quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

As irrelevâncias

Outro dia o Carlos Nascimento abriu seu telejornal com a opinião de que nós, brasileiros, já fomos mais inteligentes. Ele fazia referência aos assuntos que dominavam as discussões nacionais na semana passada, notadamente o caso de estupro no Big Brother e o bordão da Luísa no Canadá. O âncora foi uma das poucas vozes da TV - senão a única - que alertou para o absurdo da pauta do país ser dominada por duas irrelevâncias desse tamanho, mas se equivocou na conclusão. Nós não éramos mais inteligentes no passado. Na verdade, nunca chegamos a demonstrar, como coletividade, algo que se possa classificar de fato como inteligência.

Se hoje não primamos pela riqueza intelectual, o mais provável é que em décadas anteriores a situação fosse ainda mais precária. Basta lembrar que há poucos anos a grande maioria da população brasileira vivia literalmente na Idade Média, sob todos os aspectos, inclusive aqueles que dizem respeito à formação cultural, educacional e filosófica do cidadão. Dizer, portanto, que já fomos mais inteligentes, é menos realidade do que força de expressão para realçar a futilidade dos dias atuais.

Mas basta olhar para a sociedade que temos agora e fazer uma leve comparação com a de trinta anos atrás para perceber que algo desandou abruptamente nos últimos tempos. O que seria? Na minha opinião, éramos então tão ignorantes como atualmente somos, com a diferença de que antes a ignorância era motivo de constrangimento e agora passamos a nos orgulhar dela.

Como disse um amigo, vivemos a glorificação da ignorância.

Tratamos a erudição como demonstração de pedantismo, um hobbie de lunáticos ou românticos que não têm nada mais útil com que ocupar o tempo. Nas escolas e mesmo nas universidades o estudo é tolerado exclusivamente como meio de se obter qualificação profissional. Qualquer busca por conhecimento com vistas "apenas" à ampliação da bagagem intelectual é considerada coisa supérflua. O mundo é pragmático demais para que se perca tempo com estudos que não reverterão, necessariamente, em aumento de salário.

Uma breve observação nos escritórios, consultórios, repartições revela médicos, engenheiros, biólogos, matemáticos, jornalistas, professorres (a lista é extensa) que nunca leram um livro fora da sua área de atuação. Se antes a figura do bacharel era a de pessoa culta, interessada pelas mais diversas manifestações do conhecimento humano, hoje ele não passa, no melhor dos casos, de alguém muito bem treinado nos manuais do seu ofício.

O desinteresse pelo conhecimento pode ter várias causas, mas a principal delas parece ter raízes filosóficas. A vida, para o homem do século XXI, é entendida como uma experiência de gozo total, tal como propagada pelos filmes e comerciais. Momentos de quietude e reflexão significam fracasso na empreitada de fazer da existência uma aventura cinematográfica atrás da outra. As pessoas confundem aproveitar intensamente cada dia com satisfazer prazeres sensoriais e imediatos, que, convenhamos, não combinam com sentar-se para ler um livro ou dedicar tempo para absorver um novo pensamento.

A ingênua filosofia da sociedade pavimentou o terreno para o reinado das irrelevâncias. Elas atendem à perfeição as exigências do freguês: proporcionam entretenimento instantâneo, são facilmente deglutíveis, o que ajuda no consumo, e são descartáveis, fator importante, porque sempre abrem espaço para que a próxima irrelevância surja e cumpra seu papel, renovando o ciclo.

Temos visto o quanto elas sucedem uma à outra com facilidade. A bobagem vai para o limbo do esquecimento assim que pipocar a próxima em alguma rede social.

A internet, com sua velocidade, seu desconhecimento das distâncias, colocou nossos vazios individuais para dialogar um com o outro em tempo real. Finalmente encontramos conforto e acolhimento, ao compartilharmos a falta de sentido de nossas vidas 24horas por dia. A tecnologia ajudou a liberar esta força que sempre esteve latente nas pessoas: a vontade de estabelecer, de uma vez por todas, o reinado da ignorância e da frivolidade. Se antes havia obstáculos mesmo materiais para a proliferação das irrelevâncias, a questão foi resolvida com o generoso e democrático mundo virtual.

Todos nos abraçamos na rede onde se discute o nada, onde nada se constroí, mas onde a solidão é aplacada pelo menos um pouco, para voltar ainda mais voraz no minuto seguinte.

