terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Ensinamentos

Nas alturas do Tibet, onde a águia faz o ninho e o tempo é relativo, o Mestre meditava em sua posição de lótus. De repente, apavorado, entra correndo o estagiário do templo.

- Mestre! Vem vindo em nossa direção um exército terrível! Milhares de homens, animais, armas!

- Acordai os gulus e entragai-lhes os bambus! Lápido!

(Duas coisas: é de se supor, pela frase acima, que o Mestre falava em rimas, o que não é sempre verdade. Como também não é de boa-fé dizer que ele sistematicamente trocava os R pelos L. Acontecia apenas quando se emocionava.)

O Mestre calçou suas havaianas e desceu para terminar de dar as ordens. Grande alvoroço tomou conta do templo. Fizeram soar o gongo e os gurus, em passos rápidos, tomavam posições no batalhão, não sem antes passar pela despensa, onde se armavam com seus bambus de guerra.

Foi o tempo de terminarem de se arrumar e a marcha do exército inimigo começou a ser ouvida na curva da montanha. Chegava cada vez mais perto. O Mestre, que voava entre as fileiras conferindo se estava tudo em ordem, mandou abrirem as portas do templo. "Espelalemos lá fola!"

Em poucos minutos apenas a extensão do campo, salpicado de papoulas e madressilvas, separava as duas linhas rivais. Era assustadora a discrepância entre elas. De um lado, o exército inimigo, formado por milhares de homens, todos fortemente armados, vestindo couraças de bronze e montados em cavalos selvagens. Do outro lado, Mestre e seus discípulos, que não passavam de duzentos, armados apenas de bambus e sem proteção alguma a não ser suas batas.

Por alguns instantes os dois exércitos se encararam imóveis. O silêncio e a espera pesavam no ar. De repente o comandante dos inimigos cavalgou para a frente de seus homens, gritou uma ordem e deu meia-volta. Seu exército inteiro o seguiu, batendo em retirada.

***

Mais tarde, quando sorvia o chá, o Mestre foi outra vez interrompido pelo estagiário, que agora tinha a surpresa estampada no rosto:

- Mestre, não entendo.

- O que, meu filho?

- O que houve esta tarde? Por que os inimigos desistiram de lutar? Eles estavam em número muito maior, equipados com armas poderosas. E nós? Praticamente nús e com nossos bambus! (O estagiario começava, também ele, a rimar).

- Sim, eu vi.

- E mesmo assim o senhor nos levou para esperá-los no campo! Naquela hora eu pensei que seríamos esmagados! Como sabia que eles iriam desistir, Mestre?

- Eu não sabia, filho. Aquilo que se passa na mente do Outro é insondável. Mas só vamos descobrir as intenções dele com a gente se nos dispusermos a encará-lo. Às vezes o óbvio não é tão óbvio assim e, em todo caso, a coragem sempre é premiada.

- Não esquecerei nunca dessas palavras, Mestre!

- Faça delas o melhor uso. Agora me passe bule de chá, por favor.

- Aqui está.

- Obligado.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Petiscos, alguma bebida e uma conversa

É bom saber que no meu quarto posso ser o maior poeta de todos os tempos e também o mais extravagante. Ter um cavalo preto chamado Finisterre, montar-lhe sem arreio e varrer a galope os cantos distantes da Terra. Sublevar a multidão com minha guitarra, meus hinos libertários e meu inconfundível cigarro de palha no canto da boca, apagado. Ali cultivo as flores extintas e ouço o canto dos animais dos dois hemisférios, os reais e os sobrenaturais. Sobretudo, é onde posso conversar com o Diabo:

- Nunca entendi por que você usa um bigode à Dali.

- Não lhe ocorre que ele tenha me imitado? No início eu gostava mais das suas perguntas. O que houve? Perdeu a sede filosófica? Será que já encontrou a verdade ou desistiu de procurar?

- Pelo contrário. Ando encorajado para as buscas do Ano-Novo. Sinto a inspiração exploratória mais do que nunca.

