domingo, 8 de janeiro de 2012

O amor triunfa

A madrugada ainda não tinha recolhido seus lilases, mas já se ouvia, ribombando nos morros e nos cactos, um galope desesperado. Quase a ponto de arrebentar as fivelas do arreio de tanto que expandia o peito, as narinas escancaradas, a crina voando com o vento, o cavalo era um espírito dos antigos heróis de sua espécie. O cavaleiro, por sua vez, parecia movido por um propósito muito firme e não dava atenção para mais nada a não ser o caminho que se estendia à sua frente.

Ao amanhecer, chegaram a uma vila cravejada na montanha. Nem por isso diminuíram o passo. Por ruas estreitas foram guiando até ouvirem os sinos da igreja, que chamavam para um casamento. O cavaleiro esperou todos os convidados entrarem e só então apeou do cavalo. Catou um capim para mascar no canto da boca.

O padre entoava os santos cânticos. Com um chute na porta, à moda antiga, o cavaleiro entrou na igreja. Todos os olhares se voltaram para ele, inclusive os dos noivos. Caminhou até o meio do percurso entre a porta e o altar. O noivo foi na direção dele e sacou o rifle.

- Eu sabia que você viria - disse enquanto engatilhava a arma.

- Eu também. Vocês poderiam marcar o casamento para o fim do mundo que eu iria atrás.

Os convidados, imóveis nas cadeiras, olhavam com expectativa de um para o outro. O noivo fez mira.

- Vá embora!

- Só se ela pedir - retrucou o invasor e apontou para a noiva, que até ali não tinha demonstrado reação alguma.

Uma tensão silenciosa pesou sobre a igreja. O padre, atônito, juntou as mãos na altura da testa. A noiva caminhou lentamente até ficar ao lado do noivo, seus passos ecoando como um aríete. Encarou bem o invasor e disse, em voz terna, mas firme:

- Vá embora. Eu fiz minha escolha. O que houve entre nós dois foi um engano - ela pousou suavemente a mão no cano do rifle e fez o noivo abaixar a arma. Eu amo o coronel, nunca deixei de amar.

Beijou seu eleito no rosto e dirigiu-se uma última vez ao invasor:

- Portanto, deixe esta cidade e não estrague o meu casamento.

- É isso mesmo que você quer? Passar o resto da vida ao lado deste homem? - gritou o invasor em tom desafiador.

- De todo meu coração - ela respondeu.

Mal ela terminou de dizer essas palavras uma chuva de papel picado, prateado e púrpura, caiu do teto da igreja sobre os convidados e os noivos. Luzes surgiram entre as colunas e seis, ou melhor, sete cinegrafistas montados em gruas moveram-se rápido da parte atrás do altar para o centro da nave.

-Parabéns! -cumprimentou o invasor, agora efusivo e com um microfone na mão. Vocês acabam de participar do "O Amor Triunfa"! - deu uma bitoca na noiva e um abraço no noivo. Olhem para aquela câmera ali, por favor. Isso. E aqui está o cheque de um milhão de reais! O prêmio pelo amor de vocês ter triunfado!

Os convidados bateram palmas. Alguns mal conseguiam disfarçar a emoção, outros nem tentavam. O casal ainda assimilava o que tinha acontecido.

- Então foi tudo um reality show? - perguntou a noiva. Você não é um cigano?

- Rá, rá - gargalhou o apresentador para a câmera 3. Era tudo enredo da nossa produção. Gostaram?

- Você nunca foi apaixonado por ela? - quis saber o noivo, meio estupefato, meio aliviado.

- O que não significa que ela não seja uma graça! O senhor tem muita sorte, coronel! E você também, pequena!

Quando finalmente cessaram a chuva de papel picado e o texto previsto no roteiro do apresentador, ele decidiu que já era hora de encerrar. Abraçou mais uma vez os noivos, deu alguns autógrafos para os convidados, acenou de longe para o padre e foi para a rua. Lá fora, no lugar do cavalo, havia um conversível esperando por ele. Entrou no carro e já estava prestes a sair, mas os noivos o interromperam:

- E agora? O que a gente faz? - perguntaram.

- Casem-se, tenham filhos, sejam felizes. Amem-se!

- Não tem mais nenhuma câmera filmando a gente?

- Do meu programa, não.

Os três se olharam em silêncio por um longo instante. O apresentador virou a chave na ignição.

- Olha - ele disse -, eu poderia usar o momento para soltar umas frases filosóficas. Poderia mesmo. Talvez saíssem até algumas palavras bonitas e eu me envaideceria. Mas, vejam, tenho que estar até o fim do dia em uma cidade no meio da solidão, para mais uma filmagem, e vocês têm um casamento pela frente. A gente se vê por esta vida, ou por outras (opa, já estou eu filosofando!). Sejam felizes e não se perguntem nunca o porquê!

Acelerou o carro deixando para trás o rastro da poeira. Os sinos tocaram outra vez. Não era a hora marcada e o coronel detestava estar atrasado, mas bem que podiam recomeçar a cerimônia. Pegou a noiva pela mão e caminhou com ela na direção da escadararia.

- Bem que eu desconfiei que conhecia aquele rosto de algum lugar - disse em meio a uma risadinha.

- Ele é bem mais magro na TV.

0 comentários: