terça-feira, 30 de outubro de 2012

Calor

No 301, há uma vizinha. Não é desajeitada. Raramente acontece de eu encontrá-la no elevador, mas foi o caso nesta noite. Sobre esse singular episódio, apenas uma das alternativas abaixo corresponde à realidade. Marque a correta:

A)

Eu: Oi.
Vizinha: Oi.
Eu: Calor, né?
Vizinha: Nem me fale! Resolvi descer para ver se me refrescava um pouco.
Eu: Olha! Eu também! Coincidência...
Vizinha: Eu sou muito calorenta, sabe?
Eu: Só assim mesmo para vizinhos se encontrarem. Engraçado. Quase nunca a gente se vê. Nem parece que moramos no mesmo préd...
Vizinha: Você pode assoprar um pouco a minha nuca?
Eu: Quê?
Vizinha: Assopra aqui. Não adiantou eu ter colocado essa blusa decotada de alcinhas finas. Estou derretendo. Desculpa se estiver abusando de você.
Eu: Não! Claro. Que isso. Desculpa eu. Assopro aqui?
Vizinha: Era para ser na nuca. Mas pode ser aí também.

B)

Eu: Oi.
Vizinha: Oi.
Eu: Calor, né?
Vizinha: Pra falar a verdade, só comecei a sentir calor agora.
Eu: Agora? Neste instante?
Vizinha: Sim. Quando você entrou.
Eu: Ah...
Vizinha: É você quem toca violão à noite? Eu escuto do meu apartamento.
Eu: Sou eu. Fico treinando.
Vizinha: Adoro sua versão para Atirei o Pau no Gato.
Eu: É a Cavalgada da Valquírias, na verdade.
Vizinha: Adoraria poder ouvir in loco. Acho violão tão estimulante...
Eu: Bem, talvez a gente pudesse... Por que você apertou o botão de parar o elevador?
Vizinha: Ups, não percebi...
Eu: E por que você está virando a câmera do circuito interno pro outro lado?

C)

Eu:  Boa noite.
Vizinha: Boa noite.
Eu: Calor, né?
Vizinha: Bastante.
Vizinha ao celular: Oi, amor. Já estou descendo. Beijo.
Eu: Você vai para o térreo?
Vizinha: Garagem. Obrigada.
Eu, depois de alguns segundos: Até mais.
Vizinha: Até.




*Resposta: letra A.  

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Seres da primavera

Carineta fasciculata sobre o tronco. 28 de setembro de 2012.
 
Pela janela, entram no meu quarto
seres da primavera
Não pedem licença nem observam etiqueta
porque sabem-se bem-vindos
A seu modo dizem boa noite
e a seu modo se instalam
Os de asas, as farfalham
Os de antenas, as balouçam
E cantam os que são de cantar
(nem que seja apenas uma forma lírica
de propor para acasalar)
Quando eles chegam, trazem junto
não sei explicar direito
mas é como se me visitasse também
o que há de etéreo no ar
E me dá vontade de cumprimentá-los, um a um
De contar para eles as minhas histórias
mesmo sabendo que já viram muitas e parecidas
Mas é que o espírito se inspira
e quer conversar

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

No jardim das abstrações humanas

No jardim das abstrações humanas, passeavam mais ou menos juntos a Justiça, a Democracia, o Capitalismo e o Amor. Fazia uma agradável tarde.

A Justiça, que caminhava e gesticulava com sobriedade, vestia uma toga simples, sorria de maneira contida e preferia a conversa formal. Era uma senhora na idade e no espírito e gostava de assim transparecer.

A Democracia era bem mais jovem. Esbelta, trajava um vestido fino que lhe caía muito bem até os joelhos. Andava empertigada e adotava um arzinho de insolência típico das mulheres que se acham imprescindíveis para o seu tempo. Parece também que não comia carne vermelha e lia os clássicos.

O Capitalismo usava fraque, cartola e um monóculo. Tinha bigodes.

O Amor andava nu.

Logo ele se adiantou no passeio e ficou a uma distância razoável dos demais, que aproveitaram para puxar a conversa que há muito desejavam ter.

- Às vezes eu penso qual é a razão de o Amor anda nu - disse a Justiça, muito concentrada.

O Capitalismo tinha a resposta pronta:

- Porque é um vagabundo que não trabalha e nunca juntou nada nem para comprar uma roupa! Por isso!

- Não sei - ponderou a Justiça. Ele deve ter sido roubado.

- Nem uma coisa, nem outra. O mais provável é que nenhuma política pública de acesso ao vestuário tenha chegado até a camada que ele ocupa. É grave isso. Precisamos resolver - disse a Democracia, muito orgulhosa de si.

Debateram ainda por mais alguns minutos, até que o Amor, que tinha deduzido o tema da conversa e, além disso, estava meio bêbado, caminhou até o grupo e disse, para que todos no jardim pudessem ouvir:

- Nudez! Oh! Por que não simplesmente dizer: pelado? Cavalheiros, como podeis ver, eu ando pelado! Mas não me tomem por excêntrico ou lunático. A causa é muito mais prosaica. Sou apenas um rapaz à moda antiga. No início do jardim, quando éramos não muitos frequentadores por aqui, não havia roupas ainda. Também não havia os discursos empolados, os debates científicos, as doutrinas libertadoras, essa catraca de identificação biométrica na entrada. Não havia, não havia. Naqueles tempos, senhores, em dias de calor como hoje, podíamos nadar na fonte sem que ninguém nos olhasse com ares de reprovação e despejasse sobre nós mil exortações sobre a moral. Aliás, é o que vou fazer agora.

O Amor então, inflamado e meio trôpego, pulou na fonte que ficava no meio do jardim. Todos os caminhantes olharam com muito desprezo aquela cena. Exceto a Democracia, que sentiu um calorzinho estranho a lhe percorrer o corpo e um arrepio na nuca. Ela esteve a um passo de se livrar do vestido e cair na água. Conteve-se apenas porque domingo é dia de eleições.

domingo, 2 de setembro de 2012

Noites de setembro

Essas noites que têm feito não são quentes nem frias, não são abafadas nem arejadas. Nem agrestes, nem orvalhadas. São noites cálidas, como um hálito de fada. São noites, mas também são um espírito, a junção do espírito do céu e das estrelas, com os espíritos das coisas, das plantas, dos animais e das pessoas. Não posso dizer "participo da noite", já que sou um pedaço dela. "Somos a noite", é o certo a dizer. O ar que respiro tem um pouco de mim, um pouco das estrelas, um pouco das pessoas ao redor.

A lua cheia nasce incandescente. Quando chega setembro, nossa cidade já está há quase 80 dias sem chuva. Esse ar seco às vezes pinta de fogo certos elementos no céu. Hoje é a lua. Lá do alto, ela canta uma melodia aos nossos corações que nos faz pensar, por um instante, se realmente nos importamos com as coisas certas. A música ecoa. Procuro alguém mais que esteja ouvindo.

As noites de setembro prenunciam a primavera. Parece que a terra toda se prepara, em arrumação. Os seres se ouriçam e fazem combinações uns com os outros, que o ar leva dos remetentes aos destinatários. As flores de um ramo conspiram com as do ramo vizinho: "Desabrochemos?" As cigarras, embaixo da terra, combinam a hora de emergir, todas ao mesmo tempo: "Ao primeiro sinal de chuva, marcado!" Acho que é por isso que o ar fica perfumado, porque está cheio de mensagens das plantas (que são os poléns e outras emanações), e mensagens dos bichos, e mensagens dos corações. Dá para sentir o cheiro delas e também os sussurros.    

Nessa arrumação para a primavera, nós também estamos envolvidos, sem saber. Daí por que não dá para segurar um sorriso ou evitar a sensação de plenitude diante de situações aparentemente pequenas, como se permitir caminhar na noite. É por isso também que um sopro da brisa que bate no rosto parece encher nosso peito de poesias e nos fazer enxergar belezas antes improváveis. A primavera se faz também na alma e floresce arbustos ressequidos, dos quais tínhamos esquecido.

Quando vejo o título "Sonhos de Uma Noite de Verão", acho que era de noites como as de agora que o autor falava. Como nenhuma outra, elas são propícias para o sonho. São também propícias para a realidade.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Duas Infinitudes (Montanhas de Marte)

No princípio este texto se chamaria Montanhas de Marte, traindo talvez uma fagulha de lirismo cósmico que habita o íntimo do autor e de vez em quando sobe à superfície. Os traços gerais do que vai abaixo foram, portanto, pensados para existir sob esse título. Mas aí o outro título - sem que houvesse sido feito nenhum esforço para tanto - surgiu à mente, com a insolência dos penetras, e pareceu mais correto. Uma correção pendente para a sobriedade, mas sem desleixar da atmosfera onírica que aqui se pretende tecer. Entre as duas alternativas, optou-se por abrigar ambas. O que antes poderia ser um dilema, agora virou solução. Tudo isso é dito para deixar claro que, doravante, o autor não vai mais tolher seus impulsos criativos, ainda mais quando eles são frutos do livre e puro fluir da consciência.

Aliás, o autor não vai mais tolher impulso algum, criativo ou não.

...

Neste exato momento em que a vida aqui na Terra transcorre mais ou menos como sempre, um robô da Nasa palmilha o terreno de Marte, a milhões de quilômetros daqui (em linha reta). Em primeiro lugar, que ideia confusa os marcianos deverão ter dos homens se tomarem o robô por um de nós! Mas não só isso. O robô tira fotos de lá, que podemos ver na internet. Foi assim que me encantei com as montanhas de Marte. Talvez ninguém ainda tenha cantado as belezas naturais daquele planeta em prosa e verso, o que faz de mim um pioneiro em potencial. Marte, com suas montanhas, me parece um planeta para os contemplativos, para os filósofos, para os bucólicos. Enfim, um planeta para o exercício do pastoreio, como diriam os árcades.  

No entanto, a grande questão talvez seja outra. Talvez tenha chegado a hora de começarmos a refletir mais detidamente sobre o Universo, agora que começamos a nos permitir algumas intimidades em seu antes indevassável terreno.