- Entendo. Até aparecerem os negócios, paixões ou qualquer outra distração mais atraente. Passe a minhoca cítrica, por favor.

- Toma aqui. Você acha que me conhece, porque já viu muitos outros parecidos. Será que comigo não pode ser diferente? Será que não posso levar adiante a vontade de perscrutar a vida? Não acho que todos estejamos prometidos a uma existência às escuras, só porque de repente nos atropelam imperativos da convivência em sociedade ou sei lá o que mais as pessoas inventam para fugir do essencial e se aferrar ao supérfluo.

- O discurso, sem dúvida, é este, amigo reformador. Já ouvi mais ou menos as mesmas palavras numa infinidade de idiomas ao longo dos séculos, muitas vezes de mentes bem mais interessantes que a sua. Quantos fizeram ações das palavras? Quantos decidiram arcar com o preço de elevar o pensamento rumo à liberdade? Tão poucos. Não te vejo entre eles, você é um rapaz comum, com aspirações de rapaz comum. Vá tocar a vida como fazem seus colegas e todo o resto do planeta. As dores do conhecimento não são pra você.

- Você se engana. Quem disse que não quero ser alguém comum? Quero ser o mais normal dos homens, quero estar o mais próximo possível do projeto que o Universo talhou para a espécie. Mas não é isso que fazem a maioria das pessoas! Elas é que são incomuns, porque se afastam de sua própria natureza humana. Criam vontades, comportamentos e regras absolutamente anti-naturais. Criaram esta sociedade e suas leis que não passam de ficção. Muita gente acha que não dá pra escapar do engodo, mas eu acredito que dê!

- A Coca-Cola agora. Está gelada? Hum, que beleza. Obrigado. Você é engraçado. Não devia falar essas coisas por aí. Você fala? Devem te tomar por ingênuo e é isso que você é. Mas um ingênuo engraçado. Não me venha dizer que você não desconfia que a caminhada que propõe é um tanto solitária, no mínimo. Alguma receita para lidar com o silêncio? Não te vejo tão adaptado.

- Eu sei. Nisso você tem razão. Mas se essa conversa fosse há um ano, teria mais razão ainda. Tenho me preparado. Não acho que devo estar pronto exatamente agora ou amanhã. A espera, aliás, faz parte da pedagogia, acho. Além disso, tenho encontrado outras pessoas mais ou menos dispostas no mesmo sentido. Talvez eu tenha companhia. Talvez o mundo tenha chegado a um momento de inflexão, quando mais e mais gente vem cogitando rotas que não sejam as convencionais. O provolone, faz favor.

- Aqui está. Derretido como manda o bom-senso. Sabe de uma coisa? Se você se refere às pessoas ao seu redor quando diz que percebe gente disposta a se apartar da sociedade, acho que está exagerando. Abra um pouco os olhos, companheiro. O que as pessoas mais querem é inclusão, serem abraçados no grande seio da comunidade. Amar e ser amados, o grande sonho! Não sei se você também não é assim...

- Não estou falando em nos tornarmos eremitas. Mas será que não é possível aproveitar da sociedade só o que ela de melhor pode oferecer e não se deixar afetar pelo resto? Quero acreditar que sim! Ou não somos, humanos, dotados de inteligência justamente para repensar nosso próprio destino? Viver de acordo com os dogmas dos outros, sinceramente, não acho que a Natureza nos tenha feito para uma prisão assim.

- Hahahahaha! Se eu pudesse ser jovem outra vez! O que eu não daria pelas ilusões de antes? O que eu não daria para voltar a sonhar? Juro que lutaria com todas minhas forças ao seu lado, meu bravo, para provar para o mundo inteiro que a utopia está ao alcance de todos! Que bela lição não daríamos a todos aqueles que se aprisionam! E um dia a manhã iria raiar e ninguém mais precisaria prestar contas a não ser à própria consciência. E ninguém mais amaria por culpa ou por obrigação! Quantas crenças não se tornariam obsoletas e, consequentemente, seus profetas de araque! E os falsos sábios? Depois de muito tempo o homem experimentaria o gosto da palavra liberdade e, juro, lamberia os dedos!

