não deixa de ser uma modalidade de nudez, penso. E depois ruborizo.

O que eu queria mesmo era me perder em um beco e topar com um demônio ou vários, os meus e os dos outros. Sinto que eles têm muito a dizer, ainda mais porque vão direto ao ponto, diferente dos deuses, que preferem as parábolas. A noite tem seus salmos e seus querubins. Obscenos e rotos, respectivamente. Se os sinos lá fora não dobram, tanto melhor, porque os ouço badalar cá dentro.

Pouco antes de voltar para meu carro, a jovem de Sacalina vem pedir carona. Parecia desperta de seu transe.

- Quem é você? - ela perguntou.

- Vítor. E você?

- Sou o Espírito da Noite. Acredita em mim?

- Claro.

Mesmo assim ela quis provar. Abriu a jaqueta e no seu tronco dava para ver o céu estrelado, as muitas constelações e um rastro de cintilação prata que devia ser a Via Láctea. Nas costas, brilhava a Aurora Boreal.

- É na Noruega? - perguntei.

- É, sim - ela confirmou.

Fiquei olhando algum tempo, sem querer parecer indiscreto.

- Gosta da noite, Vítor?

- Muito.

- Eu sei. Já percebi. No início você tinha medo, mas agora gosta.

Ela levou a mão até a altura da terceira costela da esquerda, na direção de uma das tantas constelações, e arrancou de lá uma estrela, não muito grande.

- Toma. Um presente pela sua dedicação - e me estendeu a mão.

- O que é?

- Órion.

- E não vai fazer falta?

- Ninguém mais repara.

Desceu do carro sem que tívessemos sequer saído do estacionamento e eu entendi que a carona dela era para qualquer lugar ou lugar nenhum. Foi caminhando para longe, mas antes que sumisse de vez, gritei:

- Devolve minha carteira!

Brincadeira. Na verdade eu só fiquei olhando ela se afastar, afastar, até desaparecer na escuridão, ou seja, nela mesma. Aproveitei o exemplo para também mergulhar em mim.

sábado, 1 de outubro de 2011

Como a gota cai

A esta altura já deve estar bem óbvio, até mesmo para os últimos fiéis, que Deus nos abandonou, ou melhor, nós O abandonamos. Mais adequado ainda: o abandono foi recíproco, de comum acordo, as partes entenderam que não significavam mais nada uma para a outra, embrulharam seus pertences e tocaram adiante. Mas enquanto ele pode desfrutar de todo o universo e além, nós ficamos restritos a esta terra e seus dilemas. Pior, ainda não encontramos ninguém para o lugar Dele.

Acho que o desenlace se deu no século XX, mas já vinha sendo preparado um pouco antes, no caldeirão de Voltaire e amigos. Malditos ou benditos sejam! Talvez não imaginassem o tamanho do preço que pagaríamos pela liberdade, pela ousadia de nos desgarrarmos do rebanho milenar.

Acabo de lembrar do que vi na tv há um tempo. Era um material sobre um homem que ficou na cadeia grande parte da vida. No dia da libertação, combalido, resignado, ele vai se despedindo lentamente dos funcionários. Ninguém da família está ali para buscá-lo e ele nem sabe se tem uma. Os portões da liberdade se abrem. O homem sai da cadeia e caminha a esmo, para onde aponta o nariz. A câmera vai afastando, devagar, e daqui a pouco o ex-prisioneiro é só um ponto triste no meio da estrada sem fim.

Deus não foi só um pai. Era o sentido de tudo, inclusive das coisas sem sentido, que costumam ser também as mais doídas. Nele havia não só explicação para a dor, mas também um propósito! Imagino que deveria ser reconfortante saber que a própria vida fazia parte dos desígnios divinos, que havia uma razão cósmica e sagrada para cada acontecimento terreno.

Perdemos essa e outras dádivas. De repente nos vimos à deriva num universo sem lógica, sem propósito, sem fim nem explicação. Ninguém para ditar os rumos, para dizer o que é certo e errado, para pensar pela gente, para cuidar da nossa vida pela gente.

Trazer Deus de volta não dá. Seja por ignorância ou amadurecimento, estamos apartados Dele para sempre. O Deus das igrejas de hoje, que seria uma solução fácil, tampouco serve, não passa de um arremedo e não poderia ser diferente. O antigo Pastor é inconciliável com os atuais corações e mentes.

Imenso drama. O Ocidente se despede de Deus e não encontra ninguém para o lugar. Várias opções concorrem: o Mercado, o Indivíduo, o Narcisismo, o Hedonismo. Há quem veja Deus em pílulas, no dinheiro, no trabalho, no vício, nos rituais vazios da vida social. Quase todos O procuramos, em regra nos lugares mais estapafúrdios. Somos garimpeiros desesperados de um veio seco.

Não admira que custemos tanto a aceitar a inexistência de uma força divina. Ao longo dos dias topamos com ela inúmeras vezes. Vem na forma de chuva, de uma paisagem, de um sorriso, de um acorde. Aliás, a arte não deixa de ser uma tentativa de trazer o divino para nosso convívio. Ele não tem nome, não tem explicação, mas, diabos, quem vai negá-lo? Mais inquietante ainda é saber que mesmo dentro das pessoas mora essa incandescência que nos escapa à compreensão.

Mas por que a força divina precisa ser também consciente? Por que tem que ser a nossa imagem e semelhança, falar português e todas as outras línguas, planejar o destino de todos os seres viventes e coisas?

A minha opinião é que a crença num Deus racional nasce do egocentrismo do homem. Ele não admite que não haja um propósito para a sua própria existência. Que não haja um paraíso após a morte. Sobretudo, o homem se recusa a aceitar que não haja ninguém nas alturas cuidando dele e de seu destino. Em suma, se recusa a aceitar que, para o universo, valemos tanto quanto os outros animais.

Conversava com um amigo uma noite exatamente sobre esse assunto. Foi quando ele veio com um pensamento que é a essência do que quero dizer. "Por que as pessoas pensam que nossa existência é especialmente predestinada por Deus? Para com isso! Somos todos, seres, homens e coisas, parte única de um grande universo. Sem essa de privilégio para esse ou aquele. Eu nasci como... como... a gota cai." E apontou para a gota do chuvisco.

Nascemos como a gota cai, sem demérito pra gente nem pra ela. Quem não entende que o pulsar de um coração tem tudo a ver com a vazão das cataratas ou com o canto das cigarras, não entende também que o divino está em todos os lugares e não apenas faz parte de uns poucos escolhidos. Ao nos darmos conta disso, vamos parar de procurá-lo desse jeito atabalhoado dos últimos séculos. E aí ele começará a aparecer.