É bom saber que no meu quarto posso ser o maior poeta de todos os tempos e também o mais extravagante. Ter um cavalo preto chamado Finisterre, montar-lhe sem arreio e varrer a galope os cantos distantes da Terra. Sublevar a multidão com minha guitarra, meus hinos libertários e meu inconfundível cigarro de palha no canto da boca, apagado. Ali cultivo as flores extintas e ouço o canto dos animais dos dois hemisférios, os reais e os sobrenaturais. Sobretudo, é onde posso conversar com o Diabo:
- Nunca entendi por que você usa um bigode à Dali.
- Não lhe ocorre que ele tenha me imitado? No início eu gostava mais das suas perguntas. O que houve? Perdeu a sede filosófica? Será que já encontrou a verdade ou desistiu de procurar?
- Pelo contrário. Ando encorajado para as buscas do Ano-Novo. Sinto a inspiração exploratória mais do que nunca.
- Entendo. Até aparecerem os negócios, paixões ou qualquer outra distração mais atraente. Passe a minhoca cítrica, por favor.
- Toma aqui. Você acha que me conhece, porque já viu muitos outros parecidos. Será que comigo não pode ser diferente? Será que não posso levar adiante a vontade de perscrutar a vida? Não acho que todos estejamos prometidos a uma existência às escuras, só porque de repente nos atropelam imperativos da convivência em sociedade ou sei lá o que mais as pessoas inventam para fugir do essencial e se aferrar ao supérfluo.
- O discurso, sem dúvida, é este, amigo reformador. Já ouvi mais ou menos as mesmas palavras numa infinidade de idiomas ao longo dos séculos, muitas vezes de mentes bem mais interessantes que a sua. Quantos fizeram ações das palavras? Quantos decidiram arcar com o preço de elevar o pensamento rumo à liberdade? Tão poucos. Não te vejo entre eles, você é um rapaz comum, com aspirações de rapaz comum. Vá tocar a vida como fazem seus colegas e todo o resto do planeta. As dores do conhecimento não são pra você.
- Você se engana. Quem disse que não quero ser alguém comum? Quero ser o mais normal dos homens, quero estar o mais próximo possível do projeto que o Universo talhou para a espécie. Mas não é isso que fazem a maioria das pessoas! Elas é que são incomuns, porque se afastam de sua própria natureza humana. Criam vontades, comportamentos e regras absolutamente anti-naturais. Criaram esta sociedade e suas leis que não passam de ficção. Muita gente acha que não dá pra escapar do engodo, mas eu acredito que dê!
- A Coca-Cola agora. Está gelada? Hum, que beleza. Obrigado. Você é engraçado. Não devia falar essas coisas por aí. Você fala? Devem te tomar por ingênuo e é isso que você é. Mas um ingênuo engraçado. Não me venha dizer que você não desconfia que a caminhada que propõe é um tanto solitária, no mínimo. Alguma receita para lidar com o silêncio? Não te vejo tão adaptado.
- Eu sei. Nisso você tem razão. Mas se essa conversa fosse há um ano, teria mais razão ainda. Tenho me preparado. Não acho que devo estar pronto exatamente agora ou amanhã. A espera, aliás, faz parte da pedagogia, acho. Além disso, tenho encontrado outras pessoas mais ou menos dispostas no mesmo sentido. Talvez eu tenha companhia. Talvez o mundo tenha chegado a um momento de inflexão, quando mais e mais gente vem cogitando rotas que não sejam as convencionais. O provolone, faz favor.
- Aqui está. Derretido como manda o bom-senso. Sabe de uma coisa? Se você se refere às pessoas ao seu redor quando diz que percebe gente disposta a se apartar da sociedade, acho que está exagerando. Abra um pouco os olhos, companheiro. O que as pessoas mais querem é inclusão, serem abraçados no grande seio da comunidade. Amar e ser amados, o grande sonho! Não sei se você também não é assim...
- Não estou falando em nos tornarmos eremitas. Mas será que não é possível aproveitar da sociedade só o que ela de melhor pode oferecer e não se deixar afetar pelo resto? Quero acreditar que sim! Ou não somos, humanos, dotados de inteligência justamente para repensar nosso próprio destino? Viver de acordo com os dogmas dos outros, sinceramente, não acho que a Natureza nos tenha feito para uma prisão assim.
- Hahahahaha! Se eu pudesse ser jovem outra vez! O que eu não daria pelas ilusões de antes? O que eu não daria para voltar a sonhar? Juro que lutaria com todas minhas forças ao seu lado, meu bravo, para provar para o mundo inteiro que a utopia está ao alcance de todos! Que bela lição não daríamos a todos aqueles que se aprisionam! E um dia a manhã iria raiar e ninguém mais precisaria prestar contas a não ser à própria consciência. E ninguém mais amaria por culpa ou por obrigação! Quantas crenças não se tornariam obsoletas e, consequentemente, seus profetas de araque! E os falsos sábios? Depois de muito tempo o homem experimentaria o gosto da palavra liberdade e, juro, lamberia os dedos!
- Agora sim! Eloquência! Poesia! Ainda cabe um na garupa de Finisterre!
- Dá cá um abraço!
- Feliz Natal!
- Feliz Natal!
domingo, 25 de dezembro de 2011
Petiscos, alguma bebida e uma conversa
Postado por
Vítor Noronha Matos
às
11:30
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1 comentários:
Escrever talvez seja uma das melhores atividades para o Natal.
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