Por exemplo: seria ele mesmo infinito, como dizem? A ideia de que algo seja infinito não soa muito lógica. Como pode, não acabar nunca e, pior, ainda estar sempre em expansão? Expansão para onde, se não tem limites? É como dizer que algo cresce para além dos muros, mas sem haver os muros. A infinitude do Universo afronta nossa frágil razão, esta é que é a verdade.

Aliás, o Universo inteiro é uma afronta à mente humana. Um deboche, claro, mas dirigido a nós por quem? E para quê? Inúmeros corpos celestes que bailam no nada, originados pelo nada e que um dia podem explodir a si e aos vizinhos, mas que podem também cumprir expediente ali para todo o sempre. Óbvio que nada disso foi construído para ser compreendido por nossa razão. A intenção, desde o início, foi nos manter ignorantes e curiosos. Para quê?, ecoa a pergunta. Se o objetivo não fosse nos instilar a inquietação, não teriam colocado o céu logo acima da gente, ainda mais com estrelas piscando.

Mas quando se destacam na reflexão estas duas grandezas, o Universo e a mente humana, é que o mistério começa a fazer algum sentido. Falamos em infinitude do Universo de um jeito como se não houvesse correspondência para ela em nenhum outro campo conhecido. É aí que está o erro! Também a mente humana é infinita, e também ela se expande continuadamente, dentro de limite algum, que parece ser o nosso ingênuo crânio, mas não é! Quando se passa a assumir a infinitude da mente humana, a do Universo já não parece mais absurda! Ou, pelo menos, agora temos um par de infinitudes absurdas, o que já torna o fenômeno 100% menos raro do que antes!

Ninguém é menos astronauta ou desbravador que o robô da Nasa se nunca for à lua, à Ásia ou a Goiânia, desde que mantenha expedições frequentes para dentro de si. Então a pessoa se verá diante de uma infinitude não de todo estranha, mas ainda insondável na totalidade. Uma profundeza da qual apreendemos alguns ecos, reflexos, mas da qual nunca conseguiremos distinguir a silhueta. Uma quimera que sentimos ser parte da gente, e também de tudo ao redor.

Digamos que o homem tenha diante de si, a princípio, dois mistérios insolucionáveis: o seu próprio (seu Universo interior) e o geral (o Universo de fato). Quando nos relacionamos com alguém, e à medida que nos tornamos mais íntimos desse alguém, surge novo mistério, que é o Universo do outro. Portanto, a Nasa manda robôs para desvendar o espaço, nós mandamos robôs para nos desvendar e, por fim, mandamos robôs para desvendar aqueles que nos são próximos. Alguma chance de que, em algumas dessas missões, consigamos nos mover um ínfimo centímetro que seja na direção de solucionar o insondável? Nada mais improvável.

Se estamos fadados à eterna ignorância no que diz respeito ao mistério das infinitudes, talvez haja nisso um recado, consciente ou acidental. Uma mensagem de que a graça não está em desvendar a incógnita, mas em saber se deixar fascinar por ela. Pensando assim, faz sentido que ao nosso redor haja, naturalmente, inúmeros elementos que favoreçam o fascínio pelos universos e nenhum que leve à compreensão deles. Uma estrela e um sorriso encantam, só que não esgotam o mistério por trás daqueles que os geraram.

Nesse sentido, não poderia haver melhor legado da missão a Marte do que as fotos das montanhas. É ali que nosso olhar vai se deter e pensar que, seja lá quais forem os fins (e a origem) de tudo que existe, nos cabe celebrar que os meios sejam, de forma tão contundente, um convite ao encantamento.    

sábado, 30 de junho de 2012

Rio + 20, alguns dias depois

Algo anda errado com nossa democracia quando, na cúpula dos povos, todos eles, dos neozelandeses aos pataxós, concordam sobre a urgência de se preservar a natureza, e os líderes mundiais assinam documento em que a impressão final é de dizerem "calma lá gente, devagar com o andor".Ou nossos representantes não nos representam ou têm uma inteligência superior capaz de perceber que as prioridades da plebe não são tão relevantes assim. E, desse modo, nos defendem de nós mesmos.

 Claro que um debate tão apaixonado como o dos últimos dias não poderia deixar de produzir curiosas distorções. Para muitas pessoas, inclusive aquelas que aparecem na TV e prescrevem regras e costumes, o cidadão comum pode ajudar a preservar o meio ambiente desligando a torneira enquanto escova os dentes e deixando de ir de carro para o trabalho, por exemplo. Nada contra a adoção de boas práticas, mas o foco do problema está longe de simples ajustes do cotidiano, assim como não dá para culpar o metano produzido pelos herbívoros pelo agravamento do efeito estufa. O desvio do foco, mais uma vez, dirige esforços para o ponto que menos tem a ver com história.

Ou melhor, nós pessoas comuns, temos, sim, responsabilidade pelo esgotamento do planeta. Não no tocante ao nossos hábitos pontuais, tomados isoladamente, como deixar o computador o dia inteiro na tomada, mas no que diz respeito ao modelo de vida que corroboramos na sociedade.

Entramos, de muito bom grado, no jogo do consumismo avassalador. Ajudamos a construir uma ordem econômica em que o desenvolvimento se sustenta apenas na base da produção e consumo, um puxando o outro, cada vez mais acelerados e desesperados. Não pode haver períodos de parcimônia, desaceleração, nem pensar: produção e consumo sempre mais ferozes, mais alucinantes.

 Não precisamos de trocar de celular uma vez por ano, no entanto é o que fazemos. Nem de carro, aparelhos eletrônicos, não precisamos da quantidade de pares de sapato que temos. Há bem pouco tempo, nossos avós se casavam e compravam uma geladeira para durar a vida inteira - e geralmente durava. Hoje, isso é impensável. Por que não pode ser assim? O cruel dessa atual etapa do nosso consumismo insano é que ele nos faz pensar que é intrínseco à natureza humana. Como se não pudéssemos resistir a uma vitrine ou novidade eletrônica e que comprar nos faz felizes.

 Muitos defendem nosso modelo econômico. "Sou livre para comprar o que eu quiser." É a democracia do consumidor. Na prática, tirania do mercado. Certamente há também um aspecto psicológico nisso tudo, que faz que as pessoas descontem no consumo desenfreado pendências de outras áreas. Mas por que adotar a via do consumismo e não a do auto-conhecimento, por exemplo? Talvez isso soe um disparate. Estamos treinados para acreditar no que o homem tem de ruim (materialismo) e descrer no que tem de bom (equilíbrio).

 As consequências práticas do desenvolvimento baseado na escalada da produção e consumo já se veem na natureza, nem é preciso esforço. O planeta não aguenta mais bancar nossa voracidade. E olha que grande parte dos países, os subdesenvolvidos, e também parcela significante dos emergentes, ainda não ingressaram de vez na festa do consumo. O dia que isso acontecer, não se sabe se haverá recursos naturais suficientes. 

O que leva a um dilema (talvez o maior de nosso tempo, do ponto de vista econômico): se os países pobres se tornarem desenvolvidos, o planeta não suportará a pressão. Para o planeta continuar se mantendo, é preciso que os pobres permaneçam pobres, os miseráveis, miseráveis, os famintos, famintos. Isso porque o crescimento econômico que conhecemos está atrelado exclusivamente à produção e ao consumo cada vez mais acelerados de todo tipo de bens. Se há uma pausa no processo, como agora na Europa, a sociedade já sente os efeitos.Aqui no Brasil, para a economia rodar e os ganhos sociais aumentarem, o governo estimula a indústria poluidora, drena rios, asfalta a mata, investe pesado no petróleo (e ainda fala nas reservas do pré-sal como a salvação da pátria!)

É preciso sobrecarregar o planeta para que a totalidade de seus habitantes tenha uma vida confortável? Para que tenhamos o que comer e o que vestir, é necessário derrubar a floresta? Mas aí não teremos o que respirar!

Entramos então no que pode ser o mais próximo possível da solução e que não apareceu - pelo menos não como destaque - nas discussões durante a Rio + 20. A chave do problema pode estar na reformulação do modo de vida da sociedade, passando por uma nova concepção da roda movedora da economia.

É tempo de substituir o consumismo como pilar do desenvolvimento. Isso implica em adoção, inclusive e sem exagero, de novas filosofias pessoais. Entender que o acúmulo de bens que hoje promovemos em nossas vidas não é primordial para a condição humana. Que é possível viver confortavelmente sem muitos dos luxos que hoje consideramos imprescindíveis. Parece impossível, mas esse capitalismo que conhecemos não tem muito mais de 150 anos, se tanto. A sociedade já sobreviveu sem ele. Se não havia o conforto que temos hoje, se as condições materiais eram mais precárias, isso apenas nos lança um desafio, que já está passando da hora da humanidade se impor ( e que é perfeitamente plausível, dado os avanços que obtivemos ao longos dos séculos): unir conforto material, justiça social e preservação do planeta.

sábado, 9 de junho de 2012

A invasão dos ipês roxos

Até noite passada, eram galhos secos pelos quais ninguém dava nada. Enquanto dormiam os homens, a natureza abria sua caixa de ferramentas. Não sabemos que propósito oculto há nisso, nem as forças que o movem, sabemos apenas que está em curso a invasão dos ipês roxos.








Poetas, enamorados, menestréis, atentai ao cronograma. Há ainda muito pela frente. Se os ipês roxos vêm com o frio, o calor e a seca trazem os amarelos. Por fim, quando surgem as primeiras chuvas, eles vestem-se de branco, como se tudo fosse uma preparação para o matrimônio.  

sexta-feira, 8 de junho de 2012

No Salão das Estalactites

Recentemente estive no Salão das Estalactites. Ambiente suntuoso e enigmático, como sempre. Acabei encontrando o Guardião da Ampulheta. Ele estava com o velho chapéu de lavrador chinês e o mesmo sorrisinho mal disfarçado no canto da boca. Apontou para a ampulheta, que ficava num criado-mudo ao seu lado, depois para mim, e disse:

- Já não és um garoto. Não tens mais a eternidade pela frente.

