quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sugestão para um mundo ideal

Herdamos, como sociedade, certas tradições e expedientes de nossos antepassados que faríamos muito bem em questionar em vez de acatar como se fossem inevitáveis. As roupas de décadas e séculos anteriores, por exemplo, nos parecem sem dúvida ultrapassadas. Deveríamos aplicar em outras áreas o mesmo rigor que temos com relação à moda. Se o vestuário de antanho não serve para o século XXI, por que deveriam servir todas suas ideias?

Penso nisso depois de ver grande parte da opinião pública comemorar a condenação de determinado assassino a quase cem anos de cadeia, dos quais vai cumprir trinta, que é o limite estabelecido pela legislação do país. Mesmo assim, não deixa de ser uma espécie de morte em vida passar três décadas recluso em um ambiente como o das prisões. Eu me pergunto se essa é a melhor justiça ou se podemos aprimorá-la de algum modo.

Não resta dúvida de que a pena para alguns crimes deva ser a exclusão da convivência em sociedade, às vezes por longos anos, não só para resguardar a comunidade do risco da reincidência, como também para deixar claro a todos que o organismo social não aceita determinadas condutas e que a prática delas leva a séria punição. Daí a infligir ao criminoso crueldade semelhante à que ele cometeu é uma reação que, a meu ver, não tem nada a ver com justiça.

Ou melhor, é tanto justiça quanto a pena de morte um dia foi. Acho que a evolução que a sociedade atingiu na seara dos direitos humanos nas últimas décadas nos credencia a tratar os criminosos diferente do que faziam nossos tataravós. Até porque, ódio e rancor necessariamente não podem render nenhum bom fruto, como os cidadãos exemplares com propriedade dizem, mas frequentemente se esquecem.

Minha sugestão é utópica. No meu mundo ideal, os presos iriam para ilhas isoladas no meio do oceano, onde pudessem levar uma vida normal enquanto durasse a pena. O castigo seria não poderem deixar a ilha em nenhum momento. Dentro dos limites dela, poderiam desenvolver atividades do dia-a-dia de todo ser humano, como abrir um comércio, se dedicar às artes, fazer amizades, se relacionar amorosamente. Claro que seriam vigiados por guardas e deveriam dar satisfações diárias sobre suas atividades. Poderiam também participar de programas de acompanhamento psicológico, assistir a aulas de temas diversos, engajar-se em algum trabalho, cujo produto final pudesse ser de utilidade para a sociedade.

Haveria assim tempo e condições propícias para esses presos repensarem seus crimes e se arrependerem. As chances de regeneração seriam bem maiores que as atuais, não apenas porque nossas cadeias são reconhecidamente "escolas do crime", onde o ambiente de degradação dificilmente deixa passar incólume o detento, mas também porque o encarceramento é antes um convite à confusão mental do que ao restabelecimento dos valores da cidadania e coexistência em grupo.

Negar ao criminoso a chance de pagar pelo erro e tentar tornar-se um cidadão direito , como hoje fazemos, é acreditar que alguns homens nascem maus por natureza, não restando a eles solução possível senão o confinamento. Que apodreçam na cadeia e nos poupem de sua presença, é o recado que passamos com nossa justiça. Tenho certeza que desde crianças percebemos e introjetamos esse raciocínio, ainda que não nos demos conta dele conscientemente, renovando a cada geração o preconceito de que há os malditos de nascença. O ódio que essa concepção gera na sociedade produz, na minha opinião, muito mais crimes do que os evita a justiça.

Marcar nossos semelhantes com a letra escarlate e decidir quem merece ou não ter uma vida digna trai nossa ambição e delícia secretas de bancarmos os deuses de nós mesmos. Antes, somos todos coitados mortais e melhor faríamos se procurássemos nos ajudar. Aliás, é isso que os deuses de verdade pregam.

Se tudo que eu disse acima parece utópico, também é verdade que a maneira como lidamos com as punições da justiça não servem mais para o mundo que deveríamos construir. Não é possível que até hoje se comemore com fogos de artíficio quando o juiz confirma que alguém vai passar o resto dos dias trancafiado num inferno na terra. Espero que um dia os métodos que hoje parecem incontestáveis encontrem uma alternativa exequível e desejada pela população, como tantas outras tradições que herdamos de nossos ancestrais e hoje são artigo de museu.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Bola Um

As memórias, que não são tão antigas assim, de repente me voltaram ao primeiro plano do pensamento. Não sei que vento resolveu soprar-lhes a poeira. A nostalgia deve ter suas razões, que minha razão não compreende. Talvez seja um chamado para registrar o passado agora que o gosto dele ressurgiu fresco na boca.

Gostaria de uma tarde, no final dos tempos, voltar aos meus textos e topar com o cara que eu já fui um dia, do jeito que ele era, e assim, quem sabe, tudo que vivi e terei vivido vai finalmente fazer sentido. Tem vaidade nisso, mas tem também poesia (como se precisassem ser excludentes, meu deus!).

Das lembranças que me assaltam, uma das mais constantes tem sido as horas à beira da mesa de sinuca. Há muito tempo eu queria escrever sobre isso, prestar homenagem àquela que foi provavelmente uma das minhas mais queridas ocupações por volta dos dezoito anos, no decisivo preâmbulo para o mundo adulto, o que faz dela sagrada.

Ainda lembro do cheiro de óleo velho que usavam nas cozinhas dos bares onde jogávamos. Das paredes enegrecidas, do ar carregado de fumaça de cigarro, dos tipos suspeitos com quem dividíamos o salão, do pó de giz que impregnava as mãos, das mesas descaídas, das gavetas enferrujadas, que não devolviam as bolas, dos tacos tortos, da atmosfera de decadência.

No início eu tinha preconceito. Meus amigos me convidavam pra jogar e eu não ia. Preconceito ou medo? Eu já tinha quase dezoito mas era uma criança de tanto que desconhecia, não digo nem o mundo, mas simplesmente a rua. Achava que bares de sinuca eram os lugares onde os pistoleiros iam relaxar das tensões do dia e eventualmente acabavam trocando tiros e garrafadas, por força do hábito. Sem contar que eu pensava na minha mãe quando soubesse que eu, o filho obediente, o bom garoto, a criança pura, começara a frequentar o submundo. Via em devaneios, acordado, prostitutas lascivas tentando me seduzir e eu, pobre de mim, sem saber o que fazer com as mãos, buscando um jeito educado de lhes recusar o auxílio. A simples hipótese me fazia suar todo.

Entrementes, crescia neste ardoroso coração a sede pelo profano.

Uma noite os amigos me chamaram e eu fui. Acho que chega uma hora em que o magnetismo da vida lá fora fala mais alto. Caminhávamos pela ruas mal iluminadas, porque na época poucos de nós dirigíamos e os que dirigiam tinham que pegar o carro emprestado com os pais. Ir a pé, por aqueles becos impudicos de periferia, tornava o pecado ainda mais arrepiante, um frêmito de excitação e medo, como deve ser.

Lembro de um dia que, no caminho, uma ratazana passou correndo em cima do pé de um dos meus amigos, que estava de havaiana. Demos muita risada. Não quero jamais esquecer dessa cena. Eu me sentia desbravando o mundo real, com suas criaturas vindas das sombras e seus mistérios finalmente despidos diante do meu olhar, que não queria perder um detalhe. Onde estará a querida ratazana daquele dia?E o amigo, mais querido ainda, por quais pradarias vaga?

O Bola Verde foi um dos primeiros que frequentei. Ficava acoplado a uma oficina mecânica e parecia mesmo quase uma extensão dela, a julgar pelas páginas de mulheres de biquini grudadas nas paredes de ambos ambientes. Mais ou menos na mesma época fui apresentado ao Bola Sete, que ficava ali perto e poucos anos depois deu lugar a uma igreja. Desse eu gostava muito, cheguei realmente a me afeiçoar, e de vez em quando me flagro cantarolando os forrós que só ouvia lá.

Numa noite de sexta, no Bola Sete, ouvíamos a conversa de quatro cinquentões que jogavam na mesa ao lado. De repente um deles ergueu a voz acima dos demais e revelou, com alguma solenidade, que o sonho dele era se aposentar e abrir um bordéu "à moda antiga", porque desses não se faziam mais. Ainda vimos esses sujeitos algumas outras sextas-feiras depois e criamos com eles aquela cumplicidade muda que existe entre os jogadores de sinuca vizinhos de mesa.

Por fim, já nos anos da fase tardia, nossa história se encontrou com o Bola de Ouro. Talvez não tenhamos sido tão fiéis a nenhum outro bar como fomos a ele. Em agosto e setembro de 2004, por causa da greve dos professores da universidade, eu e meus amigos não fazíamos outra coisa senão jogar sinuca a tarde inteira. Foi quando o Bola de Ouro, com sua proposta moderna de tacos um pouco menos tortos, mesas razoavelmente planas e bolas novas e brilhantes se consolidou na nossa preferência. Lá éramos atendidos, entre outros personagens, por uma velha soturna, que dava toda a pinta de ser dona do local, sempre vestida de preto e da qual nunca ouvimos uma sílaba. Eu supunha nela um luto que já vinha de algum tempo e demoraria a passar.

À beira da mesa de sinuca, durante aqueles anos, que foram três ou quatro, eu experimentei uma felicidade que até então não fazia ideia que pudesse existir. Conheci, ao mesmo tempo, o gosto da liberdade - que para mim ainda era temperada por pitadas heróicas de transgressão-, e do verdadeiro companheirismo entre amigos. A sensação de pertencimento, que eu não tinha na sociedade, encontrei entre aqueles bons camaradas.

Éramos irmãos de sinuca. Filhos de uma mãe laica porém generosa. Entre uma partida e a outra, e mesmo durante elas, partilhávamos as mesmas filosofias, esperanças, devaneios. Falávamos muito das meninas. Naquelas catacumbas da sociedade, onde a luz não batia e o ar era viciado, evocávamos nossas musas juvenis e então era como se um rastro das estrelas passasse pelo ambiente, o cheiro do frango frito se transformava em perfume, o forró de baixo nível soava como o canto das ninfas e matar uma bola na caçapa equivalia ao feito dos antigos cavaleiros, que derrubavam os gigantes para libertar sua princesa.

Nunca, naqueles anos, princesa nenhuma viu o quanto éramos implacáveis com as caçapas.

Relembrando agora, me impressiono com a minha evolução na técnica da sinuca em poucos meses. Comecei praticamente analfabeto e minhas jogadas canhestras mais de uma vez levaram os amigos às lágrimas de tanto rir. Parecia que também naquele esporte eu estava destinado ao posto de coadjuvante. Mas os deuses sabem o quanto me dediquei. Durante as aulas, no terceiro ano do ensino médio, revia mentalmente as jogadas da noite anterior. O professor falava de eletromagnetismo, mas a única física que me interessava dizia respeito ao choque da bola branca com as demais.

Logo eu já era um adversário de respeito para meus amigos. Aquele inocente rapazote, desengonçando no manejo do taco, havia dado lugar a um sinuqueiro que possuía lá seus truques. Nos torneios que organizávamos, cheguei a me sagrar campeão em algumas edições. A verdade, porém, é que, por mais que avançasse a olhos vistos, nunca cheguei ao nível dos meus companheiros, os melhores jogadores de sinuca que eu já conheci, o que - perdoem-me, vou me gabar-, não significa pouca coisa.

Pra terminar o registro dessas memórias tão caras ao meu coração, que tanta nostalgia me trazem e tantas histórias alegres fazem brotar do fundo das minhas lembranças, vou contar daquele que talvez seja o aspecto mais revelador da minha natureza naqueles tempos. Ou será que é revelador ainda até hoje?

No jogo da gente, a última bola a ser encaçapada era a Bola Um. Era o derradeiro obstáculo antes da glória. Pra chegar até a Um, o jogador tinha que matar outras sete. Aconteceu várias vezes de eu fazer uma partida irretocável, encaçapar rapidamente minhas sete bolas, abrir grande vantagem para o adversário e emperrar na hora que bastava apenas matar a Um, cedendo a virada do jogo. Perdi a conta de quantas vezes vi esse filme. No início achei que fosse simplesmente uma curiosa coincidência, mas rapidamente vi que não, aquilo dizia respeito diretamente aos porões do meu ser.

A Um me confrontava comigo mesmo. Trazia à tona aquela velha voz que dizia que era muito mais seguro acomodar-se com uma vida entre os muros do que partir para conquistas além. Não me sentia preparado para ambicionar coisa alguma fora da mesmice a que tinha me acostumado, nem que fosse ganhar uma partida de sinuca. Diante da Um uma vida inteira de aprisionamento saía do coração, subia até a garganta, ficava prestes a ser despejada em forma de grito ou elemento mais viscoso e eu não conseguia decidir se preferia ser o conformado de sempre ou arriscar algo novo. Minha vontade era que descesse um anjo ou subisse um demônio, tomasse o taco da minha mão e decidisse por mim o que fazer com aquela bola torturante a meio caminho da caçapa.

Muitas vezes eu errei a bola, mesmo ela estando em posições fáceis, e perdi o jogo. Então meus amigos riam, porque eu havia feito o mais difícil ao longo da partida e simplesmente entregado tudo no último ato. Eles não sabiam então o que se passava comigo diante da Um. Eu ria também, para disfarçar, mas tinha consciência que naquele momento a decepção era muito maior do que a de perder uma partida de sinuca.

Muitas outras vezes eu conseguia acertar a Um. Era um alívio. Também nessas horas meus amigos sorriam, porque de alguma maneira alegrava a todos me ver ganhar. No fundo eles deviam ter uma vaga ideia, talvez inconsciente, do que aquilo tudo representava para mim. Eu então me orgulhava de mim mesmo e pensava, esperançoso, que o futuro finalmente me encontraria da maneira que sempre planejei ser.

Os anos passaram. Jogo bem menos sinuca do que antes e também menos do que gostaria. Os velhos amigos, quase não os vejo mais. As pessoas com quem convivo atualmente, quando acontece de aparecer uma mesa, em algum evento, me acham um exímio jogador, mas elas não viram nada, não viram os mestres em ação.

Eu poderia ter feito a Bola Um de vilã, reescrito sem ela a história. Felizmente tive a consciência de mantê-la por perto. Hoje posso até dizer que, daqueles tempos, é uma das amigas que restaram. Ela ainda tem muito a me dizer e pressinto que das nossas conversas resultarão grandes acontecimentos, que farão as memórias daqui pra frente.