Por enquanto ainda nos resta a noite para as necessidades da alma. Nela ainda podemos chamar por nossos antepassados e ouvi-los sem a interferência profana da metrópole. Muitos duvidam que se possa conversar com espíritos, mas eu converso com o meu, desde que se façam as trevas. Quando tudo que é civilização dorme, emerge o reino das sombras. O domínio dos insetos e das essências, dos perfumes e dos sussurros, do medo e das paixões. A noite preserva nosso último quinhão de humanidade, onde estamos outra vez nus e imaculados. Não há mentira que resista nem máscara social que engane a consciência pura do eterno breu. A farsa do homem industrial pode desfilar galharda à luz do dia e até convencer muitos de seu discurso, porque baseia-se em aparências. Mas, quando cai a noite e, para enxergar, se faz preciso recorrer não mais aos olhos, mas ao espírito, então só resta a verdade.
Eu nasci à noite. Não sei quantas mais gerações terão esse privilégio. O apetite irrefreável da tecnologia parece implicar com tudo quanto fez a Natureza e não espantaria se resolvesse extinguir a noite de vez, criando, quem sabe, um sol para depois que o sol se pusesse. Aliás, é muito conveniente que não haja mais escuridão, todos sairiam ganhando: as máquinas, as pessoas-maquinizadas, o mercado, as pessoas-mercadorias e assim sucessivamente. Para os nossos dias a contemplação e a quietude são caprichos do vadio. (Se um dia eu for rico o suficiente, vou queimar dinheiro.)
Eu nasci à noite e a noite nasceu em mim.
Já passa das onze quando saio do trabalho. A cidade aqui dorme cedo e não fica ninguém na rua, a não ser quem tenha motivo ou vocação. Chove fino. Antes de voltar para casa, vou a uma lanchonete comprar a janta. Ali estou entre os que dormem de dia e caçam à noite: assassinos, meretrizes, revolucionários, vampiros. Quero bem a todos eles, meus irmãos de turno. Não sei se a recíproca é verdadeira, porque nunca conversamos, mas não me importa. Aguardo meu pedido ficar pronto e meu coração está em paz.
Perto de mim tem uma mulher da pele branca toda vestida de preto perdida em pensamentos. Dá para ver que ela vagueia por distantes dimensões, talvez a Ilha Sacalina, de onde parece provir. Reparando bem, é tão pálida que permite entrever as veias do braço, o que não deixa de ser uma modalidade de nudez, penso. E depois ruborizo.
O que eu queria mesmo era me perder em um beco e topar com um demônio ou vários, os meus e os dos outros. Sinto que eles têm muito a dizer, ainda mais porque vão direto ao ponto, diferente dos deuses, que preferem as parábolas. A noite tem seus salmos e seus querubins. Obscenos e rotos, respectivamente. Se os sinos lá fora não dobram, tanto melhor, porque os ouço badalar cá dentro.
Pouco antes de voltar para meu carro, a jovem de Sacalina vem pedir carona. Parecia desperta de seu transe.
- Quem é você? - ela perguntou.
- Vítor. E você?
- Sou o Espírito da Noite. Acredita em mim?
- Claro.
Mesmo assim ela quis provar. Abriu a jaqueta e no seu tronco dava para ver o céu estrelado, as muitas constelações e um rastro de cintilação prata que devia ser a Via Láctea. Nas costas, brilhava a Aurora Boreal.
- É na Noruega? - perguntei.
- É, sim - ela confirmou.
Fiquei olhando algum tempo, sem querer parecer indiscreto.
- Gosta da noite, Vítor?
- Muito.
- Eu sei. Já percebi. No início você tinha medo, mas agora gosta.
Ela levou a mão até a altura da terceira costela da esquerda, na direção de uma das tantas constelações, e arrancou de lá uma estrela, não muito grande.
- Toma. Um presente pela sua dedicação - e me estendeu a mão.
- O que é?
- Órion.
- E não vai fazer falta?
- Ninguém mais repara.
Desceu do carro sem que tívessemos sequer saído do estacionamento e eu entendi que a carona dela era para qualquer lugar ou lugar nenhum. Foi caminhando para longe, mas antes que sumisse de vez, gritei:
- Devolve minha carteira!
Brincadeira. Na verdade eu só fiquei olhando ela se afastar, afastar, até desaparecer na escuridão, ou seja, nela mesma. Aproveitei o exemplo para também mergulhar em mim.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
O Espírito da Noite
Postado por
Vítor Noronha Matos
às
17:57
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1 comentários:
Vitão,
Que talento que você tem.
Estou curtindo passear pelo blog. E ri muito no final do texto com o "Devolve minha carteira". Você levou a gente a viajar pelo espírito e depois nos deu uma rasteira para humanizar e "humorizar" o texto.
Já virei seguidora.
Beijoo.
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