Eu bem sabia:

- Mas eu ainda não fiz nada na vida! Será que não dá pra retroceder um pouco? Virar a ampulheta, jogar um pouco de areia para o outro lado?

- Nada mais impossível. É por isso que estou aqui. Esse é meu trabalho.

No entanto, notei que o Guardião amiúde se distraía. Amiúde...

Dias depois, voltei para o Salão das Estalactites. Dessa vez, não quis me fazer notar. Detrás de uma pilastra, fiquei observando. Até que o Guardião foi ao banheiro.

Disparei com ligeireza nos pés, feito lépido marsupial, sem fazer barulho nem levantar suspeita. Virei a ampulheta. Um segundo, dois, dez... Dava para ouvir o Guardião no banheiro. Só mais um pouco, pensei. Demore só mais um pouco.

No calor do momento, não sei quanto tempo passou. Sei que, ao ouvir a descarga e os passos do Guardião ficando mais próximos, desvirei a ampulheta, para que não notassem meu delito, e corri para a saída.

Ao longo das semanas seguintes, me atormentava não saber quanto tempo eu havia ganhado de sobrevida. A questão me parecia crucial, até para que pudesse fazer planos a longo prazo. Ou melhor, longuíssimo, de acordo com meus anseios.

Calhou de, numa tarde, depois do trabalho, ter encontrado justamente o Guardião da Ampulheta na fila da padaria. Ele me cumprimentou cordialmente:

- Sabemos o que você fez no outro dia. Foi muito esperto.

- Mas... como você descobriu?

- Vimos nas câmeras do circuito interno. Por causa do meu deslize, agora me colocaram para fazer hora extra no Salão das Estalagmites, no subsolo.

- Desculpe. Eu não queria...

- Tudo bem. No seu lugar, quem não faria o mesmo?

Apertamos as mãos e fomos nos despedindo.

- A propósito - gritou ele quando já tínhamos nos separado -, você ganhou três dias. Aproveite!

Voltando para casa,  a luz do sol baixa batendo no meu rosto, fiquei pensando no que daria para fazer em três dias. Pensei também que mesmo em três décadas é possível não se fazer nada da vida e que, no fundo, o tempo é o de menos. Mas bem que esses diazinhos poderiam cair no feriado, concluí.

sábado, 26 de maio de 2012

Uma causa

                                                                        
                      ag.ofuror(maio/2012)                       


Amar o belo é fácil. Amar o belo é matemática e, por isso, não é amor, mas contastação. Amor mesmo floresce diante do sublime, que pode estar no belo ou no feio.

A razão não possui ferramentas para apreender o sublime. Ele não tem variáveis passíveis de cálculo nem nunca apresentou um padrão de comportamento. Não pertence à categoria dos fenômenos naturais. Também não é uma construção humana, social. Está mais chegado para a esfera mística.

A cada um o subime se apresenta de uma maneira, sem marcar horário. De repente uma janela se abre, no meio do nada, e ele dá as caras. Essa janela pode ser um sorriso, um raio de luz num ângulo certo, uma palavra qualquer. Na hora dos damos conta de que, a partir dali, não perceberemos mais a vida da mesma maneira.

A grande mágica é esta: opera-se na alma uma transformação que permite ver brilho nos mesmos objetos opacos de antes.

Quando, se desculpando, o poeta disse que beleza era fundamental, teria feito mais justiça se tivesse dito que fundamental era o encanto. A beleza é 2D - sabemos que além dela há ainda uma outra dimensão.

Deixar-se encantar está ao alcance de todos. Não deixa de ser uma forma de sabedoria. É o que permite respirar o ar do jardim que fica atrás do meu prédio como se estivesse experimentando os perfumes das florestas mais vistosas. O homem tem a capacidade de expandir-se em profundas sensações e sentimentos mesmo diante do mais simples estímulo. Talvez nossa maior dádiva.

Digo isso acima porque na semana que passou fiquei me perguntando pelo que valeria a pena lutar e, por um momento, me veio à cabeça que a busca pelo que é belo, em todas as situações, seria a que mais se justificaria. Mas logo mudei de ideia. Acho que o encanto, nas pequenas coisas, é a causa que vale a luta. Não deixar que esmoreça nem que seja sufocado por concepções afogueadas da vida. No final, ele torna tudo aos nossos olhos - e espírito - mais bonito ainda.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Achei que fosse um jaburu"



Criança indígena repele invasão de dragão na fronteira.
"Ele pulou e disse: 'deixa comigo'", afirma a mãe.


Florestas do Norte, segunda-feira. O Brasil tem um novo herói nacional. Em todas as rodas de conversa do país, só se fala nele. Não é diferente nos jornais e na internet. A própria presidente fez questão de nomeá-lo para o panteão da pátria. Mas a glória repentina parece não ter mudado nada na vida do kaiowá Katatuia, 9 anos.

A reportagem foi encontrá-lo em sua aldeia, no meio da selva. Katatuia estava brincando com os colegas. Ele ainda não tinha se manifestado publicamente depois de ter rechaçado, sozinho, a invasão de um dragão ao território nacional. Quando foi convidado para dar entrevista, respondeu:

- Imprensa? Não falo.

Então a mãe lhe disse que se tratava da equipe de 'O Furor' e ele deu um tapinha na testa:

- Por que não me avisaram antes? Sentem-se! Aceitam chá?

A conversa transcorreu nos termos mais agradáveis:

- Como você se sente, agora que é um herói nacional?

- Francamente, não vejo a situação sob esse prisma. Herói de que nação, para início de debate? Aquilo que costumávamos chamar de Brasil foi sublimado já faz certo tempo. Não há mais países, no sentido clássico do termo. Se é bom ou ruim, não cabe aqui discutir. As nações foram substituídas pelos conglomerados e esses não pertencem a pátria nenhuma, a não ser à grande mãe-mercado. As fronteiras de um país já não determinam uma barreira da qual podemos dizer "a partir daqui as pessoas têm uma cultura própria, pensamentos únicos, um modo de ver a vida etc.". Virou tudo uma geleia geral. Um balcão de negócios que passa aqui, em frente a este rio, e passa também por Vladvstok, pela Sibéria, por todo o lugar. Então não sou herói de nação nenhuma. Em primeiro lugar, porque não sou um herói. Em segundo, porque não há nação.

- Mas você lutou sozinho contra um dragão...

- Achei que fosse um jaburu. Vi de relance, contra o sol, e pelo farfalhar das asas deduzi do que se tratava. Me enganei. Só quando eu já estava no meio do meu pulo, percebi que o animal era grande demais para ser um jaburu e que eram fortes as chances de ser um dragão, suspeita que se confirmou quando ele botou fogo pela boca. Se eu soubesse desde o início que era um dragão, teria ficado quieto. Não sou de criar confusão. E, acima de tudo, não quero interferir no trilho dos acontecimentos. A História tem vontade própria, que independe do arbítrio do indivíduo isolado. Não tenho a pretensão, tão comum entre nós, de achar que meus gestos isolados vão mudar um centímetro que seja o curso da História. Quem se deixa levar por essa ilusão, abdica da única esfera onde podemos aplicar nosso livre-arbítrio, que é no restritíssimo (e ao mesmo tempo infinito) círculo de nossa vida. Interferir no resto, em qualquer ponto que não seja nós mesmos, é buscar uma maneira de se aprisionar.

- Fama? Dinheiro?

- Ar livre. Lua cheia.

- Seu discurso pode soar romântico, idealista e até hipócrita.

- As pessoas estão propensas a acreditar no lado ruim umas das outras, mas tratam a virtude como se fosse uma utopia. Se eu disser que pretendo me tornar assaltante, todos vão entender e alguns até se apiedarão. Mas se eu defendo o desapego material, a simplicidade como modo de vida, o amor desinteressado, muitos me apontarão o dedo: "Falsário!" Não há o que fazer diante dessa intolerância natural da sociedade com relação a filosofias libertadoras. As pessoas condenam o vício, mas só acreditam nele. Não cabe a mim doutrinar ninguém nem tentar impor meu pensamento. Muito se fala em eternizar uma obra, para que nosso nome atravesse os séculos, mas eu não pretendo eternizar nada, já que eu mesmo sou perecível. Não quero durar mais do que eu mesmo.

- Para terminar: esse seu pulo sobre o rio, registrado pela foto que agora roda o país, tem despertado muita curiosidade. Como você faz para ter tanta impulsão?

- Boa pergunta. Não é difícil. Com treinamento todo mundo consegue. Veja bem: você flexiona este joelho aqui, estica a outra perna, inclina o peito para trás -junto com a cabeça - e...

Nisso, a título de demonstração, ele deu um salto, deslocou uma enorme massa de vento e, zunindo, foi se afastando do chão. A cada segundo ia ficando mais longe de nós até que não passou de um ponto indefinido no céu sem nuvens.

- Agora só à noite - sorriu, orgulhosa, a mãe.
      

sábado, 28 de abril de 2012

Um sábio conselho

Ainda no século passado, quando éramos crianças e usávamos sandálias, íamos muito à casa da minha avó, que ficava na beira de um brejo quase intocado pela civilização. O folclore da vizinhança, rico em personagens canhestros, chegava a nossos ouvidos o tempo todo, através das visitas que minha avó recebia ou dos comentários das minhas tias na mesa do lanche. Acabávamos nos impressionando além dos limites da sensatez com o que ouvíamos e aquilo gerava em nossas mentes elucubrações fantásticas, como costuma acontecer com garotos de seis ou sete anos quando ouvem as fofocas dos adultos.

De todos aqueles seres em torno de quem giravam as lendas do bairro - meretrizes, bruxas, tarados, loucos, macumbeiros, maridos infiéis, mendigos que foram ricos um dia, etc. - o que mais nos impressionava era um senhor de meia-idade, calvo no cimo mas não nas laterais, dono de um bigode ralo e uma barriga que estufava de leve a camiseta. Parecia o PC Farias, para dar um exemplo prosaico. Todas as tardes ele passava muitos minutos e até horas encostado em uma cerca do outro lado da rua, segurando um cachorro pequeno pela coleira. Ele e o cachorro, todo dia. Depois de algum tempo, sem que nada acontecesse para justificar uma mudança de planos, os dois se viravam e iam embora. O senhor não fazia barulho, não fazia questão de ser notado e apenas nos casos em que seria extrema deselegância manter-se calado - como quando alguém passava muito perto e era mister dar boa tarde - ele rompia o silêncio para dizer o que seria polido.

Nós, as crianças, quando estávamos entediados, íamos para a janela ver se o senhor e o cachorro já tinham aparecido no ponto habitual. Invariavelmente eles estavam lá. Foi assim por anos. Houve uma tarde em que fazia frio e o cachorro e o dono surgiram usando cachecol,  para deleite de todos nós. Eu, apesar de também me divertir com tanta excentricidade, ficava me perguntando se era mesmo o caso de rir dele.

As tias e as vizinhas comentavam muito a respeito do senhor. Diziam que ele nunca havia se casado, que sempre tinha sido um solitário, que não falava nem com o pequeno cachorro. Relatos mais detalhados mencionavam uma certa contenda mal resolvida quando ele era jovem e ainda não tinha a barriga, e outros, esses mais raros, falavam de uma situação bem obscura envolvendo o senhor, que os adultos apenas sussurravam diante dos pequenos.

Nada, nem a velada antipartia dos vizinhos com seus hábitos, mudava a disposição daquele homem de toda tarde plantar-se na frente da mesma cerca. Ele, aliás, parecia indiferente a tudo que o rodeasse, inclusive a si mesmo.

Um dia, quando eu já estava maior, pulei a janela e decidi, movido por uma curiosidade e talvez um fascínio que eu não sabia explicar, segui-lo no caminho de volta para casa. Ele e o cachorro caminhavam devagar e eu ia atrás, o mais discretamente possível. Na entrada do lote onde morava, ele se voltou para trás, olhou para mim e fez um gesto me convidando a entrar. Eu aceitei e fomos entrando. Na sala de visitas, o senhor perguntou se eu aceitava chá, foi até o samovar e voltou com xícaras para nós dois e biscoitos.

- Que animal você gostaria de ser? - foi a primeira coisa que ele me disse.

- Um cavalo selvagem com pintas - respondi.

- Ah. Boa escolha. Ótima.

Nossa conversa girou em torno de temas assim, agradáveis para mim e, pelo que notei, também para ele. Meu interlocutor não era dos mais eloquentes nem se permitia expressar com o mínimo de emoção, como se qualquer coisa física ou imaterial o impedisse de imprimir vida às palavras ou aos gestos. Mesmo assim pareceu se entreter com nossos assuntos, fez perguntas e me ouviu com atenção.

Foi só no final, perto da hora de ir embora, que eu vi uma luz realmente brilhar em seu olhar, seu rosto realmente assumir um ânimo de ser vivo, suas palavras carregarem alguma energia.A transformação começou quando eu levantei pra me despedir:

- Tchau. E obrigado pelo chá. Era boldo?

- Escute, amigo - ele assumiu um ar acalorado de repente, como se o que tivesse para dizer fosse muito penoso, mas ao mesmo tempo absolutamente necessário. - Escute, você é um bom garoto. Talvez você não saiba e nunca se dê conta disso, mas é um bom garoto. Prometa-me uma coisa. Nunca se afeiçoe a nenhum personagem de romance russo. Prometa! Nunca se afeiçoe! Nunca! Os russos! Prometa... em nome de nossa amizade.

Ele não conseguiu terminar de falar, atrapalhado pelas lágrimas que fazia esforço para conter. Era um momento tão solene e o pedido tão sincero - e ao mesmo tempo eu sabia que quem falava não era um homem comum, mas daqueles raros que haviam visto quase todas as faces da vida -, que não tive dúvida em selar imediatamente a promessa.

- Obrigado, feliz amigo!- celebrava ele enquanto nos apertávamos efusivamente aos mãos.

Logo minha avó se mudou da beira do brejo. O tempo passou, me tornei um adolescente e, depois, adulto. Nunca mais, depois daquele dia, vi o homem outra vez. Contudo, nos anos que se seguiram, me mantive firme à promessa. De início não havia nem mesmo a remota possibilidade de quebrá-la, porque toda minha literatura se resumia aos mais vendidos da sessão infanto-juvenil e, entre eles, não havia nenhum russo ou coisa parecida. Depois passei aos franceses e por muito tempo, deslumbrado com os poetas que chamam o Mar de La Mer, achei que tivesse encontrado minha turma definitiva. Mas parece que também em termos de arte a mente humana vive uma eterna caminhada e, quando me vi na estante dos alemães, sabia que a Rússia já era inevitável.

Minha incursão pelos romances russos começou por livros de personagens tísicos e autores epilépticos. Não havia uma página que não exalasse agonia e sofreguidão, que o sol e toda fonte de luz não estivessem como que eternamente embaçados por uma fuligem insistente. Ali não dava para se apaixonar por personagem nenhum, quando muito todo sentimento que conseguia devotar a eles era de condolências e pesar.

Graças à influência daqueles livros, fui construindo na imaginação uma Rússia terrível e ao mesmo tempo sedutora. Uma terra sem colorido, mas rica como nenhuma outra em matizes de cinza. Lar dos pensadores que enxergaram a vida em toda sua crueza e abraçaram o desamparo da condição humana não com pessimismo, mas com a serena resignação de que a tristeza e a dor, assim como o inverno, também devem ter suas razões de existir.

Passei anos tendo carinho por aqueles romances, mas não por nenhum personagem específico. Parecia que a obra, de tão intensa, acabava sobrepujando seus elementos quando tomados individualmente. Ou talvez eu não estivesse preparado para aqueles sujeitos sôfregos e desesperados que às vezes me causavam mal-estar quase físico.

Até que, não faz muito tempo, comecei o Guerra e Paz. Já nas primeiras páginas me vi diante de algo incomum nos romances russos anteriores: nesgas de alegria. Claro que a dor está presente, e também a guerra, a injustiça, lágrimas. De vez em quando, no entanto, numa página perdida entre duzentas outras, entre um tiro de canhão e um retinir de baionetas, longe dos ecos dos galopes de cavalos e dos cantos dos soldados, um vestido de bainha longa farfalhava na escada, à medida que pés descalços subiam depressa, não por urgênica ou pressa, mas pelo contentamento com a vida que a dona do vestido não conseguia conter, mesmo quando entregue às atividades mais simples.

Chamava-se, como logo descobri, Natalia Rostova. Natacha. Antes eu nunca tivesse lido esse nome! A vida teria seguido seu curso, razoável e previsível, como sempre deveria ter sido. Mas como obrigar alguém a continuar vivendo na caverna depois de ter visto, nem que seja de relance, a luz do sol? No entanto esse alguém deve saber que, da mesma forma que se é prisioneiro na caverna, é muito fácil tornar-se cativo também da luz!

Natacha, quando sorria ou quando chorava, o fazia sem cálculo algum. Não havia intermediários entre seus sentimentos e suas manifestações. Encantava-se com facilidade por qualquer bobagem e demonstrava tanto entusiasmo que levava as pessoas a se interessarem não pela bobagem, mas pelo mecanismo angelical com que operava sua mente. Sua beleza era descompromissada. Se tinha alguma extavagância, era por meninice e jamais por afetação. Cantava desafinada e achava graça disso. Quando a vida a levou a encarar situações obscuras completamente alheias à sua natureza, pôs mãos à obra, entregou-se com justiça e altruísmo aos deveres que seu coração lhe impunha, mas nem por isso perdeu a leveza e a graça, pelo contrário.

Por esses motivos e por outros que eu não conseguiria descrever, dada a natureza etérea e intangível do fascínio que ela desperta, agora procuro Natacha em todas mulheres que vejo. Também em sonho tenho empreendido essa busca, quase todas as noites. Porém, só consigo realmente sentir a presença dela quando vou ao livro. O problema é que, dois meses depois de começar a ler, eu já estou prestes a terminar e aí não sei mais o que vai ser. Não sei mais onde encontrar Natacha.

Outro dia voltei ao antigo bairro da minha avó, depois de todos esses anos, em busca de respostas. A casa do velho solitário não estava mais lá, deu lugar a um empreendimento imobiliário. Perguntei para as pessoas na rua se não sabiam de um senhor que passava as tardes parado naquele ponto da calçada com um cachorrinho, mas ninguém fazia ideia de quem eu estava falando. Um menino e seus amigos, que jogavam bola, exatamente como eu, meus irmãos e primos há tantos anos, sugeriram que eu procurasse o velho no facebook.

Neste exato momento em que escrevo este texto, estou com o último tomo do Guerra e Paz na cabeceira ao meu lado e anseio por lê-lo, porque quero saber o que o destino reserva a cada um na história. Sei que faltei com a minha promessa de não me apegar a personagens de romances russos e, especialmente no caso da Natacha, estou ciente de que vou sofrer as consequências. Depois das próximas quinhentas ou seiscentas páginas eu nunca mais vou vê-la, nunca mais vou ouvir seu sorriso travesso, entusiasmado, e isso não será fácil.

Agora compreendo que o vizinho solitário da minha avó também tinha topado com a Natacha em algum momento da vida dele. Pobre homem. Ele viu nos meus olhos que eu era suscetível ao mesmo encanto e quis me prevenir. Mas ele também devia saber que, para o marujo, quando o mar chama, não há alertas que o façam permanecer em terra firme. Talvez o velho já tenha, naquela época, se apiedado de mim, sabendo o que viria pela frente.