- Agora sim! Eloquência! Poesia! Ainda cabe um na garupa de Finisterre!

- Dá cá um abraço!

- Feliz Natal!

- Feliz Natal!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A antevéspera de Natal

Descíamos a serra, que não era das mais imponentes, mas era orgulhosa, enlameada, cheia de buracos e ávida por motores importados. Sua paixão era fazer derrapar um de tração nas quatro rodas. Regozijava-se, escancarava a bocarra, seu sorriso de cascalho. Debaixo de chuva, então, redobrava a fúria e tornava-se quase invencível.

Descíamos a serra e, lá embaixo, encontrávamos um velho da idade dos séculos. Sentado no alpendre, afiava uma faca, o olhar concentrado, a barba cinza balançando com o vento. Seus cães nos lambiam. Cumprimentávamos o velho.

Ele guardava a faca no cinto, à moda dos caçadores de crocodilo, e colocava mais dois ou três itens menos importantes no seu alforje de caçador. "Vamos". E atrás dele seguia a fila de seus descendentes.

No meio do caminho as crianças começavam a correr, para chegar na frente. Estacavam diante do chiqueiro e olhavam com alguma compaixão e muita curiosidade para aqueles cujo destino estava traçado. A experiência tinha algo de místico.

O velho entrava no chiqueiro com um pontapé na porteira, que andava há anos emperrada e está até hoje. Só então os porcos se davam conta do que estava acontecendo e, desesperados, grunhiam para seus deuses. Em vão. O velho agarrava o mais gordo pela pata e o arrastava para fora. Sabiamente as crianças não criavam nenhum laço afetivo com um leitão nascido na fazenda, porque conheciam o que lhe esperava no fim do ano.

Quando os ajudantes conseguiam imobilizar o porco, cada um segurando numa pata, o velho desembainhava a faca - um facho de sol se refletia na lâmina - e desferia o golpe fatal no coração. Um grunhido terrível ecoava por quilômetros de distância. O mundo ficava em silêncio por um instante. Depois voltava ao normal. Nossos preparativos de Natal ainda guardam parentesco com os ritos pagãos.

Carregava-se o porco, num carrinho de mão, para o quintal de casa. Lá o velho usava a água fervente de um panelão, preparado no forno a lenha, para tirar o pelo do bicho. Jogava a água e raspava com a faca, curiosa barbearia. Depois o couro pelado do porco era tratado com labaredas de maçarico, completando a etapa da limpeza.

Abria-se o animal do queixo ao fim. Primeiro eram retirados os órgãos. Os comestíveis iam para uma bacia, os outros, não lembro. A faca não parava. De repente se instalava uma linha de produção: uns cortavam as partes maiores, outros as menores, outros picavam a carne, eram muitas atividades. Cada um desempenhava aquela em que se saía melhor e que estava de acordo com sua idade.

Gostaria muito de dizer que no meio daquele alegre trabalho alguém começava uma canção que era logo entoada por todos. Mas essa seria uma fantasia minha. Havia mesmo era muita conversa, mas era tão palpável o contentamento geral que, se alguém cantasse, não faria extravagância.

Perto do fim da tarde parava de chover. Abria um sol pudico. Nessa hora a gente colhia as uvas, mangas e goiabas, correndo o risco o tempo de todo de sermos picados por marimbondos, que também apreciavam as frutas. Quando alguém era ferroado, jogavam pinga no ferimento e tudo se resolvia.

Ia anoitecendo, as corujas iam piando. Era hora de carregar o carro com a comida batalhada ao longo do dia e que serviria para a ceia na noite seguinte. O carro que ia com o queijo caseiro demorava dois meses para se livrar do cheiro, com sorte lá pro carnaval.

"Tchau, velho." Subíamos a serra. Na época eu não entendia bem, mas hoje faz todo sentido que a antevéspera de Natal fosse, para mim, o dia mais feliz do fim do ano.