sábado, 1 de outubro de 2011

Como a gota cai

A esta altura já deve estar bem óbvio, até mesmo para os últimos fiéis, que Deus nos abandonou, ou melhor, nós O abandonamos. Mais adequado ainda: o abandono foi recíproco, de comum acordo, as partes entenderam que não significavam mais nada uma para a outra, embrulharam seus pertences e tocaram adiante. Mas enquanto ele pode desfrutar de todo o universo e além, nós ficamos restritos a esta terra e seus dilemas. Pior, ainda não encontramos ninguém para o lugar Dele.

Acho que o desenlace se deu no século XX, mas já vinha sendo preparado um pouco antes, no caldeirão de Voltaire e amigos. Malditos ou benditos sejam! Talvez não imaginassem o tamanho do preço que pagaríamos pela liberdade, pela ousadia de nos desgarrarmos do rebanho milenar.

Acabo de lembrar do que vi na tv há um tempo. Era um material sobre um homem que ficou na cadeia grande parte da vida. No dia da libertação, combalido, resignado, ele vai se despedindo lentamente dos funcionários. Ninguém da família está ali para buscá-lo e ele nem sabe se tem uma. Os portões da liberdade se abrem. O homem sai da cadeia e caminha a esmo, para onde aponta o nariz. A câmera vai afastando, devagar, e daqui a pouco o ex-prisioneiro é só um ponto triste no meio da estrada sem fim.

Deus não foi só um pai. Era o sentido de tudo, inclusive das coisas sem sentido, que costumam ser também as mais doídas. Nele havia não só explicação para a dor, mas também um propósito! Imagino que deveria ser reconfortante saber que a própria vida fazia parte dos desígnios divinos, que havia uma razão cósmica e sagrada para cada acontecimento terreno.

Perdemos essa e outras dádivas. De repente nos vimos à deriva num universo sem lógica, sem propósito, sem fim nem explicação. Ninguém para ditar os rumos, para dizer o que é certo e errado, para pensar pela gente, para cuidar da nossa vida pela gente.

Trazer Deus de volta não dá. Seja por ignorância ou amadurecimento, estamos apartados Dele para sempre. O Deus das igrejas de hoje, que seria uma solução fácil, tampouco serve, não passa de um arremedo e não poderia ser diferente. O antigo Pastor é inconciliável com os atuais corações e mentes.

Imenso drama. O Ocidente se despede de Deus e não encontra ninguém para o lugar. Várias opções concorrem: o Mercado, o Indivíduo, o Narcisismo, o Hedonismo. Há quem veja Deus em pílulas, no dinheiro, no trabalho, no vício, nos rituais vazios da vida social. Quase todos O procuramos, em regra nos lugares mais estapafúrdios. Somos garimpeiros desesperados de um veio seco.

Não admira que custemos tanto a aceitar a inexistência de uma força divina. Ao longo dos dias topamos com ela inúmeras vezes. Vem na forma de chuva, de uma paisagem, de um sorriso, de um acorde. Aliás, a arte não deixa de ser uma tentativa de trazer o divino para nosso convívio. Ele não tem nome, não tem explicação, mas, diabos, quem vai negá-lo? Mais inquietante ainda é saber que mesmo dentro das pessoas mora essa incandescência que nos escapa à compreensão.

Mas por que a força divina precisa ser também consciente? Por que tem que ser a nossa imagem e semelhança, falar português e todas as outras línguas, planejar o destino de todos os seres viventes e coisas?

A minha opinião é que a crença num Deus racional nasce do egocentrismo do homem. Ele não admite que não haja um propósito para a sua própria existência. Que não haja um paraíso após a morte. Sobretudo, o homem se recusa a aceitar que não haja ninguém nas alturas cuidando dele e de seu destino. Em suma, se recusa a aceitar que, para o universo, valemos tanto quanto os outros animais.

Conversava com um amigo uma noite exatamente sobre esse assunto. Foi quando ele veio com um pensamento que é a essência do que quero dizer. "Por que as pessoas pensam que nossa existência é especialmente predestinada por Deus? Para com isso! Somos todos, seres, homens e coisas, parte única de um grande universo. Sem essa de privilégio para esse ou aquele. Eu nasci como... como... a gota cai." E apontou para a gota do chuvisco.

Nascemos como a gota cai, sem demérito pra gente nem pra ela. Quem não entende que o pulsar de um coração tem tudo a ver com a vazão das cataratas ou com o canto das cigarras, não entende também que o divino está em todos os lugares e não apenas faz parte de uns poucos escolhidos. Ao nos darmos conta disso, vamos parar de procurá-lo desse jeito atabalhoado dos últimos séculos. E aí ele começará a aparecer.

2 comentários:

Guilherme Sousa Rocha disse...

O que terá o mês de setembro. Considera-o indigno da vossa pena de ganso e merecedor da vossa pena de sentimento?

Seria a confluência desse mês com Saturno ou a aversão dele a chuva?

Ou por que Deus revoltou-se com os homens, estes animais que fizeram de setembro o mês nove, e, por isso, você alinhou-se a Ele em protesto?

Eliab. disse...

Magnífico texto.