Mas aquele homem, em grande parte sábio, deixou de apreender um ponto fundamental e era isso que eu gostaria de lhe dizer, se voltássemos a nos encontrar. A paixão pelo ideal e irrealizável apenas serve para mascarar a verdade de que a vida, em todos os aspectos, não sai como gostaríamos. Também as pessoas ao nosso redor não correspondem à nossa idealização e, muitas delas, partem de nosso convívio antes do que desejávamos. Isso não é bom nem ruim, é a vida, que, desde que foi inventada, não comporta outro funcionamento. Para que negar a vida e aprisionar-se numa névoa de utopia fadada a nunca se materializar?

É o que a própria Natacha diria. Talvez ela ainda diga isso nas páginas restantes. Seria muita afinidade de pensamento. Mais: talvez ela ainda se mostre fã de futebol (primeira divisão e segunda), de filmes épicos, entusiasta de passeios na natureza, de comer pizza no domingo à noite, de procurar música desconhecida na internet, de conversar sobre qualquer trivialidade, de... É preciso ser forte.
      

segunda-feira, 5 de março de 2012

A gripe

A gripe mais fulminante que eu tive na vida me pegou numa véspera de equinócio, há um tempo. Digo isso porque estou gripado exatamente agora e a lembrança me veio à cabeça, como sempre me acontece desde então em semelhantes ocasiões.

No princípio eu não quis saber de médico ou equivalente. Lembrei do que me disse certa vez o próprio Aldous Huxley no seu "Também o Cisne Chora". Para ele, há três possibilidades sobre idas ao médico: quando a gente não tem nada; quando até temos uma doença qualquer, mas sararíamos com consulta ou sem; ou quando o problema é tão sério que não adianta procurar especialista nenhum.

No entanto, logo no segundo dia da gripe, cheguei a um ponto tal de degradação que deixei de lado toda a filosofia e decidi me consultar com o médico, que era uma médica, como pude descobrir assim que me chamou na sala de emergência.

Era uma doutora muito na flor da idade e, arrisquei deduzir, tinho visto da vida talvez quase tanto quanto eu ou um pouco mais. Fez uma expressão de profundo pesar quando entrei na sala, o que me levou a pensar que minha situação era mais crítica do que eu supunha.

Olhava para mim como se estivesse diante de um estudo de caso. Levantou-me o braço e interrogou as axilas, me fez botar a língua para fora algumas vezes, ouviu atentamente o coração, primeiro com o estetoscópio no peito, depois nas costas. Aferiu a pressão, mediu a temperatura, encarou os dois glóbulos oculares. Por fim, depois de meditar solenemente por alguns minutos, me fez a pergunta que, entendi pela entonação, seria decisiva para o diagnóstico.

- O sr. esteve no Congo recentemente?

Para minha infelicidade, nunca havia estado no Congo nem imediações em toda a minha vida até ali e nunca estive também depois. Minhas incursões geográficas limitavam-se, ao norte, pelo Maranhão e, ao sul, por Taubaté. Se bem que uma vez passei uma tarde na Alsácia, em sonho.

A doutora disse que era um resfriado. Recomendou repouso, receitou remédios e ressaltou que eu iria me restabelecer.

- A senhora se chama Renata?

- Sim - respondeu.

Nos dias que se seguiram fui lentamente sucumbindo ao muco e à letargia. Depois vieram os delírios. Em um deles eu passeava nu pelas florestas do Congo acompanhado dos nativos, que me adoravam, e de Renata, a doutora, também despidos. Em outro era o Aldous Huxley que aparecia bradando e sacudindo os punhos: "Traidor! Traidor!"

Mas a visão mais memorável daqueles dias foi a seguinte:

Eu já devia estar no vigésimo sétimo dia de delírio - não fazia a menor ideia do tempo transcorrido -, quando a porta do meu quarto se abriu, rangendo nos gonzos. Primeiro entrou uma luz branca muito intensa, que se refletiu em cada canto do cômodo e cegou minha visão por um instante. Depois, quando me acostumei à claridade, vi que atrás dela, ou melhor, emanando a luz, veio um homem dos seus trinta anos, barba comprida e cabelo desgrenhado, vestindo uma toga também branca, amarrada por um cordão na cintura, chinelos de tira de couro, estilo sertão, e um colar de flores havaiano no pescoço.

- Vítor...- ele me disse, sem precisar abrir a boca. Mesmo assim a voz dele ecoava pela casa inteira.

- Sim?

- Você tem cometido muitos pecados ultimamente, meu caro - sempre que ele falava era como se ligassem um amplificador, uma estrutura de comício dentro do quarto.

- É verdade - reconheci -, ainda que todos de pequena monta, se é que podemos dizer dessa maneira.

- Os pequenos desvios, praticados reiteradas vezes e tornados hábitos, são talvez os mais cruéis para nos tirar do caminho da virtude.

- Ai de mim! Eu sei! Olha aqui esses olhos. Não consigo chorar faz mais de quinze anos! E não foram poucas as tristezas. Não sei o que houve ao longo do tempo, mas quando dei por mim já não acreditava em mais nada, nem mesmo na virtude. Tamanha se tornou minha descrença que não me faz diferença ser digno ou pusilânime, e se ainda ajo com algum zelo por mim ou pelo mundo é mais pelo costume do que por convicção.

- Você fala como se tivesse descoberto a descrença e como se fosse o único a sofrer dela. Não seja assim tão vaidoso. Há muitos anos venho ouvindo as pessoas, com um especial interesse pelo que elas não dizem nem para si próprias (parece que se sentem à vontade em falar comigo). Posso lhe garantir: você está longe de ser um tipo tão exótico quanto pensa. Aliás, você é dos mais comuns exemplares da espécie, tanto que beira o óbvio. Perdoe se lhe decepciono.

-Imagina! Já faz tempo que não almejo nenhum tipo de singularidade - mesmo sabendo que esse é um objetivo singular. Na verdade, estou até contente com as suas palavras. Acho que estava mesmo precisando de uma conversa assim, sem vernizes. Minha impressão é que você realmente me entende e isso é bom. Às vezes não consigo expressar os meus pensamentos e, por mais que me esforce, minhas palavras não fazem sentido para as pessoas. Com você é diferente. Antes de eu falar você já me compreendeu. Parece que lê minha mente. Em que número estou pensando?

- Vinte e sete, mas não vim aqui para misticismos. Vim para te apresentar a questão por outro prisma. Descrer é muito fácil, ainda mais quando depositamos nossa fé - já fragilizada pelos equívocos que nos rodeiam desde o nascimento - nos objetos errados. Darei um exemplo.

Ele caminhou (flutuou) até a janela, abriu a cortina sem movimentar os braços, apontou para a linha do horizonte e me perguntou:

- Você acredita neste pôr-do-sol?

Era um fim de tarde azul-escuro, como acontece em março, com uma nesga de luz do sol ainda refletindo nas pesadas nuvens que cobriam partes do céu, mas não ele todo. Um vento leve trazia a umidade da chuva recente para dentro do quarto.

- Sim! Acredito! - respondi de pronto.

- E no sorriso das criancinhas? Acreditas?

- Sim! Claro!

- E na democracia, nas leis, no mercado, no trabalho, nas religiões, nos profetas, nos governos, nas autoridades, na sociedade, nos costumes, na tecnologia, no luxo, na fama? Acredita?

- Não! Mil vezes não!

Ele então sentou-se na cama ao meu lado.

- Você já havia entendido, mas não percebido de todo, meu caro. Deposite sua fé no lugar certo e esqueça as antigas crenças. O resto, deixe que a vida cuida.

- Tão simples, tão complicado! Como me livrar das antigas crenças, que eu nem sei se são minhas, se elas me espreitam em cada esquina? Sinto como se me fossem atiradas ao rosto sempre que eu tento escapar delas. Onde está a solução?

- Faça como eu. Relaxe.

Ele tirou solenemente o colar havaiano e o passou para o meu pescoço.

- Tome. Tudo que a Verdade quer é saracotear em nossas mentes. Não lhe imponha tantas defesas.

Após essas palavras, deu um sorriso mudo e dissipou-se na bruma que, misteriosamente, havia se formado naquele instante.

Quando acordei, encontrei uma seringa de benzentacil ao lado da cama. Eu mesmo me apliquei a injeção e no segundo seguinte estava totalmente curado, como se a gripe nunca tivesse existido. A primeira coisa que fiz foi correr para o computador e tentar anotar os detalhes da aparição e, principalmente, registrar cada palavra do que o havaiano me disse, porque haviam feito muito sentido para mim.

Mas quando comecei a escrever, percebi que o discurso dele já estava de tal forma incrustado na minha memória que eu não precisaria nunca mais relê-lo ou guardar uma cópia. Era como se aquelas ideias estivessem há muito misturadas nas minhas veias, esperando o momento de vir à tona. Deve ter sido a injeção, pensei.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sugestão para um mundo ideal

Herdamos, como sociedade, certas tradições e expedientes de nossos antepassados que faríamos muito bem em questionar em vez de acatar como se fossem inevitáveis. As roupas de décadas e séculos anteriores, por exemplo, nos parecem sem dúvida ultrapassadas. Deveríamos aplicar em outras áreas o mesmo rigor que temos com relação à moda. Se o vestuário de antanho não serve para o século XXI, por que deveriam servir todas suas ideias?

Penso nisso depois de ver grande parte da opinião pública comemorar a condenação de determinado assassino a quase cem anos de cadeia, dos quais vai cumprir trinta, que é o limite estabelecido pela legislação do país. Mesmo assim, não deixa de ser uma espécie de morte em vida passar três décadas recluso em um ambiente como o das prisões. Eu me pergunto se essa é a melhor justiça ou se podemos aprimorá-la de algum modo.

Não resta dúvida de que a pena para alguns crimes deva ser a exclusão da convivência em sociedade, às vezes por longos anos, não só para resguardar a comunidade do risco da reincidência, como também para deixar claro a todos que o organismo social não aceita determinadas condutas e que a prática delas leva a séria punição. Daí a infligir ao criminoso crueldade semelhante à que ele cometeu é uma reação que, a meu ver, não tem nada a ver com justiça.

