quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A antevéspera de Natal

Descíamos a serra, que não era das mais imponentes, mas era orgulhosa, enlameada, cheia de buracos e ávida por motores importados. Sua paixão era fazer derrapar um de tração nas quatro rodas. Regozijava-se, escancarava a bocarra, seu sorriso de cascalho. Debaixo de chuva, então, redobrava a fúria e tornava-se quase invencível.

Descíamos a serra e, lá embaixo, encontrávamos um velho da idade dos séculos. Sentado no alpendre, afiava uma faca, o olhar concentrado, a barba cinza balançando com o vento. Seus cães nos lambiam. Cumprimentávamos o velho.

Ele guardava a faca no cinto, à moda dos caçadores de crocodilo, e colocava mais dois ou três itens menos importantes no seu alforje de caçador. "Vamos". E atrás dele seguia a fila de seus descendentes.

No meio do caminho as crianças começavam a correr, para chegar na frente. Estacavam diante do chiqueiro e olhavam com alguma compaixão e muita curiosidade para aqueles cujo destino estava traçado. A experiência tinha algo de místico.

O velho entrava no chiqueiro com um pontapé na porteira, que andava há anos emperrada e está até hoje. Só então os porcos se davam conta do que estava acontecendo e, desesperados, grunhiam para seus deuses. Em vão. O velho agarrava o mais gordo pela pata e o arrastava para fora. Sabiamente as crianças não criavam nenhum laço afetivo com um leitão nascido na fazenda, porque conheciam o que lhe esperava no fim do ano.

Quando os ajudantes conseguiam imobilizar o porco, cada um segurando numa pata, o velho desembainhava a faca - um facho de sol se refletia na lâmina - e desferia o golpe fatal no coração. Um grunhido terrível ecoava por quilômetros de distância. O mundo ficava em silêncio por um instante. Depois voltava ao normal. Nossos preparativos de Natal ainda guardam parentesco com os ritos pagãos.

Carregava-se o porco, num carrinho de mão, para o quintal de casa. Lá o velho usava a água fervente de um panelão, preparado no forno a lenha, para tirar o pelo do bicho. Jogava a água e raspava com a faca, curiosa barbearia. Depois o couro pelado do porco era tratado com labaredas de maçarico, completando a etapa da limpeza.

Abria-se o animal do queixo ao fim. Primeiro eram retirados os órgãos. Os comestíveis iam para uma bacia, os outros, não lembro. A faca não parava. De repente se instalava uma linha de produção: uns cortavam as partes maiores, outros as menores, outros picavam a carne, eram muitas atividades. Cada um desempenhava aquela em que se saía melhor e que estava de acordo com sua idade.

Gostaria muito de dizer que no meio daquele alegre trabalho alguém começava uma canção que era logo entoada por todos. Mas essa seria uma fantasia minha. Havia mesmo era muita conversa, mas era tão palpável o contentamento geral que, se alguém cantasse, não faria extravagância.

Perto do fim da tarde parava de chover. Abria um sol pudico. Nessa hora a gente colhia as uvas, mangas e goiabas, correndo o risco o tempo de todo de sermos picados por marimbondos, que também apreciavam as frutas. Quando alguém era ferroado, jogavam pinga no ferimento e tudo se resolvia.

Ia anoitecendo, as corujas iam piando. Era hora de carregar o carro com a comida batalhada ao longo do dia e que serviria para a ceia na noite seguinte. O carro que ia com o queijo caseiro demorava dois meses para se livrar do cheiro, com sorte lá pro carnaval.

"Tchau, velho." Subíamos a serra. Na época eu não entendia bem, mas hoje faz todo sentido que a antevéspera de Natal fosse, para mim, o dia mais feliz do fim do ano.

1 comentários:

Guilherme Sousa Rocha disse...

E o mais triste para a família Porco.

A propósito, o que te passou nos meses de junho e setembro, nos quais não postaste? O alinhamento dos planetas? O aniversário de uma guerra élfica? Luas cheias não brilhantes o suficiente?