Os intelectuais dos cento e vinte caracteres correram para saudar o novo momento como uma revolução na História. Eles têm muita sede de novidades e precisam de uma atrás da outra, porque seu mundo é movido pela febre do momento. Hoje uma desconhecida alçada à celebridade, amanhã uma fofoca... Talvez eles se assustassem se percebessem que a revolução que interessa, aquela que vai se dar na mente do ser humano, tem dado passos para trás nos últimos tempos.

Não que seja necessariamente prejudicial se divertir com futilidades. O problema é que para elas vai toda a nossa atenção e para temas mais edificantes não temos dado a mínima.

Para terminar, há um enorme equívoco em tudo isso. As pessoas acham que encontraram a fórmula para uma vida feliz no desfrute de prazeres fáceis, imediatos, sensorias e primitivos. Acham ainda que, quanto mais as novas ferramentas tecnológicas ajudarem nesse sentido, mais devem se apegar a elas. Mas se esquecem - e aí está a crueldade que se infligem - que a vida é uma experiência fundamentalmente interior, vivida, sentida, de acordo com os mecanismos internos de cada um de nós. Se não cuidarmos da evolução de nossas capacidades interiores - incluída a intelectual - de pouco adiantará se voltar para o mundo externo. Haverá sempre a sensação de que está faltando alguma coisa e as irrelevâncias vão continuar ocupando espaço cada vez maior em nossas vidas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Etapas da Revolução: andar nu

É bem provável que as diversas hierarquias tenham sido inventadas por pessoas que, em pé de igualdade com as demais, não conseguiam fazer valer suas intenções. Um artíficio dos espíritos menores, porém ambiciosos e espertos. Desde então, os postos mais elevados na sociedade têm sido ocupados por gente com sede de subjugar e satisfazer vaidades pessoais. São chamados de poderosos e isso os alimenta. Nunca veremos um sábio almejando o poder. A sabedoria, aliás, não tem nada a ver com impor nossa vontade aos outros.

Alguém vai dizer que hierarquia e obediência são importantes em organizações como, por exemplo, as militares. Mas é justamente uma sociedade que possa prescindir de organizações militares que seria interessante buscar.

Existem os detentores de poder - seja da escala universal à familiar - que são especialmente cruéis e inflexíveis em sua ação. Eles têm gosto em dispor como lacaios daqueles do seu raio de influência. São esses "poderosos" que conduzem a sociedade e ditam comportamentos, de acordo com suas convicções certamente pouco elevadas. Erigir um mundo mais inspirador passa necessariamente pela desconstrução do mecanismo das hierarquias, onde a grande maioria é submetida aos conceitos de alguns oportunistas. Para isso também deve estar atenta a Revolução.

Os bons espíritos costumam ter um defeito: não sabem confrontar. Aceitam sem muita resistência as arbitrariedades que vêm de cima. Não que devam reagir com as mesmas armas dos ambiciosos e dos espertos, até porque elas não ajudam a edificar nada que valha. É preciso que finalmente desenvolvam seus próprios meios revolucionários e derrubem o domínio de séculos.

Lembrando que o verdadeiro revolucionário não quer para ele nenhuma forma de poder sobre o outro, nem a mais ínfima. Se o embate com os poderosos é fundamental, é para estabelecer um equílibrio, e não simplesmente deslocar o pólo do desequilíbrio.

Os poderosos, quando atacam com sua fúria habitual, querem contra-ataque na mesma moeda. Assim podem esfregar no subalterno sua condição de inferioridade. As autoridades têm a prerrogativa da razão e o direito instituído de humilhar os demais. Argumentar com eles? Pedir justiça? Isso só vai redobrar o júbilo que eles sentem ao rebaixar um subordinado. Não há como vencê-los em seu jogo. A saída é levar a disputa para um terreno onde não opere a lógica dos poderosos. É subverter as regras da brincadeira. Este é o nosso gládio, a nossa Bíblia e o nosso refrão!