Ou melhor, é tanto justiça quanto a pena de morte um dia foi. Acho que a evolução que a sociedade atingiu na seara dos direitos humanos nas últimas décadas nos credencia a tratar os criminosos diferente do que faziam nossos tataravós. Até porque, ódio e rancor necessariamente não podem render nenhum bom fruto, como os cidadãos exemplares com propriedade dizem, mas frequentemente se esquecem.

Minha sugestão é utópica. No meu mundo ideal, os presos iriam para ilhas isoladas no meio do oceano, onde pudessem levar uma vida normal enquanto durasse a pena. O castigo seria não poderem deixar a ilha em nenhum momento. Dentro dos limites dela, poderiam desenvolver atividades do dia-a-dia de todo ser humano, como abrir um comércio, se dedicar às artes, fazer amizades, se relacionar amorosamente. Claro que seriam vigiados por guardas e deveriam dar satisfações diárias sobre suas atividades. Poderiam também participar de programas de acompanhamento psicológico, assistir a aulas de temas diversos, engajar-se em algum trabalho, cujo produto final pudesse ser de utilidade para a sociedade.

Haveria assim tempo e condições propícias para esses presos repensarem seus crimes e se arrependerem. As chances de regeneração seriam bem maiores que as atuais, não apenas porque nossas cadeias são reconhecidamente "escolas do crime", onde o ambiente de degradação dificilmente deixa passar incólume o detento, mas também porque o encarceramento é antes um convite à confusão mental do que ao restabelecimento dos valores da cidadania e coexistência em grupo.

Negar ao criminoso a chance de pagar pelo erro e tentar tornar-se um cidadão direito , como hoje fazemos, é acreditar que alguns homens nascem maus por natureza, não restando a eles solução possível senão o confinamento. Que apodreçam na cadeia e nos poupem de sua presença, é o recado que passamos com nossa justiça. Tenho certeza que desde crianças percebemos e introjetamos esse raciocínio, ainda que não nos demos conta dele conscientemente, renovando a cada geração o preconceito de que há os malditos de nascença. O ódio que essa concepção gera na sociedade produz, na minha opinião, muito mais crimes do que os evita a justiça.

Marcar nossos semelhantes com a letra escarlate e decidir quem merece ou não ter uma vida digna trai nossa ambição e delícia secretas de bancarmos os deuses de nós mesmos. Antes, somos todos coitados mortais e melhor faríamos se procurássemos nos ajudar. Aliás, é isso que os deuses de verdade pregam.

Se tudo que eu disse acima parece utópico, também é verdade que a maneira como lidamos com as punições da justiça não servem mais para o mundo que deveríamos construir. Não é possível que até hoje se comemore com fogos de artíficio quando o juiz confirma que alguém vai passar o resto dos dias trancafiado num inferno na terra. Espero que um dia os métodos que hoje parecem incontestáveis encontrem uma alternativa exequível e desejada pela população, como tantas outras tradições que herdamos de nossos ancestrais e hoje são artigo de museu.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Bola Um

As memórias, que não são tão antigas assim, de repente me voltaram ao primeiro plano do pensamento. Não sei que vento resolveu soprar-lhes a poeira. A nostalgia deve ter suas razões, que minha razão não compreende. Talvez seja um chamado para registrar o passado agora que o gosto dele ressurgiu fresco na boca.

Gostaria de uma tarde, no final dos tempos, voltar aos meus textos e topar com o cara que eu já fui um dia, do jeito que ele era, e assim, quem sabe, tudo que vivi e terei vivido vai finalmente fazer sentido. Tem vaidade nisso, mas tem também poesia (como se precisassem ser excludentes, meu deus!).

Das lembranças que me assaltam, uma das mais constantes tem sido as horas à beira da mesa de sinuca. Há muito tempo eu queria escrever sobre isso, prestar homenagem àquela que foi provavelmente uma das minhas mais queridas ocupações por volta dos dezoito anos, no decisivo preâmbulo para o mundo adulto, o que faz dela sagrada.

Ainda lembro do cheiro de óleo velho que usavam nas cozinhas dos bares onde jogávamos. Das paredes enegrecidas, do ar carregado de fumaça de cigarro, dos tipos suspeitos com quem dividíamos o salão, do pó de giz que impregnava as mãos, das mesas descaídas, das gavetas enferrujadas, que não devolviam as bolas, dos tacos tortos, da atmosfera de decadência.

No início eu tinha preconceito. Meus amigos me convidavam pra jogar e eu não ia. Preconceito ou medo? Eu já tinha quase dezoito mas era uma criança de tanto que desconhecia, não digo nem o mundo, mas simplesmente a rua. Achava que bares de sinuca eram os lugares onde os pistoleiros iam relaxar das tensões do dia e eventualmente acabavam trocando tiros e garrafadas, por força do hábito. Sem contar que eu pensava na minha mãe quando soubesse que eu, o filho obediente, o bom garoto, a criança pura, começara a frequentar o submundo. Via em devaneios, acordado, prostitutas lascivas tentando me seduzir e eu, pobre de mim, sem saber o que fazer com as mãos, buscando um jeito educado de lhes recusar o auxílio. A simples hipótese me fazia suar todo.

Entrementes, crescia neste ardoroso coração a sede pelo profano.

Uma noite os amigos me chamaram e eu fui. Acho que chega uma hora em que o magnetismo da vida lá fora fala mais alto. Caminhávamos pela ruas mal iluminadas, porque na época poucos de nós dirigíamos e os que dirigiam tinham que pegar o carro emprestado com os pais. Ir a pé, por aqueles becos impudicos de periferia, tornava o pecado ainda mais arrepiante, um frêmito de excitação e medo, como deve ser.

Lembro de um dia que, no caminho, uma ratazana passou correndo em cima do pé de um dos meus amigos, que estava de havaiana. Demos muita risada. Não quero jamais esquecer dessa cena. Eu me sentia desbravando o mundo real, com suas criaturas vindas das sombras e seus mistérios finalmente despidos diante do meu olhar, que não queria perder um detalhe. Onde estará a querida ratazana daquele dia?E o amigo, mais querido ainda, por quais pradarias vaga?

O Bola Verde foi um dos primeiros que frequentei. Ficava acoplado a uma oficina mecânica e parecia mesmo quase uma extensão dela, a julgar pelas páginas de mulheres de biquini grudadas nas paredes de ambos ambientes. Mais ou menos na mesma época fui apresentado ao Bola Sete, que ficava ali perto e poucos anos depois deu lugar a uma igreja. Desse eu gostava muito, cheguei realmente a me afeiçoar, e de vez em quando me flagro cantarolando os forrós que só ouvia lá.

Numa noite de sexta, no Bola Sete, ouvíamos a conversa de quatro cinquentões que jogavam na mesa ao lado. De repente um deles ergueu a voz acima dos demais e revelou, com alguma solenidade, que o sonho dele era se aposentar e abrir um bordéu "à moda antiga", porque desses não se faziam mais. Ainda vimos esses sujeitos algumas outras sextas-feiras depois e criamos com eles aquela cumplicidade muda que existe entre os jogadores de sinuca vizinhos de mesa.

Por fim, já nos anos da fase tardia, nossa história se encontrou com o Bola de Ouro. Talvez não tenhamos sido tão fiéis a nenhum outro bar como fomos a ele. Em agosto e setembro de 2004, por causa da greve dos professores da universidade, eu e meus amigos não fazíamos outra coisa senão jogar sinuca a tarde inteira. Foi quando o Bola de Ouro, com sua proposta moderna de tacos um pouco menos tortos, mesas razoavelmente planas e bolas novas e brilhantes se consolidou na nossa preferência. Lá éramos atendidos, entre outros personagens, por uma velha soturna, que dava toda a pinta de ser dona do local, sempre vestida de preto e da qual nunca ouvimos uma sílaba. Eu supunha nela um luto que já vinha de algum tempo e demoraria a passar.

À beira da mesa de sinuca, durante aqueles anos, que foram três ou quatro, eu experimentei uma felicidade que até então não fazia ideia que pudesse existir. Conheci, ao mesmo tempo, o gosto da liberdade - que para mim ainda era temperada por pitadas heróicas de transgressão-, e do verdadeiro companheirismo entre amigos. A sensação de pertencimento, que eu não tinha na sociedade, encontrei entre aqueles bons camaradas.

Éramos irmãos de sinuca. Filhos de uma mãe laica porém generosa. Entre uma partida e a outra, e mesmo durante elas, partilhávamos as mesmas filosofias, esperanças, devaneios. Falávamos muito das meninas. Naquelas catacumbas da sociedade, onde a luz não batia e o ar era viciado, evocávamos nossas musas juvenis e então era como se um rastro das estrelas passasse pelo ambiente, o cheiro do frango frito se transformava em perfume, o forró de baixo nível soava como o canto das ninfas e matar uma bola na caçapa equivalia ao feito dos antigos cavaleiros, que derrubavam os gigantes para libertar sua princesa.

Nunca, naqueles anos, princesa nenhuma viu o quanto éramos implacáveis com as caçapas.

Relembrando agora, me impressiono com a minha evolução na técnica da sinuca em poucos meses. Comecei praticamente analfabeto e minhas jogadas canhestras mais de uma vez levaram os amigos às lágrimas de tanto rir. Parecia que também naquele esporte eu estava destinado ao posto de coadjuvante. Mas os deuses sabem o quanto me dediquei. Durante as aulas, no terceiro ano do ensino médio, revia mentalmente as jogadas da noite anterior. O professor falava de eletromagnetismo, mas a única física que me interessava dizia respeito ao choque da bola branca com as demais.

Logo eu já era um adversário de respeito para meus amigos. Aquele inocente rapazote, desengonçando no manejo do taco, havia dado lugar a um sinuqueiro que possuía lá seus truques. Nos torneios que organizávamos, cheguei a me sagrar campeão em algumas edições. A verdade, porém, é que, por mais que avançasse a olhos vistos, nunca cheguei ao nível dos meus companheiros, os melhores jogadores de sinuca que eu já conheci, o que - perdoem-me, vou me gabar-, não significa pouca coisa.

