Outro dia o Carlos Nascimento abriu seu telejornal com a opinião de que nós, brasileiros, já fomos mais inteligentes. Ele fazia referência aos assuntos que dominavam as discussões nacionais na semana passada, notadamente o caso de estupro no Big Brother e o bordão da Luísa no Canadá. O âncora foi uma das poucas vozes da TV - senão a única - que alertou para o absurdo da pauta do país ser dominada por duas irrelevâncias desse tamanho, mas se equivocou na conclusão. Nós não éramos mais inteligentes no passado. Na verdade, nunca chegamos a demonstrar, como coletividade, algo que se possa classificar de fato como inteligência.
Se hoje não primamos pela riqueza intelectual, o mais provável é que em décadas anteriores a situação fosse ainda mais precária. Basta lembrar que há poucos anos a grande maioria da população brasileira vivia literalmente na Idade Média, sob todos os aspectos, inclusive aqueles que dizem respeito à formação cultural, educacional e filosófica do cidadão. Dizer, portanto, que já fomos mais inteligentes, é menos realidade do que força de expressão para realçar a futilidade dos dias atuais.
Mas basta olhar para a sociedade que temos agora e fazer uma leve comparação com a de trinta anos atrás para perceber que algo desandou abruptamente nos últimos tempos. O que seria? Na minha opinião, éramos então tão ignorantes como atualmente somos, com a diferença de que antes a ignorância era motivo de constrangimento e agora passamos a nos orgulhar dela.
Como disse um amigo, vivemos a glorificação da ignorância.
Tratamos a erudição como demonstração de pedantismo, um hobbie de lunáticos ou românticos que não têm nada mais útil com que ocupar o tempo. Nas escolas e mesmo nas universidades o estudo é tolerado exclusivamente como meio de se obter qualificação profissional. Qualquer busca por conhecimento com vistas "apenas" à ampliação da bagagem intelectual é considerada coisa supérflua. O mundo é pragmático demais para que se perca tempo com estudos que não reverterão, necessariamente, em aumento de salário.
Uma breve observação nos escritórios, consultórios, repartições revela médicos, engenheiros, biólogos, matemáticos, jornalistas, professorres (a lista é extensa) que nunca leram um livro fora da sua área de atuação. Se antes a figura do bacharel era a de pessoa culta, interessada pelas mais diversas manifestações do conhecimento humano, hoje ele não passa, no melhor dos casos, de alguém muito bem treinado nos manuais do seu ofício.
O desinteresse pelo conhecimento pode ter várias causas, mas a principal delas parece ter raízes filosóficas. A vida, para o homem do século XXI, é entendida como uma experiência de gozo total, tal como propagada pelos filmes e comerciais. Momentos de quietude e reflexão significam fracasso na empreitada de fazer da existência uma aventura cinematográfica atrás da outra. As pessoas confundem aproveitar intensamente cada dia com satisfazer prazeres sensoriais e imediatos, que, convenhamos, não combinam com sentar-se para ler um livro ou dedicar tempo para absorver um novo pensamento.
A ingênua filosofia da sociedade pavimentou o terreno para o reinado das irrelevâncias. Elas atendem à perfeição as exigências do freguês: proporcionam entretenimento instantâneo, são facilmente deglutíveis, o que ajuda no consumo, e são descartáveis, fator importante, porque sempre abrem espaço para que a próxima irrelevância surja e cumpra seu papel, renovando o ciclo.
Temos visto o quanto elas sucedem uma à outra com facilidade. A bobagem vai para o limbo do esquecimento assim que pipocar a próxima em alguma rede social.
A internet, com sua velocidade, seu desconhecimento das distâncias, colocou nossos vazios individuais para dialogar um com o outro em tempo real. Finalmente encontramos conforto e acolhimento, ao compartilharmos a falta de sentido de nossas vidas 24horas por dia. A tecnologia ajudou a liberar esta força que sempre esteve latente nas pessoas: a vontade de estabelecer, de uma vez por todas, o reinado da ignorância e da frivolidade. Se antes havia obstáculos mesmo materiais para a proliferação das irrelevâncias, a questão foi resolvida com o generoso e democrático mundo virtual.
Todos nos abraçamos na rede onde se discute o nada, onde nada se constroí, mas onde a solidão é aplacada pelo menos um pouco, para voltar ainda mais voraz no minuto seguinte.
Os intelectuais dos cento e vinte caracteres correram para saudar o novo momento como uma revolução na História. Eles têm muita sede de novidades e precisam de uma atrás da outra, porque seu mundo é movido pela febre do momento. Hoje uma desconhecida alçada à celebridade, amanhã uma fofoca... Talvez eles se assustassem se percebessem que a revolução que interessa, aquela que vai se dar na mente do ser humano, tem dado passos para trás nos últimos tempos.
Não que seja necessariamente prejudicial se divertir com futilidades. O problema é que para elas vai toda a nossa atenção e para temas mais edificantes não temos dado a mínima.
Para terminar, há um enorme equívoco em tudo isso. As pessoas acham que encontraram a fórmula para uma vida feliz no desfrute de prazeres fáceis, imediatos, sensorias e primitivos. Acham ainda que, quanto mais as novas ferramentas tecnológicas ajudarem nesse sentido, mais devem se apegar a elas. Mas se esquecem - e aí está a crueldade que se infligem - que a vida é uma experiência fundamentalmente interior, vivida, sentida, de acordo com os mecanismos internos de cada um de nós. Se não cuidarmos da evolução de nossas capacidades interiores - incluída a intelectual - de pouco adiantará se voltar para o mundo externo. Haverá sempre a sensação de que está faltando alguma coisa e as irrelevâncias vão continuar ocupando espaço cada vez maior em nossas vidas.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
As irrelevâncias
Postado por
Vítor Noronha Matos
às
05:49
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