terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os neo-bárbaros

Gostaria muito de saber o que aconteceria se o mundo de repente recomeçasse do zero: se chegaríamos outra vez exatamente ao ponto em que estamos hoje ou se, em alguma bifurcação da História, tomaríamos um outro caminho. Caso este mundo seja a única alternativa possível, um destino inexorável, então a humanidade carrega em seu dna, para o bem e para o mal, uma sina que, mesmo com todo nosso desenvolvimento, nunca conseguiremos resolver.

Não quero acreditar que estejamos de mãos atadas diante dos defeitos da nossa sociedade. Como se tivéssemos imperativos biológicos ou mesmo psicológicos que não nos deixassem escolha! Diante das supostas falhas inatas do ser humano, qualquer proposta de reinvenção é ridicularizada como utopia. Uma vez li que a ditadura mais cruel é aquela que não deixa espaços para os subjugados sequer vislumbrarem um outro modo de vida. Talvez estejamos nesse ponto.

Vejo graves males na sociedade que construímos e que são atribuídos à "natureza humana": a cobiça, o consumismo, o exibicionismo, a competição selvagem em cada seara da vida, a mercantilização das pessoas, a coisificação dos sentimentos. Todos ligados à concepção, tida como verdade inquestionável entre nós, de que a felicidade está ligada a uma série de conquistas externas ao indivíduo, principalmente nas áreas profissional, material e sexual. Se continuarmos aceitando tais preceitos, vamos esgotar ainda mais as pessoas, que dão claros sinais de que andam sufocadas. Basta olhar ao redor.

O mais provável é que o homem não tenha nascido para idolatrar o dinheiro, ou a fama, ou qualquer outro desses valores distorcidos e que algo de fundamental na nossa essência tenha se perdido pelo caminho. Minha opinião é que geramos uma cultura em vários aspectos cruel e que desvirtuou nossa vocação natural. O processo se agravou nos últimos anos, porque agora a cultura martela nossas mentes 24 horas por dia, na televisão, no celular, em todo o canto e em qualquer circunstância. Ela é a nova religião. Com a diferença de que os sermões do padre eram circunscritos à igreja e os sermões de agora preenchem todo o tempo em que estamos acordados.

Vivemos um mundo dentro do outro. O da cultura não corresponde ao real e por vezes deturpa a verdade, mas é o que preferimos habitar. Fora da cultura resta o ostracismo e a rejeição, a meu ver os principais fantasmas do homem atual. O indíviduo aceita - quando não deseja - mesmo as maiores mutilações (até físicas) impostas à sua própria natureza , em nome da inclusão privelegiada na sociedade. Como nos apavora o silêncio, o estarmos só! Talvez porque, uma vez sentados frente a frente conosco, tenhamos verdades pouco confortáveis para nos dizer. Mas é libertador ouvi-las, e isso não nos ensina a cultura, pelo contrário, nos exorta o tempo inteiro ao convívio social, ainda que completamente vazio de significado, desde que mantenha a mente ocupada com frivolidades.

Desconfio que tudo isso tenham visto os hippies, os socialistas e outros cuja menção frequentemente vem acompanhada do adjetivo "utópico". Erraram, na minha opinião, não em propor um novo modelo de sociedade, que fosse mais justo e menos predatório (considerando que fosse esse realmente seu objetivo); o equívoco foi tentar impor um novo olhar de vida a uma população que estava e ainda está fortemente abraçada ao antigo. Não é por força da política, da boa vontade ou da guerra que se mudam as mentes. Leva tempo, gerações inteiras para que verdades enraizadas sejam substituídas por outras. Enquanto a maioria das pessoas continuar habitando o mundo velho, estaremos todos em maior ou menor grau fadados a ele.

Em maior ou menor grau porque acredito, de forma talvez até ingênua, que um distanciamento razoável da cultura vigente seja possível, sem que isso afete o conforto material e emocional. Não deve ser fácil, mas parece uma missão necessária e empolgante. Li um autor que fala em rebarbarização e gostei da ideia. Não no sentido de nos tornarmos selvagens, claro, mas no de reencontrarmos traços fundamentais de nossa natureza humana que deixamos para trás (talvez nas florestas ou nas estepes!).

Seria um erro e desperdício de tempo tentar incluir a população. Não dá pra sair pelas ruas gritando "rebarbarize-se!", se bem que dá vontade. Nosso momento é de protestar pela liberação do uso de certas drogas e por outras causas mais ou menos do mesmo gênero. De pouco adianta querer atropelar a ordem do dia. Vai chegar a hora de parar e colocar em dúvida a sociedade que construímos, até pela saturação que ela deve atingir. Mas essa hora não é agora e não dá sinais de estar por perto.

Até lá, resta aos neo-bárbaros (distinto clã, que ganha cada vez mais adesões) o contorcionismo de manter um pé neste mundo ao mesmo tempo que não se afastam do outro, o tacape na mão direita e o notebook na esquerda. Enquanto conseguirem, estará acesa a utopia.