Pra terminar o registro dessas memórias tão caras ao meu coração, que tanta nostalgia me trazem e tantas histórias alegres fazem brotar do fundo das minhas lembranças, vou contar daquele que talvez seja o aspecto mais revelador da minha natureza naqueles tempos. Ou será que é revelador ainda até hoje?

No jogo da gente, a última bola a ser encaçapada era a Bola Um. Era o derradeiro obstáculo antes da glória. Pra chegar até a Um, o jogador tinha que matar outras sete. Aconteceu várias vezes de eu fazer uma partida irretocável, encaçapar rapidamente minhas sete bolas, abrir grande vantagem para o adversário e emperrar na hora que bastava apenas matar a Um, cedendo a virada do jogo. Perdi a conta de quantas vezes vi esse filme. No início achei que fosse simplesmente uma curiosa coincidência, mas rapidamente vi que não, aquilo dizia respeito diretamente aos porões do meu ser.

A Um me confrontava comigo mesmo. Trazia à tona aquela velha voz que dizia que era muito mais seguro acomodar-se com uma vida entre os muros do que partir para conquistas além. Não me sentia preparado para ambicionar coisa alguma fora da mesmice a que tinha me acostumado, nem que fosse ganhar uma partida de sinuca. Diante da Um uma vida inteira de aprisionamento saía do coração, subia até a garganta, ficava prestes a ser despejada em forma de grito ou elemento mais viscoso e eu não conseguia decidir se preferia ser o conformado de sempre ou arriscar algo novo. Minha vontade era que descesse um anjo ou subisse um demônio, tomasse o taco da minha mão e decidisse por mim o que fazer com aquela bola torturante a meio caminho da caçapa.

Muitas vezes eu errei a bola, mesmo ela estando em posições fáceis, e perdi o jogo. Então meus amigos riam, porque eu havia feito o mais difícil ao longo da partida e simplesmente entregado tudo no último ato. Eles não sabiam então o que se passava comigo diante da Um. Eu ria também, para disfarçar, mas tinha consciência que naquele momento a decepção era muito maior do que a de perder uma partida de sinuca.

Muitas outras vezes eu conseguia acertar a Um. Era um alívio. Também nessas horas meus amigos sorriam, porque de alguma maneira alegrava a todos me ver ganhar. No fundo eles deviam ter uma vaga ideia, talvez inconsciente, do que aquilo tudo representava para mim. Eu então me orgulhava de mim mesmo e pensava, esperançoso, que o futuro finalmente me encontraria da maneira que sempre planejei ser.

Os anos passaram. Jogo bem menos sinuca do que antes e também menos do que gostaria. Os velhos amigos, quase não os vejo mais. As pessoas com quem convivo atualmente, quando acontece de aparecer uma mesa, em algum evento, me acham um exímio jogador, mas elas não viram nada, não viram os mestres em ação.

Eu poderia ter feito a Bola Um de vilã, reescrito sem ela a história. Felizmente tive a consciência de mantê-la por perto. Hoje posso até dizer que, daqueles tempos, é uma das amigas que restaram. Ela ainda tem muito a me dizer e pressinto que das nossas conversas resultarão grandes acontecimentos, que farão as memórias daqui pra frente.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

As irrelevâncias

Outro dia o Carlos Nascimento abriu seu telejornal com a opinião de que nós, brasileiros, já fomos mais inteligentes. Ele fazia referência aos assuntos que dominavam as discussões nacionais na semana passada, notadamente o caso de estupro no Big Brother e o bordão da Luísa no Canadá. O âncora foi uma das poucas vozes da TV - senão a única - que alertou para o absurdo da pauta do país ser dominada por duas irrelevâncias desse tamanho, mas se equivocou na conclusão. Nós não éramos mais inteligentes no passado. Na verdade, nunca chegamos a demonstrar, como coletividade, algo que se possa classificar de fato como inteligência.

Se hoje não primamos pela riqueza intelectual, o mais provável é que em décadas anteriores a situação fosse ainda mais precária. Basta lembrar que há poucos anos a grande maioria da população brasileira vivia literalmente na Idade Média, sob todos os aspectos, inclusive aqueles que dizem respeito à formação cultural, educacional e filosófica do cidadão. Dizer, portanto, que já fomos mais inteligentes, é menos realidade do que força de expressão para realçar a futilidade dos dias atuais.

Mas basta olhar para a sociedade que temos agora e fazer uma leve comparação com a de trinta anos atrás para perceber que algo desandou abruptamente nos últimos tempos. O que seria? Na minha opinião, éramos então tão ignorantes como atualmente somos, com a diferença de que antes a ignorância era motivo de constrangimento e agora passamos a nos orgulhar dela.

Como disse um amigo, vivemos a glorificação da ignorância.

Tratamos a erudição como demonstração de pedantismo, um hobbie de lunáticos ou românticos que não têm nada mais útil com que ocupar o tempo. Nas escolas e mesmo nas universidades o estudo é tolerado exclusivamente como meio de se obter qualificação profissional. Qualquer busca por conhecimento com vistas "apenas" à ampliação da bagagem intelectual é considerada coisa supérflua. O mundo é pragmático demais para que se perca tempo com estudos que não reverterão, necessariamente, em aumento de salário.

Uma breve observação nos escritórios, consultórios, repartições revela médicos, engenheiros, biólogos, matemáticos, jornalistas, professorres (a lista é extensa) que nunca leram um livro fora da sua área de atuação. Se antes a figura do bacharel era a de pessoa culta, interessada pelas mais diversas manifestações do conhecimento humano, hoje ele não passa, no melhor dos casos, de alguém muito bem treinado nos manuais do seu ofício.

O desinteresse pelo conhecimento pode ter várias causas, mas a principal delas parece ter raízes filosóficas. A vida, para o homem do século XXI, é entendida como uma experiência de gozo total, tal como propagada pelos filmes e comerciais. Momentos de quietude e reflexão significam fracasso na empreitada de fazer da existência uma aventura cinematográfica atrás da outra. As pessoas confundem aproveitar intensamente cada dia com satisfazer prazeres sensoriais e imediatos, que, convenhamos, não combinam com sentar-se para ler um livro ou dedicar tempo para absorver um novo pensamento.

A ingênua filosofia da sociedade pavimentou o terreno para o reinado das irrelevâncias. Elas atendem à perfeição as exigências do freguês: proporcionam entretenimento instantâneo, são facilmente deglutíveis, o que ajuda no consumo, e são descartáveis, fator importante, porque sempre abrem espaço para que a próxima irrelevância surja e cumpra seu papel, renovando o ciclo.

Temos visto o quanto elas sucedem uma à outra com facilidade. A bobagem vai para o limbo do esquecimento assim que pipocar a próxima em alguma rede social.

A internet, com sua velocidade, seu desconhecimento das distâncias, colocou nossos vazios individuais para dialogar um com o outro em tempo real. Finalmente encontramos conforto e acolhimento, ao compartilharmos a falta de sentido de nossas vidas 24horas por dia. A tecnologia ajudou a liberar esta força que sempre esteve latente nas pessoas: a vontade de estabelecer, de uma vez por todas, o reinado da ignorância e da frivolidade. Se antes havia obstáculos mesmo materiais para a proliferação das irrelevâncias, a questão foi resolvida com o generoso e democrático mundo virtual.

Todos nos abraçamos na rede onde se discute o nada, onde nada se constroí, mas onde a solidão é aplacada pelo menos um pouco, para voltar ainda mais voraz no minuto seguinte.

Os intelectuais dos cento e vinte caracteres correram para saudar o novo momento como uma revolução na História. Eles têm muita sede de novidades e precisam de uma atrás da outra, porque seu mundo é movido pela febre do momento. Hoje uma desconhecida alçada à celebridade, amanhã uma fofoca... Talvez eles se assustassem se percebessem que a revolução que interessa, aquela que vai se dar na mente do ser humano, tem dado passos para trás nos últimos tempos.

Não que seja necessariamente prejudicial se divertir com futilidades. O problema é que para elas vai toda a nossa atenção e para temas mais edificantes não temos dado a mínima.

Para terminar, há um enorme equívoco em tudo isso. As pessoas acham que encontraram a fórmula para uma vida feliz no desfrute de prazeres fáceis, imediatos, sensorias e primitivos. Acham ainda que, quanto mais as novas ferramentas tecnológicas ajudarem nesse sentido, mais devem se apegar a elas. Mas se esquecem - e aí está a crueldade que se infligem - que a vida é uma experiência fundamentalmente interior, vivida, sentida, de acordo com os mecanismos internos de cada um de nós. Se não cuidarmos da evolução de nossas capacidades interiores - incluída a intelectual - de pouco adiantará se voltar para o mundo externo. Haverá sempre a sensação de que está faltando alguma coisa e as irrelevâncias vão continuar ocupando espaço cada vez maior em nossas vidas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Etapas da Revolução: andar nu

É bem provável que as diversas hierarquias tenham sido inventadas por pessoas que, em pé de igualdade com as demais, não conseguiam fazer valer suas intenções. Um artíficio dos espíritos menores, porém ambiciosos e espertos. Desde então, os postos mais elevados na sociedade têm sido ocupados por gente com sede de subjugar e satisfazer vaidades pessoais. São chamados de poderosos e isso os alimenta. Nunca veremos um sábio almejando o poder. A sabedoria, aliás, não tem nada a ver com impor nossa vontade aos outros.

Alguém vai dizer que hierarquia e obediência são importantes em organizações como, por exemplo, as militares. Mas é justamente uma sociedade que possa prescindir de organizações militares que seria interessante buscar.

Existem os detentores de poder - seja da escala universal à familiar - que são especialmente cruéis e inflexíveis em sua ação. Eles têm gosto em dispor como lacaios daqueles do seu raio de influência. São esses "poderosos" que conduzem a sociedade e ditam comportamentos, de acordo com suas convicções certamente pouco elevadas. Erigir um mundo mais inspirador passa necessariamente pela desconstrução do mecanismo das hierarquias, onde a grande maioria é submetida aos conceitos de alguns oportunistas. Para isso também deve estar atenta a Revolução.

