É bem provável que as diversas hierarquias tenham sido inventadas por pessoas que, em pé de igualdade com as demais, não conseguiam fazer valer suas intenções. Um artíficio dos espíritos menores, porém ambiciosos e espertos. Desde então, os postos mais elevados na sociedade têm sido ocupados por gente com sede de subjugar e satisfazer vaidades pessoais. São chamados de poderosos e isso os alimenta. Nunca veremos um sábio almejando o poder. A sabedoria, aliás, não tem nada a ver com impor nossa vontade aos outros.
Alguém vai dizer que hierarquia e obediência são importantes em organizações como, por exemplo, as militares. Mas é justamente uma sociedade que possa prescindir de organizações militares que seria interessante buscar.
Existem os detentores de poder - seja da escala universal à familiar - que são especialmente cruéis e inflexíveis em sua ação. Eles têm gosto em dispor como lacaios daqueles do seu raio de influência. São esses "poderosos" que conduzem a sociedade e ditam comportamentos, de acordo com suas convicções certamente pouco elevadas. Erigir um mundo mais inspirador passa necessariamente pela desconstrução do mecanismo das hierarquias, onde a grande maioria é submetida aos conceitos de alguns oportunistas. Para isso também deve estar atenta a Revolução.
Os bons espíritos costumam ter um defeito: não sabem confrontar. Aceitam sem muita resistência as arbitrariedades que vêm de cima. Não que devam reagir com as mesmas armas dos ambiciosos e dos espertos, até porque elas não ajudam a edificar nada que valha. É preciso que finalmente desenvolvam seus próprios meios revolucionários e derrubem o domínio de séculos.
Lembrando que o verdadeiro revolucionário não quer para ele nenhuma forma de poder sobre o outro, nem a mais ínfima. Se o embate com os poderosos é fundamental, é para estabelecer um equílibrio, e não simplesmente deslocar o pólo do desequilíbrio.
Os poderosos, quando atacam com sua fúria habitual, querem contra-ataque na mesma moeda. Assim podem esfregar no subalterno sua condição de inferioridade. As autoridades têm a prerrogativa da razão e o direito instituído de humilhar os demais. Argumentar com eles? Pedir justiça? Isso só vai redobrar o júbilo que eles sentem ao rebaixar um subordinado. Não há como vencê-los em seu jogo. A saída é levar a disputa para um terreno onde não opere a lógica dos poderosos. É subverter as regras da brincadeira. Este é o nosso gládio, a nossa Bíblia e o nosso refrão!
Devemos mostrar aos chefes, àqueles que mandam, que as normas deles simplesmente não fazem sentido para nós. O que pra eles é certo, para nós é questionável. O que para eles é grave, para nós é uma brisa. O ápice dessa postura revolucionária aqui proposta, de desqualificar o código dos poderosos, seria andar nu diante de seus olhos inquisidores. Isso quebraria os alicerces de qualquer sistema de dominação social. Seria como dizer: "fiquem aí repetindo suas ordens desimportantes que eu vou caminhar sem roupa por onde bem entender". Assim o revolucionário redimensiona os valores e a cultura vigentes e mostra aos dominadores que a vida é muito mais ampla que seus joguetes de poder fazem acreditar.
Claro que a ideia de andar nu deve ser tomada principalmente no sentido figurativo, o que não impede que a executemos ao pé da letra. O principal é rirmos sempre na cara sisuda da autoridade. Gargalhar aos borbotões. Escancarar pra eles o quão ridícula e infantil é sua mania de querer controlar tudo ao redor. O revolucionário não carrega outra arma senão o riso, o bom humor, a leveza de espírito. Por essa não esperavam os tantos guerrilheiros e reformadores do passado, cuja paixão pelo sangue traía sua vocação dominadora e, consquentemente, pouco revolucionária.
Que agradável é rir (ou mangar, como diziam os antigos) de toda as autoridades: as religiosas, políticas, policiais, professorais, empresariais, científicas, familiares, todas elas. Uma boca escrachada cheia de dentes e uma solene nudez (figurativa ou não), é isso que todas elas merecem! E assim vão minguar, porque proliferam no medo que suscitam nos outros. O medo dos poderosos. Mas, tal como os ácaros expostos ao sol, também eles se desmancham diante da alegria.
Por isso, se houver alguma autoridade lendo este texto, saiba que a Revolução está rolando de gargalhar de vocês. Ela acha graça da sua presunção de querer domar o mundo quando não são donos nem do próprio nariz. Governar o próprio nariz, não há aspiração maior nem mais nobre. Mas não falta quem não a alcançou e mesmo assim se lance a imperador da lua.
O deboche da autoridade estimula a desordem social? Claro que não. É um convite à ordem fruto da consciência e não da obediência. Uma ordem muito mais orgânica, humana e, por isso, mais confiável.
As autoridades não são apenas pessoas. Acontece também de virem na forma de costumes, preconceitos, modismos, crenças, tradições. Para eles igualmente vai a nossa risada. Se dizem que chapéu é moda ultrapassada, a Revolução se arma de uma cartola; se pregam as maravilhas do convívio social na internet, a Revolução procura uma colina isolada; se idolatram as celebridades, a Revolução busca inspiração nos modelos que sejam a completa antítese, nem que tenha que procurá-los entre os mendigos, os esquecidos e os marginalizados, o que frequentemente acontece.
Por isso deve ser tão bem-vinda a paixão por tudo que não seja moda corrente. Quanto mais exóticos os gostos, desde que genuínos, mais contribuem para diluir o domínio cultural dos poderosos. Um grande e glorioso exemplo para a Revolução foi dado pelo camarada M.A.P, a quem tenho prazer de chamar de amigo. No auge de seus 24 anos, ele nunca comprou - nem trajou- uma calça jeans. "É a minha contribuição para a resistência", costuma dizer o herói.
A batalha foi deflagrada. Andemos nus, que significa que deveremos debochar de tudo que nos é imposto e não corresponde à nossa filosofia. Como mostrou o célebre chinês da praça da Paz Celestial, contra tanques a melhor arma é a alma humana. Enquanto ela não for dobrada, a tirania - em todas suas vertentes - não prospera.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Etapas da Revolução: andar nu
Postado por
Vítor Noronha Matos
às
03:57
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1 comentários:
Seria este momento cósmico um divisor de águas - de ideias! - entre vossa fetescência e a minha literatice?
Sou filho do capitalismo, interessado apenas em aprimorá-lo. Sou filho da contemporaneidade, que acredita na nossa crescente evolução.
Não quero derrubar o sistema, quero que ele prospere. Então, há uma trincheira entre nós. Ó destino! Ó acaso! Separados pela filosofia!
Saiba o senhor que sempre haverá um espaço para ti no meu bunker. Não hesitarei, contudo, em digladiar contra teus ideais os quais mal sei como classificar. Comunismo? Nudismo? Niilismo? Moscosismo?
Fico do lado vestido da força.
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