Devemos mostrar aos chefes, àqueles que mandam, que as normas deles simplesmente não fazem sentido para nós. O que pra eles é certo, para nós é questionável. O que para eles é grave, para nós é uma brisa. O ápice dessa postura revolucionária aqui proposta, de desqualificar o código dos poderosos, seria andar nu diante de seus olhos inquisidores. Isso quebraria os alicerces de qualquer sistema de dominação social. Seria como dizer: "fiquem aí repetindo suas ordens desimportantes que eu vou caminhar sem roupa por onde bem entender". Assim o revolucionário redimensiona os valores e a cultura vigentes e mostra aos dominadores que a vida é muito mais ampla que seus joguetes de poder fazem acreditar.

Claro que a ideia de andar nu deve ser tomada principalmente no sentido figurativo, o que não impede que a executemos ao pé da letra. O principal é rirmos sempre na cara sisuda da autoridade. Gargalhar aos borbotões. Escancarar pra eles o quão ridícula e infantil é sua mania de querer controlar tudo ao redor. O revolucionário não carrega outra arma senão o riso, o bom humor, a leveza de espírito. Por essa não esperavam os tantos guerrilheiros e reformadores do passado, cuja paixão pelo sangue traía sua vocação dominadora e, consquentemente, pouco revolucionária.

Que agradável é rir (ou mangar, como diziam os antigos) de toda as autoridades: as religiosas, políticas, policiais, professorais, empresariais, científicas, familiares, todas elas. Uma boca escrachada cheia de dentes e uma solene nudez (figurativa ou não), é isso que todas elas merecem! E assim vão minguar, porque proliferam no medo que suscitam nos outros. O medo dos poderosos. Mas, tal como os ácaros expostos ao sol, também eles se desmancham diante da alegria.

Por isso, se houver alguma autoridade lendo este texto, saiba que a Revolução está rolando de gargalhar de vocês. Ela acha graça da sua presunção de querer domar o mundo quando não são donos nem do próprio nariz. Governar o próprio nariz, não há aspiração maior nem mais nobre. Mas não falta quem não a alcançou e mesmo assim se lance a imperador da lua.

O deboche da autoridade estimula a desordem social? Claro que não. É um convite à ordem fruto da consciência e não da obediência. Uma ordem muito mais orgânica, humana e, por isso, mais confiável.

As autoridades não são apenas pessoas. Acontece também de virem na forma de costumes, preconceitos, modismos, crenças, tradições. Para eles igualmente vai a nossa risada. Se dizem que chapéu é moda ultrapassada, a Revolução se arma de uma cartola; se pregam as maravilhas do convívio social na internet, a Revolução procura uma colina isolada; se idolatram as celebridades, a Revolução busca inspiração nos modelos que sejam a completa antítese, nem que tenha que procurá-los entre os mendigos, os esquecidos e os marginalizados, o que frequentemente acontece.

Por isso deve ser tão bem-vinda a paixão por tudo que não seja moda corrente. Quanto mais exóticos os gostos, desde que genuínos, mais contribuem para diluir o domínio cultural dos poderosos. Um grande e glorioso exemplo para a Revolução foi dado pelo camarada M.A.P, a quem tenho prazer de chamar de amigo. No auge de seus 24 anos, ele nunca comprou - nem trajou- uma calça jeans. "É a minha contribuição para a resistência", costuma dizer o herói.

A batalha foi deflagrada. Andemos nus, que significa que deveremos debochar de tudo que nos é imposto e não corresponde à nossa filosofia. Como mostrou o célebre chinês da praça da Paz Celestial, contra tanques a melhor arma é a alma humana. Enquanto ela não for dobrada, a tirania - em todas suas vertentes - não prospera.

domingo, 8 de janeiro de 2012

O amor triunfa

A madrugada ainda não tinha recolhido seus lilases, mas já se ouvia, ribombando nos morros e nos cactos, um galope desesperado. Quase a ponto de arrebentar as fivelas do arreio de tanto que expandia o peito, as narinas escancaradas, a crina voando com o vento, o cavalo era um espírito dos antigos heróis de sua espécie. O cavaleiro, por sua vez, parecia movido por um propósito muito firme e não dava atenção para mais nada a não ser o caminho que se estendia à sua frente.

Ao amanhecer, chegaram a uma vila cravejada na montanha. Nem por isso diminuíram o passo. Por ruas estreitas foram guiando até ouvirem os sinos da igreja, que chamavam para um casamento. O cavaleiro esperou todos os convidados entrarem e só então apeou do cavalo. Catou um capim para mascar no canto da boca.