Os bons espíritos costumam ter um defeito: não sabem confrontar. Aceitam sem muita resistência as arbitrariedades que vêm de cima. Não que devam reagir com as mesmas armas dos ambiciosos e dos espertos, até porque elas não ajudam a edificar nada que valha. É preciso que finalmente desenvolvam seus próprios meios revolucionários e derrubem o domínio de séculos.

Lembrando que o verdadeiro revolucionário não quer para ele nenhuma forma de poder sobre o outro, nem a mais ínfima. Se o embate com os poderosos é fundamental, é para estabelecer um equílibrio, e não simplesmente deslocar o pólo do desequilíbrio.

Os poderosos, quando atacam com sua fúria habitual, querem contra-ataque na mesma moeda. Assim podem esfregar no subalterno sua condição de inferioridade. As autoridades têm a prerrogativa da razão e o direito instituído de humilhar os demais. Argumentar com eles? Pedir justiça? Isso só vai redobrar o júbilo que eles sentem ao rebaixar um subordinado. Não há como vencê-los em seu jogo. A saída é levar a disputa para um terreno onde não opere a lógica dos poderosos. É subverter as regras da brincadeira. Este é o nosso gládio, a nossa Bíblia e o nosso refrão!

Devemos mostrar aos chefes, àqueles que mandam, que as normas deles simplesmente não fazem sentido para nós. O que pra eles é certo, para nós é questionável. O que para eles é grave, para nós é uma brisa. O ápice dessa postura revolucionária aqui proposta, de desqualificar o código dos poderosos, seria andar nu diante de seus olhos inquisidores. Isso quebraria os alicerces de qualquer sistema de dominação social. Seria como dizer: "fiquem aí repetindo suas ordens desimportantes que eu vou caminhar sem roupa por onde bem entender". Assim o revolucionário redimensiona os valores e a cultura vigentes e mostra aos dominadores que a vida é muito mais ampla que seus joguetes de poder fazem acreditar.

Claro que a ideia de andar nu deve ser tomada principalmente no sentido figurativo, o que não impede que a executemos ao pé da letra. O principal é rirmos sempre na cara sisuda da autoridade. Gargalhar aos borbotões. Escancarar pra eles o quão ridícula e infantil é sua mania de querer controlar tudo ao redor. O revolucionário não carrega outra arma senão o riso, o bom humor, a leveza de espírito. Por essa não esperavam os tantos guerrilheiros e reformadores do passado, cuja paixão pelo sangue traía sua vocação dominadora e, consquentemente, pouco revolucionária.

Que agradável é rir (ou mangar, como diziam os antigos) de toda as autoridades: as religiosas, políticas, policiais, professorais, empresariais, científicas, familiares, todas elas. Uma boca escrachada cheia de dentes e uma solene nudez (figurativa ou não), é isso que todas elas merecem! E assim vão minguar, porque proliferam no medo que suscitam nos outros. O medo dos poderosos. Mas, tal como os ácaros expostos ao sol, também eles se desmancham diante da alegria.

Por isso, se houver alguma autoridade lendo este texto, saiba que a Revolução está rolando de gargalhar de vocês. Ela acha graça da sua presunção de querer domar o mundo quando não são donos nem do próprio nariz. Governar o próprio nariz, não há aspiração maior nem mais nobre. Mas não falta quem não a alcançou e mesmo assim se lance a imperador da lua.

O deboche da autoridade estimula a desordem social? Claro que não. É um convite à ordem fruto da consciência e não da obediência. Uma ordem muito mais orgânica, humana e, por isso, mais confiável.

As autoridades não são apenas pessoas. Acontece também de virem na forma de costumes, preconceitos, modismos, crenças, tradições. Para eles igualmente vai a nossa risada. Se dizem que chapéu é moda ultrapassada, a Revolução se arma de uma cartola; se pregam as maravilhas do convívio social na internet, a Revolução procura uma colina isolada; se idolatram as celebridades, a Revolução busca inspiração nos modelos que sejam a completa antítese, nem que tenha que procurá-los entre os mendigos, os esquecidos e os marginalizados, o que frequentemente acontece.

Por isso deve ser tão bem-vinda a paixão por tudo que não seja moda corrente. Quanto mais exóticos os gostos, desde que genuínos, mais contribuem para diluir o domínio cultural dos poderosos. Um grande e glorioso exemplo para a Revolução foi dado pelo camarada M.A.P, a quem tenho prazer de chamar de amigo. No auge de seus 24 anos, ele nunca comprou - nem trajou- uma calça jeans. "É a minha contribuição para a resistência", costuma dizer o herói.

A batalha foi deflagrada. Andemos nus, que significa que deveremos debochar de tudo que nos é imposto e não corresponde à nossa filosofia. Como mostrou o célebre chinês da praça da Paz Celestial, contra tanques a melhor arma é a alma humana. Enquanto ela não for dobrada, a tirania - em todas suas vertentes - não prospera.

domingo, 8 de janeiro de 2012

O amor triunfa

A madrugada ainda não tinha recolhido seus lilases, mas já se ouvia, ribombando nos morros e nos cactos, um galope desesperado. Quase a ponto de arrebentar as fivelas do arreio de tanto que expandia o peito, as narinas escancaradas, a crina voando com o vento, o cavalo era um espírito dos antigos heróis de sua espécie. O cavaleiro, por sua vez, parecia movido por um propósito muito firme e não dava atenção para mais nada a não ser o caminho que se estendia à sua frente.

Ao amanhecer, chegaram a uma vila cravejada na montanha. Nem por isso diminuíram o passo. Por ruas estreitas foram guiando até ouvirem os sinos da igreja, que chamavam para um casamento. O cavaleiro esperou todos os convidados entrarem e só então apeou do cavalo. Catou um capim para mascar no canto da boca.

O padre entoava os santos cânticos. Com um chute na porta, à moda antiga, o cavaleiro entrou na igreja. Todos os olhares se voltaram para ele, inclusive os dos noivos. Caminhou até o meio do percurso entre a porta e o altar. O noivo foi na direção dele e sacou o rifle.

- Eu sabia que você viria - disse enquanto engatilhava a arma.

- Eu também. Vocês poderiam marcar o casamento para o fim do mundo que eu iria atrás.

Os convidados, imóveis nas cadeiras, olhavam com expectativa de um para o outro. O noivo fez mira.

- Vá embora!

- Só se ela pedir - retrucou o invasor e apontou para a noiva, que até ali não tinha demonstrado reação alguma.

Uma tensão silenciosa pesou sobre a igreja. O padre, atônito, juntou as mãos na altura da testa. A noiva caminhou lentamente até ficar ao lado do noivo, seus passos ecoando como um aríete. Encarou bem o invasor e disse, em voz terna, mas firme:

- Vá embora. Eu fiz minha escolha. O que houve entre nós dois foi um engano - ela pousou suavemente a mão no cano do rifle e fez o noivo abaixar a arma. Eu amo o coronel, nunca deixei de amar.

Beijou seu eleito no rosto e dirigiu-se uma última vez ao invasor:

- Portanto, deixe esta cidade e não estrague o meu casamento.

- É isso mesmo que você quer? Passar o resto da vida ao lado deste homem? - gritou o invasor em tom desafiador.

- De todo meu coração - ela respondeu.

Mal ela terminou de dizer essas palavras uma chuva de papel picado, prateado e púrpura, caiu do teto da igreja sobre os convidados e os noivos. Luzes surgiram entre as colunas e seis, ou melhor, sete cinegrafistas montados em gruas moveram-se rápido da parte atrás do altar para o centro da nave.

-Parabéns! -cumprimentou o invasor, agora efusivo e com um microfone na mão. Vocês acabam de participar do "O Amor Triunfa"! - deu uma bitoca na noiva e um abraço no noivo. Olhem para aquela câmera ali, por favor. Isso. E aqui está o cheque de um milhão de reais! O prêmio pelo amor de vocês ter triunfado!

Os convidados bateram palmas. Alguns mal conseguiam disfarçar a emoção, outros nem tentavam. O casal ainda assimilava o que tinha acontecido.

- Então foi tudo um reality show? - perguntou a noiva. Você não é um cigano?

- Rá, rá - gargalhou o apresentador para a câmera 3. Era tudo enredo da nossa produção. Gostaram?

- Você nunca foi apaixonado por ela? - quis saber o noivo, meio estupefato, meio aliviado.

- O que não significa que ela não seja uma graça! O senhor tem muita sorte, coronel! E você também, pequena!

Quando finalmente cessaram a chuva de papel picado e o texto previsto no roteiro do apresentador, ele decidiu que já era hora de encerrar. Abraçou mais uma vez os noivos, deu alguns autógrafos para os convidados, acenou de longe para o padre e foi para a rua. Lá fora, no lugar do cavalo, havia um conversível esperando por ele. Entrou no carro e já estava prestes a sair, mas os noivos o interromperam:

- E agora? O que a gente faz? - perguntaram.

- Casem-se, tenham filhos, sejam felizes. Amem-se!

- Não tem mais nenhuma câmera filmando a gente?

- Do meu programa, não.

Os três se olharam em silêncio por um longo instante. O apresentador virou a chave na ignição.

- Olha - ele disse -, eu poderia usar o momento para soltar umas frases filosóficas. Poderia mesmo. Talvez saíssem até algumas palavras bonitas e eu me envaideceria. Mas, vejam, tenho que estar até o fim do dia em uma cidade no meio da solidão, para mais uma filmagem, e vocês têm um casamento pela frente. A gente se vê por esta vida, ou por outras (opa, já estou eu filosofando!). Sejam felizes e não se perguntem nunca o porquê!

Acelerou o carro deixando para trás o rastro da poeira. Os sinos tocaram outra vez. Não era a hora marcada e o coronel detestava estar atrasado, mas bem que podiam recomeçar a cerimônia. Pegou a noiva pela mão e caminhou com ela na direção da escadararia.

- Bem que eu desconfiei que conhecia aquele rosto de algum lugar - disse em meio a uma risadinha.

- Ele é bem mais magro na TV.