O padre entoava os santos cânticos. Com um chute na porta, à moda antiga, o cavaleiro entrou na igreja. Todos os olhares se voltaram para ele, inclusive os dos noivos. Caminhou até o meio do percurso entre a porta e o altar. O noivo foi na direção dele e sacou o rifle.

- Eu sabia que você viria - disse enquanto engatilhava a arma.

- Eu também. Vocês poderiam marcar o casamento para o fim do mundo que eu iria atrás.

Os convidados, imóveis nas cadeiras, olhavam com expectativa de um para o outro. O noivo fez mira.

- Vá embora!

- Só se ela pedir - retrucou o invasor e apontou para a noiva, que até ali não tinha demonstrado reação alguma.

Uma tensão silenciosa pesou sobre a igreja. O padre, atônito, juntou as mãos na altura da testa. A noiva caminhou lentamente até ficar ao lado do noivo, seus passos ecoando como um aríete. Encarou bem o invasor e disse, em voz terna, mas firme:

- Vá embora. Eu fiz minha escolha. O que houve entre nós dois foi um engano - ela pousou suavemente a mão no cano do rifle e fez o noivo abaixar a arma. Eu amo o coronel, nunca deixei de amar.

Beijou seu eleito no rosto e dirigiu-se uma última vez ao invasor:

- Portanto, deixe esta cidade e não estrague o meu casamento.

- É isso mesmo que você quer? Passar o resto da vida ao lado deste homem? - gritou o invasor em tom desafiador.

- De todo meu coração - ela respondeu.

Mal ela terminou de dizer essas palavras uma chuva de papel picado, prateado e púrpura, caiu do teto da igreja sobre os convidados e os noivos. Luzes surgiram entre as colunas e seis, ou melhor, sete cinegrafistas montados em gruas moveram-se rápido da parte atrás do altar para o centro da nave.

-Parabéns! -cumprimentou o invasor, agora efusivo e com um microfone na mão. Vocês acabam de participar do "O Amor Triunfa"! - deu uma bitoca na noiva e um abraço no noivo. Olhem para aquela câmera ali, por favor. Isso. E aqui está o cheque de um milhão de reais! O prêmio pelo amor de vocês ter triunfado!

Os convidados bateram palmas. Alguns mal conseguiam disfarçar a emoção, outros nem tentavam. O casal ainda assimilava o que tinha acontecido.

- Então foi tudo um reality show? - perguntou a noiva. Você não é um cigano?

- Rá, rá - gargalhou o apresentador para a câmera 3. Era tudo enredo da nossa produção. Gostaram?

- Você nunca foi apaixonado por ela? - quis saber o noivo, meio estupefato, meio aliviado.

- O que não significa que ela não seja uma graça! O senhor tem muita sorte, coronel! E você também, pequena!

Quando finalmente cessaram a chuva de papel picado e o texto previsto no roteiro do apresentador, ele decidiu que já era hora de encerrar. Abraçou mais uma vez os noivos, deu alguns autógrafos para os convidados, acenou de longe para o padre e foi para a rua. Lá fora, no lugar do cavalo, havia um conversível esperando por ele. Entrou no carro e já estava prestes a sair, mas os noivos o interromperam:

- E agora? O que a gente faz? - perguntaram.

- Casem-se, tenham filhos, sejam felizes. Amem-se!

- Não tem mais nenhuma câmera filmando a gente?

- Do meu programa, não.

Os três se olharam em silêncio por um longo instante. O apresentador virou a chave na ignição.

- Olha - ele disse -, eu poderia usar o momento para soltar umas frases filosóficas. Poderia mesmo. Talvez saíssem até algumas palavras bonitas e eu me envaideceria. Mas, vejam, tenho que estar até o fim do dia em uma cidade no meio da solidão, para mais uma filmagem, e vocês têm um casamento pela frente. A gente se vê por esta vida, ou por outras (opa, já estou eu filosofando!). Sejam felizes e não se perguntem nunca o porquê!

Acelerou o carro deixando para trás o rastro da poeira. Os sinos tocaram outra vez. Não era a hora marcada e o coronel detestava estar atrasado, mas bem que podiam recomeçar a cerimônia. Pegou a noiva pela mão e caminhou com ela na direção da escadararia.

- Bem que eu desconfiei que conhecia aquele rosto de algum lugar - disse em meio a uma risadinha.

- Ele é bem mais magro na TV.